AREIAS, ARENITOS E LENÇÓIS SUBTERRÂNEOS DE ÁGUA

Cavas de Areia

No último post falamos da retirada de areia das margens do rio Paraíba do Sul para abastecimento do mercado da construção civil em importantes regiões como a Grande São Paulo e a Região Metropolitana de Campinas. Essa extração, que já foi extremamente agressiva e deixou enormes cicatrizes nas margens da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, está relativamente sob controle nos dias atuais. Este tipo de agressão ambiental vai muito além da simples destruição da paisagem e comprometimento da qualidade das águas dos rios: também pode levar à contaminação das águas subterrâneas da região.

Para entender melhor tudo isso, um pouco de geologia:

O vale do rio Paraíba do Sul, assim como o vale do rio São Francisco, é o que se chama em geologia estrutural de Graben ou fossa tectônica – um vale alongado com um fundo plano, resultado do afundamento de um grande bloco do território devido aos movimentos combinados de falhas geológicas paralelas ou quase paralelas. Sem entrar em maiores detalhes, esse tipo de afundamento ocorreu devido à movimentação das Placas Tectônicas, também conhecida como Tectônica Global – se ficou curioso, pesquise sobre isto.

Como já comentei em um post anterior, a palavra Graben é de origem alemã e significa escavação ou vala. Os paredões que cercam a área afundada são chamados de Horst. Em algum momento, após a separação do grande bloco que forma a América do Sul do bloco que forma a maior parte da África (originalmente, esses e outros blocos formavam o antigo supercontinente de Gondwana), ocorreu uma grande fratura no solo da região onde hoje se encontra o Vale do rio Paraíba, separando a Serra do Mar da Serra da Mantiqueira; este graben ou fossa formou, inicialmente, um grande lago onde encontramos hoje os municípios de São José dos Campos e Taubaté. Até a ocorrência deste evento geológico, os rios Paraitinga e Paraibuna formavam as nascentes do rio Tietê – com o afundamento do solo, esses rios desviaram seu curso e passaram a construir o futuro leito do rio Paraíba do Sul. Ao longo de milhões de anos, o graben foi sendo preenchido com sedimentos até formar uma extensa planície no Leste do Estado de São Paulo. A Região do Vale do Paraíba é composta por 39 cidades sendo as principais São José dos Campos, Taubaté, Guaratinguetá, Jacareí e Pindamonhangaba. Ao longo dos tempos geológicos, esses sedimentos foram submetidos a forças externas (especialmente temperatura e pressão), que junto com a presença de água produziu um processo de cimentação dos grãos e fragmentos da massa de sedimentos, que acabou transformada nas chamadas rochas sedimentares, como os arenitos (como o próprio nome diz, são formadas a partir da areia). Esse tipo de rocha tem uma característica especial – são extremamente porosas e, por isto, formam os depósitos ou lençóis subterrâneos de água.

Diferente do que muitos podem pensar, não existem espaços ocos no subsolo onde a água fica acumulada – na quase totalidade das situações, são as rochas sedimentares que, funcionando como uma espécie de esponja de cozinha, absorvem e retém a água em seus poros. A mesma coisa acontece com o petróleo e com o gás natural. A região do Vale Paraíba forma a Bacia ou Aquífero de Taubaté, com 170 km de comprimento, 20 km de largura e profundidades entre 200 e 400 metros, constituindo uma importante reserva estratégica de água subterrâneas de ótima qualidade. Seguindo o curso do rio Paraíba do Sul se encontram outras bacias sedimentares como a de Resende e a de Volta Redonda, já no Estado do Rio de Janeiro, sobre as quais não falaremos agora.

E o que tem a ver essa conversa de nerd com a retirada de areia nas margens do rio?

Durante o processo de infiltração das águas das chuvas no subsolo, especialmente nos chamados pontos de recarga dos aquíferos (são locais onde existem fraturas nas rochas, através das quais a água pode atingir as camadas de rochas mais profundas), as camadas superficiais de sedimentos, em conjunto com a vegetação, funcionam como um filtro, que retém impurezas e contaminantes. Com a retirada descontrolada de areia, as cavas deixadas abertas no solo passam a funcionar como um grande funil sem filtro, acumulando água e resíduos que podem infiltrar no solo e contaminar ou comprometer a qualidade das águas subterrâneas – a foto que ilustra este post mostra uma grande cava de areia no município de Jacareí. Não é incomum o uso destas cavas para o descarte de entulhos e lixo por populações vizinhas, onde podem ser encontrados todos os tipos de contaminantes, que acabam infiltrando no solo nos períodos de chuvas. Os lençóis de águas localizados mais próximos da superfície, conhecidos como freáticos, são as fontes de águas subterrâneas mais utilizadas pela população (que retira a água em poços semi artesianos – conhecidos também como poços caipiras, cacimba ou cacimbão), onde a poluição ou contaminação aparece com maior frequência. As águas mais profundas, localizadas nos chamados lençóis artesianos, também podem ser afetadas.

Com a visível redução da disponibilidade e da qualidade das águas nas fontes superficiais, as cidades, cada vez mais, recorrem à perfuração de poços artesianos a fim de complementar os volumes necessários para o seu abastecimento (para citar um exemplo, metade da água utilizada no abastecimento de São José dos Campos é retirada de poços artesianos). A região do Vale do Paraíba é privilegiada com águas subterrâneas de boa qualidade (de acordo com estudos da CETESB – Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, 72,7% das amostras de água coletadas no aquífero são de boa qualidade) e todos os esforços devem ser feitos no sentido de reverter os problemas de contaminação já existentes e se prevenir que novos problemas apareçam. Em algumas regiões, especialmente no Nordeste brasileiro, é comum se encontrar águas subterrâneas do tipo salobra, que dependem do uso de filtros especiais para a dessalinização e uso pela população – nem sempre estes filtros estão disponíveis, pois são usados como ferramenta de barganha político eleitoral: a população sofre com a falta de água em meio às disputas entre grupos políticos. A preservação e a gestão responsável destes recursos são de vital importância, especialmente em nossa época, onde mudanças climáticas podem estar causando alterações nos padrões de chuvas de algumas regiões e reduzindo o volume de caudais em importantes fontes de abastecimento de água.

4 Comments

  1. […] Na América do Sul, os derramamentos de lava, calculados em 650 mil km³, cobriram uma área de aproximadamente 1,2 milhões de km², especialmente na região onde encontramos hoje a bacia hidrográfica do rio Paraná, englobando áreas do Brasil, do Paraguai, da Argentina e do Uruguai. Os solos dessa região eram formados, originalmente, por extensas dunas de areia do Deserto de Botucatu. Ao longo dos tempos geológicos, essas areias foram submetidas a forças externas (especialmente temperatura e pressão), que junto com a presença de água produziu um processo de cimentação dos grãos e fragmentos da massa de sedimentos, que acabou transformada nas chamadas rochas sedimentares, com destaque especial para os arenitos.  […]

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