UM MORIBUNDO CONHECIDO COMO “MAR MORTO”

Mar Morto

O Mar Morto, na fronteira entre Israel e Jordânia, guarda uma semelhança preocupante com o Mar de Aral e com o Lago Chade: a retirada de grandes quantidades de água do Rio Jordão, seu único tributário, para uso em sistemas de irrigação já provocou uma redução da sua superfície em 35% desde 1954 e, a cada ano, o seu nível está se reduzindo em 1 metro. Além da visível redução no nível do lago, um outro problema começa a criar muitas preocupações: crateras cobertas de sal surgem ao longo das margens da água – conforme o sal vai se dissolvendo, as crateras se mostram cada vez mais profundas: algumas tem até 100 metros de diâmetro e 50 metros de profundidade (vide foto). Calcula-se que existam cerca de 6.500 dessas crateras nas áreas de entorno do Mar Morto. 

Como o Mar de Aral e o Lago Chade, o Mar Morto é um lago terminal, conhecido em hidrologia com bacia hidrográfica endorreica. Esse tipo de corpo d’água recebe contribuições contínuas de um ou mais tributários, que compensam sistematicamente as perdas de água para a evaporação. O Mar Morto é alimentado unicamente pelos despejos do Rio Jordão, o maior e mais importante rio da região. Em 1930, quando foi feita a primeira medição criteriosa do Mar Morto, a superfície do espelho d’água era de 1.050 km² – em 2014, a superfície total estava reduzida a 650 km². As águas do Mar Morto têm uma característica única, com dez vezes a quantidade de sal encontrada nos oceanos – logo, é uma água que não é utilizada para consumo humano ou irrigação agrícola: a redução no seu nível se deve ao altíssimo consumo de água para fins de irrigação, que reduziram as contribuições do Rio Jordão em 98%. 

Desde a Independência do Estado de Israel em 1948, a área total cultivada no país aumentou de 165 mil hectares para 435 mil hectares. No mesmo período, a produtividade agrícola aumentou 16 vezes, enquanto o crescimento da população foi de apenas 3 vezes. A chave deste crescimento foi o uso cada vez mais intensivo das águas do Rio Jordão em projetos de irrigação – 60% do território israelense é formado por solos de semiárido, terrenos inadequados para a prática de agricultura convencional. A água que é retirada do rio para fins agrícolas é a água que deixa de chegar ao Mar Morto; sem a reposição da água perdida pela evaporação, o Mar Morto seca um pouco a cada ano. 

O rio Jordão tem 190 km de extensão, com nascentes no Monte Hermon no Norte de Israel. Os principais afluentes são os rios Hasbani ou Snir, com nascentes no Líbano, e Dan e Banias, rios com nascentes em território israelense, e foz no Mar Morto ao Sul, que se localiza numa depressão a 430 metros abaixo do nível do mar. O compartilhamento das águas do rio Jordão é conflituoso, envolvendo israelenses, jordanianos e palestinos. Apesar de toda a sua importância regional, o Jordão é um rio pequeno para os padrões que nós brasileiros estamos acostumados: tem profundidade máxima de 5,5 metros e uma largura média de 18 metros – é um rio com pouca água para atender as necessidades de muita gente. 

A carência de recursos hídricos é marcante na região – as chuvas são escassas e mal distribuídas; no Norte de Israel a precipitação média anual é de 70 mm e nas áreas desérticas do Sul cai para meros 5 mm anuais. O Governo de Israel é extremamente rígido na concessão de outorgas para uso de água para fins agrícolas, atividade que consome 75% do recurso estimado em 1,6 bilhão de metros cúbicos ao ano, além de cobrar taxas entre US$ 0,2 e US$ 0,4 por metro cúbico. Apesar de todos esses cuidados, a baixa oferta de água e alta necessidade de consumo torna necessário o “sacrifício” do Mar Morto, uma das maiores atrações turísticas de Israel, o que vem gerando uma intensa pressão dos setores de turismo e hospedagem sobre o Governo israelense. A Suprema Corte de Israel, inclusive, já tomou decisão contra o Governo, recomendando que se encontre uma solução para o problema. 

Uma alternativa que vem sendo estudada há vários anos, em conjunto com o Governo da Jordânia, que compartilha a bacia e os problemas do Mar Morto com Israel, e com acompanhamento da Autoridade Nacional Palestina, é a construção de um canal entre o Mar Vermelho e o Mar Morto, permitindo o fluxo de água do mar por força da gravidade (lembrando que o Mar Morto está abaixo do nível do mar) para compensar o volume de águas do Rio Jordão que deixa de desaguar no lago. O projeto inclui a construção de uma usina hidroelétrica para o aproveitamento da força da água. A ideia, que parece muito boa, encontra forte resistência entre grupos de ecologistas e empresas que exploram minerais na região do Mar Morto. 

Enquanto não se encontra uma solução para o problema, pitoresco e único Mar Morto continuará sendo mais uma vítima da agricultura irrigada. 

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