UMA USINA DE DESSALINIZAÇÃO NO ESTADO DO CEARÁ

fortaleza

Na postagem anterior fizemos uma rápida apresentação dos problemas de abastecimento no Ceará, falando inclusive de várias secas devastadoras. Uma das mais graves estiagens que se abateu sobre o Estado, entre 1877 e 1879, matou 100 mil pessoas, o que na época equivalia a metade da população cearense. Hoje, a população de várias regiões do Estado, principalmente na Região Metropolitana de Fortaleza, ainda sofre as consequências de uma forte seca que persistiu entre os anos de 2011 e 2017 – o Açude Castanhão, principal manancial de abastecimento do Ceará, ainda não conseguiu se recuperar e seu estoque de água permanece com menos de 4% de sua capacidade total. 

Sem contar com outras fontes de abastecimento, o Governo do Ceará passou a trabalhar com o projeto de construção de uma grande usina de dessalinização nas proximidades da cidade de Fortaleza. Ainda no final de 2017, foram escolhidas duas empresas, uma sul-coreana e outra espanhola, especializadas em consultoria de projetos de dessalinização. O principal objetivo do trabalho dessas empresas era a apresentação de estudos técnicos  de viabilidade, que apontassem as melhores alternativas tecnológicas e os melhores locais para a instalação da planta industrial. O Governo do Estado trabalhava com a expectativa de publicar no mês de dezembro de 2018, um edital internacional para a seleção de empresas ou consórcios de empresas para construir a usina de dessalinização, o que acabou não acontecendo ainda. 

De acordo com dados informados pelo Governo do Ceará, o investimento estimado para as obras será de R$ 500 milhões. A expectativa das autoridades é o atendimento de, pelo menos, 720 mil pessoas na cidade de Fortaleza com água dessalinizada do mar já a partir de 2020. Entre os locais já apontados com potencial para receber a usina despontam o Mucuripe, na margem direita do rio Cocó, e um trecho do litoral de Caucaia próximo à Fortaleza. Caso os planos se confirmem, o Ceará se tornará o primeiro Estado brasileiro  a contar com uma usina de dessalinização de grande porte. 

A cidade de Fortaleza tem 3,9 milhões de habitantes e consome cerca de 8 m³ de água por segundo. A contribuição inicial da usina de dessalinização será de 1 m³ por segundo, o equivalente a 12% do consumo de água da cidade. Uma das ideias em estudo avalia a possibilidade de se construir uma usina de dessalinização modular, como aquela usada na planta de dessalinização Jabel Ali de Dubai. Esse modelo permitirá uma ampliação progressiva da capacidade de produção, atendendo um número cada vez maior de habitantes e acompanhando o desenvolvimento tecnológico. 

Nos dias atuais, cerca de 300 milhões de pessoas em 150 países diferentes são abastecidas com água dessalinizada. Segundo informação de fabricantes de equipamentos e de usinas de dessalinização, existem aproximadamente 14 mil unidades em operação ao redor do mundo, produzindo mais de 86 milhões de metros cúbicos de água dessalinizada por dia. O custo médio de cada m³ (1.000 litros) de água dessalinizada no mercado internacional é de US$ 1.00. O Governo do Ceará pretende alcançar um custo de produção abaixo desse valor, reduzindo ao máximo os impactos na conta de água da população. 

O custo da energia elétrica, conforme comentamos em diversas postagens dessa série, corresponde, em média, a 50% dos custos de operação de uma usina de dessalinização. Diversos países que utilizam água dessalinizada têm altos custos para a geração de energia elétrica a partir de combustíveis fósseis como o carvão e o óleo. Esse alto custo da energia elétrica tem reflexos diretos nas contas de água e as populações são obrigados a reduzir ao máximo o consumo em suas residências. O Estado do Ceará está entre os mais pobres do Brasil e não existe qualquer margem no orçamento das famílias para cobrir eventuais aumentos no valor das contas de água. 

O Ceará, chamado por muitos de “Terra do Sol”, possui um dos maiores índices de insolação do mundo, o que abre inúmeras possibilidades para o uso de energia elétrica fotovoltaica para alimentação da futura usina de dessalinização. A título de comparação, a Alemanha, país líder mundial no uso de energia solar, possui uma insolação média em seu território 5 vezes menor que a do Ceará. Outra fonte de energia renovável que tem um enorme potencial de crescimento no Estado é a geração através de turbinas eólicas. As belas paisagens do litoral cearense apresentam, há vários anos, gigantescas torres de geração eólica, que já se tornaram verdadeiros cartões postais do Estado. Torçamos para que os planejadores do Estado estejam trabalhando nessa direção. 

O uso de fontes alternativas de energia é um dos segredos do sucesso das usinas de dessalinização de Israel. Com a descoberta de grandes campos de gás natural no território israelense, todas as plantas que já estavam em operação foram convertidas para o uso do gás natural e as plantas novas já foram projetadas para operar com esse combustível. O preço médio do m³ de água dessalinizada em Israel é da ordem de US$ 0.60, um dos mais baixos praticados no mundo

Sem nos alongarmos muito nesse ponto, é sempre importante lembrar que o principal parque de usinas hidrelétricas da região Nordeste fica no rio São Francisco. Esse combalido e enfraquecido rio, que já foi tema de dezenas de postagens aqui no blog, apresenta caudais cada vez menores, um problema que está na raiz de diversos males vividos por inúmeras cidades ribeirinhas. Uma eventual utilização de eletricidade gerada a partir das preciosas e escassas águas do Velho Chico seria de uma insensatez inominável – por isso a minha insistência no uso de outras fontes de energia renováveis como a solar e a eólica.. 

Encerrando essa postagem, uma informação importante que aparece nas entrelinhas dos comunicados emitidos pelo Governo do Ceará: a intenção de delegar a operação e a produção da usina de água dessanilizada nas mãos da iniciativa privada – o Governo se comprometeria a comprar toda a água produzida para uso no abastecimento da população. Empresas públicas, como a experiência de vida de cada um dos leitores já deve ter mostrado, costumam ser altamente ineficientes, custosas e propensas ao uso político pelos grupos que estão no poder. Cargos fantasmas, salários acima da média do mercado e com um número excessivo de benefícios, contração de cabos eleitorais, etc, são males que sufocam a maioria esmagadora das empresas públicas brasileiras.  

Se o projeto do Ceará seguir mesmo por esse caminho, o da administração privada, as coisas tenderão a melhorar muito no saneamento básico da Grande Fortaleza. 

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