OS GRANDES DESLIZAMENTOS DE ENCOSTAS NA REGIÃO SERRANA DO RIO DE JANEIRO EM 2011

A prefeitura de Teresópolis confirmou a morte de mais 25 pessoas em decorrência da chuva iniciada na noite de terça (11). Só no município, a combinação de chuva e deslizamento provocou a morte de um total de 114 pessoas. Outras 30 pessoas morreram em outr

Na última postagem falamos da belíssima região da Serra dos Órgãos, no interior do Estado do Rio de Janeiro, onde destacamos as paisagens, os recursos hídricos e a biodiversidade das matas. Desde meados do século XIX, quando a Família Imperial Brasileira se encantou pela Região Serrana, as cidades e vilas que surgiram na região foram transformados em refúgios de verão para a alta sociedade da Corte. Como exemplo podemos citar a cidade de Petrópolis, que foi o marco inicial desse tipo de ocupação e foi fundada por iniciativa do Imperador Dom Pedro II após a assinatura de um decreto em 1843. Esse também é o caso da cidade de Teresópolis, que surgiu na década de 1890.

Infelizmente, o crescimento dessas e de outras cidades que foram surgindo por toda a Região Serrana do Rio de Janeiro ao longo do século XX, alterou profundamente essa antiga concepção de “refúgio de verão”. Problemas urbanos nas áreas de saneamento, transporte, saúde e educação foram surgindo por todos os lados e aproximando essas cidades da realidade de outras tantas cidades de todas as regiões do Brasil. Num ponto, em particular, os problemas das cidades da Região Serrana se destacam entre todas as outras: a ocupação desordenada de morros íngremes transformou extensa áreas urbanas em verdadeiras armadilhas. No verão de 2011, desgraçadamente, centenas de moradores dessas cidades foram vitimados por essas armadilhas e morreram soterrados por violentos deslizamentos de encostas. 

Essa tragédia, que tem um lugar de destaque entre todos os grandes desastres naturais já ocorridos no Brasil, deixou um rastro de destruição por toda a Região Serrana do Rio de Janeiro, com especial ênfase às cidades de Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo, Sumidouro, São José do Vale do Rio Preto e Bom Jardim, além de ter provocado reflexos na cidade de Areal, na região Centro-Sul do Estado. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro, foram registradas 916 mortes e perto de 345 desaparecidos nessa tragédia.

Foram registradas 428 mortes em Nova Friburgo, 382 em Teresópolis, 71 em Petrópolis, 21 em Sumidouro, 4 em São José do Vale do Rio Preto e 1 morte em Bom JardimOs números de pessoas desaparecidas na tragédia também são impressionantes: foram 45 em Petrópolis, 180 em Teresópolis, 85 em Nova Friburgo e 2 em Sumidouro. Outras 32 pessoas que moravam em pequenos distritos da Região também engrossam as estatísticas de desaparecidas. Os dados da Defesa Civil registram que aproximadamente 35 mil pessoas ficaram desabrigadas em toda a Região Serrana. Segundo dados da EMOP – Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro, foram registrados mais de 770 deslizamentos de encostas, especialmente entre os dias 11 e 12 de janeiro, período em que fortíssimas chuvas castigaram toda a Região Serrana.

Chuvas fortes em encostas ocupadas por construções, conforme já comentamos em diversas postagens aqui no blog, formam uma combinação com grande potencial de desastre. Conforme os solos vão ficando saturados de água, a terra se transforma em lama e começa a escorrer, desestabilizando as fundações das construções, que mais cedo ou mais tarde vão acabar ruindo e escorregando. Rochas soltas encravadas nesses solos, como aconteceu recentemente no deslizamento de uma encosta na cidade de Niterói, também podem perder seus pontos de apoio e rolar ribanceira abaixo, levando qualquer construção que encontre pelo caminho. Por fim, as árvores têm as suas raízes expostas e perdem a sua sustentação. As avalanches que surgem misturam terras, pedras, árvores e entulhos das construções – quem ou o quê estiver no caminho dessa massa destrutiva terá muito poucas chances de sobreviver e/ou escapar inteiro.

Uma das cidades mais fortemente atingidas pelos deslizamentos foi Nova Friburgo (vide foto), um dos mais antigos povoamentos da região, que nasceu em 1819 como uma colônia de imigrantes suíços. A cidade, que por muitas décadas ostentou orgulhosamente o título de “Suíça Brasileira” por causa da sua origem, nos últimos anos do século XX passou a ser mais conhecida como “A Capital Nacional da Moda Íntima” – cerca de um quarto de toda a produção nacional de calcinhas femininas e sutiãs sai das confecções da cidade. O crescimento do número de pequenas e médias empresas de confecção passou a atrair um número cada vez maior de novos moradores que buscavam trabalho – e sem espaço físico para crescer adequadamente, a mancha urbana da cidade começou a “subir” pelas encostas dos morros, criando assim todas as condições para a tragédia de 2011.

Além dos deslizamentos e da destruição de centenas de casas, as populações dessas cidades enfrentaram um longo período de isolamento. Deslizamentos de encostas de morros ao largo das estradas bloquearam os acessos por via terrestre, impedindo a chegada de equipes de emergência e de suprimentos. Diversos rios tiveram seus leitos bloqueados pelo carreamento de terra e entulhos, o que produziu enchentes em extensas áreas, aumentando ainda mais o sofrimento e as dificuldades de milhares de vítimas. A recuperação da infraestrutura das cidades atingidas levou vários meses – em alguns casos, anos.

Infelizmente, aqui em nosso país, temos uma dificuldade muito grande em aprender alguma coisa após a ocorrência de tragédias dessa magnitude. Passados quase oito anos desde aqueles terríveis dias de 2011, muitas das obras de prevenção a futuros desastres acabaram não sendo concluídas. Diversas áreas de alto risco em encostas de morros de diversas dessas cidades, que deveriam ter transferido suas populações para locais mais seguros, continuam ocupadas por moradias. A cada novo período de chuvas que chega aqui em nosso país, há muita gente que sente um frio na espinha e fica se perguntando se será desta vez que sua casa vai rolar morro abaixo – muitos desses são moradores das encostas na Região Serrana do Rio de Janeiro.

A recente prisão do ex-governador do Rio de Janeiro e de muitas “otoridades” do Estado por corrupção e desvio de dinheiro, ajuda a explicar muitas obras e serviços que deixaram de ser realizados na Região Serrana. Torçamos todos para que o novo Governo recém eleito consiga retomar e concluir muitas dessas obras, não só na Região Serrana como em outras áreas de risco em encostas de todo o Estado do Rio de Janeiro, que aliás, são muitas. Oxalá!

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