LAVOISIER E OS RESÍDUOS SÓLIDOS

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Em qualquer sistema, físico ou químico, nunca se cria nem se elimina matéria, apenas é possível transformá-la de uma forma em outra. Portanto, não se pode criar algo do nada nem transformar algo em nada. Simplificando um pouco a linguagem para uma formato mais popular que você, muito provavelmente, já ouviu antesna natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Esse postulado, chamado de Princípio da Conservação das Massas, foi publicado inicialmente num ensaio de Mikhail Lomonosov, cientista russo, no ano de 1760, sem conseguir maior repercussão nos meios científicos. Em 1774, o químico francês Antoine Laurent de Lavoisier, realizou uma série de experimentos comprovando o postulado de Lomonosov, que passou para o registro da história, incorretamente, como o Princípio de Lavoisier.

E por que comecei este post falando de Lavoisier e seu princípio?

Porquê ele se aplica perfeitamente aos resíduos sólidos – uma vez gerados ou criados, esses resíduos não podem desaparecer espontaneamente – eles podem ser transportados de um lugar para outro, podem ser escondidos embaixo de uma camada de terra, podem ser jogados para que afundem e desapareçam sob a superfície de um rio ou do oceano – porém, à exceção dos resíduos orgânicos que mais cedo ou mais tarde serão decompostos e transformados pela natureza, os resíduos sólidos vão continuar existindo. Essa “existência” será de uns poucos anos para madeira, papel e latas, chegando a alguns milhões de anos para vidros e pneus de borracha.

Há vários meses venho escrevendo sucessivos posts falando sobre os mais diferentes tipos de resíduos gerados às centenas de toneladas a cada dia em nossa sociedade; também escrevi bastante sobre os problemas de saúde desencadeados a partir da disposição inadequada destes resíduos, em especial as epidemias provocadas por vetores como os mosquitos. E por que gastar tanta energia falando de um mesmo tema?

Simples – nossa sociedade se especializou em produzir lixo!

Lembro de uma aula magistral na universidade onde o mestre, Prof. José de Ávila Coimbra, falou sobre a produção crescente de resíduos em nossa sociedade e usou uma figura de linguagem espetacular: os guarda-chuvas chineses de baixo custo que, naquele momento, invadiam as nossas ruas. A unidade de tempo usada para falar da durabilidade do objeto foi chuva: “em, no máximo, 5 chuvas o objeto passaria à condição de lixo”; e continuava: “Nosso país está se especializando na importação de lixo”, fazendo referência a uma série de quinquilharias (vendidas como utilidades domésticas) e produtos eletrônicos e/ou ditos tecnológicos com ciclo de vida extremamente curto: quebra ou para de funcionar depois de umas poucas horas de uso e tem como destino engordar as estatísticas dos nossos resíduos sólidos diários. Aliás, lixo eletrônico é um tema para nos debruçarmos em outro post.

Há um simpático vídeo, muito utilizado pelos educadores ambientais, que mostra como nosso estilo de vida moderna está destruindo os meios naturais e, por tabela, colocando a nossa sociedade em risco: chama-se A História das Coisas – se você ainda não viu, recomendo clicar no link e dar uma olhada – será muito didático.

Cada brasileiro gera entre 400 e 500 kg de lixo a cada ano – dependendo da fonte consultada, esse valor poderá variar. Em Estados menores, como o Acre e Roraima, a produção individual é menor – em Estados maiores e mais industrializados como São Paulo e Rio de Janeiro, essa produção é bem maior. Muitos dirão que a produção de resíduos sólidos é uma consequência do mundo moderno, o que, de fato, é uma grande verdade – o grande problema é que, diferentemente das sociedade modernas que encontramos nos países com os mais altos Índices de Desenvolvimento Humano – IDH, como a Noruega, Dinamarca, Suécia e Nova Zelândia, entre outras nações que tratam a questão com competência e responsabilidade, nosso país adotou os mais modernos hábitos e produtos de consumo sem que houvesse a menor preocupação em também modernizar os sistemas de coleta e destinação dos resíduos gerados “às pencas” a cada santo dia. Estamos, literalmente (faço aqui uma referência às enchentes provocadas por resíduos dispostos inadequadamente), nos afogando em nosso próprio lixo – sem exagero.

Voltando a Lavoisier e à lei que leva o seu nome, nossos resíduos sólidos não vão desaparecer espontaneamente de nossas ruas, lixões, aterros, rios e outros locais onde, criminosamente, despejamos o lixo nosso de cada dia – é preciso incorporar muita energia no sistema para transformar esse lixo em elementos e matérias primas que possam ser reutilizados por nossa sociedade.

Na química e no Saneamento Básico, não existem milagres – não que eu saiba…

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