A RESILIÊNCIA DA VIDA NAS ÁGUAS DO RIO CAPIBARIBE

Jacaré-do-papo-amarelo

O rio Tietê, como deve ser do conhecimento de todos, é o rio mais poluído do Brasil a muitos e muitos anos. Todos nós, paulistanos de nascimento ou por adoção, ouvíamos ecologistas e especialistas falando dos problemas causados pela poluição das águas, que em águas tão poluídas não poderia existir vida e que o futuro da Região Metropolitana de São Paulo seria catastrófico pela falta de fontes limpas para a captação de água para o abastecimento da população.

Certo dia, no mês de agosto de 1990, um grupo de moradores da Zona Norte de São Paulo começou a observar um movimento diferente nas águas do rio Tietê: foi avistado um animal nadando nas águas do rio entre as pontes da Vila Mariana e da Vila Guilherme. O corpo de Bombeiros foi acionado e rapidamente verificaram que se tratava de um jacaré-de-papo-amarelo, uma espécie que já tinha sido abundante no rio Tietê e que há décadas não era vista nestas águas. A operação de captura do animal durou horas, com o jacaré dando um verdadeiro “baile” nos bombeiros – a Marginal Tietê literalmente parou, com centenas e mais centenas de pessoas tentando ver o Jacaré Teimoso, apelido dado pelos populares da plateia. Foram necessários dois meses de trabalho par que se conseguisse capturar o Teimoso, que foi levado para uma área de preservação ambiental em um parque.

A saga do Jacaré Teimoso foi marco na história moderna do rio Tietê, que nos primeiros séculos da existência da cidade e do próprio Brasil teve importância ímpar, mas que acabou transformando em uma gigantesca latrina a céu aberto. A teimosia do jacaré em sobreviver num corpo d’água, onde os especialistas afirmavam ser impossível a existência de vida, causou uma comoção coletiva e uma mudança de paradigma na relação da população com o Tietê, resultando numa enorme pressão sobre as autoridades estaduais pela recuperação da qualidade ambiental do rio. Apesar de continuar liderando a lista dos rios mais poluídos do país, muitos esforços já foram feitos e o grau de poluição do Tietê já diminuiu muito – a mancha de poluição que era percebida a quase 300 km de distância da Região Metropolitana a 30 anos atrás, agora está reduzida a pouco mais de 100 km. Grandes bandos de capivaras passaram a ser vistos nadando nas águas dos rios Tietê e Pinheiros, garças e outras aves passaram a viver e se alimentar nas margens e até uma espécie de bagre foi encontrada na região do Parque Anhembi, um dos trechos mais poluídos do rio. A força da vida é muito maior do que todos nós podemos imaginar.

O maltratado e poluído rio Capibaribe, que recebe em suas águas o despejo de esgotos domésticos de milhões de pernambucanos, resíduos de fertilizantes e de defensivos agrícolas de imensos canaviais, as águas coloridas de um sem números de lavanderias, muito lixo descartado pelas populações e resíduos de inúmeras indústrias, também apresenta, surpreendentemente, uma quantidade admirável de vida em suas águas. Estudo realizado nos últimos anos num trecho de 15 km da área central da cidade do Recife encontrou, ao menos, 7 espécies de répteis, 9 de mamíferos, 10 de crustáceos-moluscos, 25 de peixes e 40 espécies de aves. Essa impressionante fauna, vivendo em um rio considerado morto por grande parte da população, é tão surpreendente quanto a sobrevivência do Jacaré Teimoso nas águas do rio Tietê.

A lista dos animais encontrados no rio Capibaribe começa com o jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), réptil ameaçado de extinção e, não acaso, da mesma família do Teimoso. Os jacarés mais jovens se alimentam de insetos, caramujos, sapos, rãs e crustáceos; quando adultos caçam presas maiores como tartarugas, peixes, aves. A presença dos jacarés no rio Capibaribe, por si só, já é um indicador positivo – como se trata de um predador que se encontra no topo da cadeia alimentar, ele sinaliza que existem animais menores vivendo nas águas do Capibaribe. Também merecem destaque as capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris), o maior roedor do mundo e que dá nome ao Capibaribe – o “rio das capivaras” em língua tupi. Muito numerosas em tempos passados, as capivaras se alimentam com a grama que cresce nas margens e têm sido vistas com frequência cada vez menor. Uma outra espécie encontrada é uma verdadeira raridade: a garça-azul (Egretta caerulea), foi encontrada no centro da cidade, atrás do Palácio do Governo. Essa espécie de garça é muito comum em regiões do Sul do Brasil, mas raramente é avistada em regiões de mangue do Nordeste.

Outras espécies encontradas no rio Capibaribe e que merecem destaque são a lontra (Lutra longicaudis) e a minúscula andorinha-do-rio (Tachycineta albiventer). Em alguns pontos das margens foram encontrados ninhais, grande concentração de ninhos de aves, no meio da vegetação. Nas águas poluídas do rio, em meio ao esgoto e aos baixíssimos níveis de oxigênio, foram encontrados peixes como o camurim (Centropomus spp.) e carapeba (Eugerres brasilianus) – estudos mais amplos, realizados ao longo de 15 anos, já identificaram um total de 38 espécies de peixes vivendo em toda a bacia hidrográfica do Capibaribe. Entre as espécies de crustáceos-moluscos encontrados nas águas e manguezais do Capibaribe encontramos os mariscos, ostras, caranguejos e sururus, espécies que ainda hoje garantem a sobrevivência de inúmeras famílias de baixa renda – homens, mulheres e crianças entram em contato diário com as águas poluídas do rio na captura destes animais e assim conseguem garantir o seu sustento. É impossível não relacionar a vida destas pessoas com o romance Homens e Caranguejos, publicado em 1967 e escrito pelo médico e cientista Josué de Castro, onde é mostrado o dia a dia de uma comunidade imprensada no manguezal, entre o rio e a grande cidade.

Um estudo paralelo sobre a flora do Rio Capibaribe no mesmo trecho já identificou 74 espécies de plantas arbóreas, arbustivas e aquáticas, sendo 45 espécies de plantas nativas do Brasil e 29 espécies exóticas, originárias de diferentes países. Todas essas descobertas demonstram a força e a resiliência da vida nas águas poluídas do rio e nos dá uma demonstração clara de tudo o que já foi perdido e destruído ao longo de quase cinco séculos de ocupação das margens do rio Capibaribe por gente que se considera “civilizada”.

Que a vida continue “teimando” em viver e sobreviver nas águas e margens do rio Capibaribe.

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