A VACA É O ANIMAL QUE DÁ O LEITE, OU AS EMBALAGENS LONGA-VIDA

embalagem-longa-vida

Quem entra em um supermercado hoje vai encontrar uma imensa quantidade de produtos diferentes embalados nas hoje famosas caixinhas longa-vida: leite, sucos, vinhos, goiabadas, molhos e por aí vai. Mas houve um tempo em que o fabricante das “caixinhas” precisou fazer muita propaganda para convencer os consumidores de que as caixinhas eram tão boas quanto as embalagens já tradicionais de vidro, de lata e até mesmo as de plástico: a frase do título é de um premiado comercial da década de 1990, que mostrava uma garotinha escrevendo uma redação sobre a vaca – ao invés de falar do animal, a criança descreve uma caixinha longa-vida que embala um litro de leite. Ficou curioso, clique aqui para assistir ou para relembrar este comercial.

As embalagens longa-vida foram criadas na década de 1950 com o objetivo de oferecer um meio de envase asséptico para alimentos, de forma que eles não estragassem durante o transporte, armazenamento e exposição nas prateleiras dos supermercados sem a necessidade de refrigeração. Elas são produzidas a partir da laminação de camadas de plástico, papel e alumínio, que protegem o produto da incidência de luz e do ataque de micro-organismos. No caso do leite da nossa famosa “vaca”, há inicialmente um processo de ultrapasteurização, onde o produto é aquecido a temperaturas entre 135 e 150° C por um período 2 a 4 segundos – isso mata todos os micro-organismos presentes no leite e que poderiam estragar o produto. Embalado nessa milagrosa caixinha, o leite pode ser conservado por até 180 dias sem estragar e sem necessitar de refrigeração.

Gradativamente, as “caixinhas” foram conquistando a confiança dos consumidores e ganharam cada vez espaço nas prateleiras dos supermercados e ocupando também cada vez mais espaço nas lixeiras das residências e, depois, nos aterros sanitários. A alta qualidade dos materiais usados na construção das embalagens e que impediam que os micro-organismos degradassem os alimentos, também impediam a degradação dos materiais descartados na natureza. O tempo de degradação deste tipo de embalagem na natureza é incerto, mas tomando-se como base a degradação do alumínio presente na camada mais interna chega-se a uma estimativa superior a 100 anos.

Depois de várias décadas de produção e descarte em aterros surgiram tecnologias que permitiram o reaproveitamento dos materiais das embalagens longa vida, porém ainda em quantidade tímida – dados do ano de 2012 indicam que houve uma reciclagem de 29% das embalagens longa-vida pós-consumo no Brasil, totalizando 61 mil toneladas – uma simples regra de três indica que 210 mil toneladas de embalagens longa-vida não sofreram nenhum tipo de reciclagem no mesmo ano de 2012 e acabaram indo, na melhor das hipóteses, para os aterros sanitários e lixões das nossas cidades. Milhões dessas embalagens foram jogadas nas ruas ou descartadas em terrenos baldios – com as chuvas, acabaram arrastadas para bueiros, córregos e tubulações de águas pluviais, causando entupimentos nas redes e alagamentos localizados; outras acumularam água e se transformaram em criadouros de mosquitos transmissores de doenças.

Quando devidamente reprocessadas e recicladas com equipamentos adequados, as caixinhas têm seus materiais recuperados na forma de papel, alumínio e plástico, usados como matéria prima para inúmeros novos produtos. Em processos de reciclagem mais simples, as embalagens são trituradas e podem ser transformadas, entre outros produtos, em telhas e placas rígidas usadas na construção civil – há cerca de dez anos atrás, numa obra de implantação de rede de esgotos numa cidade do litoral de São Paulo, optamos por usar essas placas rígidas para fazer os tapumes de isolamento das obras nas ruas – as tradicionais placas de madeira que usávamos até então delaminavam e aprodeciam rapidamente sob sol e chuva; para nossa infelicidade, os moradores de uma comunidade próxima descobriram as qualidades ecológicas de nossos tapumes – muitos deles começaram a sumir durante as noites e foram “reciclados” na forma de paredes e portas das casas desses moradores.

Bom, reciclagem é sempre uma boa causa…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s