RIO HAN: O TIETÊ COREANO

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A cidade de Seul, na Coreia do Sul, tem algumas similaridades com a cidade de São Paulo: populações de tamanho muito próximo, ambas as cidades sofreram um crescimento explosivo a partir de meados do século XX, são cidades de forte economia e perfil internacional, ambas são atravessadas por um grande rio poluído – no caso da cidade de São Paulo, essa informação continua sendo verdadeira com o Rio Tietê ainda em agonia devido a poluição; o Rio Han, que atravessa a cidade de Seul em um trecho de 41 km, já saiu dessa condição há alguns anos e hoje é um rio limpo, com suas águas utilizadas para o abastecimento, para o lazer e para o transporte.

Nas décadas de 1.960 e de 1.970, a Coreia enfrentou um expressivo crescimento econômico, muito similar ao Milagre Econômico Brasileiro que vivemos nos anos de 1.970. Seul cresceu como nunca e, como é de praxe nestas situações, o Rio Han pagou muito caro: poluição por esgotos domésticos e industriais, margens retificadas para a construção de grandes avenidas marginais: a população, focada num futuro promissor, virou as costas para o Rio. Mas os coreanos de Seul se mostraram diferentes dos brasileiros de São Paulo – em um dado momento perceberam o tamanho da tragédia do Rio Han e deram um basta nas agressões; desse nosso lado do mundo, continuamos a ver a lenta agonia do Rio Tietê e fingimos acreditar que nossos governantes estão tomando providências para reverter esse quadro terminal.

Em 1999, uma das ilhas do Rio Han foi transformada em área de proteção ambiental e teve o acesso de visitantes proibidos – essa foi uma das primeiras iniciativas que levaram ao projeto de despoluição do rio a partir de meados da década de 2.000 e quem tem previsão de estar totalmente concluído no ano de 2.033. Uma das primeiras providências efetivas foi o início do controle da qualidade das águas dos 40 córregos e riachos que atravessam a cidade de Seul e desaguam no Rio Han – a cidade possui seis Estações de Tratamento de Esgotos e era preciso garantir que nenhum lançamento irregular atingisse o Han. Outra providência importante foi a proibição da instalação de qualquer tipo de empresa poluidora ao longo das margens do rio.

Uma segunda frente de trabalho procurou aproximar os moradores da cidade do seu rio – entre parques novos e reformados já são 12 unidades nas margens do rio – um deles, o Seul Forest tem 1 milhão de metros quadrados, tamanho equivalente ao nosso Parque do Ibirapuera. As margens do Rio Han foram dotadas de espaços públicos para corridas, ciclovias, áreas de piquenique além de toda uma gama de esportes náuticos realizados dentro das águas do rio. Passeios de barco e restaurantes flutuantes transformaram as águas do Han num ambiente para passeios das famílias.

Apesar de já se encontrarem num estágio que provoca inveja em nós paulistanos, os coreanos pensam grande: querem elevar as áreas naturais que hoje ocupam 14% das margens do Rio Han para impressionantes 90%. Como? Construindo túneis  que possam substituir as atuais vias marginais, liberando assim os espaços hoje ocupados pelas pistas para a implantação de áreas cobertas por vegetação, facilitando ainda mais o acesso e a aproximação dos moradores de Seul de seu rio. Se nós de São Paulo ou de qualquer outra cidade brasileira conseguíssemos fazer algo semelhante, levando as populações para perto das várzeas dos seus rios, com certeza a pressão sobre os nossos dirigentes políticos aumentaria imensamente e, com certeza, as coisas começariam a acontecer.

Na véspera do primeiro aniversário da catástrofe ambiental do Rio Doce, é reconfortante saber que um grande rio pode renascer da lama – mesmo que seja um rio do outro lado do mundo.

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