AS ÁGUAS DE MARÇO

Rio da Prata MS

Escrita por Tom Jobim em 1972, no auge da Ditadura Militar, a música “Águas de Março” é considerada uma das melhores canções brasileiras de todos os tempos. A composição surgiu em um momento conturbado da vida de Tom, quando enfrentava fortes problemas de perseguição política por causa da censura que vigorava na época e estava ameaçado de enquadramento na chamada Lei de Segurança Nacional. De forma metafórica, a letra fala da passagem do tempo e da vida cotidiana na forma das águas da chuva. Março é o mês que marca o momento da passagem da estação chuvosa para o período da seca na região Sudeste. 

Como estamos entrando em março e assistindo as últimas semanas do verão 2018, já é possível fazer uma avaliação parcial dos excessos e da falta de chuva nas principais regiões do Brasil. Entre notícias de enchentes e de chuvas acima da média em algumas regiões do Sudeste, do Centro Oeste e em partes da Amazônia, chama atenção neste momento a seca que começa a mostrar suas garras e a preocupar moradores de partes do Rio Grande do Sul.

Vamos começar falando do Rio de Janeiro, que continua sofrendo com fortes chuvas e mostrando ao mundo inteiro, entre outros gravíssimos problemas, as suas deficiências de infraestrutura de drenagem de águas pluviais. Como aconteceu em todas as grandes cidades e regiões metropolitanas do país, o Rio de Janeiro cresceu sem um planejamento urbano que olhasse a cidade como um todo. Eu lembro das minhas primeiras visitas à cidade, ainda adolescente – a ponte Rio-Niterói tinha sido concluída há pouco tempo e se viam outras obras de viadutos, de avenidas e outros acessos em construção. Morros eram cortados, aterros consolidados e prédios galgavam alturas cada vez maiores. O que eu não consegui ver naquela época é que esse “desenvolvimento” todo estava concentrado apenas nas áreas mais centrais da cidade – os subúrbios, ou periferias como se diz em São Paulo, foram deixados de lado. As enchentes e os problemas causados por elas à população correspondem a somatória de décadas de descaso das autoridades.

Merecem destaque também, neste final de verão, as chuvas fortes que estão caindo em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Semanas atrás, inclusive, uma imagem da região correu o mundo: durante uma cheia da nascente do rio Olho D’água, na cabeceira do rio da Prata em Jardim – Mato Grosso do Sul, um pontilhão de madeira e uma trilha na mata aparecem totalmente encobertos por águas transparentes (vide foto). Uma das situações mais problemáticas e dramáticas ocorreu no rio Aquidauana, também em Mato Grosso do Sul, que subiu mais de 10 metros e isolou diversas comunidades.  

No Estado de Mato Grosso, o maior produtor brasileiro de grãos, além de todos os problemas de enchentes localizadas em diversos rios e cidades, existe um problema crônico que se repete em todos os verões: as estradas de terra utilizadas no transporte da safra de grãos se transformam em verdadeiros atoleiros, deixando milhares de caminhoneiros presos por dias a fio. Um dos símbolos da precariedade dessas vias é a Rodovia Cuiabá-Santarém, criada há mais de 40 anos com objetivo de se transformar em um grande eixo de integração nacional. Até hoje, boa parte dos seus quase 3.500 km não possui pavimentação ou o que existe é de uma precariedade gigantesca. Milhares de motoristas acabaram ilhados em trechos da rodovia, cercados de lama e problemas por todos os lados.

Na Amazônia, as chuvas vieram acima da média em grande parte da região. Em postagens anteriores falamos dos problemas causados no município de Barcarena, no Nordeste do Estado do Pará, onde uma barragem de rejeitos de mineração transbordou, lançando lama contaminada por metais pesados em diversos igarapés e deixando centenas de famílias sem acesso ao abastecimento de água potável. Na Amazônia Ocidental, as fortes chuvas causam preocupações entre os moradores de Rondônia e do Acre, onde as cheias dos rios Madeira e Acre ameaçam comunidades ribeirinhas. O rio Madeira chegou a subir 15 metros no final de janeiro e assustou muita gente. Já o rio Acre, que meses atrás enfrentou uma seca histórica, em meados de fevereiro subiu mais de 12 metros acima do nível normal – os altos e baixos destes rios mostram como é o ritmo das águas na Amazônia.

As chuvas de verão conseguiram se espalhar por diversas áreas da região Nordeste, dando um verdadeiro alívio em locais que enfrentavam uma seca persistente desde 2011 na região do semiárido. Em algumas regiões, inclusive, se registrou chuvas acima da média entre o fim de janeiro e o mês de fevereiro. Muitos açudes que se encontravam em situação crítica apresentaram melhoras substanciais nos volumes de água armazenada, especialmente nos Estados do Ceará, Pernambuco e Paraíba. Ainda estão previstas chuvas intensas para o Leste da Bahia e para os Estados do Piauí e Maranhão. Um exemplo da má distribuição destas chuvas se vê no Açude Castanhão, o maior do país e principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza, onde o volume de água armazenada ainda permanece na casa dos 2% e causa muita preocupação entre as autoridades.

Em São Paulo, apesar de toda a repercussão midiática de grandes enchentes nas maiores cidades, o volume de chuvas registrado até o momento está na casa dos 50% do volume normal para o período, o que faz acender uma luz amarela de atenção. Um dos indicadores desta baixa quantidade de chuvas é o volume de água armazenado no Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de grande parte das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas. O nível das represas se encontram na marca dos 53%, cerca de 10% abaixo do nível no mesmo período do ano passado. Apesar do volume de água armazenada atender com folga as necessidades locais, ainda existe um trauma generalizado na população, lembrança da grande seca dos anos de 2014 e 2015, quando o Sistema Cantareira secou completamente e forçou toda a população a um fortíssimo “racionamento” no consumo. A expressão “volume morto” surgiu naquele momento e entrou em definitivo para o inconsciente coletivo de todos os paulistas e paulistanos.

Finalizando, dois destaques opostos: a região do Distrito Federal, que vinha enfrentando uma seca histórica, passou a receber ótimos volumes de chuva, que lentamente estão recuperando os níveis dos principais reservatórios, particularmente a Barragem do Descoberto, que já apresenta um volume de água armazenada na casa dos 50% da sua capacidade. Por outro lado, na região da Campanha, no Rio Grande do Sul, a falta de chuvas e a seca já levou seis cidades a declarar situação de emergência. E as coisas ainda devem piorar muito por lá ao longo deste ano. Vamos acompanhar.

Como são enormes e desafiadores os contrastes climáticos de um país de dimensões continentais como o nosso.

 

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