COMO ASSOREAR E ENTULHAR A CALHA DE UM RIO

Assoreamento do Rio São Francisco

No dia 5 de novembro de 2015, o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração no distrito de Bento Gonçalves, cidade de Mariana – Minas Gerais, mudou para sempre a história do Rio Doce. Calcula-se que 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos minerais e muita lama vazaram após o colapso da barragem, soterrando praticamente todo o pequeno vilarejo e avançando com extrema voracidade e velocidade através da calha do córrego Santarém, atingindo a seguir o Rio Gualaxo e o Rio Doce, cuja bacia hidrográfica abrange 230 municípios nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo. O fluxo de lama e rejeitos percorreu toda extensão do Rio Doce atingindo o Oceano Atlântico no dia 22 de novembro. No acidente morreram 19 pessoas, entre trabalhadores da empresa responsável pela barragem e moradores do distrito de Bento Rodrigues. Este “acidente” é considerado o maior do mundo na área da mineração e também o maior acidente ambiental já registrado no Brasil. Passados um ano e meio da tragédia, pode-se afirmar que pouca coisa melhorou nas condições ambientais do Rio Doce e na vida de milhares de famílias afetadas pela tragédia, que criou problemas desde a captação de água para o abastecimento de dezenas de cidades até na inviabilização do trabalho de pescadores.

O acidente no Rio Doce foi um caso extremo – o entulhamento e assoreamento das águas foi muito rápido: em pouco mais de 15 dias todo o meio biótico e abiótico do rio foi comprometido e, segundo alguns especialistas, a recuperação “possível” pode levar até um século; o termo possível foi usado porque muito do que foi destruído não poderá ser recuperado: das 80 espécies de peixes catalogados na bacia hidrográfica do Rio Doce, 10 já se apresentavam sob risco de extinção e 11 espécies eram consideradas endêmicas do rio – caso populações dessas espécies de peixes ameaçadas e endêmicas não tenham conseguido sobreviver em rios tributários do Rio Doce, elas estarão perdidas para sempre.

Antes de prosseguirmos, há algumas definições importantes: assoreamento de um rio diz respeito ao acúmulo de partículas como argila, silte e areia em volumes muito superiores aos naturais, podendo resultar na redução da profundidade da lâmina d’água ou na formação de bancos de areia. O assoreamento, normalmente, é provocado por desmatamentos, por atividades agrícolas e mineradoras. Entulhamento diz respeito a todo o tipo de resíduos sólidos como plásticos, latas, restos de materiais de construção, eletrodomésticos, pneus, madeiras entre outros tipos de materiais que são jogados diretamente nos rios pelas populações ou que são carreados de outras regiões para a calha de um corpo d’água pelas chuvas.

Na bacia hidrográfica do Rio São Francisco, a situação de degradação ambiental por assoreamento e entulhamento com todo o tipo de resíduos está muito longe da gravidade vivida pelo Rio Doce, porém a situação é bastante preocupante. Falando-se apenas nos riscos apresentados pelas barragens de rejeitos de mineração – lembrando que o Estado é um dos maiores produtores de minérios do país, existem em Minas Gerais, pelo menos, 317 barragens de rejeitos registradas no DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral, o que representa 48% do total de instalações similares de todo o Brasil. Dados do próprio órgão informam que 95 dessas barragens não constam no Plano Nacional de Segurança de Barragens e 37% do total das estruturas não são fiscalizadas pelo órgão. Considerando que a bacia hidrográfica do Rio São Francisco abrange uma parte bastante considerável do Estado de Minas Gerais, o risco de um “acidente” nos moldes do ocorrido no Rio Doce é extremamente preocupante.

Falando em mineração, é importante lembrarmos que os problemas causados pela atividade são históricos na região. O chamado Ciclo do Ouro em Minas Gerais durante o período colonial é um bom exemplo para que você entenda o processo de assoreamento e entulhamento da calha de um rio. Calcula-se que durante o período foram retiradas das minas e enviadas para Portugal, conforme a fonte, entre 800 e 1.000 toneladas de ouro. É evidente que nunca se terá certeza do volume total de ouro extraído das minas por que muita coisa foi desviada: você, durante as aulas dos tempos do ensino fundamental, deve ter ouvido muitas histórias sobre os “santos do pau oco” – esculturas de santos com compartimentos secretos, usados para se desviar ouro das autoridades portuguesas. Vamos usar o valor oficial: a mineração moderna usa um parâmetro que diz ser necessário vasculhar 1 tonelada de terra e/ou minérios para se obter 5 gramas de ouro – adotando-se esse mesmo parâmetro e considerando que foram extraídas de 800 a 1.000 toneladas de ouro na região das Minas Geraes no período, estaremos admitindo que foram movimentadas entre 160 mil e 200 mil toneladas de terra e minérios nesta exploração, aproximadamente três vezes o vazamento de resíduos que matou o Rio Doce. Considerando que foi uma exploração altamente predatória, podemos afirmar que a maior parte desse volume de resíduos acabou carreada para os rios, provocando todo o tipo de assoreamento e entulhamento dos canais. Segundo ribeirinhos e pescadores do Rio São Francisco, existiam trechos do rio que tinham profundidades de até 20 metros no passado e que hoje em dia se tornaram extremamente rasos, o que demonstra o grau de assoreamento do rio. Conforme comentamos no último post, a redução da profundidade da lâmina d’água do Velho Chico é uma das causas do desaparecimento/extinção de  várias espécies de peixes como o surubim.

Nos próximos posts vamos falar de outros causadores de assoreamento que estão provocando imensos problemas no Velho Chico – o desmatamento e a agricultura.

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