IRRIGAÇÃO E TRAGÉDIAS AMBIENTAIS, OU ERA UMA VEZ O MAR DE ARAL

Mar de Aral

Os danos ambientais que os sistemas de irrigação em grandes áreas agrícolas podem provocar em uma determinada região não são meras hipóteses teóricas – existem inúmeros casos fartamente documentados, onde a retirada excessiva de grandes volumes de água de rios e lagos acabou em verdadeiros desastres ambientais regionais. Vamos relembrar o caso do Mar de Aral

Localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o Mar de Aral era até o início do século XX o quarto maior lago do mundo, com uma área total de 68 mil km² – isto correspondia a soma de três vezes o tamanho do Estado de Sergipe com uma área equivalente a duas vezes o tamanho do Distrito Federal; também era equivalente a 165 vezes a área da Baía da Guanabara. Nada mal para um lago que ficava no meio de um grande deserto. 

O Mar de Aral surgiu graças a existência uma grande depressão no terreno, onde se formou uma bacia hidrográfica endorreica, ou seja, uma bacia fechada, sem drenagem para outras bacias hidrográficas ou para o oceano, sendo alimentada pelas águas das chuvas, do degelo e, especialmente pela drenagem das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria. Estes caudalosos rios nascem na Cordilheira do Himalaia, distante 2.000 quilômetros do lago. O grande volume de água despejado no lago compensava a evaporação de aproximadamente 10% ao ano, mantendo o nível do Aral estável por um longo período geológico e com uma profundidade máxima de 31 metros. Aral, nas línguas uzbeque e cazaque, significa “ilha” – haviam mais de 1.100 naquele mar. 

Observe que muitos dos verbos usados até aqui estão no passado – esse Mar de Aral descrito nesses dois parágrafos não existe mais. Para ser mais exato, um pequeno trecho do lago ao Norte, batizado de Pequeno Aral, conseguiu manter parte de suas águas graças a uma pequena contribuição mantida pelo rio Syr Daria e é tudo o que restou do majestoso Mar de Aral. Com financiamento do Banco Mundial, o Governo do Cazaquistão construiu uma barragem com extensão de 13 km, permitindo a estabilização da profundidade deste trecho remanescente do lago em 4 metros. 

O aniquilamento do Mar de Aral foi o resultado de décadas de descaso das autoridades da antiga máquina burocrática da extinta URSS – União da Repúblicas Socialista Soviéticas. Dentro do planejamento da economia estatal, a Ásia Central foi incumbida de fornecer algodão, a qualquer custo, para todas as Repúblicas do antigo bloco comunista. Há relatos do discurso de uma alta autoridade do regime comunista, lá pelos idos da década de 1930, falando que “o Mar de Aral deveria morrer como um bom soldado em prol da nação“. 

Se você for do tipo curioso e quer entender o que significa esse “qualquer custo”, recomendo que você faça uma pesquisa para verificar o tipo de solo e de clima da região de entorno do Mar de Aral – um “mar sem fim” de desertos. Confira; 

Entre o Mar de Aral e o Mar Cáspio encontramos o deserto de Karakum, que em uzbeque significa “Deserto das Areias Negras”, com cerca de 350 mil km² (o Estado de São Paulo tem 248 mil km²); entre os rios Amu Daria e Syr Daria fica o Kyzyl Kum, “Deserto das Areias Vermelhas”, cobrindo uma área de 298 mil km²; além do rio Syr Daria fica o Betpak-Dala ou “Planalto da Fome” com área de 75 mil km², que segue até atingir o deserto das areias de Muyunkum, “Deserto Pescoço de Camelo” (em razão do formato), com uma área de 78 mil km².

Dez anos depois do início do uso da água para a irrigação dos campos de algodão, o nível das águas do Mar de Aral baixou 2 metros e a área do espelho d’água foi reduzida em 6.000 km²; cinco anos depois, o nível baixou mais 3 metros e o espelho d’água diminuiu outros 5.000 km²; passados outros dez anos, o nível das águas baixou mais 14 metros e o Mar de Aral ficou reduzido a um terço da sua área original, com um grande aumento da salinidade das suas águas e intensa mortandade de peixes. O porto de Aralsk, onde o lago tinha uma profundidade média de 13 metros, agora está distante 70 km da margem das águas remanescentes – o colapso do Mar de Aral estava consolidado e a vida de 50 milhões de pessoas teria um futuro incerto. 

A tragédia ambiental do Mar de Aral só passou a ser conhecida do grande público a partir do desmantelamento da União Soviética no final da década de 1980. Até então, os burocratas de Moscou escondiam a real escala do que estava acontecendo. Consulte os arquivos do blog, a partir de 28 de março de 2017, e você encontrará uma série de postagens sobre a tragédia do Mar de Aral. 

Resumo: foi-se o Mar de Aral, mas os países da Ásia Central ainda estão entre os maiores produtores de algodão do mundo. E tudo graças à agricultura irrigada… 

3 Comments

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s