AS AREIAS DOS TEMPOS

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As massas rochosas que formam a superfície terrestre ficam expostas a intemperismos de toda ordem: erosão por chuva, ventos e gelo; extremos de temperatura pela radiação solar e massas de ar frio de origem polar; crescimento de vegetação, variações de marés, terremotos e maremotos, entre outras forças da natureza. Ao longo do tempo (em termos geológicos isto significa milhões de anos), estes intemperismos quebram, esfoliam e decompõem as rochas, que acabam transformadas em sedimentos de tamanhos diferentes e são transportados, especialmente pelas correntes de água, e dispostos em locais conhecidos como bacias sedimentares. A areia é um dos sedimentos mais importantes, pelas suas múltiplas utilidades, para a construção civil – ela é essencial para a produção de argamassa para o assentamento de tijolos e blocos; para chapisco, emboço e reboco de paredes; como aglomerado na produção de peças de concreto, vigas, colunas e lajes; como matéria prima para a produção dos diversos tipos de vidro, usados não apenas na construção civil, mas em múltiplos produtos consumidos pela nossa sociedade.

A Região Metropolitana de São Paulo é, disparada, a maior consumidora de areia do país. A cada dia, milhares de metros cúbicos de areia chegam aos quatro cantos da Região Metropolitana e são consumidas das grandes às pequenas obras – sempre existe alguém construindo alguma coisa, seja um grande complexo de obras viárias, seja um puxadinho de uma casa humilde na periferia das grandes cidades. Durante décadas a fio, o próprio solo da Região Metropolitana forneceu a areia usada para a construção das cidades – as margens da bacia hidrográfica do rio Tietê formam uma imensa bacia sedimentar, com centenas de metros de profundidade. Uma cicatriz deixada pela mineração de areia na região, só para citar um exemplo, é a raia olímpica da USP – Universidade de São Paulo. No local, foi deixada uma grande cratera por empresas de mineração que, tradicionalmente, passam anos retirando areia de um local e, ao esgotar o recurso, vão embora deixando grandes buracos abertos no solo. No caso da USP, decidiu-se pela transformação do imenso buraco em uma raia para esportes aquáticos.

O crescimento incontrolável de São Paulo e de toda a sua Região Metropolitana causou um grande problema para a exploração de areia – e não foi falta do sedimento: o crescimento da mancha urbana ocupou com construções as grandes áreas onde se encontravam imensos volumes de areia. Sem espaço nas áreas urbanas das cidades, as empresas mineradoras de areia voltaram seus olhos e dragas para outras regiões, com destaque para a bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Eventualmente, algum dos leitores pode ter lembrado das imensas quantidades de areia encontradas nas nossas praias e sua eventual utilização na construção civil – areia de praia é rica em carbonato de cálcio, um mineral solúvel em água e que proporciona um concreto de baixíssima resistência: anos atrás, muitos devem se lembrar, houve o desabamento do Edifício Palace II no Rio de Janeiro – os laudos técnicos apontaram o uso de areia marinha como a principal causa do colapso estrutural da construção.

Com uma história geológica igual à do rio Tietê, onde são encontradas areias de alta qualidade (as melhores areias para a construção civil têm alta concentração de quartzo), e localizada numa região de fácil acesso aos grandes centros consumidores como as Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas, o Vale do Rio Paraíba do Sul rapidamente foi transformado na sede de um sem número de empresas mineradoras com autorização para a lavra de areia. Aqui vale, desde já, um comentário importante: a preocupação com a preservação ambiental e toda a legislação específica em nosso país remonta ao início da década de 1980 – antes disso, empresas do ramo da mineração, como aquelas que exploram areia, solicitavam uma autorização de lavra para as autoridades federais (riquezas do subsolo são propriedade da União) e precisavam oferecer contrapartidas muito vagas no sentido de recuperar as áreas degradadas pelas suas atividades. Empresários gananciosos e uma legislação falha resultaram em milhares de crateras abandonadas por todo o país – sempre que os volumes de areia retirados do solo caíam a volumes muitos baixos, os empresários partiam para a exploração de outras áreas mais promissoras e largavam os buracos abertos, normalmente cheios de água para trás.

Se você acompanhar o curso do rio Paraíba do Sul nos municípios de Santa Branca, São José dos Campos e Caçapava, entre outros, você vai encontrar extensas lagoas ao longo das margens, resultantes de décadas a fio da retirada de areia (a foto que ilustra este post mostra o estado das margens do rio no município de São José dos Campos). As margens dos grandes rios são os lugares onde é mais fácil a exploração da areia; as matas ciliares, tão importantes para a preservação e manutenção da qualidade das águas do rio, são um verdadeiro transtorno para abertura das cavas e a operação das dragas, precisando ser removidas antes do início dos trabalhos de mineração. Sem a proteção da vegetação ciliar, nascentes secam, animais silvestres fogem e volumes imensos de sedimentos – incluindo-se aqui parte da areia que escorre das pás das dragas e das máquinas, são levadas pelas águas das chuvas, formando imensos bancos de areia e entulhos ao longo da calha do rio. Esse assoreamento intenso da calhas vai causar todo o tipo de problemas ambientais, que vão desde a redução do volume e a perda de qualidade das águas, redução dos estoques de peixes e demais seres aquáticos do bioma, transbordamentos e cheias anormais nos períodos de chuva (sem espaço na calha do rio, as águas vão buscar espaços nas margens), entre outros problemas.

Nos últimos anos, com os avanços das políticas e da legislação ambiental, as atividades de mineração e exploração de areia estão “relativamente” sob controle das autoridades ambientais, que, valendo-se de pesadas multas e fiscalização intensa, tem evitado que a destruição das margens do rio Paraíba do Sul aumente ainda mais. Infelizmente, décadas passadas de forte destruição deixaram um enorme passivo ambiental a ser pago pelas atuais e futuras gerações, que dependem e dependerão das águas do Paraíba do Sul para abastecimento, agricultura, lazer e geração de energia elétrica, entre outros importantes usos.

Parafraseando um antigo ditado: aqui se faz, alguém paga

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