O RECIFE HOLANDÊS, OU JOHAN MAURITS VAN NASSAU-SIEGEN

Franz Post

Imagine a seguinte situação hipotética: numa reunião da alta administração da Apple Computers, é decidido que a empresa vai implementar um plano global para o domínio do mercado de produção e venda das maçãs em todo o mundo (estou fazendo aqui, é claro, uma brincadeira com o nome e logotipo da empresa). Numa das fases da implementação deste plano, um dos porta aviões nucleares da empresa, o USS “Steve Jobs”, equipado com os mais modernos aviões, mísseis e veículos blindados, além de milhares de Apple Marines, atracará em Florianópolis e, em poucas horas, os comandos especiais da empresa assumirão o controle total do Estado de Santa Catarina e partes do Rio Grande do Sul – lembrando aqui que essas regiões concentram a quase totalidade das áreas de produção das maçãs no Brasil.

Imagine agora que o CEO (Chief Executive Officer) designado para coordenar as operações no Brasil, resolva por conta própria e sem aval da companhia, além de controlar todas as plantações e os canais de comercialização regionais das maçãs começar a fazer investimentos na infraestrutura local usando dinheiro da empresa: instalação de redes de fibra ótica, roteadores de dados, servidores de rede, estações de comunicação via satélite e de telefonia celular.

Guardados os devidos exageros, que nas minhas metáforas são sempre muitos, foi mais ou menos isso que aconteceu no Brasil holandês sob o comando de Johan Maurits van Nassau-Siegen ou Maurício de Nassau como é comum se encontrar nos livros de história – para os pernambucanos, íntimos do vulto histórico, simplesmente Nassau.

A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais era uma instituição privada, criada a 3 de junho de 1621. O capital social inicial da Companhia correspondia a aproximadamente sete milhões florins. Seus privilégios de monopólio durariam inicialmente vinte e quatro anos. A empresa era dividida em cinco câmaras, representando os acionistas de Amsterdam, Zelândia, cidades do Maas, o distrito do Norte e a Frísia. Os diretores, em número de dezenove, operariam alternadamente em Amsterdam e Middelburg. A área de operação (privilegiada) seria na África, do trópico de Câncer ao cabo da Boa Esperança; ao Ocidente, desde Terra-Nova, no Atlântico, até o estreito de Anian no Pacífico. Desde o ano de 1602 já estava em operação a Companhia Holandesa das Índias Orientais (que operou até o ano de 1799), cuja finalidade era a exploração das rotas comerciais no extremo oriente e foi o modelo para a criação Companhia Ocidental. A ocupação holandesa no Brasil compreendeu o período entre 1630 e 1654.

Maurício de Nassau era um nobre de origem alemã, educado na Suíça e militar com uma respeitável folha de serviços sob ordens dos Países Baixos. Era também um homem de grande refinamento cultural, amante das artes e das letras, além de um entusiasta da arquitetura. Por todas estas qualidades pessoais, e é claro pelos relacionamentos familiares, Nassau foi convidado a assumir o posto de “CEO” das operações da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, com um salário “principesco”, inúmeros privilégios e serviçais, além da promessa de recebimento de um prêmio de 2% sobre os lucros nas operações da empresa no Brasil.

Após a consolidação do controle militar de uma ampla faixa do litoral nordestino ao norte do Rio São Francisco, Nassau estabeleceu uma relação “amigável” entre os holandeses e brasileiros, incluindo alguns incentivos nunca vistos antes durante a gestão portuguesa. Esses incentivos se enquadram na mesma política de incentivos das grandes corporações modernas, que esperam assim estimular os funcionários a produzir mais e melhor, com custos cada vez mais baixos. No nosso caso, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais sob a administração de Maurício de Nassau:

– Incentivou, através de empréstimos, a reestruturação de aproximadamente 150 engenhos de açúcar do Nordeste ocupado;

– Introduziu inovações com relação à fabricação de açúcar, inclusive com o apoio de especialistas europeus no trabalho de melhoramento das espécies de cana plantadas;

– Favoreceu um clima de tolerância e liberdade religiosa, inclusive aos perseguidos judeus – a primeira sinagoga das Américas foi construída na cidade do Recife (inclusive é um dos pontos de interesse turístico da cidade até hoje);

– Modernizou a cidade de Recife, conhecida também como Cidade Maurícia (Mauritsstad), onde patrocinou (com dinheiro da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais) a reurbanização dos bairros de Santo Antônio e São José, onde foi feita a drenagem de terrenos, a construção de canais e diques, pontes, os Palácios de Friburgo e da Boa Vista, entre outras obras;

– Estabeleceu e organizou serviços essenciais como os sistemas de coleta de lixo e os serviços de bombeiros do Recife;

– Patrocinou a vinda de artistas, cientistas e naturalistas europeus, que retrataram, estudaram e documentaram as “surpreendentes” flora, fauna e população brasileira. A lista inclui: Willem Piso, cientista e médico que estudou doenças tropicais; Franz Post, paisagista e pintor (vide imagem); Zacharias Wagener, pintor primitivo; Cornelis Goliajath, cartógrafo; Georg Marcgraf, astrônomo; Caspar Barlaeus, humanista que escreveu a história da administração de Nassau, entre outros artistas e profissionais especializados como pintores, escultores, entalhadores, mestres de obras e vidraceiros.

– Determinou a construção de um observatório astronômico, do Jardim Botânico, de um jardim zoológico e de um museu de história natural.

Fiel à tradição arquitetônica holandesa de harmonia entre águas e cidades, Nassau urbanizou as margens do rio Capibaribe, removendo manguezais, murando as margens e aterrando várzeas, além de criar rampas e escadas para o embarque e desembarque de passageiros, o que popularizou o transporte fluvial na cidade e ajudou a criar a alcunha de “a Veneza brasileira”. O conjunto de obras realizadas por Maurício de Nassau na cidade do Recife somente seria superado, quase dois séculos depois, com a chegada da família Real portuguesa ao Rio de Janeiro, quando a cidade passou por um completo conjunto de obras de modernização e reurbanização.

A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais demitiu Nassau em 1644 devido a “irregularidades administrativas”, ou seja, a empresa invadiu o Nordeste do Brasil para ganhar dinheiro com a produção e comercialização do açúcar e não para construir cidades...

Para encerrar, um registro do grande historiador Capistrano de Abreu:

“Os últimos anos do seu governo cabem em poucas palavras. Da obra do administrador nada sobrevive; seus palácios e jardins consumiram-se na voragem de fogo e sangue dos anos seguintes; suas coleções artísticas enriqueceram vários estabelecimentos da Europa e estão estudando-as os americanistas; os livros de Barlaeus, Piso, Marcgraf, devidos a seu mecenato, atingiram uma altura a que nenhuma obra portuguesa ou brasileira se pode comparar nos tempos coloniais; parece mesmo terem sido pouco lidos no Brasil apesar de escritos em latim, na língua universal da época, tão insignificantes vestígios encontramos deles.”

Continuamos no próximo post.

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