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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

AVES MIGRATÓRIAS DA AMÉRICA DO NORTE ESTÃO FICANDO MENORES POR CONTA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS 

Estudos realizados por pesquisadores de universidades dos Estados Unidos chegaram a uma constatação surpreendente: as aves migratórias da América do Norte estão encolhendo por conta das mudanças climáticas. E isso não é tudo – a mudança está afetando mais as aves que tem cérebros menores. 

A principal fonte de pesquisa foram os dados coletados pelo Museu Field da cidade de Chicago. Desde a década de 1970, esse museu vem coletando e catalogando pássaros que morrem ao se chocar contra as vidraças dos grandes arranha-céus da cidade. Os dados incluem informações de 70 mil pássaros coletados entre 1978 e 2016. 

A cidade de Chicago fica no caminho de diversas rotas migratórias de aves que, todos os anos, viajam do Canadá para a América Latina em busca de um clima mais quente e de alimentos ante a chegada do rigoroso inverno local. Muitas dessas aves acabam encontrando a morte ao se chocarem contra as cortinas de vidro dos prédios. 

O estudo comparativo do tamanho e peso de aves da mesma espécie ao longo do tempo mostrou que os animais estão ficando menores com o passar do tempo. Segundo os pesquisadores, essa diminuição de tamanho é uma resposta direta às mudanças climáticas – com temperaturas ambientais mais altas, as aves não precisam ter corpos tão grandes. Corpos grandes, que conservam melhor o calor, são fundamentais para a sobrevivência das aves em locais muito frios. 

Outra constatação interessante – a envergadura das asas dessas aves também pode estar aumentando. Corpos menores tendem a gerar menos energia para o voo a longas distancias nas migrações e o aumento das asas é uma forma de se aumentar a eficiência do voo dessas aves. 

Os estudos também indicam que muitos animais estão desenvolvendo bicos e penas maiores, características que permitem uma melhor regulação da temperatura corporal. O ouvido das aves também está ficando mais sensível. Estudos similares feitos com morcegos, musaranhos e até com seres humanos também vem sugerindo mudanças morfológicas por causa das mudanças climáticas. 

Um exemplo rápido: populações humanas que vivem em regiões com clima quente e úmido tendem a ter um nariz maior do que habitantes de regiões frias e secas, onde um nariz mais estreito ajuda a umedecer e aquecer o ar antes dele descer para os pulmões. Essa mudança morfológica foi o resultado de dezenas de milhares de anos de adaptação dos diferentes povos ao clima de suas respectivas regiões. Caso uma região fria comece a ficar quente, há uma tendência de se repetir essa mudança nos narizes de seus habitantes

Um detalhe polemico desses estudos faz referência as aves com cérebros maiores em relação ao tamanho do corpo que, segundo as análises, estão encolhendo menos que as aves com cérebros menores. Não existe um consenso entre os pesquisadores sobre isso. 

Segundo conclusões de pesquisadores da Universidade de Washington, aves com cérebros maiores possuem uma maior flexibilidade e estabilidade comportamental, além de uma maior capacidade de aprendizado, o que contribui para uma maior expectativa de vida. 

Esse conjunto de características permite que essas aves encontrem micro habitats com temperaturas mais baixas, o que estaria evitando a necessidade de redução do volume corporal. Muitos pesquisadores não acreditam nessa explicação e estão buscando outras respostas. 

As aves formam um dos grupos animais de maior êxito evolutivo na história natural. Elas são encontradas em todos os continentes – inclusive na gélida Antártida, além de ilhas completamente isoladas no meio dos grandes oceanos. Em cada um desses diferentes habitats, as aves se adaptaram ao longo de milhões de anos para viver em climas e vegetações dos mais diversos. Mudanças ambientais bruscas podem ser fatais para esses animais. 

Um grande exemplo do sucesso evolutivo desses animais foram as moas da Nova Zelândia, um grupo de aves que era formado por nove espécies de seis gêneros. Essas aves não voavam e as duas maiores espécies, a Dinornis robustus e a Dinornis novaezelandiae podiam atingir uma altura de 3,6 metros com o pescoço estendido e um peso de 230 kg. Esses animais reinaram absolutos nessas ilhas por dezenas de milhões de anos. 

Quando os polinésios desembarcaram nas ilhas neozelandezas por volta do ano 1280, estima-se que existiam ali cerca de 58 mil moas. No ano 1440, todas as moas já haviam desaparecido devido à caça excessiva. Esses animais não conseguiram se adaptar rapidamente às mudanças ambientais criadas pela chegada dos seres humanos. 

Um destino semelhante, desgraçadamente, parece estar reservado ao kakapo, uma espécie de papagaio da Nova Zelândia que não voa e que chega a pesar até 4 kg. Essa ave tinha como único predador natural a águia-de-haast, uma espécie local que também foi levada à extinção pelos maoris por volta do ano 1400. A caça para o aproveitamento das penas (que felizmente já foi abolida há muito tempo) e a introdução de espécies invasoras como raposas, ratos e gatos domésticos vem dizimando gradativamente a espécie. 

Outras espécies de aves extremamente adaptadas para uma vida em condições ambientais muito específicas são os pinguins. Essas aves perderam a capacidade de voar ao longo de seu processo evolutivo, porém, se adaptaram como nenhuma outra a uma vida semiaquática. As diferentes espécies de pinguins são praticamente exclusivas do Hemisfério Sul, a exceção de pinguins-de-Humbolt que vivem nas Ilhas Galápagos. 

As maiores populações dessas aves são encontradas no continente Antártico, onde os animais se adaptaram perfeitamente a condições climáticas extremas, suportando temperaturas inferiores a –20 C. Tente imaginar quais serão as consequências do gradual aquecimento que já se verifica nas águas e terras da Antártica para esses animais… 

Todas essas mudanças morfológicas que estão sendo observadas nessas aves migratórias são uma resposta evolutiva natural às mudanças ambientais. A questão que fica em aberto – haverá tempo hábil para mudanças bruscas em tão pouco tempo? 

ACONTECEU DE NOVO: MANCHAS DE ÓLEO ATINGEM 64 PRAIAS DO CEARÁ

Ao menos 64 praias do litoral do Ceará estão apresentando sinais de contaminação por óleo de acordo com um levantamento feito pela SEMACE – Secretaria do Meio Ambiente do Ceará, que foi divulgado no último dia 11 de fevereiro. Nessa segunda-feira, dia 14, será divulgado um novo relatório com atualizações. 

As primeiras informações sobre manchas de óleo em praias cearenses começaram a circular no dia 25 de janeiro. As manchas foram avistadas primeiro na famosa praia de Canoa Quebrada, no município de Aracati. Depois foram feitos registros em Fortaleza, Aquiraz, Fortim e Beberibe. 

O Governo do Ceará acionou equipes de diversos órgãos para remover o óleo das praias o mais rápido possível. Segundo as informações já divulgadas, cerca de 4 mil litros de óleo foram coletados nas praias de Aracati, Fortaleza, Caucaia e Trairi. Nessa segunda-feira, dia 14, será feita a limpeza de praias em Aquiraz e Fortim. 

Desde o dia 11, um avião de patrulha marítima Poseidon P3 da Força Aérea Brasileira, aeronave equipada com diversos sensores especializados para detecção de vazamentos de óleo no mar, está sobrevoando a costa dos Estados do Ceará e do Rio Grande do Norte em busca de pistas sobre a origem do vazamento. O IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, através da Coordenação Geral de Emergências Ambientais, está a frente dessas operações. 

Esses vazamentos coincidem com a época da desova de várias espécies de tartarugas marinhas nessa região, o que é uma preocupação a mais para as autoridades. O Governo local fez um pedido para a população entrar em contato com o Instituto Verdeluz caso encontrem tartarugas vivas, mortas ou em ninhos. Caso os animais estejam cobertos por óleo, a orientação é o contato com Aquasis, uma organização não governamental. 

A Marinha do Brasil e o Instituto de Ciências do Mar da UFC – Universidade Federal do Ceará, estão trabalhando com o objetivo de descobrir a origem dessas manchas de óleo. Amostras foram coletadas e analisadas em laboratório – os resultados indicam que o óleo encontrado não é do mesmo tipo encontrado em uma extensa faixa do litoral nordestino em 2019. 

Em 30 de agosto de 2019, grandes manchas de óleo foram encontradas nas praias de Tambaba, Jacumã e Gramame, no litoral da Paraíba. Ao longo das primeiras semanas de setembro, outras manchas passaram a surgir ao longo de uma faixa de 2 mil km, atingindo praias nos Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.  

Vestígios de óleo chegaram até o Arquipélago de Abrolhos, no Sul da Bahia, e em praias dos Estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro. Esse incidente é considerado como o maior desastre ambiental em águas territoriais brasileiras. 

Uma das grandes preocupações há época eram os manguezais e arrecifes, biomas encontrados em toda a costa da Região Nordeste e que são fundamentais para a reprodução de peixes, crustáceos e moluscos. Esses dois biomas são as “maternidades” do oceano e a maior parte das espécies marinhas dependem de sua preservação para continuar sobrevivendo. 

Segundo estudos científicos, cerca de 70% das espécies marinhas utilizadas para alimentação humana, onde se incluem peixes, siris, camarões, lagostins, caranguejos, entre outras espécies, dependem das áreas de mangue para a sua reprodução.  

No caso dos recifes de coral ou arrecifes como se diz no Nordeste, as estimavas afirmam que 50% de todas as espécies de peixes do mundo vivam nesse tipo de formação, onde encontram alimentos e áreas abrigadas para a reprodução. Esses números nos dão uma ideia dos riscos de derramamentos de óleo nas águas dessa região. 

Depois de mais de dois anos de investigação, a Polícia Federal concluiu que os vazamentos de óleo ocorridos em 2019, foram causados por um navio petroleiro de bandeira grega. A embarcação seguia da Venezuela para a África do Sul quando houve o vazamento de mais de 5 mil toneladas de petróleo em uma área a cerca de 700 km da costa do Nordeste. 

Os responsáveis pelo acidente – a empresa proprietária do navio, seus representantes legais, o comandante e o engenheiro-chefe, foram acusados dos crimes de poluição ambiental, não cumprimento das obrigações ambientais e danos às reservas naturais. Medicas jurídicas cabíveis vem sendo tomadas contra esses responsáveis desde ventão. 

Esses novos derramamentos de óleo ainda continuam sendo um mistério e serão necessárias extensivas investigações até que se identifique os responsáveis. Assim como acontece com os aviões, navios cargueiros e petroleiros são obrigados a utilizar o transponder, um equipamento que transmite sinais de rádio indicando a localização das embarcações. 

A Marinha do Brasil monitora todos as embarcações que navegam em águas territoriais brasileiras através dos sinais dos transponders. Utilizando modelos matemáticos que simulam a velocidade e o rumo das correntes marítimas é possível se determinar quais os navios petroleiros que passaram numa determinada região e que podem ter sido os responsáveis pelo vazamento. 

Existe, porém, um problema aqui – nos últimos anos tem crescido o número de navios petroleiros e cargueiros “piratas”, ou seja, que desligam o transponder para não serem detectados. Essas embarcações são contratadas por países que estão sob embargo econômico e que se valem dessa estratégia para tentar enganar as autoridades internacionais. Esse artifício poderá complicar as investigações.

Como trabalham na ilegalidade, essas embarcações também não costumam seguir os procedimentos de segurança para o transporte de cargas perigosas como o petróleo. Tão pouco costumam ter em seus quadros de funcionários gente especializada para esse tipo de trabalho. Acidentes com esses tipos de embarcações não são incomuns. 

Em 2019, as equipes de limpeza que trabalharam nas áreas atingidas em toda a costa da Região Nordeste recolheram mais de 4,5 mil toneladas de óleo. Vamos ver qual será o tamanho dessa nova tragédia. 

O petróleo e seus derivados são de extrema importância para a humanidade e, mesmo com a crescente adoção de combustíveis renováveis, eles terão relevância por muito tempo. É preciso que países e organismo internacionais se esforcem ainda mais para tornar o transporte desses produtos – especialmente pela via marítima, cada vez mais seguros. 

FALANDO UM POUCO SOBRE O PISF – PROGRAMA DE INTEGRAÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO 

Segundo definição dos dicionários, transposição é o ato ou efeito de transpor, de transferir de um local para outro. Falando especificamente da área de recursos hídricos, sistemas de transposição são aqueles que permitem a transferência e/ou o transporte de águas de uma bacia hidrográfica para outra. 

Uma bacia hidrográfica se forma em função do relevo de uma determinada região. Por força da gravidade, as águas das chuvas, de uma nascente ou de um rio sempre vão correr na direção do ponto mais baixo de um território, o que, normalmente, é o nível do mar. Grandes rios como o Amazonas, Mississipi, Nilo e Yangtzé, correm milhares de quilômetros e enfrentam todos os tipos de obstáculos no seu caminho até desaguar nos oceanos. 

Em alguns poucos casos, quando falamos das bacias hidrográficas endorreicas, ou seja, que estão localizadas abaixo do nível do mar ou em áreas completamente fechadas, a água vai se perder por evaporação. Um grande exemplo desse tipo de situação é o Mar Morto, localizado entre Israel e a Jordânia. 

No caso do rio São Francisco, conforme apresentamos resumidamente na postagem anterior, sua bacia hidrográfica se formou ao redor de grandes relevos como a Serra ou Cordilheira do Espinhaço, a Serra Geral de Goiás, a Serra da Tabatinga e a Chapada do Araripe.  

As nascentes mais distantes do rio ficam na Serra da Canastra, no Oeste de Minas Gerais e seguem na direção Norte até atingir a região fronteiriça entre a Bahia e Pernambuco. Por força do relevo, essas águas foram gradativamente abrindo caminho rumo a direção Leste até atingir o Oceano Atlântico na divisa entre Alagoas e Sergipe. 

No projeto do PISF – Programa de Integração do rio São Francisco, uma das primeiras preocupações dos engenheiros e técnicos foi a de criar estações de bombeamento que permitissem vencer os desníveis do terreno, levando assim as águas na direção dos terrenos mais altos no Semiárido dos Estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. 

O projeto é dividido em dois grandes Eixos – o Leste, com uma extensão de 220 km, e o Norte, com uma extensão de 260 km. A vazão total de água prevista para o sistema é de 127 m3 por segundo, sendo de 28 m3 por segundo para o Eixo Leste e de 99 m3 por segundo para o Eixo Norte. 

O Eixo Leste capta as águas do rio São Francisco em Floresta, município pernambucano as margens da Represa de Itaparica, reservatório de águas que alimenta a Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga. Essa Usina fica localizada próxima da cidade de Petrolândia, em Pernambuco, na divisa com o Estado da Bahia. As águas transportadas por esse Eixo, que foi inaugurado em 2017, abastecem a bacia hidrográfica do rio Ipojuca, no agreste pernambucano, além da bacia hidrográfica do rio Paraíba, no Estado da Paraíba. 

Esse Eixo conta com um total de seis estações de bombeamento. Essas estações formam uma espécie de “escada”, onde cada unidade é responsável por bombear ou elevar as águas de um degrau para o outro, ou seja, são essas estações de bombeamento que permitem vencer os desníveis do terreno, elevando as águas a altitudes cada vez maiores. 

Em cada um dos diferentes níveis dos terrenos são formadas represas ou açudes, que acumulam as águas bombeadas vindas dos níveis mais baixos. A partir dessas unidades de armazenamento, as águas correm por força da gravidade através de canais, túneis e aquedutos até atingir uma nova barreira no relevo. Uma outra estação de bombeamento entra em ação, lançando as águas em uma altitude maior e assim sucessivamente. 

No Eixo Norte, que teve o último trecho inaugurado oficialmente há poucos dias atrás, existem 3 estações de bombeamento, 15 reservatórios, 8 aquedutos e 3 túneis. Esse Eixo permite o transporte das águas do rio São Francisco primeiro na direção do Ceará através do sertão de Pernambuco e, depois, para a Paraíba e o Rio Grande do Norte. 

Um exemplo da importância das águas da transposição pode ser visto nas proximidades da cidade de Juazeiro do Norte, famosa em todo Brasil pela figura do Padre Cícero. O Eixo Norte possui uma derivação na região que lança águas na calha do rio Jaguaribe, considerado o maior rio temporário ou intermitente do Brasil. Seguindo a calha desse rio, as águas da transposição vão abastecer o Açude Castanhão, o maior reservatório de abastecimento de água do Nordeste e principal manancial da Região Metropolitana de Fortaleza. 

Além desses dois Eixos principais, o PISF vai contar com uma série de canais e ramais auxiliares que farão o transporte das águas para uma infinidade de cidades e vilas por toda a Região do Semiárido Meridional. Aqui destacam-se o Ramal do Agreste, o Ramal do Apodi e o Ramal do Salgado. 

O Ramal do Agreste, que foi inaugurado em 2021, possui cerca de 70 km de extensão e permite o transporte das águas da transposição entre os municípios de Sertânia e Arcoverde, no Agreste Pernambucano. Esse ramal permite uma vazão de 8 m3 por segundo, atendendo 68 municípios e um total de 2 milhões de habitantes. 

O Ramal do Apodi, que já se encontra com obras em andamento, permitirá o transporte das águas da transposição para 54 municípios, sendo 9 no Ceará, 13 na Paraíba e 32 no Rio Grande do Norte, beneficiando cerca de 750 mil pessoas. 

O terceiro desses canais é o Ramal do Salgado, obra que será licitada nos próximos meses. Esse ramal permitirá o transporte das águas da transposição para 54 cidades do Ceará, atendendo uma população de 4,7 milhões de pessoas. 

Segundo informações do MDR – Ministério do Desenvolvimento Regional, o Projeto de Integração do rio São Francisco vai atender um total de 12 milhões de pessoas em 390 municípios dos Estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Quando todas as obras complementares estiverem concluídas, o sistema contará com cerca de 3 mil km de canais. Os investimentos até o momento somam cerca de R$ 14 bilhões. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, o PISF não resolverá todos os problemas de falta de água da Região do Semiárido Meridional, porém, vai garantir a segurança hídrica de muita gente. Precisarão ser feitas obras complementares como a perfuração de poços, a instalação de unidades para a dessalinização de água (existem diversos aquíferos com águas salobras na região), implementação de sistemas para o reuso de águas servidas para fins agrícolas (a exemplo do que acontece em Israel), além da construção de grandes usinas de dessalinização de águas marinhas

O tamanho do desafio para o abastecimento de água no Semiárido Nordestino é enorme. A conclusão das obras dos Eixos Leste e Norte do Programa de Integração do rio São Francisco foi apenas um grande passo nessa direção – muita coisa ainda precisará ser feita nos próximos anos. 

FALANDO UM POUCO DA HISTÓRIA GEOLÓGICA DO RIO SÃO FRANCISCO

O Governo Federal inaugurou ontem, dia 9 de fevereiro, o último trecho do Eixo Norte do Rio São Francisco. Muito mais do que uma simples obra de vários Governos, essa inauguração representa a realização de um antigo e acalentado sonho de inúmeras gerações de sertanejos. 

Essa grande obra também significa uma mudança na própria história geológica do rio São Francisco, que tem sua gênese iniciada há cerca de 2 bilhões de anos atrás. Grande parte da região onde se encontra a bacia hidrográfica do rio São Francisco já foi um grande deserto e ficava no centro do antigo supercontinente de Gondwana. Era um deserto de areias planas, com dunas pequenas e sem nenhuma vegetação. 

Naquele período, conhecido na geologia como Paleoproterozoico (na escala do Tempo Geológico refere-se ao período entre 2,5 e 1,6 bilhão de anos atrás), o clima da região era extremamente árido e chovia muito pouco – quando chovia, porém, eram verdadeiras tempestades, que formavam fortes enxurradas e carreavam grandes quantidades de sedimentos. No centro dessa região existia uma grande cadeia montanhosa que tinha cerca de 800 km de extensão e 500 km de largura.   

Relembrando, Gondwana era um antigo supercontinente formado pela América do Sul, África, Antártica, Ilha de Madagascar, Índia (o famoso Subcontinente Indiano), Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e algumas outras ilhas. Devido à movimentação das Placas Tectônicas (pesquise sobre a Deriva dos Continentes), esse supercontinente começou a se fragmentar há cerca de 165 milhões de anos e a movimentação dos “fragmentos” levou a atual configuração do mapa mundi.  

A separação da América do Sul da África trouxe junto a cadeia montanhosa que citamos, que se quebrou em diversos pedaços devido à movimentação da Placa Sul-americana. Esses “pedaços” acompanharam a movimentação dos terrenos e formaram diversos relevos que nos são bastante familiares: Serra da MantiqueiraSerra do Mar e Serra da Canastra, entre outras, além de uma longa sequência de serras entre os Estados de Minas Gerais e Bahia, conhecida como Serra ou Cordilheira do Espinhaço e que tem cerca de mil quilômetros de extensão. Grande parte dessas formações rochosas formam o que é conhecido como Cráton do rio São Francisco.  

Se você viajar por estradas mineiras e baianas, é muito improvável que você encontre placas indicando a Cordilheira ou Serra do Espinhaço. Essa extensa formação rochosa é mais conhecida pelos nomes dos seus trechos: Serra de-Deus-te-livre ou Serra de Ouro BrancoSerra do CipóSerra dos Cristais, e Chapada Diamantina, entre outras. Esses relevos são cobertos por diferentes tipos de vegetação e possuem inúmeras nascentes de águas.  

Os grandes blocos rochosos que formam esses relevos são bem antigos e constituídos por rochas extremamente resistentes, tendo sobrevivido a dezenas de milhões de anos de processos erosivos das chuvas, ventos e geleiras (apesar de hoje vivermos em uma zona de clima essencialmente tropical, em longos períodos de tempo no passado já convivemos com eras glaciais muito frias e com grandes formações de geleiras aqui no território brasileiro).  

Serras e cordilheiras funcionam como divisores de águas: as águas das chuvas e das fontes de água que surgem nesses relevos correm em diferentes direções acompanhando a declividade dos solos e formando rios. Por força da gravidade, a água sempre procura terrenos cada vez mais baixos até conseguir chegar, na grande maioria dos casos, até o oceano. 

Ao redor da Cordilheira do Espinhaço, podemos citar dois exemplos de rios que se formaram nas “duas faces” do relevo: a Leste, temos o rio Doce, que tem algumas de suas nascentes mais distantes na Serra da Mantiqueira e que corre primeiro rumo ao Norte e depois para o Leste, com sua foz no litoral do Estado do Espírito Santo. 

Outro exemplo é o nosso rio São Francisco, que tem suas principais nascentes na Serra da Canastra e que segue através de uma longa depressão a Oeste da Cordilheira do Espinhaço rumo ao Norte, atravessando o Norte de Minas Gerais e todo o Estado da Bahia, para só depois virar rumo ao Leste e seguir na direção de sua foz na divisa dos Estados de Alagoas e Sergipe.  

Um evento fundamental que não podemos deixar de fora dessa super reduzida história do rio São Francisco foi o “nascimento” do Oceano Atlântico. Conforme as grandes massas de terra da América do Sul e da África foram se separando e a largura do Atlântico foi aumentando. Os volumes de umidade criados pela evaporação das águas do Oceano também foram aumentando. 

As correntes de ventos, que também surgiram em função do surgimento do Oceano Atlântico, passaram a espalhar de forma progressiva essa umidade pelos continentes. Esses ciclos de chuvas foram fundamentais para o surgimento e evolução de florestas como a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, aqui na América do Sul, e a Floresta do Congo, na África.  

Na região central do território onde hoje está o Brasil, os ciclos regulares das chuvas e as características cristalinas dos solos levou ao surgimento de grandes aquíferos, que se tornariam fundamentais para a formação das mais importantes bacias hidrográficas do país. Essa região desenvolveu um tipo de vegetação com características muito particulares e quase que exclusivamente brasileira – o Cerrado. As nascentes dos rios que se surgiriam nessa extensa região seriam fundamentais para a formação do rio São Francisco. Cerca de 2/3 dos atuais caudais do rio São Francisco vêm das áreas do Cerrado.  

Um outro tipo de vegetação tipicamente brasileira que surgiu em uma parte importante da bacia hidrográfica do São Francisco foi a Caatinga. Ocupando uma área com pouco menos de 1 milhão de km² na região do Semiárido Nordestino e do Norte de Minas Gerais, a ecologia da Caatinga é formada por plantas e animais altamente adaptados para um clima semiárido, sujeito a frequentes temporadas de fortes secas. O São Francisco, o maior e mais importante rio que atravessa a região, sempre teve um papel fundamental para todas as formas de vida do bioma.  

O vale do rio São Francisco se formou ao longo de uma extensa depressão entre a Serra da Canastra e a Serra Geral de Goiás a Oeste e a Cordilheira do Espinhaço a Leste. Neste trecho, as altitudes variam entre 1.000 e 1.300 metros acima do nível do mar. No Médio Vale do São Francisco, essa depressão é cercada por relevos como a Serra da Tabatinga e a Chapada do Araripe, sendo essa última o grande obstáculo que impediu que as águas do rio seguissem para o Norte. Ao longo de inúmeras eras, as águas foram escavando rochas e formando a calha atual do Velho Chico.  

Durante o longo processo de formação da calha do rio São Francisco, as águas pluviais e os caudais dos inúmeros rios que foram surgindo formaram diversos lagos, onde se destaca um grande lago que se formou numa grande fossa tectônica no Norte do Estado da Bahia. O principal testemunho que restou desse lago são os grandes paredões que formam o canyon (ou canhão, a palavra portuguesa equivalente) do rio São Francisco (vide foto). As águas desse lago subiram até atingir o topo dessas rochas e, muito lentamente, passaram a escavar um canal de passagem para concluir a sua jornada rumo ao Oceano Atlântico.  

A história geológica do rio São Francisco, é claro, é muito mais complexa do que mostramos aqui. Porém, esse resumo dá uma ideia da sucessão de eventos e dos muitos milhões de anos que foram necessários até o Velho Chico chegar à sua configuração atual. O PISF – Programa de Integração do Rio São Francisco ousou mudar artificialmente a geologia do rio e levar suas águas para as terras semiáridas do Sertão Nordestino. 

Com toda a certeza, também mudará para sempre a história de milhões de sertanejos. 

ÁGUAS DA TRANSPOSIÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO COMEÇAM A CHEGAR AO RIO GRANDE DO NORTE 

O dia de hoje marca um verdadeiro e literal divisor de águas para a Região do Semiárido Brasileiro – o Governo Federal está inaugurando o último trecho do Eixo Norte do PISF – Projeto de Integração do Rio São Francisco, e as águas começam a chegar ao Rio Grande do Norte. Independentemente de qual grupo político concluiu as obras e que está fazendo a inauguração, esse será um marco na vida de milhões de nordestinos. 

O Semiárido Brasileiro é a região semiárida mais densamente povoada do mundo – ao redor de 25 milhões de pessoas vivem em uma área com cerca de 900 mil km². Para efeito de comparação, o Saara, o maior deserto do mundo com seus 9,2 milhões de km², sustenta uma população de 2,5 milhões de pessoas. 

A baixa disponibilidade de recursos hídricos no Semiárido Nordestino é um drama multissecular na região. O Semiárido enfrenta períodos cíclicos de secas com excepcionais proporções. Notas de antigos cronistas, testemunhas oculares, médicos e jornalistas, além de registros dos Governos, falam de grandes secas em 1744 e em 1790. Registros históricos documentam detalhadamente as grandes tragédias de 1846, 1877, 1915, 1932, 1951 e 1979.  

Entre 2012 e 2015, o Semiárido viveu uma estiagem comparável à grande seca de 1915, evento que acabou imortalizado na literatura brasileira décadas depois com a publicação do romance O Quinze, de Rachel de Queiróz. Os impactos dessa seca só não foram maiores devido aos diversos programas de transferência de renda implementados por diferentes Governos e à distribuição de água através de caminhões pipa pelo Exército Brasileiro. 

De acordo com registros históricos, a ideia de realizar uma obra de engenharia que permitisse a transposição das águas do Rio Francisco na direção de áreas assoladas por secas frequentes remonta a meados do século XIX, época do reinado de Dom Pedro II. Nesta época, apesar das boas intenções dos idealizadores, o projeto não poderia ser realizado por falta de tecnologias e recursos de engenharia adequados. Citando um único exemplo: a tecnologia para bombear a água a grandes alturas com o uso da eletricidade só estaria disponível 50 anos depois.  

A discussão acerca de um sistema de transposição voltou a ser considerada nas décadas de 1940, época do Governo Vargas, e 1980, no Governo do Presidente João Batista de Figueiredo. Em 1994, durante o Governo do Presidente Itamar Franco, foi iniciado um estudo sobre os potenciais hídricos das bacias hidrográficas do Semiárido nos Estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, estudos que prosseguiram durante o Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso.   

Em 2007, já no Governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, um projeto de transposição das águas do Rio São Francisco começou a ser implantado, com obras sendo executadas por batalhões especializados em engenharia do Exército Brasileiro e por construtoras privadas. Depois de inúmeros atrasos, suspeitas de fraude e superfaturamentos, o primeiro trecho do Eixo Leste do Sistema de Transposição do Rio São Francisco foi inaugurado oficialmente no início de março de 2017 pelo Presidente Michel Temer, que havia assumido o Governo após o impeachment da Presidente Dilma Rousseff em 2016.  

Projeções oficiais do Governo Federal estimavam que, quando as obras do projeto estivessem totalmente concluídas, o sistema de transposição das águas do rio São Francisco poderia atender até 12 milhões de pessoas nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, levando as águas do Rio São Francisco para uma extensa área do Semiárido. Infelizmente, como todos sabemos, as coisas não saíram exatamente como muitos haviam sonhado ao longo de muitas gerações.  

Orçadas inicialmente em R$ 4,5 bilhões e com previsão de conclusão em 5 anos, as arrastadas obras do PISF entraram num nada seleto conjunto de obras superfaturadas e mal feitas, onde o principal objetivo dos governantes e autoridades de plantão era o desvio de verbas públicas. Os poucos trechos inaugurados, rapidamente passaram a apresentar problemas de vazamentos de água, estações de bombeamento estavam trabalhando com capacidade muito abaixo do projetado e grandes trechos de canais foram abandonados inconclusos. De acordo com os últimos levantamentos, os custos das obras já superaram a barreira dos R$ 14 bilhões.  

Desde que assumiu o Governo em 2019, o Presidente Jair Bolsonaro vem pregando a continuidade e conclusão de obras federais que estavam paradas, o que inclui as obras do Projeto de Integração do rio São Francisco. Obras abandonadas foram sendo retomadas, outras precisaram ser refeitas e algumas obras complementares passaram a ser pensadas. Pouco a pouco o PISF foi ganhando corpo e forma, com sucessivas inaugurações de trechos.   

A chegada dessas águas em diferentes regiões dos sertões do Semiárido não vai resolver o problema da seca, mas poderão ajudar muito. Existe um limite para a quantidade de água que pode ser retirada da calha do rio São Francisco e o próprio Sistema de Transposição tem seus limites. A chegada das águas a toda uma infinidade de pequenas cidades e vilas espalhadas pelos sertões dos Estados atendidos pelo projeto também vai depender da conclusão de um sem número de pequenas obras de canais, adutoras e açudes.   

Grande parte dessas obras complementares são de responsabilidade de Estados e Municípios que, como se sabe, costumam não ter recursos suficientes para isso e dependerão da liberação de verbas do Governo Federal. Aqui se abre todo um “leque” de chances para se desviar dinheiro público nessas obras e muitos políticos locais já sonham em “encher seus próprios bolsos”. Será preciso ficar atento e fiscalizar o uso dessas verbas com “lupa”.  

Apesar de todas as dificuldades que ainda serão enfrentadas ao longo desse caminho, é preciso que se continue a perseguir o sonho de acabar, ou ao menos amenizar, as agruras provocadas pelas fortes estiagens no Semiárido Nordestino. A conclusão das obras dos dois Eixos do Programa de Integração do rio São Francisco é um marco, mas não deve ser visto como um objetivo final. 

Um dos principais projetos complementares do sistema, o Ramal do Agreste em Pernambuco, já está praticamente finalizado. Outros dois subsistemas – o Ramal do Apoti, no Rio Grande do Norte, já está com obras em andamento, e o Ramal do Salgado, no Ceará, está em processo de licitação. Cada um desses ramais possui dezenas de derivações que vão levar as águas para cidades e vilas sertanejas. Além desses subsistemas, muitos outros precisarão ser feitos. 

Imagens de vertedouros de açudes liberando águas e de pessoas nadando nos diferentes canais vem inundando as redes sociais e mostrando a felicidade das populações sertanejas. Como se diz no popular, “essas imagens não tem preço!”

Faço votos que as ambições políticas dos diferentes grupos que governam cidades, Estados e Governo Federal fiquem de lado e que o abastecimento de água das populações continue sendo a prioridade absoluta. Depois de séculos de luta contra a seca, chegou a hora de virarmos essas páginas dolorosas da história do Semiárido Brasileiro.

CHUVAS EM TEMPO DE COLHEITA AGRÍCOLA

Uma extensa área entre o litoral do Estado de São Paulo e o Mato Grosso do Sul deverá receber volumes expressivos de chuvas nos próximos dias. Na Região Metropolitana de São Paulo, conforme comentamos na postagem anterior, essas chuvas chegam em meio a grandes preocupações – muitas cidades ainda estão se recuperando dos estragos das recentes chuvas. 

Além dos problemas que costumam causar nas cidades, onde as enchentes e os desmoronamentos de encostas de morros são os mais comuns, o excesso de chuvas também traz preocupações para as populações das áreas rurais. 

Esse comentário pode parecer, à primeira vista, um grande contrassenso. É comum imaginarmos que as chuvas são sempre bem-vindas em áreas de produção agropecuária – afinal de contas, as culturas precisam ser irrigadas e os animais dessedentados. Porém, a chegada de chuvas na hora errada pode criar problemas muito maiores do que os aparentes benefícios. 

Em muitas regiões dos Estados de Mato Grosso do Sul e do Mato Grosso as chuvas chegaram no momento da colheita da soja. Aqui, os problemas começam pelo excesso de umidade nos solos, o que pode criar uma série de dificuldades para o deslocamento de colheitadeiras e outras máquinas usadas na colheita dos grãos (vide foto). 

A umidade também pode provocar a germinação dos grãos ainda nas vargens, levando à abertura dessas vargens e a perda de parte dos grãos. Os grãos também podem ficar ardidos ou apodrecidos, um problema que compromete a qualidade dos produtos e os ganhos dos produtores. 

De acordo com informações dos produtores rurais, a chuvas que estão caindo desde a última semana em Estados da Região Centro-Oeste chegaram no momento em que está sendo realizada a colheita dos grãos, algo que pode atrasar a colheita – especialmente da soja. Segundo as informações disponíveis, as chuvas chegaram quando apenas 16% da safra já havia sido colhida

Produção agrícola e água são as duas faces de uma mesma moeda – é impossível falar em uma coisa sem ter a outra disponível. Desde a “invenção da agricultura” pela humanidade, algo que deve ter acontecido entre 12 mil e 10 mil anos atrás, as regiões com as melhores terras e melhor oferta de água passaram a ser as mais disputadas por diferentes povos. 

Um exemplo fácil de lembrar é o da Mesopotâmia, considerada como um dos berços da civilização. Ao longo dos milênios surgiram na região diferentes povos e reinos – sumérios, babilônicos, assírios, persas, entre muitos outros. O potencial de produção agrícola da região sempre esteve na base da cobiça desses povos. Essa mesma cobiça não se viu em regiões próximas, porém, inadequadas para a agricultura como nas estepes semiáridas da Ásia Central. 

As atividades agrícolas são grandes consumidoras de água – perto de 70% dos recursos hídricos de uma região, em média, destinam-se aos campos agrícolas. Quando a natureza não oferece abundancia de água, é preciso recorrer à tecnologia, seja ela qual for, para aumentar ao máximo a oferta para os campos de produção. 

A construção de canais é uma das técnicas mais antigas conhecidas pela humanidade, especialmente em áreas planas como vales ao largo de grandes rios, onde as cheias naturais ajudavam a levar a água aos pontos mais distantes. Muitas vezes era preciso construir represas e sistemas de comportas para conseguir manejar adequadamente os caudais. 

Em tempos bem mais modernos, especialmente após o desenvolvimento de motores de combustão interna e de sistemas movidos a partir da energia elétrica, os sistemas de irrigação agrícola ganharam o mundo. Calcula-se que perto de 20% de toda a área cultivada no mundo seja irrigada e que 40% do total de alimentos produzidos venham dessas áreas

Estudos indicam que a produtividade de áreas irrigadas é, pelo menos, 2,3 vezes maior do que em áreas não irrigadas. Foi justamente por causa da popularização dos sistemas de irrigação que a produtividade agrícola cresceu entre 2,5 e 3 vezes nos últimos 50 anos, enquanto que a área cultivada cresceu apenas 12%. 

Segundo estimativas da FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, os países em desenvolvimento vão aumentar suas terras irrigadas em cerca de 34% até o ano de 2030. Isso deverá se refletir em um aumento de cerca de 14% no consumo de água, algo que poderá criar problemas em muitas regiões que já sofrem com a escassez de recursos hídricos. 

Uma das principais vantagens da irrigação é a possibilidade de o agricultor conseguir controlar o volume de água oferecido as plantas de acordo com o estágio de crescimento. Solos logo após a semeadura precisam receber pequenas quantidades de água que sejam suficientes para a germinação das plantas – água em excesso nessa fase podem levar as sementes ao apodrecimento antes da germinação. 

Depois, conforme as plantas vão desenvolvendo, o volume de água vai aumentando gradativamente e, depois, precisa ser reduzido conforme chega o momento da colheita. Culturas como grãos precisam de níveis de umidade bastante precisos para atingir os melhores níveis de qualidade. 

Já com as chuvas, os produtores passam a contar com uma boa dose de sorte, uma vez que não é possível controlar nem o momento das chuvas nem os volumes que cairão sobre os solos. Baseados em sua experiência de vida e em dados fornecidos pelos meteorologistas, os agricultores montam o seu calendário de plantio e colheita, algo que nem sempre funciona com a sincronia desejada. 

Nos últimos meses foram muitas as regiões do Brasil que sofreram com a seca. Produtores do Rio Grande do Sul, citando um exemplo, tiveram perdas por causa da forte seca da ordem de 80% e 100% nas lavouras de milho; nas lavouras de soja, as perdas são estimadas em 50%. 

Agora, com as chuvas chegando na hora errada, são os produtores da Região Centro-Oeste que estão preocupados com o excesso de umidade justamente na hora da colheita. E não há muito o que fazer – é preciso esperar um intervalo entre as chuvas e, assim que o tempo dá uma trégua, subir nas máquinas e colher a maior quantidade de grãos que for possível. 

Ou seja: a água é uma verdadeira faca de dois gumes para a agricultura. A falta dela ou o excesso podem, literalmente, destruir um ano de trabalho de um agricultor. 

PREVISÃO DE CHUVAS FORTES PREOCUPA MORADORES DA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO

Um comunicado do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, alerta sobre a ocorrência de chuvas fortes nos próximos dias em uma extensa área que vai da Baixada Santista, Vale do Ribeira, Vale do Paraíba e Litoral Norte do Estado de São Paulo, e Sul do Estado do Rio de Janeiro chegando até o Mato Grosso do Sul próximo da fronteira com a Bolívia. 

De acordo com o alerta, são esperados volumes acumulados de chuvas entre 50 e 100 mm, ventos intensos entre 60 e 100 km/h, risco de corte de energia elétrica, queda de galhos de árvores, alagamentos e de descargas elétricas O INMET colocou essa região em Alerta Laranja

No caminho dessa faixa de instabilidade se encontra a Região Metropolitana de São Paulo, onde muitas cidades ainda não se recuperaram dos grandes estragos provocados pelas recentes chuvas. A previsão da chegada de novas chuvas deixa muita gente apreensiva, especialmente em cidades como Francisco Morato e Franco da Rocha, duas das mais fortemente atingidas. 

As maiores preocupações estão em Franco da Rocha, onde um grande deslizamento de uma encosta deixou um rastro de destruição e um saldo de 18 mortos. As equipes de resgate localizaram os corpos das últimas vítimas na sexta-feira, dia 4 de fevereiro. 

De acordo com informações da Prefeitura da cidade, cerca de 180 imóveis estão interditados devido ao risco de desabamento. De acordo com um estudo feito em 2021, a cidade possui cerca de 70 áreas de risco, sendo que muitas delas estão em situação complicada depois das últimas chuvas e há sérios riscos de acidentes com a chegada de novas chuvas fortes

Em Francisco Morato, município vizinho de Franco da Rocha, a situação não é menos preocupante. A cidade registrou vários deslizamentos de encostas devido as últimas chuvas, porém sem maior gravidade e sem vítimas fatais. A situação, porém, está muito longe de ser confortável. 

De acordo com um estudo feito pela Defesa Civil Estadual em 2020, existem 120 áreas de risco em Francisco Morato e aproximadamente 6.700 estão sujeitas a algum tipo de risco. Oito em cada dez dessas casas ficam em áreas sob risco de deslizamento

Os municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato e Caieiras, entre muitos outros, são conhecidos como “cidades dormitórios”. Com relevo extremamente acidentado e terrenos baratos, essas cidades atraíram enormes populações ao longo das últimas décadas. Buscando moradias de baixo custo, essas populações passaram a ocupar as encostas dos morros com construções precárias. 

Um dos grandes “atrativos” dessa região é a facilidade de transporte até a área central da Região Metropolitana, principalmente a cidade de São Paulo. A CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, opera uma importante linha de trens que cruza a região. A população trabalha em cidades vizinhas e só volta para casa para dormir. 

Eu trabalhei em algumas obras de implantação de rede de esgotos em Francisco Morato em 2010, e confesso que sempre me assustava com a precariedade de muitas construções. Era comum a existência de pontos de erosão nos terrenos, muito deles atingindo os alicerces das casas. Não era preciso ser nenhum especialista em geotécnica de solos para enxergar ali uma situação de riscos. 

Para infelicidade de muitas dessas famílias que hoje estão sofrendo com os riscos de desmoronamentos de novas encostas, parece que as “otoridades” das Prefeituras locais não enxergaram (ou fingiram não enxergar) os problemas potenciais nesses bairros. É quase certo que muitas das tragédias pessoais que se abateram sobre a população poderiam ter sido evitadas.

Uma das coisas básicas que aprendemos nas aulas de Gestão de Riscos é que “risco é um problema que tem que ser tratado antes do desastre“. Raramente, os chamados acidentes são 100% acidentais. Normalmente, ao longo das análises das causas de qualquer acidente, os investigadores encontram uma série de problemas anteriores que não foram resolvidos e que levaram ao acidente. 

Isso é visto em acidentes com aviões e com trens, em incêndios, desabamentos de prédios, entre muitos outros. Sempre faltou uma manutenção preventiva em algum sistema, um componente desgastado que precisava ser trocado, uma fundação que precisava receber um reforço. Então acontece a tragédia e os ditos “responsáveis” começam a se defender e a falar de uma série de providencias que serão tomadas dali para a frente. 

Infelizmente, no caso de “acidentes” que resultam em vítimas fatais, essas providencias sempre chegarão muito tarde e essas perdas são irreparáveis. Observem que, tanto no caso de Franco da Rocha quanto o de Francisco Morato, já existiam estudos anteriores que apontavam os riscos iminentes de uma grande tragédia. A pergunta que fica: quais foram as providências tomadas?

Ao longo dos últimos dias essas áreas atingidas pelas fortes chuvas na Região Metropolitana de São Paulo receberam visitas de importantes autoridades – de Prefeitos ao Presidente da República. Inúmeras promessas para a liberação de recursos emergenciais e de realização de obras de moradias e de sistemas para a gestão e o controle de águas pluviais foram feitas. 

Estamos em um ano eleitoral e, como todos devem saber, políticos costumam prometer mundos e fundos a fim de conquistar votos. Normalmente, passadas as eleições e a posse dos eleitos, tais promessas costumam ficar esquecidas em algum lugar até o momento em que novas tragédias tornem a acontecer e a memória de muitos acaba sendo reativada. 

Os problemas dessas áreas de encostas em Franco da Rocha e Francisco Morato, assim como acontece no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, em Recife e em inúmeras outras cidades por todo o Brasil, já se desenrolam a várias décadas e nenhuma solução definitiva ainda surgiu. 

Falta fiscalização por parte das prefeituras e de programas para a construção de moradias populares com prestações acessíveis para os mais pobres e prazos dilatados para o pagamento. 

Terrenos em encostas de morros e em áreas de várzea são baratos e sempre continuarão atraindo populações com parcos recursos e com a necessidade urgente de uma moradia. Enquanto Governos de todos os níveis não conseguirem resolver em definitivo a questão do acesso a moradias populares, a ocupação dessas áreas vai continuar. 

E novas tragédias continuarão a ocorrer verão após verão… 

UMA BOA NOTÍCIA: MICRORGANISMOS ESTÃO EVOLUINDO E PASSANDO A COMER PLÁSTICOS 

Em meio a tantos problemas ambientais que abordamos praticamente em todas as postagens aqui do blog, enfim, uma excelente notícia: cientistas vem observando que diversos microrganismos terrestres e marinhos estão evoluindo e passando a se alimentar de plásticos como os que são usados na produção de garrafas PET. 

Uma vaga ideia da importância dessa descoberta: em uma reportagem veiculada pela BBC News, noticiário da televisão pública da Inglaterra, ficamos sabendo que a produção da Coca-Cola, um dos refrigerantes mais populares do mundo, foi responsável pelo descarte de 156 bilhões de garrafas PET em todo o mundo em apenas 3 anos. Ou seja – existe “comida” de sobra para a alegria desses microrganismos.  

A evolução desses microrganismos, ao que tudo indica, surge como uma resposta evolutiva ao aumento da poluição por resíduos plásticos em todo o mundo. Citando apenas a poluição dos oceanos – Estudos do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, indicam que existem atualmente 18 mil fragmentos visíveis de plásticos flutuando em cada quilômetro de mar. 

As primeiras observações sobre a evolução desses microrganismos foram feitas por cientistas japoneses, que passaram a buscar tecnologias de enzimas que permitissem replicar esse feito. Em 2018, um laboratório norte-americano conseguiu criar enzimas que consumiam resíduos plásticos com uma taxa de eficiência de até 20%. Nada como buscar inspiração na natureza para resolver os enormes problemas ambientais criados pela humanidade. 

O plástico é uma matéria prima muito barata, sendo um subproduto do refino do petróleo. É facilmente moldável e permite a produção de peças bonitas, com acabamento impecável e extremamente fáceis de montar. As embalagens plásticas são práticas de usar, podem ser fechadas hermeticamente, sem agregar qualquer cheiro característico ou sabor ao produto embalado, especialmente no caso de alimentos. 

Eu nunca me esqueço de uma palestra que ouvi numa das aulas nos tempos da faculdade, onde o palestrante – diretor de uma grande empresa produtora de matérias primas para a fabricação de plásticos, afirmou que o sucesso do produto se devia ao seu baixo custo e às infinitas possibilidades de aplicações.  

De acordo com estudos da organização ambientalista WWF – World Wildlife Fund, cerca de 10 milhões de toneladas de resíduos de plástico chegam aos oceanos todos os anos. Esse volume corresponde a 1/10 de toda a produção de plástico do mundo. 

Os resíduos plásticos estão no topo da lista das ameaças aos oceanos. Esses resíduos, entre inúmeros outros problemas, prejudicam o ciclo de vida das algas e microalgas, organismos que precisam receber luz solar para sobreviver. Somado a outros problemas como os resíduos flutuantes de óleo nas águas, essa poluição está destruindo gradativamente parte importante da produção de oxigênio do planeta.  Só para relembrar – as algas e microalgas dos oceanos produzem 54% do oxigênio disponível no mundo 

A maior parte dos resíduos plásticos produzidos a cada ano no mundo – que soma algo da ordem de 90 milhões de toneladas, acaba sendo descartada em terra, sendo amontoada em aterros sanitários, lixões e terrenos baldios, entre muitos outros recantos usados para seu descarte. São restos de utensílios domésticos, brinquedos, peças de veículos e, principalmente, embalagens de produtos e de alimentos que consumimos em nosso dia a dia. 

Quem é um pouco mais velho deve se lembrar das velhas embalagens que gerávamos em nossas casas. Haviam muitas embalagens de lata, garrafas e embalagens de vidro e muito papel e papelão. Os mercados forneciam sacos de papel pardo para os clientes embalarem os produtos ao invés das sacolinhas de plástico de hoje em dia. 

Existiam, é claro, alguns problemas. Certa feita, quando eu tinha uns 10 anos de idade, eu estava subindo as escadarias do meu prédio carregando duas garrafas de leite, que naqueles tempos eram de vidro. Já chegando no nosso apartamento eu tropecei e, na queda, acabei soltando as garrafas, que estilhaçaram nos degraus. Para meu azar, cai com as mãos voltadas para o chão (eu estava tentando amortecer a queda) diretamente sobre os cacos de vidro. Até hoje carrego as cicatrizes daquele dia. Essas garrafas de leite, primeiro, foram substituídas por saquinhos plásticos e, depois, por caixas do tipo longa-vida.

Apesar dessa e de muitas outras desvantagens, a maior parte dos antigos resíduos domésticos eram reutilizados como era o caso das garrafas de leite, das latas e dos papéis e papelões. Atualmente, praticamente tudo o compramos num supermercado vem embalado com algum tipo de plástico, sem contar as famigeradas sacolinhas que usamos para embalar as compras. Apenas uma pequena parte desses resíduos é reciclada. 

As inocentes sacolas plásticas do tipo usado nos supermercados chegam a representar 27% do volume de plásticos encontrado flutuando nos oceanos. Animais como as tartarugas marinhas confundem essas sacolas com águas-vivas, lulas e outros animais que fazem parte da sua alimentação. Os resíduos engolidos não são digeríveis, podendo levar o predador à morte. 

É reconfortante saber que a própria natureza está encontrando o seu jeito para reciclar e reaproveitar essa enorme quantidade de resíduos plásticos que nós descartamos todos os dias em solos e águas. Fica valendo aquele velho postulado, erroneamente creditado a Lavoisier: na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma (o Princípio da Conservação das Massas foi publicado inicialmente num ensaio de Mikhail Lomonosov, cientista russo, no ano de 1760). 

Só resta torcermos para que essa mesma evolução não produza bactérias gigantes superalimentadas com plásticos tipo o Godzila e aqueles monstros que surgiam o tempo todo nos seriados de super heróis japoneses da década de 1960, como o Nacional Kid e o Ultraman… 

ESTUDO CONFIRMA O TAMANHO DAS PERDAS DE GELO NA GROENLÂNDIA POR CAUSA DO AQUECIMENTO GLOBAL

Um estudo realizado por pesquisadores da Dinamarca e que acaba de ser publicado confirma com números dramático o que todo mundo já sabia: o aquecimento global já provocou a perda de 4,7 trilhões de toneladas de gelo na Groenlândia nos últimos 20 anos. 

O acelerado aquecimento da Groenlândia, a maior ilha do mundo com uma área de 2,1 milhões de km², segue a um ritmo de três a quatro vezes mais rápido do que em outras partes do mundo. De acordo com dados do Portal Polar, entidade que reúne os institutos dinamarqueses que estudam o Ártico, esse “derretimento contribuiu para elevar o nível do mar em 1,2 centímetro”. 

A ilha é um território autônomo do Reino da Dinamarca, país do qual depende financeiramente. Cerca de 80% do território da Groenlândia é recoberto por um manto de gelo. O nome da ilha é de origem nórdica e foi dados pelos antigos navegadores vikings que lá aportaram por volta do ano 900 da nossa era. Em dinamarquês, o nome da ilha é Grønland, o que significa, literalmente, “terra verde”. 

Entre os anos 900 e 1300 de nossa era, o Sul da Groenlândia possuía um clima bem mais ameno que nos dias atuais e abrigava diversas colônias de escandinavos. A região era coberta por árvores da taiga, a grande floresta boreal, além de plantas herbáceas, permitindo a agricultura e a criação de gado.  

Gradativamente as temperaturas começaram a se reduzir e, no século XVII a pequena população local teve de abandonar a Groenlândia por causa do frio extremo. Esse é um período conhecido como a Pequena Idade do Gelo, quando toda a Europa sofreu com as baixas temperaturas.   

A população atual da ilha é de menos de 60 mil habitantes, espalhados por pequenas cidades ao longo da costa (vide foto). A imensa maioria da população – cerca de 90%, é formada por indígenas do grupo inuit. Esses povos, extremamente adaptados para a vida em altas latitudes, começou a ocupar a Groenlândia a cerca de 4.500 anos em sucessivas ondas migratórias. Algumas das tribos tiveram mais sucesso do que outras na colonização. 

A economia da Groenlândia é quase que totalmente dependente do mar – a pesca e o processamento de pescados e frutos do mar são as principais atividades econômicas da ilha. A maior parte dos grandes barcos de pesca e as fábricas são de propriedade de cidadãos dinamarqueses, restando aos groenlandeses apenas os trabalhos braçais, pesados e sujos. Essa é uma situação que provoca uma enorme revolta entre os locais, com muitos sonhando com uma eventual independência da Dinamarca. 

O dramático derretimento da capa de gelo da Groenlândia já havia sido demonstrado por vários estudos anteriores. Um deles, publicado pela prestigiada revista científica Nature em 2020, mostrou a perda de gelo em três grandes geleiras do país: Jacobshavn Isbrae, Kangerlussuq e Helheim 

De acordo com as estimativas dos pesquisadores, a geleira Jacobshavn Isbrae perdeu 1,5 trilhão de toneladas de gelo entre 1888 e 2012. Nas geleiras Kangerlussuaq e Helheim, essa perda de massa, entre os anos de 1900 e 2012, foi estimada em 1,3 trilhão e 3,1 bilhão de toneladas, respectivamente. Entretanto, nem é preciso ser um especialista no assunto para observar o que está acontecendo – existem enormes crateras cheias de água por toda a ilha, um sinal claro do derretimento do manto de gelo. 

Todo esse volume de água doce resultante do derretimento da capa de gelo corre na direção do oceano e já está provocando problemas visíveis. Segundo um estudo de pesquisadores da Universidade de Washington e que foi publicado em 2018, a AMOC – Circulação Meridional do Atlântico, na sigla em inglês, que é mais conhecida como a Corrente do Golfo do México, está desacelerando. 

Essa corrente de águas quentes se forma no Mar do Caribe e segue na direção das Ilhas Britânicas, seguindo depois nas direções da Islândia, da Escandinávia e do Polo Norte. A largura dessa corrente é de aproximadamente 90 km e sua velocidade é de 2 metros/segundo, o que resulta na movimentação de 20 milhões de m³ de água por segundo.  

Segundo os especialistas, somente para citar um exemplo da importância dessas águas, é essa corrente marítima que torna o clima mais ameno na Irlanda e na Grã Bretanha. Sem as águas quentes da Corrente do Golfo, a vida de irlandeses, ingleses, escoceses e galeses seria muito mais difícil devido ao clima inóspito. 

Quem é fã de cinema talvez esteja se lembrando do filme “O dia depois de amanhã” lançado em 2004. No enredo, a Corrente do Golfo deixa de fluir para o Norte, o que causa o início de uma nova Era do Gelo ou período glacial no Hemisfério Norte. Uma das razões para a paralização da corrente marítima no filme foi justamente o degelo acelerado na Groenlândia. 

Os dados analisados no estudo compreenderam o período entre 1975 e 1998, e indicam que o evento deve durar cerca de duas décadas. Também há fortes indicações de que esse é um evento climático normal e cíclico, e que uma tragédia climática global como a mostrada no filme está muito longe de ocorrer. Entretanto, é bom ficarmos atentos a tudo o que está acontecendo por lá.  

Mudanças nos padrões climáticos dos continentes devido a alterações das correntes marítimas fazem parte da história do mundo. Vou citar o exemplo da Antártida, que durante vários milhões de anos possuiu um clima tropical e subtropical. Há cerca de 23 milhões de anos atrás, quando surgiu a Passagem de Drake, a Antártida foi se separando cada vez mais da América do Sul e as coisas começaram a mudar. 

Mudanças na configuração dos continentes (lembram da Tectônica Global?) levaram ao surgimento da Corrente Circumpolar Antártica, o que passou a impedir a chegada de fluxos de águas quentes das áreas tropicais do planeta. O clima da Antártica começou a mudar. As imensas florestas e a variada fauna começaram a desaparecer gradualmente e, desde 15 milhões de anos atrás, o continente está totalmente coberto por uma grossa camada de gelo. Da antiga fauna diversificada restaram apenas os pinguins, focas e algumas espécies de aves. 

Não sabemos ao certo onde esse rápido aquecimento da Groenlândia vai nos levar. Só espero que não seja a um cenário parecido com o mostrado no filme – minha cidade mal consegue resistir a uma chuva mais forte; quiçá a uma nevasca…  

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CHUVAS BATEM RECORDES NO EQUADOR 

Diversas regiões brasileiras vêm sofrendo com as fortes chuvas nessas últimas semanas. A bola da vez é a Região Metropolitana de São Paulo e partes do interior do Estado que, desde o último final de semana, vem recebendo volumes de chuva muito acima das médias histórias. 

Conforme apresentamos em postagem anterior, entre as cidades mais fortemente atingidas estão Franco da Rocha, Francisco Morato e Caieiras, todas na Região Metropolitana de São Paulo. De acordo com dados do Governo do Estado, as fortes chuvas já deixaram ao menos 24 mortos e um enorme rastro de destruição. 

Outro país que está sofrendo com as fortes chuvas é o Equador, único país Amazônico que não faz fronteira com o Brasil. A precipitação pluviométrica acumulada em Quito, a capital do país, está sendo da ordem de 75 mm por metro quadrado nos últimos dias. Esse índice está superando em mais de 30 vezes as estimativas dos meteorologistas para esse período e estão sendo consideradas as chuvas mais fortes dos últimos 20 anos

Quito tem uma população da ordem de 2 milhões de habitantes e é a segunda maior cidade do Equador. A cidade é famosa pelo seu centro com arquitetura colonial perfeitamente preservada, local que sempre atrai a atenção dos turistas estrangeiros. A mancha urbana da cidade se espreme entre os morros de um planalto aos pés da Cordilheira dos Andes. 

Muitos bairros populares da cidade, que lembram muitos seus congêneres em grandes cidades brasileiras, cresceram desordenadamente ocupando as encostas de morros – nada muito diferente do que encontramos em Franco da Rocha e Francisco Morato, algumas das cidades da Região Metropolitana de São Paulo mais afetadas pelas últimas chuvas. São construções precárias em áreas de risco, onde uma chuva mais intensa pode resultar em desmoronamentos. 

E foi justamente isso o que aconteceu – um deslizamento numa encosta de um morro entre os bairros de La Gasca e La Comuna, no norte de Quito, soterrou várias casas e deixou 14 mortos e 32 feridos até o momento (vide foto). Ao menos 9 pessoas estão desaparecidas. O acidente aconteceu nessa última segunda-feira, dia 31 de janeiro,

No total, 22 das 24 províncias do país estão sendo afetadas pelas fortes chuvas. Até o último dia 30 e, portanto, antes da ocorrência do desmoronamento do morro em Quito, o número de mortos em razão das chuvas chegava a 18 vítimas, com 24 feridos e mais de 2.800 pessoas desabrigadas e/ou desalojadas. 

A Floresta Amazônica, localizada na faixa Leste do país, cobre cerca de metade do território do Equador e concentra os maiores volumes de chuva. Nessa região, o período de chuvas mais intensas se concentra entre os meses de julho e agosto. Ao longo da costa do Oceano Pacífico, a temporada das chuvas se estende entre os meses de dezembro e maio e na região dos planaltos andinos, onde fica a cidade de Quito, entre os meses de janeiro e maio. 

Assim como vemos em grande parte do Brasil, o Equador possui grandes problemas de infraestrutura, especialmente quando se fala em rodovias. É justamente na temporada das chuvas que esses problemas se sobressaem. Além de grande parte do país ser coberta pela Floresta Amazônica, onde estradas sem pavimentação sofrem com a lama na época das chuvas, existem as dificuldades com o relevo ao longo da Cordilheira dos Andes e nos planaltos vizinhos. 

Com as chuvas intensas, a população está sofrendo com estradas cobertas por rios de lama nas florestas ou bloqueadas pelos desmoronamentos de encostas nos trechos ao largo das serras e montanhas. Nas cidades, os problemas vão das enchentes localizadas e transbordamento de córregos ao desmoronamento de encostas de morros como o visto em Quito. Todos esses problemas são bem familiares aos moradores de grandes e médias cidades brasileiras. 

As notícias ligadas às chuvas eclipsaram em parte as tradicionais notícias sobre derramamentos de petróleo, tipo de acidente muito comum na região da Floresta Amazônica no país. O Equador é um grande produtor de petróleo, concentrando a maior parte da produção em campos no interior da Amazônia. 

Na última sexta-feira, dia 28 de janeiro, houve mais um grande derramamento de petróleo. O vazamento atingiu um rio que abastece diversas comunidades indígenas e que atravessa uma reserva ambiental. Essa reserva tem uma área de 403 mil hectares e abriga uma enorme variedade de espécies animais e vegetais. Criada em 1970, a área fica no Nordeste do Equador, se estendendo entre as províncias andinas de Pichincha e Imbabura, além das províncias amazônicas de Sucumbíos e Napo. O rio Coca, atingido pelo derramamento, é um dos principais da Amazônia equatoriana. 

Conforme tratamos em uma postagem anterior, o Equador sofre com constantes vazamentos de petróleo. Aliás, a maior ameaça ao trecho equatoriano da Floresta Amazônica não são os desmatamentos (que são grandes no país), mas sim os derramamentos de óleo, principalmente nas águas dos rios da região. 

A extração comercial de petróleo na Amazônia equatoriana começou na década de 1960, apresentando um forte crescimento na década de 1970, quando grandes petrolíferas internacionais como a Shell e a Texaco começaram a operar no país. Cerca de 68% da área da Amazônia equatoriana está sob concessão para a exploração petrolífera e se estimam em mais de 4 mil o número de poços de petróleo na região.   

Além dos problemas associados diretamente à extração do óleo nos poços, existem grandes dificuldades para o transporte do petróleo para os grandes centros consumidores e também para a exportação nos portos do país. Entre a Floresta Amazônica e esses consumidores existe uma Cordilheira dos Andes no caminho. A maior parte do petróleo é transportada por meio de oleodutos. 

A Cordilheira dos Andes é sujeita a frequentes abalos sísmicos – a imensa maioria de baixa intensidade, porém fortes o suficiente para danificar as tubulações desses oleodutos. Um exemplo desse tipo de acidente foi o que ocorreu em abril de 2020, quando um deslizamento de terra provocado por um abalo sísmico rompeu uma tubulação do SOTE – Sistema Oleoduto Transecuatoriano. O acidente provocou um vazamento estimado entre 4 mil e 15 mil barris de petróleo. 

Esse oleoduto tem cerca de 500 km de extensão e está em operação desde 1972. A mancha de óleo atingiu os rios Coca (o mesmo atingido nesse último acidente) e Napo, afetando o abastecimento de 2 mil famílias indígenas e outros 120 mil ribeirinhos. Esse foi considerado o maior vazamento de petróleo no Equador nos últimos 15 anos.  

Esse novo acidente veio se juntar a outras centenas de ocorrências do mesmo tipo no país nos últimos anos. As empresas petrolíferas internacionais respondem judicialmente a centenas de processos e já acumulam vários bilhões de dólares em multas a pagar. Porém, devido à importância da indústria petrolífera para o Equador, esses “pequenos” problemas vão sendo empurrados com a barriga e a justiça nunca chega aos responsáveis por essas empresas e as autoridades do país. 

Entre as fortes chuvas anuais e os grandes vazamentos de petróleo de sempre, os 18 milhões de equatorianos vão tentando levar a vida…