A CIDADE DO RECIFE E SUAS ENCHENTES HISTÓRICAS

Enchente de 1975 no Recife

Nas postagens anteriores falamos um pouco da urbanização descontrolada como uma das principais causas das enchentes de verão. Cidades possuem grandes áreas de seus solos cobertas por uma grossa camada de concreto e de asfalto, intervenções que limitam a infiltração de parte da água das chuvas e contribuem para a formação de grandes correntezas superficiais e enchentes. Intervenções em áreas de várzea e em margens de córregos e riachos para a construção das famosas avenidas de fundo de vale também dão importantes contribuições para a ocorrência de enchentes e alagamentos. Também não é nada desprezível o impacto da redução das áreas com cobertura florestal nesses eventos. 

Entre as grandes cidades brasileiras que, frequentemente, são assoladas por grandes catástrofes nos meses de verão destacamos Recife, a capital do Estado de Pernambuco. O primeiro registro histórico de uma enchente no Capibaribe data do ano de 1632, pouco tempo depois da invasão holandesa e a consolidação da Suickerland, a terra do açúcar descrita em uma postagem anterior. Registros da época informam que as chuvas foram muito fortes, “causando perdas de muitas casas e vivandeiros estabelecidos às margens do Rio Capibaribe”.  

Anos mais tarde, em 1638, o Conde Maurício de Nassau (1604-1679) autoriza a construção da primeira barragem do Rio Capibaribe – o Dique dos Afogados, com o objetivo de proteger a cidade do Recife das constantes enchentes. Há registros históricos de uma infinidade de enchentes na cidade: 1824, 1842, 1854, 1862, 1869, 1914, 1920, 1960, 1966, 1970, 1977, 2004 e 2005 – a lista é muito maior e estou apenas citando alguns casos. Entre os dias 17 e 18 de julho de 1975, a cidade do Recife viveu a maior catástrofe natural da sua história: o transbordamento do rio Capibaribe atingiu 31 bairros e alagou 80% da superfície da cidade (vide foto) – 350 mil pessoas foram desalojadas de suas casas e, tragicamente, 104 pessoas morreram. As fortes enchentes também atingiram outros 25 municípios da bacia hidrográfica do rio Capibaribe

As raízes das enchentes na cidade do Recife estão ligadas diretamente aos tempos coloniais, quando praticamente toda a economia do país girava em torno da produção e exportação do açúcar. Naqueles tempos, a Capitania de Pernambuco e regiões vizinhas concentravam a maior produção de açúcar da Colônia e a cidade do Recife era o grande centro econômico do Nordeste açucareiro. Um relatório do ano de 1620 das Autoridades Coloniais mostram a importância econômica da região: 

“…nas três Capitanias (Pernambuco, Itamaracá e Paraíba), havia uma produção de 500 mil arrobas de açúcar (equivalente a 7,5 milhões de toneladas), que bastaria para carregar todos os anos 130 a 140 naus.” O relatório prossegue informando a área ocupada com o cultivo da cana-de-açúcar: “50 ou 60 léguas de costas ocupadas (entre 300 e 360 km), e dentro de 10 léguas para o sertão (60 km).” 

Essa produção toda era possível graças aos “gordos solos de massapê”, conforme a descrição do médico e escritor pernambucano Josué de Castro (1908-1973). Ricos em nutrientes e matéria orgânica, os solos argilosos do litoral do Nordeste foram formados ao longo de milhares de anos graças a densa vegetação nativa de Mata Atlântica – a floresta se alimentava dos solos e gerava continuamente uma grossa camada de plantas e folhas mortas, que por sua vez eram recicladas pelos solos, realimentando a própria floresta. Vejam essas citações do grande historiador Capistrano de Abreu (1853-1927):

Os engenhos estavam todos na mata, o que se explica pela maior fertilidade dos terrenos bem vestidos, e pela abundância de lenha, necessária às fornalhas em um labor que às vezes durava, dia e noite, oito e nove meses…

A cana devorando tudo em torno de si, engolindo terras e mais terras, consumindo o húmus do solo, aniquilando as pequenas culturas indefesas e o próprio capital humano, do qual sua cultura tira toda a vida.” 

A Mata Atlântica era um riquíssimo bioma composto por diferentes sistemas florestais, que cobria uma área equivalente a 1,3 milhão de km² ou 15% do território brasileiro, acompanhando a costa desde o Norte do Rio Grande do Sul até o Sul do Estado do Ceará, com alguns trechos entrando continente adentro e atingindo áreas da Argentina e do Paraguai. A referência à floresta foi feita com o verbo em tempo passado (era) porque restam apenas 7% da cobertura da mata original. Quase dois terços da atual população brasileira vivem em áreas que eram, originalmente, cobertas pela Mata Atlântica – o crescimento das cidades, a mineração, o extrativismo, a agricultura e a pecuária foram os responsáveis pela destruição gradativa desta floresta.  

O trecho da Mata Atlântica destruído com maior voracidade e velocidade foi justamente o trecho da costa da Região Nordeste, entre a Bahia e o Rio Grande do Norte – essa destruição, feita a ferro e a fogo, se deu justamente para a implantação dos grandes canaviais do período Colonial. No Estado de Pernambuco, que já no século XVII era considerado um dos maiores produtores mundiais de açúcar, a velocidade desta destruição foi incomparável. Apenas no primeiro século da produção açucareira em Pernambuco, uma área de florestas entre 18 mil e 21 mil km² foi devastada para a implantação de canaviais – essa área é equivalente ao território total do Estado de Sergipe. 

Esse avanço voraz contra as matas pernambucanas, é claro, teve um alto preço: os férteis solos de massapê se perderam rapidamente após a contínua derrubada da cobertura vegetal protetora. As chuvas sistematicamente arrastavam grandes quantidades de solo na direção dos muitos rios da região, destruindo ao mesmo tempo a fertilidade das plantações e os canais dos rios, muitos dos quais praticamente desapareceram em meio ao intenso assoreamento sofrido.  

Inúmeras espécies de animais como veados, antas, capivaras, cotias, gambás, macacos e incontáveis espécies de aves e pássaros desapareceram, empobrecendo de forma irreversível a biodiversidade das matas e destruindo a fonte de proteína consumida pelas populações mais pobres e pelos escravos, que caçavam vários destes animais para comer. Também desapareceram inúmeras espécies de vegetais, entre essas inúmeras variedades de frutas altamente nutritivas, além de muitas espécies de peixes dos rios. A fome de açúcar do mundo foi saciada a partir da fome dos trabalhadores locais dos engenhos e canaviais nordestinos. 

Aqui chegamos ao ponto central: sem a proteção da cobertura vegetal, que absorve parte da água das chuvas e permite a infiltração de grandes volumes de água no solo, toda a região da bacia hidrográfica do rio Capibaribe passou a receber volumes de água cada vez maiores a cada novo período de chuvas. No trecho final da bacia hidrográfica, que atravessa diversas cidades na Região Metropolitana do Recife, esse grande volume de água simplesmente extrapola os limites da calha do rio Capibaribe e avança ferozmente contra ruas, avenidas, casas, prédios públicos e todo e qualquer pedaço de terra seca que encontre pela frente. 

À fúria dessas águas que correm dos terrenos mais altos a montante no interior de Pernambuco, se juntam as águas que caíram sobre a própria área Metropolitana. Sem grandes áreas com cobertura vegetal e com solos altamente impermeáveis, as águas pluviais simplesmente correm por força da gravidade buscando os terrenos mais baixos, formando assim as cenas de caos que, repetidamente, assistimos nos noticiários e que são vividas ano após ano pela população local. 

Em resumo – enchentes urbanas não são fenômenos naturais; elas são o resultado de décadas de esforços das populações humanas na destruição dos meios naturais. E a cidade do Recife está aí para provar isso.

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