PARQUE LINEAR DAS CORUJAS

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A Vila Madalena é um dos bairros mais descolados da cidade de São Paulo. O bairro se transformou num conhecido reduto boêmio no início da década de 1970, quando estudantes da USP – Universidade de São Paulo e da PUC – Pontifícia Universidade Católica começaram a se instalar na região em busca de alugueis baratos; os antigos casarões rapidamente passaram a hospedar repúblicas estudantis. Onde há estudantes há bares – na Vila Madalena eles são dezenas e atraem frequentadores de todos os cantos.

Andando pelas simpáticas ruas do bairro, você encontrará nomes como Rua Harmonia, Paulistânia, Simpatia, Girassol, todos nomes sugeridos pelos estudantes e acolhidos pela Prefeitura. Também vai se surpreender com a quantidade de ateliês de artistas e de artesãos, que dão um colorido todo especial às vitrines; também vai encontrar escolas de música, de dança e de teatro. Complementando o clima de boemia, o bairro é sede da Escola de Samba Pérola Negra.

É nesse bairro diferenciado da cidade onde vem acontecendo há alguns anos um movimento pela valorização de um pequeno córrego espremido entre as construções – o Córrego da Coruja.

Com nascente na região do espigão da Avenida Paulista, o Córrego da Coruja atravessava todo o Bairro da Vila Madalena, seguindo para o bairro de Pinheiros até desaguar no Rio Pinheiros, num percurso total de 2.300 metros. Região de grande valor imobiliário desde a época das mansões dos barões do café, não tardou que a especulação imobiliária se apoderasse das margens do Córrego no alto da Paulista, onde foi canalizado para ceder lugar a construção de edifícios. Na parte baixa do Córrego, foi a expansão do bairro de Pinheiros quem levou ao desaparecimento das águas sob o concreto e o asfalto.

Na região da Vila Madalena, o Córrego das Corujas teve um pequeno trecho de 420 metros poupado da canalização, ocupando um trecho de uma praça, além de uma pequena faixa de terra espremida entre construções – é justamente essa pequena faixa de terra que foi “tomada” pela população e transformada no Parque Linear das Corujas.

Em 2001, foi iniciado um movimento dos moradores em prol de melhorias no terreno, que era uma área pública abandonada e estava tomada por um imenso matagal. O terreno foi limpo, ganhou gramado, árvores, bancos, grades, aparelhos de ginástica, uma ponte – os moradores também instalaram portões nas extremidades, controlando a passagem de veículos entre as Ruas Natingui e Beatriz: esses portões passaram a ser fechados a noite e vigiados por seguranças. A ideia do Parque Linear foi ganhando força.

De lá para cá o movimento foi aumentando e contando com um apoio cada vez maior da comunidade. Arquitetos e paisagistas, moradores do bairro, desenvolveram projetos para urbanização das margens do córrego; empresas doaram recursos para a realização de intervenções; moradores passaram a ocupar as “praias” do Córrego das Corujas com esteiras e famílias passaram a instalar mesas nos finais de semana para almoçar ao ar livre.

As discussões e iniciativas da comunidade continuam buscando uma valorização cada vez maior do espaço como a instalação de um deck para caminhadas, plantação de árvores frutíferas e também brinquedos paras as crianças. A qualidade da água também é uma grande preocupação pois há vestígios do lançamentos de esgotos in natura nas águas do Córrego – os moradores cobram providências junto a companhia de saneamento pois todas as ruas do bairro possuem redes coletores de esgotos e não há justificativa para ligações irregulares de esgotos nas águas do córrego. Também há movimentos da comunidade pela reabertura de novos trechos do Córrego das Corujas, canalizados sob áreas de estacionamento de alguns edifícios nas vizinhanças – essa possibilidade gera tensões entre a comunidade e os condomínios. Com o tempo, as partes chegarão a um acordo em todos sairão ganhando.

O Parque Linear das Corujas é um exemplo do que uma comunidade unida pode fazer em prol dos recursos hídricos de sua cidade, com reflexos na qualidade de vida de todos e sem depender da boa vontade dos governantes. Este é um exemplo que pode ser seguido por muita gente.

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