ESTUDO CONFIRMA O TAMANHO DAS PERDAS DE GELO NA GROENLÂNDIA POR CAUSA DO AQUECIMENTO GLOBAL

Um estudo realizado por pesquisadores da Dinamarca e que acaba de ser publicado confirma com números dramático o que todo mundo já sabia: o aquecimento global já provocou a perda de 4,7 trilhões de toneladas de gelo na Groenlândia nos últimos 20 anos. 

O acelerado aquecimento da Groenlândia, a maior ilha do mundo com uma área de 2,1 milhões de km², segue a um ritmo de três a quatro vezes mais rápido do que em outras partes do mundo. De acordo com dados do Portal Polar, entidade que reúne os institutos dinamarqueses que estudam o Ártico, esse “derretimento contribuiu para elevar o nível do mar em 1,2 centímetro”. 

A ilha é um território autônomo do Reino da Dinamarca, país do qual depende financeiramente. Cerca de 80% do território da Groenlândia é recoberto por um manto de gelo. O nome da ilha é de origem nórdica e foi dados pelos antigos navegadores vikings que lá aportaram por volta do ano 900 da nossa era. Em dinamarquês, o nome da ilha é Grønland, o que significa, literalmente, “terra verde”. 

Entre os anos 900 e 1300 de nossa era, o Sul da Groenlândia possuía um clima bem mais ameno que nos dias atuais e abrigava diversas colônias de escandinavos. A região era coberta por árvores da taiga, a grande floresta boreal, além de plantas herbáceas, permitindo a agricultura e a criação de gado.  

Gradativamente as temperaturas começaram a se reduzir e, no século XVII a pequena população local teve de abandonar a Groenlândia por causa do frio extremo. Esse é um período conhecido como a Pequena Idade do Gelo, quando toda a Europa sofreu com as baixas temperaturas.   

A população atual da ilha é de menos de 60 mil habitantes, espalhados por pequenas cidades ao longo da costa (vide foto). A imensa maioria da população – cerca de 90%, é formada por indígenas do grupo inuit. Esses povos, extremamente adaptados para a vida em altas latitudes, começou a ocupar a Groenlândia a cerca de 4.500 anos em sucessivas ondas migratórias. Algumas das tribos tiveram mais sucesso do que outras na colonização. 

A economia da Groenlândia é quase que totalmente dependente do mar – a pesca e o processamento de pescados e frutos do mar são as principais atividades econômicas da ilha. A maior parte dos grandes barcos de pesca e as fábricas são de propriedade de cidadãos dinamarqueses, restando aos groenlandeses apenas os trabalhos braçais, pesados e sujos. Essa é uma situação que provoca uma enorme revolta entre os locais, com muitos sonhando com uma eventual independência da Dinamarca. 

O dramático derretimento da capa de gelo da Groenlândia já havia sido demonstrado por vários estudos anteriores. Um deles, publicado pela prestigiada revista científica Nature em 2020, mostrou a perda de gelo em três grandes geleiras do país: Jacobshavn Isbrae, Kangerlussuq e Helheim 

De acordo com as estimativas dos pesquisadores, a geleira Jacobshavn Isbrae perdeu 1,5 trilhão de toneladas de gelo entre 1888 e 2012. Nas geleiras Kangerlussuaq e Helheim, essa perda de massa, entre os anos de 1900 e 2012, foi estimada em 1,3 trilhão e 3,1 bilhão de toneladas, respectivamente. Entretanto, nem é preciso ser um especialista no assunto para observar o que está acontecendo – existem enormes crateras cheias de água por toda a ilha, um sinal claro do derretimento do manto de gelo. 

Todo esse volume de água doce resultante do derretimento da capa de gelo corre na direção do oceano e já está provocando problemas visíveis. Segundo um estudo de pesquisadores da Universidade de Washington e que foi publicado em 2018, a AMOC – Circulação Meridional do Atlântico, na sigla em inglês, que é mais conhecida como a Corrente do Golfo do México, está desacelerando. 

Essa corrente de águas quentes se forma no Mar do Caribe e segue na direção das Ilhas Britânicas, seguindo depois nas direções da Islândia, da Escandinávia e do Polo Norte. A largura dessa corrente é de aproximadamente 90 km e sua velocidade é de 2 metros/segundo, o que resulta na movimentação de 20 milhões de m³ de água por segundo.  

Segundo os especialistas, somente para citar um exemplo da importância dessas águas, é essa corrente marítima que torna o clima mais ameno na Irlanda e na Grã Bretanha. Sem as águas quentes da Corrente do Golfo, a vida de irlandeses, ingleses, escoceses e galeses seria muito mais difícil devido ao clima inóspito. 

Quem é fã de cinema talvez esteja se lembrando do filme “O dia depois de amanhã” lançado em 2004. No enredo, a Corrente do Golfo deixa de fluir para o Norte, o que causa o início de uma nova Era do Gelo ou período glacial no Hemisfério Norte. Uma das razões para a paralização da corrente marítima no filme foi justamente o degelo acelerado na Groenlândia. 

Os dados analisados no estudo compreenderam o período entre 1975 e 1998, e indicam que o evento deve durar cerca de duas décadas. Também há fortes indicações de que esse é um evento climático normal e cíclico, e que uma tragédia climática global como a mostrada no filme está muito longe de ocorrer. Entretanto, é bom ficarmos atentos a tudo o que está acontecendo por lá.  

Mudanças nos padrões climáticos dos continentes devido a alterações das correntes marítimas fazem parte da história do mundo. Vou citar o exemplo da Antártida, que durante vários milhões de anos possuiu um clima tropical e subtropical. Há cerca de 23 milhões de anos atrás, quando surgiu a Passagem de Drake, a Antártida foi se separando cada vez mais da América do Sul e as coisas começaram a mudar. 

Mudanças na configuração dos continentes (lembram da Tectônica Global?) levaram ao surgimento da Corrente Circumpolar Antártica, o que passou a impedir a chegada de fluxos de águas quentes das áreas tropicais do planeta. O clima da Antártica começou a mudar. As imensas florestas e a variada fauna começaram a desaparecer gradualmente e, desde 15 milhões de anos atrás, o continente está totalmente coberto por uma grossa camada de gelo. Da antiga fauna diversificada restaram apenas os pinguins, focas e algumas espécies de aves. 

Não sabemos ao certo onde esse rápido aquecimento da Groenlândia vai nos levar. Só espero que não seja a um cenário parecido com o mostrado no filme – minha cidade mal consegue resistir a uma chuva mais forte; quiçá a uma nevasca…  

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