FALANDO UM POUCO DA HISTÓRIA GEOLÓGICA DO RIO SÃO FRANCISCO

O Governo Federal inaugurou ontem, dia 9 de fevereiro, o último trecho do Eixo Norte do Rio São Francisco. Muito mais do que uma simples obra de vários Governos, essa inauguração representa a realização de um antigo e acalentado sonho de inúmeras gerações de sertanejos. 

Essa grande obra também significa uma mudança na própria história geológica do rio São Francisco, que tem sua gênese iniciada há cerca de 2 bilhões de anos atrás. Grande parte da região onde se encontra a bacia hidrográfica do rio São Francisco já foi um grande deserto e ficava no centro do antigo supercontinente de Gondwana. Era um deserto de areias planas, com dunas pequenas e sem nenhuma vegetação. 

Naquele período, conhecido na geologia como Paleoproterozoico (na escala do Tempo Geológico refere-se ao período entre 2,5 e 1,6 bilhão de anos atrás), o clima da região era extremamente árido e chovia muito pouco – quando chovia, porém, eram verdadeiras tempestades, que formavam fortes enxurradas e carreavam grandes quantidades de sedimentos. No centro dessa região existia uma grande cadeia montanhosa que tinha cerca de 800 km de extensão e 500 km de largura.   

Relembrando, Gondwana era um antigo supercontinente formado pela América do Sul, África, Antártica, Ilha de Madagascar, Índia (o famoso Subcontinente Indiano), Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e algumas outras ilhas. Devido à movimentação das Placas Tectônicas (pesquise sobre a Deriva dos Continentes), esse supercontinente começou a se fragmentar há cerca de 165 milhões de anos e a movimentação dos “fragmentos” levou a atual configuração do mapa mundi.  

A separação da América do Sul da África trouxe junto a cadeia montanhosa que citamos, que se quebrou em diversos pedaços devido à movimentação da Placa Sul-americana. Esses “pedaços” acompanharam a movimentação dos terrenos e formaram diversos relevos que nos são bastante familiares: Serra da MantiqueiraSerra do Mar e Serra da Canastra, entre outras, além de uma longa sequência de serras entre os Estados de Minas Gerais e Bahia, conhecida como Serra ou Cordilheira do Espinhaço e que tem cerca de mil quilômetros de extensão. Grande parte dessas formações rochosas formam o que é conhecido como Cráton do rio São Francisco.  

Se você viajar por estradas mineiras e baianas, é muito improvável que você encontre placas indicando a Cordilheira ou Serra do Espinhaço. Essa extensa formação rochosa é mais conhecida pelos nomes dos seus trechos: Serra de-Deus-te-livre ou Serra de Ouro BrancoSerra do CipóSerra dos Cristais, e Chapada Diamantina, entre outras. Esses relevos são cobertos por diferentes tipos de vegetação e possuem inúmeras nascentes de águas.  

Os grandes blocos rochosos que formam esses relevos são bem antigos e constituídos por rochas extremamente resistentes, tendo sobrevivido a dezenas de milhões de anos de processos erosivos das chuvas, ventos e geleiras (apesar de hoje vivermos em uma zona de clima essencialmente tropical, em longos períodos de tempo no passado já convivemos com eras glaciais muito frias e com grandes formações de geleiras aqui no território brasileiro).  

Serras e cordilheiras funcionam como divisores de águas: as águas das chuvas e das fontes de água que surgem nesses relevos correm em diferentes direções acompanhando a declividade dos solos e formando rios. Por força da gravidade, a água sempre procura terrenos cada vez mais baixos até conseguir chegar, na grande maioria dos casos, até o oceano. 

Ao redor da Cordilheira do Espinhaço, podemos citar dois exemplos de rios que se formaram nas “duas faces” do relevo: a Leste, temos o rio Doce, que tem algumas de suas nascentes mais distantes na Serra da Mantiqueira e que corre primeiro rumo ao Norte e depois para o Leste, com sua foz no litoral do Estado do Espírito Santo. 

Outro exemplo é o nosso rio São Francisco, que tem suas principais nascentes na Serra da Canastra e que segue através de uma longa depressão a Oeste da Cordilheira do Espinhaço rumo ao Norte, atravessando o Norte de Minas Gerais e todo o Estado da Bahia, para só depois virar rumo ao Leste e seguir na direção de sua foz na divisa dos Estados de Alagoas e Sergipe.  

Um evento fundamental que não podemos deixar de fora dessa super reduzida história do rio São Francisco foi o “nascimento” do Oceano Atlântico. Conforme as grandes massas de terra da América do Sul e da África foram se separando e a largura do Atlântico foi aumentando. Os volumes de umidade criados pela evaporação das águas do Oceano também foram aumentando. 

As correntes de ventos, que também surgiram em função do surgimento do Oceano Atlântico, passaram a espalhar de forma progressiva essa umidade pelos continentes. Esses ciclos de chuvas foram fundamentais para o surgimento e evolução de florestas como a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, aqui na América do Sul, e a Floresta do Congo, na África.  

Na região central do território onde hoje está o Brasil, os ciclos regulares das chuvas e as características cristalinas dos solos levou ao surgimento de grandes aquíferos, que se tornariam fundamentais para a formação das mais importantes bacias hidrográficas do país. Essa região desenvolveu um tipo de vegetação com características muito particulares e quase que exclusivamente brasileira – o Cerrado. As nascentes dos rios que se surgiriam nessa extensa região seriam fundamentais para a formação do rio São Francisco. Cerca de 2/3 dos atuais caudais do rio São Francisco vêm das áreas do Cerrado.  

Um outro tipo de vegetação tipicamente brasileira que surgiu em uma parte importante da bacia hidrográfica do São Francisco foi a Caatinga. Ocupando uma área com pouco menos de 1 milhão de km² na região do Semiárido Nordestino e do Norte de Minas Gerais, a ecologia da Caatinga é formada por plantas e animais altamente adaptados para um clima semiárido, sujeito a frequentes temporadas de fortes secas. O São Francisco, o maior e mais importante rio que atravessa a região, sempre teve um papel fundamental para todas as formas de vida do bioma.  

O vale do rio São Francisco se formou ao longo de uma extensa depressão entre a Serra da Canastra e a Serra Geral de Goiás a Oeste e a Cordilheira do Espinhaço a Leste. Neste trecho, as altitudes variam entre 1.000 e 1.300 metros acima do nível do mar. No Médio Vale do São Francisco, essa depressão é cercada por relevos como a Serra da Tabatinga e a Chapada do Araripe, sendo essa última o grande obstáculo que impediu que as águas do rio seguissem para o Norte. Ao longo de inúmeras eras, as águas foram escavando rochas e formando a calha atual do Velho Chico.  

Durante o longo processo de formação da calha do rio São Francisco, as águas pluviais e os caudais dos inúmeros rios que foram surgindo formaram diversos lagos, onde se destaca um grande lago que se formou numa grande fossa tectônica no Norte do Estado da Bahia. O principal testemunho que restou desse lago são os grandes paredões que formam o canyon (ou canhão, a palavra portuguesa equivalente) do rio São Francisco (vide foto). As águas desse lago subiram até atingir o topo dessas rochas e, muito lentamente, passaram a escavar um canal de passagem para concluir a sua jornada rumo ao Oceano Atlântico.  

A história geológica do rio São Francisco, é claro, é muito mais complexa do que mostramos aqui. Porém, esse resumo dá uma ideia da sucessão de eventos e dos muitos milhões de anos que foram necessários até o Velho Chico chegar à sua configuração atual. O PISF – Programa de Integração do Rio São Francisco ousou mudar artificialmente a geologia do rio e levar suas águas para as terras semiáridas do Sertão Nordestino. 

Com toda a certeza, também mudará para sempre a história de milhões de sertanejos. 

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