AS VIOLENTAS ENCHENTES DO IPOJUCA E DE OUTROS RIOS PERNAMBUCANOS

Enchente Rio Ipojuca

Os maiores e principais rios da faixa Leste do Estado de Pernambuco – rios Capibaribe, Ipojuca, Sirinhaém e Una, têm suas nascentes no Agreste, uma das Regiões brasileiras com os mais baixos índices pluviométricos. Uma característica comum a todos estes rios é o fato de serem cursos temporários nos trechos iniciais – somente no período das chuvas, conhecido como Inverno na Região Nordeste, é que costumam apresentar água corrente; ao longo da maior parte do ano, esses trechos se apresentam ou secos ou na forma de pequenos filetes de água. Conforme estes rios seguem seus cursos em direção à Zona da Mata, eles passam a receber contribuições de inúmeros afluentes e assim passam a ser cursos permanentes. Uma outra característica comum a todos esses rios é que, ao longo das últimas décadas, eles têm provocado enchentes e alagamentos cada vez mais violentos nas cidades que atravessam. Curiosamente, os volumes das chuvas têm se mantido dentro da faixa da normalidade histórica, ou seja, as quantidades de água que chegam aos rios são praticamente as mesmas. Então, como se explicam as enchentes e alagamentos cada vez mais frequentes nestes rios?

Desastres naturais ligados às chuvas representam a imensa maioria dos eventos catastróficos ocorridos no Brasil – nos últimos 50 anos, as inundações têm sido as responsáveis por inúmeras tragédias, especialmente nas áreas urbanas: elas representam 60% dos desastres naturais registrados no período. Na origem destes eventos encontramos alguns componentes que se repetem em todo o território nacional: a destruição de grandes áreas florestais para a implantação de grandes lavouras, o que produziu diversas mudanças no ciclo das águas, e também o crescimento desordenado e contínuo das cidades. Vamos entender melhor:

– Sem a cobertura florestal, que com suas raízes facilita a absorção de grandes volumes de águas das chuvas pelo solo, houve um grande aumento na velocidade dos fluxos de água (enxurradas) na direção dos corpos d’água receptores, que passaram a receber volumes de água cada vez maiores e em menor tempo;

– Os solos expostos e sem a proteção da vegetação passam a sofrer processos acelerados de erosão, onde grandes volumes de sedimentos, especialmente do precioso solo fértil, são arrastados para dentro da bacia dos cursos d’água e se acumulam no fundo dos canais. Essa sedimentação ou assoreamento vai reduzindo a área de armazenamento de água na calha dos rios – cada vez que chove e há um aumento no volume de águas nestes rios, essas águas excedentes avançam contra as áreas lindeiras das margens em busca de espaço: surgem assim as enchentes;

– O avanço cada vez maior das águas contra as margens produz a destruição dos barrancos dos rios e um aumento cada vez maior de sedimentos na calha do rio – aqui se incluem os barrancos artificiais criados nas áreas de extração de areia e que são varridos pelas águas durante os períodos de cheia dos rios;

– Além do assoreamento por sedimentos, as calhas dos rios acabaram transformadas em pontos de descarte de lixo e resíduos das cidades, indo desde garrafas e peças plásticas até carcaças de automóveis e eletrodomésticos, lançados nas suas águas sem qualquer constrangimento pelas populações;

– Dentro dos perímetros urbanos das cidades, as áreas de várzea e as margens dos rios foram transformadas em áreas de ocupação por populações de baixíssima renda. Sem outras alternativas, essas populações, em grande parte formada por migrantes que foram forçados a abandonar as áreas rurais, ocuparam inadvertidamente estas áreas, onde construíram casas precárias e realizaram mudanças como aterros, muros de arrimo ou construções que estrangularam o curso do rio. Nos períodos de chuvas, estas obstruções no canal do rio têm reflexos em toda a cidade, que passou a sofrer com inundações e alagamentos generalizados. Aqui vale lembrar que as margens e áreas de várzeas formam uma “reserva” de espaço para absorver os excedentes de águas nos períodos de cheias – uma vez que estes espaços foram invadidos por construções e “roubaram” as áreas de reserva dos rios, estes não têm outra alternativa senão avançar contra outros espaços livres dentro dos limites das cidades. A impermeabilização dos solos das cidades com construções, cimento e asfalto também reduz a absorção de água pelos solos e produz um aumento das enxurradas superficiais: a soma destes problemas cria as enchentes e os alagamentos nas ruas, avenidas e casas que assistimos ano após ano nos períodos das chuvas.

Aos problemas das enchentes deve-se somar a poluição das águas provocada pelo aumento dos lançamentos de esgotos domésticos, industriais e de resíduos de origem agrícola como os fertilizantes e agrotóxicos – além de todos os transtornos e problemas causados pelas enchentes nos logradouros públicos e nas residências dos moradores, a presença dos mais diferentes tipos de poluentes nas águas aumenta os riscos de contaminação dos moradores com doenças de veiculação hídrica como a diarreia, leptospirose, hepatite e esquistossomose.

Na bacia hidrográfica do rio Ipojuca, e em outras bacias da faixa Leste do Estado de Pernambuco, são estas as causas que têm provocado um aumento sistemático das enchentes nas cidades, muitas delas com grande poder de destruição. A derrubada de grandes extensões de matas, especialmente do trecho da Mata Atlântica de Pernambuco durante o ciclo da cana-de-açúcar, e de matas na Região do Agreste, expôs os solos a um processo contínuo de erosão, que levou ao assoreamento e entulhamento de grandes extensões das calhas dos rios. A falta da cobertura vegetal também produziu efeitos na redução da absorção de água pelos solos e aumento do volume de águas de chuvas que chegam aos riachos e rios em grande velocidade. Além dos problemas de enchentes, a não absorção dessa água das chuvas pelos solos do Agreste terá como uma de suas consequências uma baixa recarga dos lençóis subterrâneos e aquíferos da região, comprometendo a captação de água nas cacimbas escavadas pelas populações sertanejas, além de prejuízos para as nascentes de muitos cursos de água intermitentes dos sertões.

As diversas crises vividas pela indústria canavieira em Pernambuco nas últimas décadas e também as muitas catástrofes geradas por fortes secas, produziu um forte fluxo migratório de populações rurais na direção das cidades do Estado.  Um exemplo que podemos citar é o município de Escada – dados do Censo Estatístico de 2010 do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mostram que houve uma alteração importante no perfil da população: 85% da população do município está concentrada atualmente na área urbana de Escada e somente 15% da população continua vivendo na área rural. Esse mesmo padrão de “inchaço” urbano pode ser verificado em outras cidades da bacia hidrográfica do rio Ipojuca e de outros importantes rios pernambucanos. Sem um planejamento urbano adequado e políticas de construção de moradias populares, essas populações buscam as áreas marginais e de várzeas de rios como o Ipojuca para construir suas moradias, criando todos os tipos de alterações na calha do rio e prejudicando o fluxo natural das águas. O resultado final – enchentes cada vez mais fortes e crescentes nas cidades cruzadas por estes rios.

Como foi possível apresentar resumidamente em diversas postagens anteriores, todos os esforços das populações humanas não se limitaram apenas em transformar o rio Ipojuca no terceiro rio mais poluído do Brasil – esses esforços também ajudaram a transformar um rio tranquilo e serviçal em um rio violento e com enchentes de alto poder de destruição nos períodos das chuvas (a foto mostra uma forte enchente em Caruaru em maio de 2017).

Cabe uma pergunta: são estes rios poluídos e destrutivos, como outros tantos por todo o Brasil, que vamos deixar como herança para as nossas futuras gerações?

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