OS GRAVES PROBLEMAS NO DISTRITO AREEIRO DE SEROPÉDICA-ITAGUAÍ

Extração ilegal de areia em Seropédica

Nas duas últimas postagens, falamos dos problemas criados pela extração de areia e de brita, duas matérias primas essenciais para a indústria da construção civil. Normalmente, as áreas onde esses minerais e sedimentos são extraídos ficam bem próximos dos centros urbanos consumidores. É frequente o abandono das áreas de mineração pelas empresas logo após o esgotamento dos recursos – grandes crateras das antigas cavas de areia e das áreas de extração de pedra inundam e criam todos os tipos de riscos para a população, que costuma usar essas áreas para o lazer, e também para o meio ambiente. 

Para entendermos melhor os impactos dessa mineração no meio ambiente, vamos mostrar um exemplo prático – o caso do Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí, um dos maiores do Brasil. 

Seropédica e Itaguaí são dois municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, distantes cerca de 60 km do centro da capital do Estado. Até 1995, eles formavam um único município – Itaguaí; o distrito de Seropédica foi então desmembrado, passando a constituir um município independente. Entre esses dois municípios encontramos o Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí, que ocupa uma área com aproximadamente 50 km², onde operam cerca de 100 empresas mineradoras, que fornecem quase 90% da areia e da brita usada pela construção civil da Região Metropolitana do Rio de Janeiro

Até a década de 1960, a economia dessa região tinha como base a agricultura, com destaque especial para a produção de laranjas. Com o crescimento das atividades de mineração, a agricultura foi perdendo relevância e a produção mineral passou a responder pela maior parte das receitas desses municípios. Esse crescimento descontrolado da mineração passou a criar uma série de problemas ambientais, sentidos especialmente nos recursos hídricos. 

O aquífero Piranema ocupa uma área de aproximadamente 180 km² (algumas fontes chegam a falar de 500 km²) entre os municípios de Itaguaí, Queimados, Japeri e Seropédica. Esse aquífero tem capacidade de fornecer até 1,6 m³ de água por segundo e tem como principal área de ocorrência o Distrito Areeiro. De acordo com estudos geológicos, o aquífero Piranema é uma reserva estratégica de água e tem potencial para atender o abastecimento de água de toda a Região Metropolitana do Rio de Janeiro por um mês.  

As cavas de extração de areia ficam inundadas com as águas do aquífero Piranema e assim ficam expostas ao contato com diversos poluentes, entre eles os combustíveis que vazam das bombas de sucção instaladas nas dragas e também pelos diversos rejeitos de mineração. Esses poluentes provocam uma deterioração na qualidade das águas, que são sentidas por moradores de diversos bairros vizinhos, que dependem exclusivamente da água retirada de poços para o abastecimento de suas casas. 

Outro foco de preocupação são os altos riscos de contaminação do rio Guandu, o principal manancial de abastecimento de água da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Conforme já tratamos em diversas postagens deste blog, a cidade do Rio de Janeiro sempre sofreu com problemas de escassez de água ao longo de sua história. Essa situação só mudaria em 1905 com a chegada da empresa canadense de energia elétrica Light and Power Company. Na época, a Capital Federal tinha uma população maior que 800 mil habitantes e já havia uma forte demanda reprimida de eletricidade – experiências anteriores de geração em usinas termelétricas a carvão não foram bem-sucedidas. 

Após obter a concessão para operar no Rio de Janeiro em 1905, a Light iniciou a construção da Represa de Ribeirão das Lajes e da Usina de Fontes, inauguradas em 1908. Até a década de 1950, a Light realizou diversas obras visando aumentar sua capacidade geradora, inaugurando novos reservatórios, usinas e, especialmente, estações de bombeamento que captavam água da bacia do Rio Paraíba do Sul e, após a passagem por diversos grupos geradores de eletricidade, eram lançadas na bacia do Rio Guandu. Graças à todas essas obras de engenharia, a vazão do Rio Guandu passou dos históricos 25 m³/s para até 160 m³/s, passando a responder por 80% do abastecimento de água na cidade do Rio de Janeiro e de grande parte da Baixada Fluminense.  

Apesar de toda a sua importância, a bacia hidrográfica do Rio Guandu não recebeu a atenção necessária para a sua preservação ambiental.  As cidades cresceram sem planejamento e sem contar com sistemas de coleta e tratamento de esgotos – grandes volumes de esgoto in natura passaram a ser despejados diretamente nos rios. Também houve a má gestão da coleta do lixo e resíduos sólidos, com despejo inadequado em lixões a céu aberto e risco de contaminação da água com chorume e lixo. O desmatamento e ocupação irregular de margens, além do carreamento anual de milhares toneladas de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas para as águas completam o quadro de problemas ambientais. Calcula-se que a bacia hidrográfica do Rio Guandu receba aproximadamente 4 bilhões de litros de esgotos todos os dias. 

O Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí está inserido dentro da bacia hidrográfica do rio Guandu e a intensa retirada de areia e brita acabou se transformando em mais um fator de poluição das águas. As atividades de mineração destroem grandes extensões de matas, expondo os solos a processos erosivos. Quando chega a temporada das chuvas, grandes volumes de sedimentos e rejeitos minerais são arrastados para a calha do rio, degradando ainda mais as já sofridas águas do rio Guandu. 

Além de todos os problemas que seriam considerados normais em atividades de extração de areia e produção de brita, o Distrito Areeiro também convive com um grande número de cavas de areia e minas de extração e produção de britas ilegais. Denúncias de esquemas de corrupção envolvendo autoridades locais e fiscais dos órgãos ambientais são frequentes, porém nunca chegam ao final esperado. 

Enquanto nenhuma providência real é tomada para controlar os problemas ambientais, a destruição corre solta no Distrito Areeiro de Seropédica-Itaguaí. E como sempre acontece, a sociedade inteira vai acabar pagando pelo lucro de um pequeno grupo de empresários… 

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