CANALIZAÇÃO DE CÓRREGOS E RIOS URBANOS

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Cerca de três meses atrás, conversei longamente com uma arquiteta, proprietária de um renomado escritório de projetos aqui na cidade de São Paulo, que estava enfrentando um problema surreal: sua empresa projetou e fez todo o gerenciamento da construção de um edifício comercial na região de Pinheiros, zona oeste de São Paulo – todos os trâmites burocráticos para a autorização da construção foram solicitados e as autoridades municipais deram o sinal verde para a construção. Após o prédio ter sua construção totalmente concluída, a autorização de funcionamento (conhecido como “Habite-se”) foi negada pela própria Prefeitura da cidade: algum departamento descobriu em algum arquivo interno perdido que o edifício foi construído em um terreno sob o qual existe um córrego canalizado há muitas décadas atrás – a legislação municipal não permite construções sobre córregos canalizados.

O município de São Paulo possui, ao menos, 186 sub-bacias hidrográficas catalogadas pela Prefeitura, o que representa mais de 200 cursos de água – algumas fontes chegam a falar de 300 cursos de água – outras falam em até 2.000 se considerarmos os pequenos afluentes: na verdade, ninguém sabe exatamente quantos são e onde estão esses córregos, riachos e nascentes que existem escondidos no subsolo da cidade. Além dos inúmeros cursos d’água naturais, milhares de tubulações de esgotos foram sendo construídas e aterradas ao longo de várias décadas, para o despejo dos resíduos nestes cursos de água, o que complica um pouco mais a questão. É justamente essa falta de conhecimento do que existe no subsolo que gerou o problema para os construtores do edifício que citei – problema, aliás, de difícil solução.

A cidade de São Paulo até meados do século XIX era um fim de mundo perdido no alto da Serra do Mar – o censo demográfico de 1872 encontrou 30 mil habitantes espalhados em diversos vilarejos do município; foi a expansão da cultura cafeeira e a passagem das ferrovias que vinham do Porto de Santos rumo aos centros produtores no interior do Estado que, “acidentalmente”, colocaram a cidadezinha no mapa – em 1900 a cidade já tinha uma população de 240 mil habitantes. O forte crescimento populacional deste período levou a uma intensa demanda por terrenos para a construção de casas, lojas e galpões – nas últimas décadas do século XIX começou um intenso processo de canalização de córregos e riachos visando “liberar” grandes áreas de várzeas e baixadas para a especulação imobiliária; a importância geográfica dessas áreas no controle das cheias anuais dos períodos de chuvas foi simplesmente desprezada: as enchentes que assistimos no presente é parte do preço desse crescimento irracional. Através deste link, os mais curiosos poderão assistir a um vídeo produzido pela Associação Águas Claras do Rio Pinheiros que mostra um pouco do avanço da cidade sobre as várzeas dos rios de parte da cidade de São Paulo e suas consequências na atualidade.

Grande parte dessas canalizações simplesmente não existem nos mapas oficiais da cidade – se não existem oficialmente, não estão incluídas nos planos de manejo e manutenção; logo, é fácil imaginar o grau de assoreamento e entulhamento em que se encontram. Também é fácil concluir por que algumas regiões da cidade alagam com tanta frequência.

Na última quinta-feira, dia 20 de outubro, choveu muito forte na cidade de São Paulo – na zona oeste da cidade onde fica o bairro de Pinheiros, o índice pluviométrico passou dos 50 mm, o que é muita água para uma única chuva. Foi um caos, com enchentes generalizadas, queda de centenas de árvores, falta de energia elétrica em bairros inteiros e engarrafamentos gigantescos – ao menos uma morte registrada foi provocada por essa chuva. Muitos destes córregos canalizados desconhecidos pelas autoridades da cidade deixaram de cumprir seu papel na drenagem das águas desta chuva, inclusive o córrego que citei no começo deste post.

Além das obras que não foram feitas, a drenagem de águas pluviais em uma cidade grande como São Paulo têm de se preocupar com um sem número de obras mal feitas e esquecidas no subsolo. Haja incompetência.

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