OS BAIXOS NÍVEIS DO AÇUDE CASTANHÃO E OS PROBLEMAS DO ABASTECIMENTO DE ÁGUA NA REGIÃO METROPOLITANA DE FORTALEZA

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A dificuldade no acesso às fontes de água para o abastecimento de populações pode ser colocada no topo da lista de problemas de muitas cidades aqui no Brasil e pelo mundo afora. Na nossa última postagem falamos dos problemas enfrentados pelas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro; também falamos das dificuldades de Nova York, a maior cidade dos Estados Unidos da América, e de Bogotá, a capital de nossa vizinha Colômbia. Motivadas por problemas diferentes, essas cidades tem em comum a necessidade de buscar a água necessária ao abastecimento de suas populações a centenas de quilômetros de distância. 

Existem também os casos de muitas cidades que, apesar de todos os esforços para a realização de grandes obras, não tem conseguido sucesso nessa empreitada. Um bom exemplo é Fortaleza e toda a sua Região Metropolitana, que vem sofrendo há muitos anos com baixos estoques de água. O Governo do Estado empreendeu tempo e recursos na construção de um grande açude no interior do Estado para o armazenamento de água, além de implantar uma grande infraestrutura para o transporte do recurso por mais de 230 km até a Região Metropolitana. Apesar de todas as boas intenções, a natureza não ajudou e este ano não há muita água armazenada – estou falando do Açude Castanhão e sua saga. 

A região Metropolitana de Fortaleza possui 15 municípios e tem uma população de mais de 4 milhões de habitantes, o que corresponde a mais da metade de toda a população urbana do Estado do Ceará. Diferente da faixa litorânea do Leste nordestino, o litoral cearense se apresenta como uma extensão do Semiárido, com uma disponibilidade limitada de água. O principal sistema de abastecimento de água da Região é o Sistema Integrado Gavião, formado pelos reservatórios Pacajus, Pacoti, Riachão e Gavião, entre outros açudes menores.  

De acordo com informações atualizadas da CAGECE – Companhia de Águas e Esgotos do Ceará, “esses reservatórios estão com um bom nível e tem um volume de água suficiente para atender a população da Região Metropolitana de Fortaleza pelos próximos 6 meses“, o que deixa muita pouca margem para situações de emergência. O Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo, pode armazenar água suficiente para abastecer grande parte da população por até 3 anos e, mesmo assim, os paulistanos passaram por um enorme sufoco durante a seca que se abateu na Região entre 2014 e 2016. 

Foi justamente para garantir a segurança hídrica da população que foi construído o Açude Castanhão. Inaugurado em 2002, o Castanhão tinha como principal objetivo o de se transformar no maior e principal de abastecimento da Região Metropolitana de Fortaleza, apesar de estar localizado no interior do Estado, a aproximadamente 230 km da capital. Com capacidade para armazenar um volume total de 6,7 bilhões de m³ de água, esse açude é considerado o maior reservatório para usos múltiplos da América Latina. Esse volume corresponde a quase 40% da capacidade total de armazenamento de todos os 8 mil açudes do Ceará, incluindo na lista o famoso Açude Orós, que durante décadas foi o maior de todos. 

Apesar de toda a sua infraestrutura e de todas as expectativas criadas com a construção do Açude do Castanhão, a natureza não tem feito a sua parte nos últimos anos, com chuvas abaixo da média em alguns anos e extremamente irregulares e dispersas em outros. Como resultado dessa falta de “colaboração” da natureza, o nível do Castanhão hoje – 10/12/2019, é de apenas 3,12% da sua capacidade total. Desde o último mês de abril, a captação de água no Açude para o abastecimento da Região Metropolitana está suspensa. 

O Açude Castanhão está localizado oficialmente no município de Alto Santo, porém, o reservatório se distribui em áreas de diversos municípios. O principal rio formador do reservatório é o rio Jaguaribe, o maior rio do estado do Ceará com uma extensão total de 633 km. A bacia hidrográfica do rio Jaguaribe ocupa mais da metade do território cearense e seus caudais são bastante sensíveis aos períodos de forte estiagem, característica que já rendeu o apelido de “maior rio seco do mundo”. Além do Castanhão, o rio Jaguaribe também abriga o famoso Açude Orós e uma infinidade de outros açudes de pequeno porte. 

A instabilidade dos caudais do rio Jaguaribe tem reflexos diretos no Açude Castanhão e, consequentemente, no abastecimento de água da Região Metropolitana de Fortaleza. Entre 2012 e 2015, quando toda a região do Semiárido Nordestino enfrentou uma fortíssima estiagem, o Açude entrou no volume morto e a população foi obrigada a fazer um enorme esforço para economizar água. Já em 2016, o Castanhão foi o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana, fornecendo 70% da água consumida pela população. 

Em 2019, o Estado do Ceará apresentou um volume de chuvas acima da média histórica, o que infelizmente não teve reflexos no aumento do nível do Açude Castanhão. As chuvas não foram uniformes e a bacia hidrográfica do rio Jaguaribe acabou sendo bastante prejudicada. O volume do reservatório aumentou apenas 5 pontos percentuais ao longo desse ano, ficando com um volume 3% menor do que o aumento registrado em 2018. Uma das esperanças da população local é a chegada das águas da Transposição do Rio São Francisco – um dos canais do sistema, com cerca de 400 km de extensão, chegará até o Ceará e as águas transpostas reforçarão os caudais do rio Jaguaribe. 

Os baixíssimos níveis do Açude Castanhão também ameaçam uma série de pequenos municípios do interior cearense como Tabuleiro do Norte, São João do Jaguaribe, Limoeiro do Norte, Jaguaribara e Russas. A se manterem os baixos níveis no reservatório, esses municípios terão o seu abastecimento comprometido a partir do final de janeiro de 2020. Diversos outros municípios que eram atendidos pelo Açude Castanhão estão captando água em poços profundos ou estão buscando pequenos açudes que ainda tem água em seus territórios. 

O Ceará é, historicamente, um dos Estados do Nordeste que mais sofreu com os fortes períodos de estiagem. O Semiárido Nordestino é frequentemente assolado por fortes secas – há registros de grandes tragédias em 1744, 1790, 1877, 1915 e 1932, além de uma infinidade de estiagens menos intensas. Essas fortes secas costumam durar de 2 a 3 anos – as secas de 1877 e de 1932 foram excepcionalmente fortes. Na seca de 1877, conforme comentamos em uma postagem anterior, cerca de 500 mil sertanejos nordestinos que fugiram da seca foram recrutados para trabalhar nos seringais da Amazônia. A grande maioria desses trabalhadores saiu do Ceará, trocando a miséria do sertão pela semiescravidão na Floresta Amazônica

Apesar de contar com a chegada das águas da Transposição do Rio São Francisco, um projeto que já sofreu diversos adiamentos, o Governo do Estado do Ceará tenta buscar outras alternativas para aumentar a disponibilidade de água para o abastecimento de sua população. A mais ousada é um projeto para a instalação de uma grande usina de dessalinização da água do mar na Região Metropolitana. Nas pequenas cidades, os esforços se concentram na escavação de poços e na construção de cisternas nas propriedades rurais. 

Como você pode notar, abastecer grandes populações com água de boa qualidade requer esforços monumentais dos governos e empresas de saneamento básico, e ainda é preciso contar com uma boa ajuda da mãe natureza.

 

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