AS MEGA ENCHENTES DE SÃO PAULO

Praça Charles Miller

São Paulo é, com muita folga, a maior cidade do Brasil. Com uma população na casa dos 11 milhões de habitantes (se considerarmos a Região Metropolitana como um todo, esse número supera a casa dos 16 milhões). Com tamanha concentração de gentes de todos os tipos, lugares e classes sociais, os números de São Paulo são sempre superlativos – por isso usei o prefixo Mega para falar das enchentes por nossas bandas.

A Vila de São Paulo de Piratininga foi fundada no dia 25 de janeiro de 1554, no alto de um morro e a pouco mais de 1 km do rio Tamanduateí, curso d’água que respondeu pelo abastecimento da população da Paulicéia até meados do século XIX, quando a poluição das águas forçou a busca por fontes alternativas de abastecimento na Serra da Cantareira.

Prestando atenção na data da fundação da Vila, percebe-se que o evento se deu no meio do verão, época em que toda a região do Planalto de Piratininga sofre com as pesadas chuvas e enchentes. Costumo imaginar que, originalmente, os padres jesuítas fundadores da cidade optaram por construir as primeiras cabanas na margem do Tamanduateí, talvez nos primeiros dias do mês de janeiro. Ocorre que, surpreendidos pelas fortes chuvas e por uma indescritível enchente, os religiosos e toda a indiada saíram correndo com móveis, apetrechos e livros na cabeça em direção ao morro mais próximo – acabaram por “refundar” a Vila nestas terras mais altas…

Piratininga, a palavra tupi-guarani usada pelos índios para descrever os campos que cercavam a grande rede hidrográfica no alto da Serra do Mar, significa “lugar onde se encontra peixe seco”. Explico – na época das chuvas, os rios do planalto transbordavam e os peixes se espalhavam pela mata inundada, como ocorre em regiões da Floresta Amazônica. Quando as águas baixavam, muitos peixes ficavam presos em poças de água, que secavam lentamente. Bastava aos índios saírem à cata dos peixes já secos e, assim, garantirem um bom jantar. Ou seja, a cidade de São Paulo já nasceu com referências a enchentes já no seu sobrenome (ou no seu DNA)!

A cidadezinha perdida no alto da Serra do Mar ficou praticamente esquecida por mais de 300 anos até que, graças ao início da cafeicultura em terras paulistas, começou a cresceu como nenhuma outra, assumindo a posição de maior cidade do país já nas primeiras décadas do século XX. Esse crescimento rápido se deu com a canalização forçada de centenas de córregos (ou “córgos” no dialeto local), ocupação de extensas áreas de várzeas (que tem a função de comportar as águas excedentes dos rios nas épocas das chuvas) e ocupação de encostas de morros. Como não poderia ser diferente, enchentes generalizadas nos verões paulistanos são tão típicas quanto o pão com manteiga e café com leite, os pastéis de feira, os engarrafamentos e o “Samba do Arnesto“. Inclusive, uma postagem que publiquei aqui no WordPress em 2016 tinha o singelo nome de “São Paulo de Piratininga, ou a terra das enchentes”.

Mas ao invés de falar das incontáveis tragédias provocadas pelas enchentes de verão em São Paulo, vou apresentar um caso de sucesso no combate a um tradicional ponto de alagamento num dos cartões postais da cidade – a Praça Charles Miller:

A Praça Charles Miller é um dos endereços mais famosos da cidade – é aqui que fica o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, mais conhecido como Estádio do Pacaembu; recentemente, o Estádio passou a abrigar o Museu do Futebol, o que deu visibilidade internacional e transformou o endereço em um destino turístico da cidade. Até anos atrás, a Praça era famosa por outro motivo nem um pouco glamuroso: o local era um dos pontos de enchentes mais temidos da cidade.

O bairro do Pacaembu nasceu em 1925, quando a Cia. City, empresa inglesa de arquitetura iniciou o loteamento e a urbanização da região. Uma das primeiras ações da empresa foram os trabalhos de drenagem e aterro de grandes áreas, que culminaram com a canalização do ribeirão Pacaembu e a construção da avenida homônima, até hoje a principal via do bairro. Foi a Cia. City quem doou, para a Prefeitura de São Paulo em 1935, o terreno de 75 mil m² onde foi construído o famoso Estádio do Pacaembu (vide foto), inaugurado em 1940. Além da criação de um dos bairros mais charmosos da cidade, as ações da City, involuntariamente, acabaram por consolidar todo um ambiente favorável à formação de fortes enxurradas em dias de chuva, com a formação de enchentes violentas na parte baixa do bairro onde fica a Praça Charles Miller.

O famoso “endereço” das enchentes criou transtornos no bairro por várias décadas até que, em 1993, as autoridades da Prefeitura e do Governo do Estado juntaram forças e iniciaram as obras de um gigantesco reservatório subterrâneo com capacidade para armazenar 75 milhões de litros de água das chuvas. Projeto pioneiro na cidade, o conhecido Piscinão do Pacaembu foi inaugurado em 1995 e se transformou rapidamente numa referência no combate de enchentes localizadas; dezenas de outros piscinões foram construídos ao longo dos anos em outras regiões da cidade, auxiliando imensamente no controle de pontos de inundações. Há divergência entre os especialistas, especialmente em relação aos custos de limpeza, sobre a eficácia dos piscinões – na minha opinião, pelo alto custo e falta de grandes terrenos nas áreas urbanas, a construção de piscinões sob praças e avenidas é uma boa opção para as cidades.

O grande desafio para a construção do Piscinão do Pacaembu não foi exatamente na área de engenharia, mas na área da burocracia – tanto o Estádio do Pacaembu quanto a Praça Charles Miller eram construções tombadas pelo Conselho do Patrimônio Histórico e Cultural da Cidade e, por este motivo, não poderiam sofrer qualquer tipo de intervenção. Foram necessárias incontáveis reuniões e acordos entre todas as partes envolvidas no processo para que se autorizasse o início das obras; todo esforço acabou valendo a pena!

O crescimento das cidades e a constante impermeabilização dos solos urbanos com concreto, asfalto e edificações de todo o tipo, estão criando cada vez mais as condições para a formação de grandes pontos de alagamentos nas cidades, com riscos tanto materiais quanto para a segurança dos moradores. Cada vez mais serão necessários estudos e projetos urbanos que visem a criação de pontos de retenção e acúmulo temporário de águas pluviais, evitando assim a formação das enchentes nos pontos mais baixos.

Piscinões subterrâneos como o que foi construído sob a Praça Charles Miller são exemplos práticos de como resolver os problemas extremos provocados pelas enchentes nas cidades. Como faltam áreas para o estacionamento de veículos nas cidades, faço aqui uma sugestão para as Prefeituras: abram concessões para a iniciativa privada construir estruturas que funcionem como piscinões (em um nível mais profundo) e estacionamentos (em um nível mais próximo do solo) sob as praças e avenidas da cidade – o piscinão atenderá o interesse da população e a empresa privada poderá faturar alugando as vagas de estacionamento para os motoristas. Todo mundo vai sair ganhando

À Charles Miller é atribuída a introdução do futebol no Brasil – batizar a praça onde fica o estádio de futebol mais tradicional da cidade com seu nome é uma justa homenagem; já a construção do Piscinão do Pacaembu, essa pode ser chamada de um verdadeiro “gol de placa”. 

Fica a dica para outras grandes cidades brasileiras.

 

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