PREVISÃO DE CHUVAS FORTES PREOCUPA MORADORES DA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO

Um comunicado do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, alerta sobre a ocorrência de chuvas fortes nos próximos dias em uma extensa área que vai da Baixada Santista, Vale do Ribeira, Vale do Paraíba e Litoral Norte do Estado de São Paulo, e Sul do Estado do Rio de Janeiro chegando até o Mato Grosso do Sul próximo da fronteira com a Bolívia. 

De acordo com o alerta, são esperados volumes acumulados de chuvas entre 50 e 100 mm, ventos intensos entre 60 e 100 km/h, risco de corte de energia elétrica, queda de galhos de árvores, alagamentos e de descargas elétricas O INMET colocou essa região em Alerta Laranja

No caminho dessa faixa de instabilidade se encontra a Região Metropolitana de São Paulo, onde muitas cidades ainda não se recuperaram dos grandes estragos provocados pelas recentes chuvas. A previsão da chegada de novas chuvas deixa muita gente apreensiva, especialmente em cidades como Francisco Morato e Franco da Rocha, duas das mais fortemente atingidas. 

As maiores preocupações estão em Franco da Rocha, onde um grande deslizamento de uma encosta deixou um rastro de destruição e um saldo de 18 mortos. As equipes de resgate localizaram os corpos das últimas vítimas na sexta-feira, dia 4 de fevereiro. 

De acordo com informações da Prefeitura da cidade, cerca de 180 imóveis estão interditados devido ao risco de desabamento. De acordo com um estudo feito em 2021, a cidade possui cerca de 70 áreas de risco, sendo que muitas delas estão em situação complicada depois das últimas chuvas e há sérios riscos de acidentes com a chegada de novas chuvas fortes

Em Francisco Morato, município vizinho de Franco da Rocha, a situação não é menos preocupante. A cidade registrou vários deslizamentos de encostas devido as últimas chuvas, porém sem maior gravidade e sem vítimas fatais. A situação, porém, está muito longe de ser confortável. 

De acordo com um estudo feito pela Defesa Civil Estadual em 2020, existem 120 áreas de risco em Francisco Morato e aproximadamente 6.700 estão sujeitas a algum tipo de risco. Oito em cada dez dessas casas ficam em áreas sob risco de deslizamento

Os municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato e Caieiras, entre muitos outros, são conhecidos como “cidades dormitórios”. Com relevo extremamente acidentado e terrenos baratos, essas cidades atraíram enormes populações ao longo das últimas décadas. Buscando moradias de baixo custo, essas populações passaram a ocupar as encostas dos morros com construções precárias. 

Um dos grandes “atrativos” dessa região é a facilidade de transporte até a área central da Região Metropolitana, principalmente a cidade de São Paulo. A CPTM – Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, opera uma importante linha de trens que cruza a região. A população trabalha em cidades vizinhas e só volta para casa para dormir. 

Eu trabalhei em algumas obras de implantação de rede de esgotos em Francisco Morato em 2010, e confesso que sempre me assustava com a precariedade de muitas construções. Era comum a existência de pontos de erosão nos terrenos, muito deles atingindo os alicerces das casas. Não era preciso ser nenhum especialista em geotécnica de solos para enxergar ali uma situação de riscos. 

Para infelicidade de muitas dessas famílias que hoje estão sofrendo com os riscos de desmoronamentos de novas encostas, parece que as “otoridades” das Prefeituras locais não enxergaram (ou fingiram não enxergar) os problemas potenciais nesses bairros. É quase certo que muitas das tragédias pessoais que se abateram sobre a população poderiam ter sido evitadas.

Uma das coisas básicas que aprendemos nas aulas de Gestão de Riscos é que “risco é um problema que tem que ser tratado antes do desastre“. Raramente, os chamados acidentes são 100% acidentais. Normalmente, ao longo das análises das causas de qualquer acidente, os investigadores encontram uma série de problemas anteriores que não foram resolvidos e que levaram ao acidente. 

Isso é visto em acidentes com aviões e com trens, em incêndios, desabamentos de prédios, entre muitos outros. Sempre faltou uma manutenção preventiva em algum sistema, um componente desgastado que precisava ser trocado, uma fundação que precisava receber um reforço. Então acontece a tragédia e os ditos “responsáveis” começam a se defender e a falar de uma série de providencias que serão tomadas dali para a frente. 

Infelizmente, no caso de “acidentes” que resultam em vítimas fatais, essas providencias sempre chegarão muito tarde e essas perdas são irreparáveis. Observem que, tanto no caso de Franco da Rocha quanto o de Francisco Morato, já existiam estudos anteriores que apontavam os riscos iminentes de uma grande tragédia. A pergunta que fica: quais foram as providências tomadas?

Ao longo dos últimos dias essas áreas atingidas pelas fortes chuvas na Região Metropolitana de São Paulo receberam visitas de importantes autoridades – de Prefeitos ao Presidente da República. Inúmeras promessas para a liberação de recursos emergenciais e de realização de obras de moradias e de sistemas para a gestão e o controle de águas pluviais foram feitas. 

Estamos em um ano eleitoral e, como todos devem saber, políticos costumam prometer mundos e fundos a fim de conquistar votos. Normalmente, passadas as eleições e a posse dos eleitos, tais promessas costumam ficar esquecidas em algum lugar até o momento em que novas tragédias tornem a acontecer e a memória de muitos acaba sendo reativada. 

Os problemas dessas áreas de encostas em Franco da Rocha e Francisco Morato, assim como acontece no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, em Recife e em inúmeras outras cidades por todo o Brasil, já se desenrolam a várias décadas e nenhuma solução definitiva ainda surgiu. 

Falta fiscalização por parte das prefeituras e de programas para a construção de moradias populares com prestações acessíveis para os mais pobres e prazos dilatados para o pagamento. 

Terrenos em encostas de morros e em áreas de várzea são baratos e sempre continuarão atraindo populações com parcos recursos e com a necessidade urgente de uma moradia. Enquanto Governos de todos os níveis não conseguirem resolver em definitivo a questão do acesso a moradias populares, a ocupação dessas áreas vai continuar. 

E novas tragédias continuarão a ocorrer verão após verão… 

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