PARQUE LINEAR TIQUATIRA: UM BOM COMEÇO

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A Zona Leste de São Paulo é a região mais populosa da cidade e é, ao mesmo tempo, a que possui a menor área verde per capita. Percorrendo as ruas e avenidas de alguns bairros deste “lado” da cidade, encontraremos uma paisagem com as tintas avermelhadas de um deserto, resultado de toda uma imensidão sem fim de casas semiacabadas com tijolos à mostra. Caso esse percurso inclua a Avenida Governador Carvalho Pinto no bairro da Penha, você irá se surpreender com uma ilha verde de 320 mil metros quadrados que surge repentinamente no canteiro central da via – é o Parque Linear Tiquatira.

A história da Avenida vai soar bastante familiar a você que leu meus últimos posts: seguindo a antiga lógica de ocupação das áreas de fundo de várzea do Córrego Tiquatira, a Prefeitura executou em 1988 obras de retificação do copo d’água, onde o leito natural foi substituído por um canal linear concretado; a várzea passou por um trabalho de “despobrezação” (ou seja, moradores em situação miserável transferidos para áreas mais miseráveis ainda), terraplenagem e pavimentação, surgindo aquela que hoje é conhecida como Avenida Governador Carvalho Pinto – a mesma história de dezenas e mais dezenas de grandes vias da Região Metropolitana de São Paulo. Por conta e obra da geografia da várzea local, foi deixada uma grande faixa de terra entre as pistas e o canal do córrego, inicialmente transformada em um gramado.

Em 2003, um empresário local chamado Hélio Silva caminhava pela avenida e se deparou com a imensa área descampada – imediatamente teve a ideia de plantar algumas mudas de árvores. Utilizando recursos próprios, o Sr. Hélio plantou inicialmente 500 mudas de espécies nativas da Mata Atlântica – 80% destas mudas ou foram arrancadas ou acabaram sendo destruídas pelas crianças e moradores do entorno. Persistente, o Sr. Hélio plantou mais 5.000 mudas de 170 espécies diferentes e, pouco a pouco mostrou a importância do seu trabalho para a comunidade, que se transformou numa grande aliada da sua causa.

Com o crescimento das mudas, especialmente das árvores frutíferas, os pássaros começaram a frequentar a pequena mata: cambacicas, sabiás, tico-ticos, beija-flores, sanhaços, corruíras, gaviões, papagaios e muitos outros. O arvoredo formado por espécies como pau-brasil, jatobás, embaúbas, jequitibás, ingás, canelas, goiabeiras, amoreiras, pitangueiras e tantas outras mudou, literalmente, o clima do lugar. Políticos oportunistas, percebendo o potencial do empreendimento alheio, se apressaram em votar uma lei em 2007 transformando o espaço no primeiro parque linear da cidade de São Paulo, batizado com o pomposo nome de Parque Linear Tiquatira Eng. Werner Eugênio Zulauf. Ao longo dos anos o parque recebeu equipamentos como quadras poli esportivas, pista de Cooper, campos de futebol, pista de caminhadas, de ciclismo e de skate, áreas de convivências e ainda um anfiteatro; aos domingos e feriados, a Prefeitura instala uma ciclo faixa de lazer com 14 km de extensão – o esforço inicial de um único morador mudou definitivamente a história da região.

Até o último mês de julho, o Sr. Hélio contabilizava 17.686 mudas plantadas no Parque. Contando com idade de 67 anos, ele afirma que ainda pretende plantar de 40 a 50 mil mudas. Em seu esforço pessoal, o empresário segue plantando suas mudas e gasta mensalmente entre R$1.000,00 e R$ 3.000,00 em recursos próprios na compra de mudas, adubos e insumos – vejam que exemplo.

Todos os anos, o Córrego Tiquatira ocupa espaço nas manchetes dos meios de comunicação com notícias de transbordamentos em dias de chuvas fortes, o que causa inúmeros transtornos para moradores e motoristas – a culpa recai sobre o tradicional modelo de retificação forçada do córrego e ao seu confinamento em um canal impermeável, reto e com poucos pontos de infiltração de água – a área vegetada do Parque Linear, ao menos, consegue fazer sua parte e ajuda a conter uma parte do excesso de águas pluviais. Se o projeto tivesse sido pensado desde o começo para ser um parque linear verdadeiro, esses transtornos seriam, com certeza, bem menores.

Sr. Hélio Silva – Valeu o grande esforço e o exemplo!

plantador

3 Comments

  1. Excelente ideia e atitude, do morador que iniciou plantio árvores. Tenho um presente p/lembrança que inclusive vou providenciar . FOTOS aéreas do início da avenida, sem vegetação.

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