A REVOLUÇÃO URBANA EM SEUL E SEU EXEMPLO PARA AS GRANDES CIDADES BRASILEIRAS, OU FALANDO DOS RIOS CHEONGGYECHEON E HAN

Antigo rio Cheonggyecheon

O surpreendente filme sul coreano “Parasita”, que acabou de ser premiado com o Oscar de Melhor Filme de 2020, mostra uma cena muito familiar a muitos moradores de cidades grandes como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte – uma forte enxurrada de água barrenta descendo pela escadaria de um bairro inundado de Seul. Um pai e seus dois filhos correm sob uma chuva torrencial e quando finalmente conseguem chegar em casa, encontram uma inundação com água até a cintura, com móveis e objetos flutuando.  

Depois de colocar os poucos pertences pessoais que conseguiram salvar sobre uma porta flutuante, eles saem andando por uma rua alagada até um ginásio próximo, onde vão passar a noite com outras centenas de desabrigados. Muito mais do que ficção cinematográfica, essas cenas ainda fazem parte da vida de muitos dos moradores da grande capital da Coreia do Sul e da sua Região Metropolitana. 

Seul é pouca coisa menor que a cidade de São Paulo. A cidade tem 10 milhões de habitantes e fica no coração de uma Região Metropolitana onde vivem 25 milhões de pessoas. As enchentes na região de Seul são históricas e aumentaram exponencialmente nas últimas décadas devido ao forte crescimento populacional. Os problemas começaram ainda na década de 1950, quando a Guerra da Coreia (1950-1953) trouxe para o Sul centenas de milhares de famílias refugiadas do Norte. Para completar o caótico quadro ambiental, a cidade vem enfrentando fortíssimas ondas de calor no verão, como as que aconteceram em 2012, 2015 e 2017. 

Em julho de 2003, urbanistas apresentaram um projeto revitalizar a área central de Seul, como parte de um vasto projeto de revitalização urbana, com o objetivo de tornar a cidade moderna e ecologicamente correta. O plano previa a remoção de uma via elevada e a reabertura e revitalização do Cheonggyecheonum rio que foi canalizado na década de 1960. Num trabalho de 2 anos e custo de US$ 280 milhões, o viaduto foi demolido e o rio foi recuperado e transformado em um impressionante parque urbano linear de 5.8km de extensão, 400 hectares e 80 metros de largura – 30 mil pessoas visitam o parque a cada fim de semana. Para que vocês tenham noção do tamanho da obra, somente a demolição do viaduto gerou 600 mil toneladas de entulho – 75% deve entulho foi reciclado e utilizado na construção do parque.  

Rio Cheonggyecheon

O rio Cheonggyecheon é um canal artificial que foi construído durante a Dinastia Joseon (1392-1410) com a função de drenar as águas pluviais e controlar as enchentes da antiga cidade de Seul. A tradução literal do nome do coreano para o português significa “rio das águas límpidas”. Conta-se que na fundação da cidade, os antigos governantes se valeram de princípios do feng chui e construíram as ruas e edifícios alinhados entre montanhas e cursos d’água. Na tradição oriental, o feng chui reúne os conhecimentos das forças necessárias para conservar as influências positivas que supostamente estariam presentes em um espaço e redirecionar as negativas de modo a beneficiar seus moradores. 

Durante centenas de anos, o rio manteve suas características originais como um oásis no centro da cidade de Seul. Com a eclosão da Guerra da Coreia em 1950, Seul foi invadida por milhares de refugiados – as margens do Rio Cheonggyecheon, como mostrado na imagem do alto,  foram transformadas em imensas favelas (algo muito parecido com o que acontece nas grandes cidades brasileiras). Em pouco tempo, as antigas águas límpidas se transformaram num canal de esgotos a céu aberto. 

O rápido crescimento econômico da Coreia na década de 1960, com o natural crescimento da frota de veículos, levou a Prefeitura de Seul a criar o seu plano de novas avenidas, aliás muito parecido com o Plano de Avenidas que o Prefeito Prestes Maia implantou em São Paulo a partir da década de 1930. Entre outras mudanças, a Prefeitura decidiu canalizar o rio Cheonggyecheon, um processo que exigiu o remanejamento de milhares de famílias das suas margens. E mais: sobre o leito canalizado foi construído um extenso viaduto, muito parecido com o Elevado Presidente João Goulart (o popular Minhocão) de São Paulo. 

O crescimento desordenado, o excesso de carros e a poluição do ar degradaram imensamente a região central de Seul. Eliminar uma via elevada desse tamanho na área central da cidade traria, provavelmente, grandes problemas para o trânsito da cidade. A Prefeitura fez grandes investimentos em faixas exclusivas para ônibus e campanhas para estimular o uso de transportes coletivos. Contrariando as expectativas de muitos, a população passou a usar ônibus e metrô – os coreanos redescobriram o prazer de caminhar pelo centro da cidade. Muitos comerciantes reclamam de queda nas vendas pela falta dos carros, mas a maioria esmagadora da população gostou da mudança e do renascimento do rio. 

Um outro trabalho fabuloso que vem sendo desenvolvido na Região Metropolitana de Seul é a revitalização do rio Han, o Tietê coreano. Todo o crescimento desordenado vivido pela Região transformou o rio em uma vala de esgotos a céu aberto, uma saga que nós brasileiros conhecemos bem. O projeto de despoluição do rio teve início em meados da década de 2000 e tem previsão de estar totalmente concluído no ano de 2033. Uma das primeiras providências efetivas foi o início do controle da qualidade das águas dos 40 córregos e riachos que atravessam a cidade de Seul e desaguam no Rio Han – a cidade possui seis Estações de Tratamento de Esgotos e era preciso garantir que nenhum lançamento irregular atingisse o Han. Outra providência importante foi a proibição da instalação de qualquer tipo de empresa poluidora ao longo das margens do rio. 

Uma segunda frente de trabalho está aproximando os moradores da cidade do seu rio – entre parques novos e reformados já são 12 unidades nas margens do rio – um deles, o Seul Forest tem 1 milhão de metros quadrados, tamanho equivalente ao Parque do Ibirapuera em São Paulo. As margens do Rio Han foram dotadas de espaços públicos para corridas, ciclovias, áreas de piquenique, além de toda uma gama de esportes náuticos realizados dentro das águas do rio. Passeios de barco e restaurantes flutuantes transformaram as águas do Han num ambiente para passeios das famílias

Rio Han

Apesar de já se encontrarem num estágio que provoca inveja em nós brasileiros, os coreanos pensam grande: querem elevar as áreas naturais que hoje ocupam 14% das margens do Rio Han para impressionantes 90%. Como? Construindo túneis que possam substituir as atuais vias marginais, muito parecidas com as Marginais Tietê e Pinheiros de São Paulo, liberando assim os espaços hoje ocupados pelas pistas para a implantação de áreas cobertas por vegetação, facilitando ainda mais o acesso e a aproximação dos moradores de Seul de seu rio

Essas e muitas outras iniciativas já em andamento visam aumentar a permeabilidade e revegetação de grandes áreas de solo, com o duplo objetivo de diminuir os impactos das fortes chuvas de verão e de reduzir gradativamente os grandes efeitos de Ilha de Calor Urbano em Seul e cidades vizinhas. 

Grandes cidades brasileiras como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife sofrem imensamente, ano após ano, com as chuvas e enchentes de verão e sofrerão cada vez mais com as consequências dos efeitos das Ilhas de Calor Urbano. A revolução urbana que Seul vem implementando nos últimos anos é um exemplo de mudança que nós podemos seguir aqui no Brasil. 

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