TAMANDUATEÍ: O RIO QUE FOI ESTRANGULADO PELA METRÓPOLE

Rio Tamanduateí

Nesta atual sequência de postagens, falamos da destruição das fontes de água que, nos tempos antigos, abundavam na região do Planalto de Piratininga, especialmente no município de São Paulo. O crescimento exponencial da cidade e a falta de preocupação com a preservação destas preciosas fontes de água, conduziram a uma destruição gradativa dos corpos d’água, transformados em sua imensa maioria em canais para o escoamento dos esgotos da população. Escondidos dos olhos da população por sucessivos projetos de canalização e construção das chamadas “Avenidas de Fundos de Vale”, sobrevivem na memória coletiva da população nos nomes de avenidas e de bairros da cidade: Pacaembu, Anhangabaú, Cupecê, Bixiga, Iguatinga, Sapateiro, Sumaré, Itororó, Carandiru, Moóca, Traição, entre outros. Entre os “sobreviventes” (uso o termo aqui falando dos corpos d’água não canalizados), merece destaque o rio Tamanduateí, sobre o qual falaremos hoje.

Algumas fontes dizem que a palavra significa Tamanduateí significa “rio dos tamanduás verdadeiros”. Outras afirmam que a palavra significa “rio das muitas voltas”, o que seria um nome bastante adequado ao rio sinuoso de outrora, com nascentes no município de Mauá, que depois atravessa os municípios de Santo André e São Caetano do Sul, todos na região do ABCD Paulista, e por fim corta o município de São Paulo no sentido Leste-Oeste até desaguar no rio Tietê, nas proximidades do Centro de Exposições do Anhembi (lembrando que este é o antigo nome do rio Tietê). Com uma extensão total de 35 km, é rio pequeno, porém de extrema importância histórica para toda a região.

A Vila de São Paulo de Piratininga foi fundada no alto de uma pequena elevação ao lado do Tamanduateí, que já foi chamado de rio Piratininga, e cresceu ao redor deste rio. Durante pelo menos 3 séculos, suas águas abasteceram parte da população da cidade – em meados do século XIX, a poluição das águas inviabilizaria seu uso para o abastecimento; seu curso também foi utilizado para o transporte de pessoas e mercadorias até o início do século XX, quando as muitas retificações do seu curso inviabilizaram a navegação das embarcações de maior porte. A foto que ilustra este post, de autoria do fotografo suíço-brasileiro Guilherme Gaensly (1843-1928), dá uma ideia das mudanças no Tamanduateí: mostra o rio no final do século XIX na região onde fica atualmente o Parque Dom Pedro II – a largura entre margens do antigo leito do rio é, pelo menos, três vezes mais larga do que o canal de concreto no qual o Tamanduateí acabou confinado. Essa região era conhecida como Várzea do Carmo ou Sete Voltas e já foi palco de violentas enchentes – a partir da década da 1820, surgiram vários planos para a retificação do Tamanduateí e a urbanização da região, porém sem que houvessem recursos suficientes para a execução de todas as obras.

Entre meados e o fim do século XIX, diversas obras de retificação foram realizadas no rio Tamanduateí, transformando o sinuoso curso em um canal retilíneo – as antigas áreas de várzea, que permitiam o transbordando natural das águas excedentes dos períodos das chuvas, acabaram liberadas gradativamente para a especulação imobiliária e o trecho final do rio acabou espremido por altas paredes de concreto e pedras. A partir do ano de 1880, começou um intenso debate público, onde se buscava um “plano de embelezamento” da região da Várzea do Carmo – as discussões se estenderiam por exatos 30 anos.

Em 1910 foi decidido transformar a Várzea do Carmo em um grande parque, projeto que contaria com o apoio da iniciativa privada (que receberia parte dos terrenos recuperados das áreas alagáveis em troca dos serviços). O projeto só foi aprovado pelos órgãos públicos em 1914 e o Parque foi entregue à população em 1922, ano do Centenário da Independência. O Parque, batizado com o nome de Dom Pedro II (o imperador Dom Pedro I seria homenageado na ocasião com a inauguração do Parque da Independência, no Bairro do Ipiranga) se tornou um dos mais importantes espaços públicos de São Paulo, com uma grande variedade de árvores e grandes espaços livres para o lazer da população.

A partir do ano de 1938, com o engenheiro Francisco Prestes Maia assumindo a prefeitura da cidade de São Paulo, tem início a implantação do seu famoso Plano de Avenidas – uma ideia urbanística “revolucionária”, que transformaria a antiga cidade provinciana, criada ao estilo das cidades europeias, numa cópia das metrópoles norte americanas com suas grandes avenidas e milhares de automóveis em circulação. O Plano de Avenidas de Prestes Maia instituiu o conceito das Avenidas de Fundos de Vale, que levou à canalização de centenas de córregos e ribeirões por toda a cidade, criando -se assim os espaços para a construção das grandes avenidas.

Já na década de 1950, com o acelerado crescimento da cidade e de sua frota de automóveis, foi iniciado o asfaltamento da Avenida do Estado, uma via marginal ao rio Tamanduateí, que ao longo de diferentes administrações, passou a ligar a Marginal Tietê ao Município de Santo André. O rio Tamanduateí, das muitas voltas e várzeas dos tempos antigos, foi espremido cada vez mais pelas paredes de concreto e hoje é um curso retilíneo de águas poluídas (não custa lembrar que a construção de grandes avenidas paga “melhores comissões” que a construção de redes coletoras de esgotos), só lembrado pela população nos dias de chuva, quando a nítida falta de capacidade do seu canal extravasa águas por todos os lados e produz algumas das maiores enchentes da cidade.

Pois é: coisa de grande metrópole…

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