ARITMÉTICA AMBIENTAL BÁSICA: CRESCIMENTO URBANO + IMPERMEABILIZAÇÃO DE SOLOS – COBERTURA VEGETAL = ENCHENTES

Cidade de São Paulo

As violentas enchentes provocadas por fortes chuvas em áreas urbanas de todo mundo estão se tornando cada vez mais frequentes. Aqui no Brasil, todos nós acompanhamos, literalmente, há séculos esse problema em cidades como Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, entre muitas outras. Em cidades importantes do mundo como Paris, Florença, Londres, Tóquio e Los Angeles, que contam com eficientes sistemas de drenagem de águas pluviais, o problema vez ou outra tem ressurgido com força. Existem diversas razões para isso estar acontecendo. Vamos começar falando da impermeabilização dos solos destas cidades. 

Diferentemente da vida das populações das áreas rurais, onde a fonte principal de trabalho e renda são as atividades agropecuárias e onde os solos são a “matéria prima” de praticamente todos os produtos, nas áreas urbanas os solos são uma espécie de “cenário” da vida. A economia das cidades se baseia principalmente no comércio, na prestação de serviços de todos os tipos e em atividades industriais. A exceção dos jardins, parques e praças instalados nas vias públicas urbanas, além dos canteiros de muitos edifícios e de pequenas hortas localizadas nas casas de alguns moradores, os solos urbanos costumam ser impermeabilizados com uma grossa camada de asfalto nas vias de tráfego e de concreto nos passeios públicos e áreas internas de casas e edifícios. 

A construção de casas, edifícios, galpões de todos os tipos e de prédios públicos, também contribui fortemente para a formação de áreas impermeáveis nos solos. Se qualquer um de vocês analisar o código de obras de um munícipio, vai perceber facilmente que a legislação permite, com restrições é claro, a ocupação da maior parte da área dos terrenos com construções. 

Se por um lado as atividades humanas ocupam e impermeabilizam quantidades cada vez maiores dos solos das áreas urbanas, esse avanço se dá sobre áreas naturais que eram cobertas por vegetação. Essa distorção do meio ambiente natural altera completamente as relações entre as águas das chuvas e os solos, onde parte importante das águas pluviais são absorvidas pelos terrenos com a ajuda da vegetação e apenas uma parte dessas águas corre na direção dos canais naturais de drenagem – córregos, riachos, rios e lagos. 

Conforme comentamos na postagem anterior, as paisagens que vemos ao nosso redor são o resultado de um processo de “construção natural” que se desenrolou ao longo de milhões de anos. Dentro desses processos se inclui a tectônica global, responsável pela movimentação dos continentes, soerguimento e rebaixamento de solos, entre outros eventos. Também precisamos falar dos diferentes processos de erosão produzidos pelas chuvas, pelo gelo e pelos ventos. Nessa construção também se inclui a força hidráulica dos rios, que, alimentados pelas águas das chuvas, abrem canais nos solos e carregam milhões de toneladas de sedimentos a cada ano, redesenhando assim mapas de regiões inteiras – exemplo disso é o grande Arquipélago de Marajó, formado ao longo das áreas pela poderosa Bacia Amazônica

Vou citar como exemplo a minha cidade – São Paulo (vide foto). A cidade está localizada no Planalto de Piratininga, a uma altitude média de 850 metros acima do nível do mar, a pouco mais de 50 km do litoral do Oceano Atlântico e inserida nos domínios da Serra do Mar. A história geológica dos solos paulistanos é bem interessante e remonta ao tempo da fragmentação do antigo Supercontinente de Gondwana, iniciada há cerca de 160 milhões de anos atrás. A Serra do Mar fazia parte de uma grande cadeia montanhosa com cerca de 800 km de comprimento e 300 km de largura, localizada no centro de Gondwana. Conforme a América do Sul foi se separando e se afastando da África, a movimentação dos solos foi fragmentando essa cadeia montanhosa e surgiram as formações rochosas que deram origem às Serras da Canastra, da Mantiqueira, do Mar, do Espinhaço e de Maracaju. 

As forças tectônicas resultantes da separação dos continentes também produziram um forte soerguimento dos terrenos – alguns trechos da Serra do Mar chegaram a possuir altitudes superiores a 7 mil metros, muito parecidas com a Cordilheira dos Andes. Milhões de anos de erosão por chuvas, ventos e gelo moldaram as paisagens do Planalto de Piratininga, formando uma grande bacia sedimentar ao longo do curso do rio Tietê e seus muitos afluentes (são mais de 300 cursos d’água na região – algumas fontes chegam a citar 1.200 pequenos afluentes). O cenário é completado pelas elevações do maciço da Avenida Paulista, pela Serra da Cantareira e Pico do Jaraguá, entre outras. 

Uma característica marcante da região do Planalto de Piratininga eram as grandes áreas de várzeas, que enchiam há época das chuvas, absorvendo assim todo os excedentes de águas pluviais. Grande parte da vegetação que cobria o Planalto de Piratininga era formada por manchas de Cerrado, existindo também grandes áreas cobertas por Vegetação de Mata Atlântica e de Mata das Araucárias (o paulistano bairro de Pinheiros recebeu esse nome por causa das araucárias). Essa vegetação absorvia diretamente uma parte das águas das chuvas e suas raízes facilitavam a absorção de grandes volumes de água pelos solos. Apenas uma parte da água das chuvas chegava aos corpos d’água. 

Todo esse grande sistema ambiental, que funcionava em perfeita harmonia, foi completamente alterado com o crescimento da cidade e de toda a Região Metropolitana de São Paulo. Rios e córregos tiveram seus cursos retificados e alterados, sendo que grande parte foi canalizada para a construção das famosas “avenidas de fundo de vale”. Grandes áreas de várzea foram aterradas a fim de se criar terrenos para especulação imobiliária, como ocorreu com a antiga região da Várzea do Carmo. As matas foram sendo gradativamente derrubadas para a expansão da mancha urbana, que só na cidade de São Paulo ocupa uma área de 1.200 km².  

Acima de tudo, centenas de milhares de quilômetros quadrados de solos das cidades do Planalto de Piratinga passaram a receber, ano após ano, revestimentos de asfalto, concreto, cerâmica, pedras, entre outros tipos de acabamento, formando imensas áreas completamente impermeáveis para as águas das chuvas, que passaram a correr diretamente para canais de drenagem naturais e artificiais não dimensionados para absorver volumes cada vez maiores de águas pluviais. Como resultado de tudo isso, as enchentes se repetem a cada verão e com intensidades cada vez maiores. 

Guardadas as devidas particularidades do relevo, solo e vegetação, esse é o mesmo processo que se desenvolveu na maioria das grandes e médias cidades brasileiras, que atualmente convivem com grandes enchentes nas épocas de chuvas. A impermeabilização de grande parte dos solos de todas essas cidades está na raiz de grande parte da questão das enchentes

Como eu sempre costumo repetir – essa é uma conta que não fecha. Com solos altamente impermeabilizados e com cada vez menos terrenos cobertos por vegetação nas cidades, as enchentes continuarão a ser uma espécie de assombração, que a cada novo verão voltará para nos aterrorizar! 

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