AS AGRESSÕES AMBIENTAIS QUE PÕEM EM RISCO A CHAPADA DO ARARIPE

Chapada do Araripe

Nas últimas postagens falamos das belezas naturais e das fontes de águas de diversas serras, chapadas e outras formações geológicas importantes do país. Entre outras, falamos da Serra da Canastra, em Minas Gerais, da Serra dos Órgãos no Rio de Janeiro, da Chapada Diamantina, na Bahia, e da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Em todas essas belas localidades existem problemas, de menor ou de maior gravidade, que merecem uma atenção cada vez maior das autoridades ambientais de todos os níveis de Governos. 

Para a postagem de hoje, foi escolhida a Chapada do Araripe, uma importante formação geológica que fica na divisa dos Estados do Piauí, Pernambuco e Ceará. A Chapada se distribui por 33 municípios nesses três Estados, onde vivem mais de 800 mil habitantes. Infelizmente, a situação do Araripe é deveras preocupante – o grau de problemas e de agressões ambientais vivenciados em seus domínios geram muito mais notícias negativas do que todas as boas manchetes criadas pelas belezas naturais do lugar, que são muitas aliás. 

A mais antiga Unidade de Conservação da região é a Floresta Nacional do Araripe, criada através de Decreto-Lei em 1946, no Governo Eurico Gaspar Dutra. A área da Floresta possuía 38.263 hectares, englobando terras dos municípios de Santana do Cariri, Crato, Barbalha e Jardim, no extremo Sul do Estado do Ceará. Em 1996, foi criada uma APA – Área de Proteção Ambiental e, em 2016, o Geoparque do Araripe, o primeiro das Américas a ser reconhecido pela UNESCO – Fundo das Nações Unidas para Educação e Cultura.  A área total corresponde a mais de 1 milhão de hectares, sob administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Proteção a Biodiversidade. O formato dessa área lembra uma “ilha verdejante” no meio da Caatinga, com cerca de 178 km de extensão, no sentido Leste-Oeste e 58 km de largura no sentido Norte-Sul

Parte dos solos da Chapada do Araripe, os latossolos, foram formados num período que se situa entre 145 milhões e 66 milhões de anos atrás e são ricos em fósseis de animais pré-históricos dos períodos Jurássico e Cretáceo. Pesquisadores já encontraram fósseis de diversas espécies de dinossauros e afirmam que toda a região da Chapada do Araripe possui importantes sítios paleontológicos (vide foto). A região também é rica em solos de origem sedimentar, propícios para a infiltração de grandes volumes de águas das chuvas e formação de aquíferos, um recurso extremante importante para a região do Semiárido. 

Contrapondo-se ao clima seco do Semiárido, os relevos da Chapada do Araripe apresentam uma atmosfera bem mais amena, com uma densa cobertura vegetal e com inúmeras fontes de água – entre 250 e 348 nascentes, conforme a fonte consultada. A vegetação mistura a Caatinga com fragmentos de Cerrado e da Mata Atlântica. Com toda essa diversidade de biomas, a Chapada do Araripe teria enorme potencial para ser a “grande arca” da biodiversidade do Semiárido Nordestino. Mas não é exatamente isso o que está acontecendo por lá.  

A Chapada do Araripe concentra 40% das reservas mundiais de gipsita, minério que é a matéria prima do gesso. O gesso é um material de construção dos mais versáteis e muito utilizado na fabricação de placas para tetos, divisórias de escritórios (os famosos “drywalls”) e blocos para a construção de paredes, entre outras peças. A gipsita da região apresenta um grau de pureza entre 88 e 98%, sendo considerada a mais pura do mundo. Cerca de 95% da produção de gesso do Brasil sai de minas e de empresas instaladas no entorno da Chapada do Araripe

Os números “açucarados” dos Governos locais falam dos ganhos econômicos e dos empregos gerados pela indústria do gesso – somente no Estado de Pernambuco, a atividade emprega, direta e indiretamente, 12 mil empregos em 42 minas, 174 usinas de calcinação e em 750 indústrias de peças pré-moldadas em gesso. Para a produção do gesso, a gipsita é primeiro britada (quebrada em pequenos pedaços) e depois colocada em fornos, onde é calcinada sob altas temperaturas – é justamente aqui onde se apresentam os maiores problemas ambientais dessa atividade. 

Os fornos primitivos utilizados para a calcinação do minério utilizam a queima da lenha como fonte de energia térmica. Segundo cálculos das próprias empresas do setor, são consumidos anualmente pelo Polo Gesseiro do Araripe cerca de 652 mil metros cúbicos de lenha nesses fornos. Essa lenha é oriunda da derrubada da vegetação local, onde as matas da Chapada do Araripe, especialmente a Caatinga, estão entre as principais fornecedoras.

Além do grande desastre ambiental que essa devastação representa, inclusive já se observam solos na região em estágio avançado de desertificação, a calcinação da gipsita gera uma nuvem de pó fino sobre toda a região. Quando inalado pela população, esse pó atinge os pulmões e causa sérios problemas nos brônquios. Outra fonte de problemas para as populações são os rejeitos minerais que sobram desse processo de calcinação da gipsita, que são descartados sem maiores cuidados pelas empresas. 

Além das pressões ambientais geradas pela indústria do gesso, a Chapada do Araripe também sofre com a extração de madeira e lenha para uso pelas populações da região de entorno. Outra grande fonte de problemas são os incêndios florestais, resultantes das queimadas sem controle feitas pelos agricultores pobres da região. Para a produção de suas culturas de subsistência, esses agricultores utilizam a tradicional técnica indígena da coivara – a vegetação é queimada para limpar o solo para o plantio – as cinzas resultantes da queima funcionam como um tipo de adubo para os solos. Sem controle, o fogo avança sobre as matas nativas.

Finalizando, um grave problema ambiental muito específico dessa região são as escavações feitas para a retirada clandestina de fósseis dos sítios paleontológicos. A venda de fósseis, o que é proibido pelas leis brasileiras, gera uma “renda extra”  para as populações pobres da região. Por mais irônico que possa parecer, não há qualquer irregularidade ou ilegalidade na calcinação de fósseis que estejam misturados nos blocos de gipsita.

Esse verdadeiro cerco à Chapada do Araripe, com agressões ambientais por todos os lados, tem alto potencial para comprometer os importantes recursos hídricos produzidos por suas inúmeras fontes de águas, prejudicando o abastecimento das populações dessa região do Semiárido e comprometendo ainda mais a sofrida produção agropecuária. E, como sempre acontece nesses caso, a grande riqueza da região, que são os ganhos com a produção e venda das peças pré-moldadas de gesso para a construção civil e de gesso em pó para o uso na agricultura, ficam nas mãos de um pequeno e muito seleto grupo de empresários. 

Enquanto isso, a Chapada do Araripe e seu povo, padecem… 

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