CHUVAS EM TEMPO DE COLHEITA AGRÍCOLA

Uma extensa área entre o litoral do Estado de São Paulo e o Mato Grosso do Sul deverá receber volumes expressivos de chuvas nos próximos dias. Na Região Metropolitana de São Paulo, conforme comentamos na postagem anterior, essas chuvas chegam em meio a grandes preocupações – muitas cidades ainda estão se recuperando dos estragos das recentes chuvas. 

Além dos problemas que costumam causar nas cidades, onde as enchentes e os desmoronamentos de encostas de morros são os mais comuns, o excesso de chuvas também traz preocupações para as populações das áreas rurais. 

Esse comentário pode parecer, à primeira vista, um grande contrassenso. É comum imaginarmos que as chuvas são sempre bem-vindas em áreas de produção agropecuária – afinal de contas, as culturas precisam ser irrigadas e os animais dessedentados. Porém, a chegada de chuvas na hora errada pode criar problemas muito maiores do que os aparentes benefícios. 

Em muitas regiões dos Estados de Mato Grosso do Sul e do Mato Grosso as chuvas chegaram no momento da colheita da soja. Aqui, os problemas começam pelo excesso de umidade nos solos, o que pode criar uma série de dificuldades para o deslocamento de colheitadeiras e outras máquinas usadas na colheita dos grãos (vide foto). 

A umidade também pode provocar a germinação dos grãos ainda nas vargens, levando à abertura dessas vargens e a perda de parte dos grãos. Os grãos também podem ficar ardidos ou apodrecidos, um problema que compromete a qualidade dos produtos e os ganhos dos produtores. 

De acordo com informações dos produtores rurais, a chuvas que estão caindo desde a última semana em Estados da Região Centro-Oeste chegaram no momento em que está sendo realizada a colheita dos grãos, algo que pode atrasar a colheita – especialmente da soja. Segundo as informações disponíveis, as chuvas chegaram quando apenas 16% da safra já havia sido colhida

Produção agrícola e água são as duas faces de uma mesma moeda – é impossível falar em uma coisa sem ter a outra disponível. Desde a “invenção da agricultura” pela humanidade, algo que deve ter acontecido entre 12 mil e 10 mil anos atrás, as regiões com as melhores terras e melhor oferta de água passaram a ser as mais disputadas por diferentes povos. 

Um exemplo fácil de lembrar é o da Mesopotâmia, considerada como um dos berços da civilização. Ao longo dos milênios surgiram na região diferentes povos e reinos – sumérios, babilônicos, assírios, persas, entre muitos outros. O potencial de produção agrícola da região sempre esteve na base da cobiça desses povos. Essa mesma cobiça não se viu em regiões próximas, porém, inadequadas para a agricultura como nas estepes semiáridas da Ásia Central. 

As atividades agrícolas são grandes consumidoras de água – perto de 70% dos recursos hídricos de uma região, em média, destinam-se aos campos agrícolas. Quando a natureza não oferece abundancia de água, é preciso recorrer à tecnologia, seja ela qual for, para aumentar ao máximo a oferta para os campos de produção. 

A construção de canais é uma das técnicas mais antigas conhecidas pela humanidade, especialmente em áreas planas como vales ao largo de grandes rios, onde as cheias naturais ajudavam a levar a água aos pontos mais distantes. Muitas vezes era preciso construir represas e sistemas de comportas para conseguir manejar adequadamente os caudais. 

Em tempos bem mais modernos, especialmente após o desenvolvimento de motores de combustão interna e de sistemas movidos a partir da energia elétrica, os sistemas de irrigação agrícola ganharam o mundo. Calcula-se que perto de 20% de toda a área cultivada no mundo seja irrigada e que 40% do total de alimentos produzidos venham dessas áreas

Estudos indicam que a produtividade de áreas irrigadas é, pelo menos, 2,3 vezes maior do que em áreas não irrigadas. Foi justamente por causa da popularização dos sistemas de irrigação que a produtividade agrícola cresceu entre 2,5 e 3 vezes nos últimos 50 anos, enquanto que a área cultivada cresceu apenas 12%. 

Segundo estimativas da FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, os países em desenvolvimento vão aumentar suas terras irrigadas em cerca de 34% até o ano de 2030. Isso deverá se refletir em um aumento de cerca de 14% no consumo de água, algo que poderá criar problemas em muitas regiões que já sofrem com a escassez de recursos hídricos. 

Uma das principais vantagens da irrigação é a possibilidade de o agricultor conseguir controlar o volume de água oferecido as plantas de acordo com o estágio de crescimento. Solos logo após a semeadura precisam receber pequenas quantidades de água que sejam suficientes para a germinação das plantas – água em excesso nessa fase podem levar as sementes ao apodrecimento antes da germinação. 

Depois, conforme as plantas vão desenvolvendo, o volume de água vai aumentando gradativamente e, depois, precisa ser reduzido conforme chega o momento da colheita. Culturas como grãos precisam de níveis de umidade bastante precisos para atingir os melhores níveis de qualidade. 

Já com as chuvas, os produtores passam a contar com uma boa dose de sorte, uma vez que não é possível controlar nem o momento das chuvas nem os volumes que cairão sobre os solos. Baseados em sua experiência de vida e em dados fornecidos pelos meteorologistas, os agricultores montam o seu calendário de plantio e colheita, algo que nem sempre funciona com a sincronia desejada. 

Nos últimos meses foram muitas as regiões do Brasil que sofreram com a seca. Produtores do Rio Grande do Sul, citando um exemplo, tiveram perdas por causa da forte seca da ordem de 80% e 100% nas lavouras de milho; nas lavouras de soja, as perdas são estimadas em 50%. 

Agora, com as chuvas chegando na hora errada, são os produtores da Região Centro-Oeste que estão preocupados com o excesso de umidade justamente na hora da colheita. E não há muito o que fazer – é preciso esperar um intervalo entre as chuvas e, assim que o tempo dá uma trégua, subir nas máquinas e colher a maior quantidade de grãos que for possível. 

Ou seja: a água é uma verdadeira faca de dois gumes para a agricultura. A falta dela ou o excesso podem, literalmente, destruir um ano de trabalho de um agricultor. 

One Comment

  1. […] Também entram nessa complicada equação uma série de problemas climáticos que vem assolando várias partes do mundo e que reduziram os volumes de produção de muitas culturas. Aqui no Brasil várias regiões produtoras enfrentaram um longo período de seca, o que reduziu a produção da soja e do milho. Outro complicador surgiu em algumas regiões que passaram por fortes chuvas justamente na hora da colheita.  […]

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