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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

O BOM E VELHO ARROZ, OU FALANDO DE ALGUNS DOS PROBLEMAS AMBIENTAIS DO RIO MEKONG

Plantações de arroz no rio Mekong

O arroz é o terceiro cereal mais produzido no mundo, só perdendo em volume colhido para o trigo e para o milho. Rico em carboidratos, o arroz é responsável pela alimentação de metade da humanidade, principalmente na Ásia. Existem diversas espécies silvestres da planta em todo o mundo. As espécies consumidas atualmente pela humanidade foram domesticadas há cerca de 10 mil anos atrás, quando teve início a Revolução Verde da agricultura. 

Um dos gêneros mais importantes é o Oryza, que engloba cerca de 23 espécies de arroz encontradas na Ásia, na África e nas Américas. De acordo com os especialistas, as espécies Oryza rufipogon e Oryza sativa originaram, através de diversos cruzamentos artificiais, algumas das principais espécies de arroz produzidas na atualidade

O arroz foi, muito provavelmente, o primeiro e principal alimento cultivado na Ásia. Evidências arqueológicas indicam que a planta “já domesticada” era cultivada ao longo do rio Yangtzé na China entre 8 mil e 10 mil anos atrás. Existem alguns estudos controversos que remetem o início do plantio do arroz “selvagem” por populações neolíticas há 15 mil anos na Coreia.

Na literatura escrita da China, as primeiras referências textuais ao arroz datam de 5 mil anos atrás. No Subcontinente Indiano, o arroz também vem sendo cultivado desde o surgimento das primeiras civilizações nos vales dos rios Indus e Ganges. O cereal é citado em todas as escrituras sagradas desses povos, sendo usado também como oferenda em diversas cerimônias religiosas. 

De acordo com o que existe de consenso entre historiadores e arqueólogos, a cultura do arroz se expandiu a partir da China para todo o extremo Leste da Ásia,  principalmente para a Coreia e o Japão, e Sudeste Asiático, onde se inclui os arquipélagos indonésio, malaio e filipino. A partir do Subcontinente Indiano, a cultura se estendeu por toda a Ásia Central, Oriente Médio e Europa, onde as primeiras plantas desembarcaram  entre os séculos VII e VIII na Península Ibérica e nos Balcãs. 

Diversas populações americanas pré-colombianas cultivavam espécies locais de arroz. Os indígenas brasileiros plantavam uma espécie que era chamada de abati-uaupé ou “milho d’água”. Consta que alguns tripulantes da expedição de Pedro Álvares Cabral coletaram algumas amostras desse arroz em uma área alagada a cerca de 5 km do local de desembarque da expedição descobridora em 1500. Existem também registros de Américo Vespúcio, navegador e geógrafo que participou de uma grande expedição exploratória entre 1503 e 1504 sob o comando de Gonçalo Coelho, sobre grandes plantações dessa espécie de arroz em áreas alagadas da Amazônia. 

Mekong, o principal rio do Sudeste Asiático, vem sendo uma importante área de cultivo de arroz desde a antiguidade. A planta acompanhou os diversos grupos humanos que se se assentaram na região e o rio Mekong, com seus ciclos de cheia e de seca, ofereceu as condições ideias para o cultivo e a produção desse alimento para grandes populações. 

Entre as principais necessidades da cultura do arroz destacam-se a sua grande exigência por água em abundância e de ambientes com temperaturas sem variações bruscas, características típicas da região do Sudeste Asiática e de grande parte da bacia hidrográfica do rio Mekong. Outra necessidade da cultura é o uso intensiva de mão de obra, algo que nunca foi problema nessa região superpovoada. 

Uma das mais importantes regiões produtoras de arroz do mundo fica localizada no delta do rio Mekong, no Vietnã. Essa região ocupa uma área com aproximadamente 40 mil km², equivalente a duas vezes o território do Estado de Sergipe, além de possuir cerca de 4 mil ilhas e 3.200 km de canais. Localizado inteiramente dentro do território do Vietnã, o delta do Mekong abriga uma população de 17 milhões de pessoas, que dependem das suas águas para abastecimento, alimentação, trabalho e transportes. 

As formações conhecidas como deltas são encontradas normalmente na foz de rios de planície, onde as águas se dividem em vários braços ou canais antes do encontro com as águas de um lago, rio ou oceano. Devido à baixa declividade dos terrenos, as regiões dos deltas favorecem o acúmulo de sedimentos carreados pelos rios, o que leva a formação de ilhas. Com solos férteis e grande disponibilidade de água, a região do delta do Mekong se transformou numa espécie de “paraíso” para os plantadores de arroz. Aliás, as mais antigas referências escritas dos chineses em relação aos vietnamitas tratam esse povo como “os pacíficos plantadores de arroz do Sul”. 

Grandes áreas alagáveis ao longo do rio Mekong no Camboja, no Laos, na Tailândia, em Mianmar e na China também passaram a abrigar importantes centros produtores desse cereal. O grande volume de chuvas na região, principalmente na chamada Temporada das Chuvas da Monção, permitiu o desenvolvimento de técnicas de cultivo do arroz em encostas de morros, onde os agricultores constroem pequenos campos alagáveis no formato de terraços ou “degraus”. 

Plantação de arroz em terraços no Vietnã

Toda essa técnica agrícola ancestral está sendo muito ameaçada nos últimos anos pelas mudanças climáticas, pela redução dos caudais do rio Mekong e de muitos dos seus afluentes, além de intensa contaminação das águas por esgotos, poluentes químicos e resíduos de defensivos agrícolas. A região do delta do rio Mekong também sofre com a intrusão de água do mar devido à redução dos caudais, o que também ameaça os solos com a salinização. 

Conforme já comentamos em postagens anteriores, o Oceano Índico, entre todos os mares do planeta, é o que mais vem sofrendo com as mudanças climáticas. O aumento da temperatura do planeta está provocando o derretimento acelerado de grandes massas de gelo no Continente Antártico. Grandes volumes de água doce têm alcançado o Oceano Índico, provocando alterações na direção e na temperatura de importantes correntes marítimas. 

Essas mudanças no Oceano Índico têm reflexos na formação das correntes de ventos que carregam as grandes nuvens de chuva na direção dos continentes. Como resultado, muitas regiões estão apresentando alterações significativas nos padrões tradicionais das chuvas – regiões do Sul e Sudeste da África tem sofrido com fortes secas. No extremo Leste da África as chuvas estão acima da média histórica. As Chuvas da Monção no Subcontinente Indiano e no Sudeste Asiático, por sua vez, estão bastante irregulares de um ano para outro. 

Outro problema, comentado na postagem anterior, está sendo provocado pelo grande número de barragens de usinas hidrelétricas já construídas e/ou em construção ao longo do rio Mekong por diferentes países. Essas construções estão alterando os ciclos naturais de cheias do rio, inviabilizando assim o plantio do arroz em áreas que antes eram alagáveis. É essa alteração na dinâmica das águas que também está por trás da invasão da região do delta do rio Mekong por águas do mar. 

Por fim e não menos importante, existe também um grave problema de poluição das águas. Mais de 100 milhões de pessoas vivem na região da bacia hidrográfica do rio Mekong. São inúmeras cidades gerando grandes volumes de esgotos e resíduos sólidos, que acabam sendo lançados nas águas do rio sem nenhum tratamento ou critério. Os campos de arroz também representam graves problemas devido ao uso cada vez maior de defensivos químicos e fertilizantes – resíduos desses produtos acabam sendo carreados pelas chuvas para a calha do rio

Um problema bem mais recente está tomando conta de diversos trechos do rio – o forte crescimento industrial. Mudanças na legislação ambiental e trabalhista na China estão levando a uma verdadeira corrida migratória de empresas chinesas para os países do Sudeste Asiático, onde os salários são mais baixos e as legislações trabalhistas e ambientais são bem mais frouxas do que as da China. Esta “industrialização selvagem” está transformando grandes trechos do rio Mekong e de seus afluentes em verdadeiros esgotos a céu aberto. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

OS GRANDES PROBLEMAS AMBIENTAIS E POLÍTICOS DO RIO MEKONG

Rio Mekong

Mekong é o maior e o mais importante rio da região do Sudeste Asiático. Com cerca de 4.300 km de extensão (algumas fontes falam de 4.990 km), ele nasce no trecho tibetano da Cordilheira do Himalaia, uma região controlada pela China desde meados da década de 1950, e atravessa outros cinco países da região: Mianmar, Laos, Tailândia, Camboja e Vietnã, onde se abre numa grande região deltaica. 

Cerca de 100 milhões de pessoas, pertencentes a quase uma centena de grupos étnicos diferentes, vivem ao longo das margens do rio Mekong e dependem, direta ou indiretamente, de suas águas. Somente no Delta do rio Mekong no Vietnã, uma região com aproximadamente 40 mil km², vivem cerca de 17 milhões de pessoas, população que depende das águas do rio para abastecimento, transporte e irrigação dos campos de arroz. 

O Vietnã, país sobre o qual falamos rapidamente na nossa última postagem, é o terceiro maior produtor mundial de arroz, produto que é considerado um dos melhores do mundo. Aliás, há várias décadas o país exporta a maior parte da sua produção e importa arroz de qualidade inferior para o abastecimento de sua população, gerando assim receitas em moeda estrangeira para equilibrar sua balança de pagamentos. 

O delta do rio Mekong tem uma ligação muito especial com os falantes da língua portuguesa – o navio em que o grande poeta Luís Vaz de Camões viajava naufragou na região por volta de 1565, quando fazia uma viagem entre Macau, na China, e Goa, na Índia. Reza uma lenda, bastante contestada pelos historiadores, que foi durante esse naufrágio que Camões teve de tomar uma difícil decisão – salvar o manuscrito dos Lusíadas, obra em que estava trabalhando há vários anos, ou salvar Dinamene, sua jovem amante chinesa. Camões escolheu salvar seus manuscritos e passou meses vivendo como um náufrago no delta do rio Mekong, até conseguir ser resgatado. 

As águas do rio Mekong são altamente disputadas entre todos os países que formam a sua bacia hidrográfica, uma situação que cria grandes problemas a nível regional. Diversas barragens de usinas hidrelétricas já foram construídas e existem pelo menos doze grandes projetos em andamento. A China, país cada vez mais sedento por energia elétrica, já construiu três hidrelétricas no alto rio Mekong e está construindo mais uma unidade geradora – esse conjunto de represas já causou uma redução substancial nos caudais do rio. O Laos pretende construir oito unidades, o Camboja duas, além de duas hidrelétricas previstas na fronteira entre a Tailândia e o Laos.  

Esse grande número de barragens de usinas hidrelétricas já construídas e/ou em construção formam blocos independentes, sem que haja um diálogo mais aprofundado entre os diferentes países e sem a realização de grandes estudos de impacto ambiental em toda a bacia hidrográfica do rio Mekong. O rio está sendo, literalmente, retalhado em diferentes trechos, o que impede a livre circulação de espécies aquáticas e a comunicação e os transportados entre os diferentes grupos étnicos. Os governantes locais esqueceram que o rio Mekong é um meio ambiente único. 

Os graves problemas começam com as alterações já provocadas na dinâmica dos caudais do rio, que tradicionalmente alterna ciclos de grandes cheias e de grandes secas. A região do Sudeste Asiático é assolada anualmente pela temporada das Chuvas da Monção, fortes ventos gerados no Oceano Índico que carregam pesadas nuvens na direção do Sul e Sudeste da Ásia, provocando uma fortíssima temporada de chuvas e grandes enchentes. Essas chuvas carreiam grandes quantidades de sedimentos e matéria orgânica para a calha do rio, que distribui esses materiais sobre os solos das margens alagadas. 

Chuvas da Monção

Quando as águas baixam, as populações locais tem a sua disposição grandes extensões de solo fértil para plantar e produzir os alimentos que consumirão ao longo de todo o ano. Com a formação de sucessivas represas ao longo do rio Mekong, todo esse ciclo natural está sendo modificado: as grandes enchentes não existem mais e os antigos solos agrícolas não conseguem renovar a sua fertilidade. A produtividade de alimentos vem caindo ano após ano. 

Uma das regiões mais afetadas pela redução dos caudais do rio Mekong é a região do delta, no Vietnã, onde já ocorre um acelerado processo de invasão de água do mar (língua salina) e a salinização dos solos. Um problema semelhante ocorre aqui no Brasil, o que comentamos em diversas postagens: a redução dos caudais do rio São Francisco e a invasão da água do mar em sua foz. Assim como ocorre no rio Mekong, a calha do rio São Francisco foi tomada por uma sucessão de barragens de usinas hidrelétricas ao longo dos últimos 50 anos. A vazão do rio atualmente é apenas uma fração do que já foi no passado. 

A fauna aquática do rio Mekong também está sendo muito ameaçada. Uma das espécies mais carismáticas e ameaçadas do rio são os golfinhos-do-irrawaddy. Esses golfinhos podem atingir um comprimento de até 2,75 m e um peso máximo de 200 kg. A sua cor fica entre o cinza e o azul escuro, tendo a parte inferior em tons pálidos. A espécie, que já foi abundante no rio Mekong e uma grande atração para os turistas que visitam a região, está reduzida a poucas dezenas de indivíduos. 

Golfinhos-do-Irrawaddy

Populações isoladas de golfinhos-do-irrawaddy são encontradas em rios e estuários desde o delta do rio Ganges, na Baía de Bengala, até o Norte da Austrália, incluindo as costas do Estreito de Malaca, áreas costeiras das Ilhas Indonésias nos mares de Java, das Flores, de Banda, de Timor e de Arafura, além de áreas costeiras no Golfo da Tailândia e do Sul do Mar Meridional da China. Esses golfinhos, que compartilham ancestrais comuns com as orcas, têm como características principais a cabeça redonda e um bico muito curto, lembrando muito as belugas.  

Entre as principais causas do forte declínio populacional dessa espécie estão a caça predatória, a morte de animais que se afogam ao ficar presos nas redes de pesca, “atropelamentos” por embarcações, encalhes em bancos de areia devido à forte redução dos caudais do rio e também devido a intensa poluição das águas em muitos trechos do rio Mekong, especialmente pelo carreamento de resíduos de pesticidas agrícolas usados nas plantações de arroz

Entre as populações de peixes, a situação não é nada melhor. O rio Mekong tem aproximadamente 1.200 espécies de peixes e costumava produzir anualmente mais de 2 milhões de toneladas de pescados, alimento essencial para as populações. Essa produção pesqueira está declinando rapidamente e ameaçando a segurança alimentar de milhões de pessoas

A espécie de peixe mais conhecida e explorada comercialmente no rio Mekong é a carpa de lama siamesa, também conhecida como trey riel. Esse peixe é tão popular e reconhecido pelas populações locais que seu nome foi dado à moeda do Camboja – o riel. Outra espécie importante é o peixe-gato do Mekong, que pode atingir até 2,75 m de comprimento e peso acima dos 250 kg. A espécie está seriamente ameaçada de extinção por causa da pesca intensiva. Outra espécie impressionante da fauna do rio Mekong é a arraia gigante (Dasyatis laosensis), que só foi descrita pela ciência bem recentemente – já foram capturados exemplares com 4,2 m de comprimento, 2 m de largura e peso superior a 300 kg. 

Continuaremos na próxima postagem. 

OS ECOS DE UMA GUERRA SILENCIOSA QUE AINDA SE DESENROLA NO VIETNÃ

Agente Laranja

Na última postagem apresentamos um quadro geral dos gravíssimos problemas ambientais das Filipinas, um país muito pouco comentado nos noticiários internacionais. Como exceção existem as notícias sobre os grandes desastres naturais que ocorrem no arquipélago com alguma frequência e também as excentricidades do Presidente do país, Rodrigo Duterte. 

O Vietnã é um país vizinho das Filipinas no Sudeste da Ásia e muito mais famoso no cenário internacional. Essa fama do Vietnã foi conquistada devido ao longo e sangrento conflito armado que se desenrolou no país entre 1955 e 1975, onde foram envolvidos também os vizinhos Laos e Camboja. Eu acompanhei muitas reportagens falando sobre a Guerra do Vietnã na minha infância, mas só fui começar a entender a loucura daquele conflito quando assisti ao filme Apocalipse Now, de 1979. 

Uma das maiores insanidades militares cometidas naquela guerra pelos norte-americanos foi o uso maciço do Agente Laranja, um potente herbicida usado como desfolhante de árvores. Os militares norte-americanos justificavam a necessidade do uso desse herbicida como uma tática militar – áreas cobertas por densas florestas serviriam de esconderijo para as tropas inimigas, que atacavam os comandos dos Estados Unidos em cruéis emboscadas. Desfolhando as árvores, os inimigos poderiam ser identificados e atacados facilmente por aviões e helicópteros. 

Oficialmente, os militares norte-americanos afirmam ter usado 70 milhões de litros do Agente Laranja ao longo de 10 anos, entre 1961 e 1971. O produto era pulverizado sobre as matas por aviões e helicópteros (vide foto). Estudos recentes feitos nos relatórios militares das operações naquele conflito estão mostrando que o volume usado foi muito maior, superando os 100 mil litros. Passados mais de 45 anos desde o fim do conflito, que foi uma das derrotas militares mais humilhantes dos Estados Unidos, as consequências do uso do Agente Laranja ainda são sentidas pela população. 

Especialistas em saúde ambiental da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, passaram cinco anos estudando toda a documentação disponível sobre o assunto. Além de perceberem que os volumes do Agente Laranja usados no conflito foram subestimados, os cientistas também perceberam que os níveis de dioxinas presentes no herbicida eram muito maiores do que se imaginava. 

As dioxinas são substâncias químicas altamente tóxicas, reconhecidas por provocar inúmeros tipos de câncer. Esses novos estudos mostraram que o volume de dioxinas presentes no Agente Laranja eram o dobro do que se imaginava anteriormente. Uma vez liberadas no meio ambiente, essas substâncias contaminam continuamente as águas e os seres vivos de uma região. Estudos anteriores realizados com moradores de regiões atingidas pelo Agente Laranja no Vietnã encontraram níveis de dioxinas até 200 vezes maiores que os limites máximos recomendados. 

Calcula-se que 4,8 milhões de vietnamitas foram expostos diretamente a esses produtos químicos durante as pulverizações feitas durante a Guerra e outros milhões continuam sendo expostos aos resíduos presentes em solos e águas. Essas novas revelações poderão resultar num aumento das pressões do Governo do Vietnã por indenizações junto aos Estados Unidos para reembolso de despesas médicas e tratamento de doentes. 

O Agente Laranja surgiu a partir da combinação de dois herbicidas que já existiam no mercado. Esse produto continua sendo usado por agricultores de diversos países. De acordo com as informações disponíveis, o tipo de produto que foi usado na Guerra do Vietnã não passou por processos adequados de purificação e apresentava elevados teores de dioxina (tetraclorodibenzodioxina). É essa substância que provoca uma série de enfermidades irreversíveis como má formação de fetos, síndromes neurológicas em crianças, além de diversos tipos de câncer. O uso do herbicida e de vários dos seus derivados já foi proibido em diversos países. 

Houve um uso bastante polêmico de uso do Agente Laranja durante a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Estado do Pará, na década de 1970. As construtoras usaram ilegalmente o produto para desfolhar parte das matas que seriam inundadas após a formação do lago da hidrelétrica. Em 1983, uma inspeção feita por consultores independentes em um dos acampamentos da obra encontrou 373 barris vazios do produto. As autoridades sempre negaram o fato e as supostas provas dos acontecimentos simplesmente sumiram, o que nunca foi algo anormal no período dos Governos Militares. 

No Vietnã, a região mais afetada pelas pulverizações feitas pelos norte-americanos foi o Sul do país, uma das mais densamente povoadas, envolvendo uma área com aproximadamente 48 mil km². Essa é uma região de grande produtividade agrícola, principalmente a cultura do arroz, onde se vale da grande concentração de rios e águas, como é o caso do Delta do rio Mekong

O Vietnã se encontra na zona de influência das Chuvas da Monção, período do ano em que as fortes correntes de vento do Oceano Índico carregam pesadas nuvens de chuva na direção do Sul e Sudeste da Ásia. Essas fortes chuvas carreiam resíduos do Agente Laranja e das dioxinas ainda presentes nos solos na direção de riachos e rios, contaminando ainda hoje as populações ribeirinhas e agricultores. 

Em 2018, o Governo do Vietnã moveu uma ação jurídica contra a Monsanto, uma das empresas fabricantes do Agente Laranja, pedindo indenização por danos. Os vietnamitas se valerem de uma decisão da Justiça dos Estados Unidos contra a Monsanto. Um agricultor com câncer terminou moveu uma ação contra a empresa, alegando que a sua doença foi consequência de anos seguidos de aplicações de herbicidas em suas plantações. Esse agricultou conseguiu ganhar uma indenização de mais de US$ 280 milhões da Monsanto, o que serviria de jurisprudência para o pedido do Governo do Vietnã. 

No país existem dezenas de milhares de vítimas do Agente Laranja, desde pessoas idosas que foram atingidas pelas pulverizações ainda aos tempos da Guerra, e também milhares de jovens e crianças que herdaram esses problemas geneticamente de seus pais. Também existem inúmeros casos de agricultores e ribeirinhos que desenvolveram doenças associadas ao herbicida através do consumo de água contaminada ou do contato direto com a água nas plantações de arroz. Essa conta também precisa incluir dezenas de milhares de pessoas que morreram vítimas de doenças associadas ao Agente Laranja. 

A Guerra do Vietnã foi encerrada oficialmente em 1975, quando as últimas forças norte-americanas abandonaram o país às pressas. Os Estados Unidos perderam mais de 50 mil homens durante os conflitos e tiveram um gasto, em valores atualizados, da ordem de US$ 1 trilhão. Apesar de toda a sua superioridade tecnológica e bélica, o norte-americanos levaram uma “verdadeira surra” dos plantadores de arroz do país do Sudeste Asiático. 

As violentas e ensurdecedoras batalhas de outrora, ainda matam silenciosamente nos dias de hoje. É uma guerra subterrânea que ainda se desenrola em campos destruídos e águas contaminadas por venenos criados por mentes insanas de outrora. 

A GRANDE TRAGÉDIA AMBIENTAL QUE TOMA CONTA DAS FILIPINAS  

Boraclay Filipinas

A República das Filipinas é um grande país insular do Sudeste Asiático. É formada por mais de 7 mil ilhas, com um território de aproximadamente 300 mil km² e onde vive uma população de pouco mais de 100 milhões de habitantes. A exceção das bizarrices e excentricidades do Presidente do país, Rodrigo Duterte, que entre outras polêmicas defende o abate indiscriminado de traficantes de drogas pela polícia, raramente se ouvem notícias sobre as Filipinas. 

Uma das bandeiras de campanha de Rodrigo Duterte na sua corrida presidencial foi o combate ao tráfico de drogas com violência. Uma vez eleito, o Presidente deu ordens aos policias do país para “atirar para matar”. Mais de 350 supostos traficantes de drogas foram mortos apenas nos seus primeiros 6 meses de governo. Os trágicos números, infelizmente, incluem muitos civis e crianças “mortos por engano”. Essa rápida introdução lhes dá uma ideia do nível de problemas enfrentados pelos filipinos. 

Muitos especialistas consideram as Filipinas como o pior caso de degradação ambiental de todo o mundo. Muitos cientistas chegam até a afirmar que o país é uma “causa perdida” em termos ambientais. A exploração intensiva de madeira, citando um exemplo, que começou nos tempos da colonização espanhola e aumentou vertiginosamente a partir do século XX, já dizimou três quartos das matas nativas das ilhas. Alguns autores chegam a afirmar que só resta algo entre 6 e 8% da vegetação nativa original, algo muito parecido com a situação da Mata Atlântica aqui no Brasil

Esse nível de degradação das florestas, é claro, tem seus reflexos na vida animal e vegetal. De acordo com informações da IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza na sigla em inglês, uma das mais respeitadas organizações ambientais do mundo, cerca de 21% dos animais vertebrados e metade das espécies de plantas das Filipinas estão ameaçados.  

Aqui é importante lembrar que, como se tratam de ecossistemas de ilhas, existe um alto grau de endemismo nas espécies animais e vegetais nas matas das Filipinas – ou seja, grande parte das espécies só são encontradas em suas respectivas ilhas. Das 1.100 espécies de vertebrados conhecidos, quase a metade são endêmicos. No caso das plantas, as estimativas oscilam entre 45 e 60% de endemismo. A extinção de qualquer um desses seres vivos é uma perda irreparável para todo o mundo

Vários estudos recentes vêm encontrando dezenas de novas espécies endêmicas de mamíferos e especialistas alertam que as Filipinas podemabrigar a maior concentração de espécies únicas de mamíferos do planeta“. Isso aumenta o tamanho da crise ambiental local.

Os males, infelizmente, não ficam restritos apenas aos ecossistemas terrestres – as águas marítimas do país também estão cheias de problemas. De acordo com estudos oceanográficos já concluídos, apenas 5% dos recifes de coral das Filipinas mantém entre 75 e 100% de sua cobertura viva. As razões para esta destruição maciça dos corais locais são muitas – pesca predatória com redes de arrasto, uso de dinamite e veneno na pesca, poluição, choque de embarcações contra as formações, entre outras agressões.  

Metade do PIB – Produto Interno Bruto, das Filipinas é gerado pela pesca e pelos transportes marítimos, o que nos dá uma ideia da importância dos mares para a economia do país e que mostra também como os recursos marinhos são super explorados, muitas vezes até o limite. 

Um exemplo da situação de caos ambiental vivida pelo país se deu em abril de 2018, quando o Governo Central ordenou a interdição total por seis meses da Ilha Boracay, um dos principais destinos turísticos das Filipinas, por causa da intensa poluição das águas do oceano. Essa ilha ocupa uma área total de pouco mais de 1 mil hectares e chega a receber 2 milhões de visitantes por ano.  A linda imagem que ilustra essa postagem é usada na divulgação turística da ilha e, como sempre acontece nesses casos, foi escolhida a dedo entre centenas de outras.

A origem dos problemas na ilha são os sistemas de esgotos, que simplesmente coletam as águas servidas dos hotéis, pousadas e estabelecimentos comerciais, e as lançam diretamente nas águas do mar sem qualquer tipo de tratamento. Nós brasileiros estamos bem acostumados com esse tipo de situação em muitas regiões litorâneas do país. 

Um outro exemplo do descaso com as águas marinhas é visto na Baía de Manila, onde a fica a cidade homônima e capital do país. Os níveis de coliformes, uma bactéria de origem fecal presente nos esgotos, na Baía de Manila alcançam a impressionante marca de 330 milhões de bactérias para cada 100 ml de água. Esse nível de poluição é muito superior aos 47,4 mil coliformes encontrados na Ilha Boracay há época da interdição e infinitamente superior aos níveis recomendados internacionalmente, que é de 1 mil coliformes fecais para cada 100 ml de água

Baía de Manila

A cidade de Manila tem 1,7 milhão de habitantes, mas está encravada em uma grande região metropolitana onde vivem perto de 22 milhões de pessoas. Como acontece com outras grandes metrópoles em países em desenvolvimento, a grande mancha urbana sofre com problemas de saneamento básico, poluição do ar, falta de habitações e de sistemas de transporte de massa, entre muitos outros. Somente na área de entorno da Baía de Manila, vivem perto de 220 mil famílias em assentamentos precários, sem as mínimas condições de vida e infraestruturas urbanas. 

Desde que assumiu a presidência do país em 2016, Rodrigo Duterte vem tentando levar a cabo uma série de reformas sociais nas Filipinas, fazendo inclusive importantes mudanças na política ambiental do país. Um dos projetos mais ambiciosos do Governo é a recuperação completa da orla da Baía de Manila, numa extensão total de 119 km. Esse projeto implica na transferência e reassentamento de centenas de milhares de famílias e em gastos multi milionários.  

As importantes medidas voltadas para a área ambiental vêm encontrando, é claro, forte oposição dos grupos oligárquicos e econômicos que dominam a cena nacional há várias décadas. A Ministra do Meio Ambiente indicada por Duterte, Regina Lopes, proibiu a mineração a céu aberto no país e fechou mais de metade das minas existentes devido a inúmeras irregularidades ambientais. As empresas do setor pressionaram os Parlamentares em Manila, conseguindo que a Ministra fosse demitida apenas dez meses depois da posse, mesmo contando com forte apoio do Presidente Duterte

Apesar dessa derrota inicial, o Presidente continua firme em sua posição de acabar com o “vale tudo” ainda existente na exploração dos recursos naturais das Filipinas. Em uma entrevista, o Presidente declarou que “a proteção do ambiente é uma prioridade maior do que a mineração e outras atividades que causam grandes danos”. Uma das estratégias que passou a ser adotada para controlar a exploração dos recursos naturais do país é um aumento progressivo dos impostos – quanto mais perto essas atividades estiveram de áreas de preservação ambiental, maior será o valor dos impostos. 

O Governo filipino, à sua excêntrica maneira, está tentando efetuar uma série de mudanças na legislação ambiental do país, de forma a reduzir o grau de degradação ambiental que toma conta de todo o arquipélago. A antiga classe dominante, que vem mandando nas Filipinas há muito tempo e ganhando muito dinheiro, é contra e está fazendo todo o possível para boicotar as ações do Governo. Vamos acompanhar para ver onde essa briga vai acabar.

Só que, enquanto isso, o povo vai continuar padecendo das graves mazelas ambientais do país.

O ”MAR VERMELHO” DA MALÁSIA

Kuantan

Durante a temporada das Chuvas da Monção na Malásia no final de 2015, um trecho de 15 km do litoral na região de Kuantan, no Leste da Península Malaia, ficou com as águas completamente vermelhas. Imagens divulgadas pela imprensa dias depois mostraram vários rios da região também com as águas vermelhas (vide foto). Uma das principais atividades econômicas de Kuantan é justamente o turismo – a região recebe centenas de milhares de turistas todos os anos, atraídos ao lugar pela beleza particular do Mar da China Meridional. Uma notícia bomba como essa poderia, literalmente, destruir a reputação da região. 

As investigações que se seguiram constataram que a contaminação foi originada por resíduos de bauxita, mineral usado para a produção do alumínio e que foram arrastados na direção do oceano pelas águas das fortes chuvas. Na região de Kuantan se localizam diversas grandes empresas e um importante porto, através do qual é feito o escoamento da bauxita produzida no país. A produção da bauxita vem crescendo de forma vertiginosa na Malásia – em 2015, as exportações do mineral atingiram a marca de 20 milhões de toneladas, 700% a mais que o realizado em 2014. O grande comprador da bauxita malaia é a China. 

Além de afetar as belas praias, a contaminação também atingiu o rio Kuantan, que abriga uma importante floresta de mangues que se estende por uma área de 340 hectares ao longo da foz do rio. Os manguezais, conforme já comentamos em postagens anteriores, são regiões de extrema importância para as espécies marinhas, que buscam suas águas salobras para a alimentação e reprodução. Cerca de 70% das espécies marinhas com grande importância comercial dependem de áreas manguezais preservadas para a sua sobrevivência. A poluição das águas com resíduos de bauxita pode comprometer os estoques pesqueiros de toda a região

O Governo da Malásia abriu uma “grande investigação” para determinar as causas e as responsabilidades dessa tragédia ambiental, ameaçando, inclusive, proibir as exportações de bauxita. Essas investigações, como sempre, acabaram sem responsabilizar ninguém e a vida continuou. A legislação ambiental do país é cheia de problemas e não existe uma regulamentação adequada para as atividades mineradoras. Como os interesses econômicos no país sempre estão acima das questões ambientais, fez-se um grande jogo de cena sem se fazer os ajustes necessários nas atividades mineradoras. 

A República da Guiné e a Austrália concentram 43% das reservas mundiais de bauxita – o Brasil ocupa a 5° posição no ranking das maiores reservas. A Malásia sequer entra na lista dos 15 países com as maiores reservas mundiais do minério, o que demonstra a irracionalidade da exploração do minério no país. São necessárias 5 toneladas de bauxita para a produção de apenas 1 tonelada de alumínio metálico. É justamente a gestão desse grande volume de rejeitos minerais o que está por trás da contaminação das águas do oceano e dos rios de Kuantan

Rejeitos minerais são um grande problema em todo o mundo. Aqui no Brasil, como todos vocês devem se lembrar, ocorreram dois grandes acidentes com barragens de rejeitos em anos recentes, ambas no Estado de Minas Gerais. Em 2015, houve o rompimento das barragens de rejeitos em Mariana, tragédia que literalmente destruiu toda a calha do rio Doce. Em 2019 ocorreu o rompimento da barragem de rejeitos da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho – bombeiros continuam trabalhando até hoje na busca de corpos de algumas das vítimas. 

A bauxita é um mineral formado por uma mistura de óxidos de alumínio, boehmita, gibbsita, diásporo e dois óxidos de ferro, além de caulinita e argila mineral. A palavra deriva LesBaux-de-Provence, uma aldeia da França meridional onde foi descoberta uma grande reserva do mineral em 1821. Essa mina forneceu a maior parte da bauxita usada na França na segunda metade do século XIX. 

O alumínio é o elemento metálico mais abundante da crosta terrestre, sendo conhecido pela humanidade desde a antiguidade. Apesar de ser um metal extremamente leve, resistente e com baixo ponto de fusão, somente pequenas quantidades de alumínio podiam ser produzidas devido às dificuldades de separação de outros metais. Foi somente em 1827 que o químico alemão Friedrich Wöhler (1800-1882) conseguiu isolar adequadamente o alumínio. 

O alumínio é separado dos demais minérios por lixiviação química, mais conhecido como Processo Bayer. O processo de refinamento para a produção do alumínio metálico é feito pelo processo de redução eletrolítica, onde são utilizadas grandes quantidades de energia elétrica. O empresário brasileiro Antônio Ermírio de Moraes (1928-2014), costumava se referir ao alumínio como “eletricidade embalada”. As grandes empresas produtoras costumam construir usinas de geração de energia elétrica especialmente para suprir as necessidades energéticas da produção do alumínio, causando grandes impactos ao meio ambiente. 

Na indústria, o alumínio tem inúmeras aplicações, que vão da produção de simples latinhas para refrigerantes até a construção de estruturas para aviões, foguetes e estações espaciais. Países altamente industrializados como a China, Estados Unidos e Japão consomem grandes quantidades de alumínio, um apetite voraz que abre caminho para os grandes crimes ambientais causados pela exploração selvagem da valiosa bauxita e processamento final do alumínio. 

A proximidade geográfica com a China, o que combinado com a presença de uma expressiva minoria de cidadãos de origem chinesa na população da Malásia, cria fortes laços de amizade e de comércio entre os dois países, o que facilita muito as exportações de bauxita para o país vizinho. Esse lucro “fácil” estimula empresários gananciosos a produzir o máximo de bauxita possível, sem que haja maiores preocupações com os rejeitos minerais e com os grandes impactos ao meio ambiente. 

Quando se analisam o conjunto dos principais problemas ambientais da Malásia, se percebe que essa é uma lógica que domina a maior parte da economia do país. Conforme já comentamos em postagens anteriores, o país é um dos líderes mundiais em desmatamento de florestas tropicais e destruição de turfeiras, onde o principal objetivo é a expansão de campos agrícolas, principalmente para a produção de óleo de dendê e também de papel e celulose

Essa destruição de florestas tropicais ameaça a sobrevivência de centenas de espécies animais endêmicas como tigres, elefantes, rinocerontes e orangotangos, entre muitas outras. As grandes queimadas anuais também causam inúmeros problemas de saúde para as populações de países vizinhos, que ano após ano sofrem com os grandes volumes de fumaça que invadem as grandes e médias cidades. 

Mar Vermelho na Malásia

Por fim, falamos hoje dos problemas causados pela mineração, principalmente a contaminação de rios, mares e florestas de mangue. São problemas demais para um país que é pouca coisa menor que o Estado de Mato Grosso do Sul. 

Em resumo, podemos afirmar que a Malásia é um país que está dando “tiros no próprio pé”. Lamentável!

PAÍSES DO SUDESTE ASIÁTICO ESTÃO COMEÇANDO A COIBIR AS IMPORTAÇÕES DE RESÍDUOS PLÁSTICOS

Contêineres com lixo nas Filipinas

O plástico é um material barato, facilmente moldável e colorido com a adição de corantes, o que possibilita a criação de peças bonitas, leves, ergonômicas e com acabamentos perfeitos. Máquinas injetoras de plástico conseguem produzir milhares de peças plásticas a partir de um único molde. Peças plásticas também podem ser produzidas através de processos de laminação, extrusão, moldagem a vácuo e em diversos outros processos de usinagem. Embalagens plásticas são inodoras, estéreis e permitem um fechamento hermético de alta qualidade.  

Peças e componentes plásticos são dominantes em produtos eletrodomésticos, eletrônicos e em brinquedos. Vem se tornando cada vez mais comuns em automóveis, bicicletas, motocicletas, navios, aviões, móveis, produtos e insumos hospitalares. Na construção civil ocupa cada vez mais espaços como isolante de fios elétricos e de telefonia, em tubos e conexões para eletricidade, água e esgotos, janelas, caixas de força entre outros produtos e componentes. O mundo em que nós vivemos é mais “plástico” a cada dia e, como uma consequência natural, esse é o resíduo doméstico dominante

Existe, porém, uma palavra que raramente é mencionada pelos fabricantes, mas que faz toda a diferença: o plástico comum é, virtualmente, indestrutível, o que cria todo o tipo de problemas com os resíduos a base de polímeros plásticos. Aterros sanitários, lixões, rios e oceanos estão sendo inundados com quantidades cada vez maiores de resíduos plásticos, o que vem transformando esse produto num dos maiores resíduos poluidores do planeta

De acordo com informações do WWF – Fundo Mundial para a Natureza na sigla em inglês, uma das maiores organizações ambientais do mundo, a produção anual de plásticos é da ordem de 300 milhões de toneladas – outras fontes falam de 100 milhões de toneladas. O que fazer para descartar tamanha quantidade de resíduos é um desafio diário para cidades e países de todo o mundo. Parte substancial desses resíduos são descartados de forma inadequada – calcula-se que um volume entre 8 e 13 milhões de toneladas de plásticos acabem chegando aos oceanos, o que tem causado enormes dificuldades para as criaturas marinhas. 

Países do chamado Primeiro Mundo, preocupados em manter  o que restou dos seus ambientes naturais, descobriram uma forma “genial” para se livrar de grandes volumes de resíduos plásticos – as exportações para países pobres do chamada Terceiro Mundo, onde esses materiais poderiam ser separados, classificados e revendidos para a reciclagem. Além de resolver seus problemas ambientais, essas nações estavam contribuindo assim para a geração de “trabalho e renda” entre as populações mais carentes do mundo. 

De uma forma muito resumida, foi dessa forma que países como a China, Vietnã, Filipinas, Malásia, Indonésia, Bangladesh, Índia, Gana e muitos outros, se transformaram em grandes “importadores de resíduos plásticos produzidos em países como Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália e de toda a Europa. 

De acordo com reportagem do jornal The Guardian, somente os Estados Unidos exportam em média 68 mil contêineres com resíduos plásticos a cada ano. Até 2018, a China era a maior receptora e recicladora dos resíduos plásticos norte-americanos. Uma mudança na legislação do país, entretanto, passou a proibir esse tipo de comércio. A partir de então, países vizinhos como o Vietnã e o Laos passaram a receber quantidades maiores de resíduos para compensar o “fechamento” das importações da China.  

Outros tradicionais “importadores”, como Bangladesh, Índia, Filipinas e Malásia, passaram a ser cooptados pelas nações ricas para aumentarem suas importações, compensando o fechamento do “mercado” chinês. Algumas dessas nações, entretanto, passaram a criar barreiras para a importação desses resíduos. 

Surge aqui uma pergunta: se as “exportações” de resíduos plásticos são um bom negócio para o meio ambiente das nações ricas e gera emprego e renda em nações paupérrimas do Terceiro Mundo, por que é que alguns dos países “importadores” começaram a proibir essas importações? 

A resposta não é muito difícil – até 70% dos resíduos exportados pelas nações ricas estão contaminados por restos de comida, resíduos de óleo e graxa, produtos químicos dos mais diferentes tipos, entre outros tipos de contaminantes. Esses resíduos “sujos” não podem ser reciclados e acabam sendo transformados em resíduos sólidos locais, que precisarão ser encaminhados para aterros e lixões nos países recicladores. A reciclagem vira um péssimo negócio para os países importadores

Um outro problema grave da reciclagem é a intensiva exploração de mão de obra, inclusive infantil. Sem opções, é comum que mulheres que têm filhos pequenos acabem levando as crianças para os locais de trabalho (muitas vezes, essas pessoas já moram no próprio local de trabalho). Como o trabalho é penoso e pouco rentável (normalmente, se ganha por produção), as crianças acabam ajudando na seleção e classificação dos resíduos. Também não é nada incomum que crianças maiores deixem de frequentar a escola para ajudar os pais nesses trabalhos. 

Em maio de 2019, o Governo da Malásia anunciou medidas que visam coíbir a importação de resíduos plásticos para reciclagem no país. O Governo das Filipinas já havia tomado uma decisão semelhante poucas semanas antes. E mais – centenas de contêineres repletos com milhares de toneladas de resíduos foram devolvidos ao Canadá, providência que também foi tomada pelas Filipinas. De acordo com dados de 2016, a Malásia importou cerca de 870 mil toneladas de resíduos plásticos, um volume três vezes maior do que o total de 2015. Em 2019, esse volume superou as 7 milhões de toneladas.

No caso das Filipinas, os problemas começaram com a identificação de sucessivas remessas de contêineres carregados com lixo eletrônico e doméstico também de origem canadense. As guias de importação informavam se tratar de resíduos plásticos para reciclagem. Em maio de 2019, o Governo das Filipinas devolveu 69 contêineres com uma carga total de 1.500 toneladas de lixo para o Canadá, além de baixar uma série de decretos para aumentar a fiscalização e restringir gradualmente a entrada desses resíduos no país.  

Em países extremamente pobres como Bangladesh, infelizmente, essa realidade está muito longe de acabar. Cerca de 30% da população do país sobrevive com apenas US$ 1.00 per capita ao dia, um valor considerado como limite da pobreza extrema, e, com mão de obra abundante e extremamente barata, há espaço de sobra para a “indústria da reciclagem” prosperar.  

Um dos produtos de destaque de Bangladesh são os flocos de garrafas Pet – o país exportou em 2018 cerca de 20 mil toneladas desse resíduo, produzidos em mais de “três mil fábricas espalhadas pelo país asiático”. Os negócios renderam US$ 15 milhões e, segundo os empresários do setor, a taxa de crescimento nas vendas é de 20% ao ano 

Ou seja – enquanto existirem miseráveis aos milhões nas nações do Terceiro Mundo, populações dos países ricos não precisarão se preocupar com a destinação final dos seus resíduos sólidos. Felizmente, as coisas estão começando a mudar bem devagar em alguns países. 

A DESTRUIÇÃO DAS TURFEIRAS TROPICAIS NA REGIÃO INDO-MALAIA

Incêndio na Indonésia

Indonésia e Malásia são dois países vizinhos do Sudeste Asiático que, apesar das grandes diferenças na composição das suas populações, tem praticamente os mesmos problemas ambientais. A destruição de grandes extensões de florestas tropicais para a criação de áreas para a produção de azeite de dendê e para a implantação plantações comerciais de madeira para a produção de papel e celulose é um grande denominador comum entre as duas nações. 

Um bioma típico dessas florestas, as turfeiras tropicais, estão seriamente ameaçados pela expansão dos campos agrícolas. As Florestas Tropicais (ou Equatoriais) do Sudeste Asiático possuem cerca de 20 milhões de hectares de solos de turfa, o que corresponde a mais de 60% das turfeiras tropicais do mundo. Cerca de 80% dessas turfeiras se encontram na Indonésia, 11% na Malásia e o restante se distribui entre a Papua Nova Guiné, Vietnã, Filipinas e Tailândia

A chamada Região Indo-Malaia, que se estende da Índia até as Filipinas, é uma das áreas do mundo que mais vem sofrendo com os desmatamentos. Indonésia e Malásia lideram esses desmatamentos, especialmente em áreas de solos de pântanos de turfaEsses solos foram formados ao longo de mais de 8 mil anos pelo acúmulo de matéria orgânica de origem vegetal semidecomposta nas margens de rios, especialmente nas adjacências de áreas de manguezais. Os solos desses pântanos de turfa têm uma camada entre 8 e 20 metros de profundidade e costumam se estender entre 3 e 5 km dentro de uma planície de inundação.   

Os pântanos de turfa funcionam como esponjas, absorvendo todo o excedente de água durante o período das chuvas e ajudam no controle das intensidades das enchentes. Na época da seca, essas áreas liberam água, ajudando a garantir a vazão mínima dos rios, uma função muito parecida com aquela realizada pelos Banhados dos Pampas Gaúchos. Esses ecossistemas abrigam uma biodiversidade própria e são fundamentais para o equilíbrio dinâmico dos caudais dos rios e também da biodiversidade aquática.  

Os serviços ambientais fornecidos pelas turfeiras vão ainda mais longe: elas também formam uma barreira natural que protege as terras litorâneas contra a intrusão de águas salinas. Também funcionam como filtro, retendo substâncias poluentes que poderiam atingir os rios e lagoas. Fornecem abrigos e alimentos para toda uma gama de animais silvestres, inclusive algumas espécies seriamente ameaçadas de extinção como o rinoceronte-de-Sumatra (Dicororhinus sumatrensis). Uma outra função de grande importância ambiental: as turfeiras armazenam grandes quantidades de carbono, evitando assim que ele escape para a atmosfera na forma de dióxido de carbono, um dos gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global

A drenagem dessas áreas pantanosas, que é feita através da abertura de canais, cria solos secos para a construção de moradias e oferece áreas de grande fertilidade para a ampliação de áreas de cultivo. Apesar do aparente ganho em novas áreas agrícolas disponíveis, a secagem das turfeiras aumenta imensamente os riscos de incêndios florestais, que já são intensos na região. A turfa é um material altamente combustível, usado em muitos países para o aquecimento de casas e para cozinhar – na Escócia, a queima da turfa local é usada na destilação do whisky. Aliás, os escoceses mais tradicionalistas dizem que é a fumaça da turfa que dá sabor à bebida. 

O contato acidental da turfa com uma fonte de calor pode resultar em um grande desastre. Em outubro de 1995, citando um exemplo, um incêndio originado numa região de turfeiras em Selangor na Malásia destruiu 16 hectares da reserva florestal de Bukit Tungaal. Um caso semelhante ocorreu anos depois numa área florestal de Kampung Penadah, onde 160 hectares de floresta foram queimados.  

As Autoridades da Malásia e da Indonésia, preocupadas com os ganhos obtidos com as exportações de azeite de dendê e do papel/celulose, parecem fazer vista grossa para esses graves problemas e vão permitindo um avanço cada vez maior dos desmatamentos e ocupação de pântanos de turfa. Em algumas regiões desses países, 80% dos antigos pântanos de turfa foram dessecados e transformados em campos agrícolas.  

Entre os países que compram o azeite de dendê da região estão a França e a Alemanha, duas das nações que mais têm elevado o tom das críticas ao Brasil por causa da destruição da Floresta Amazônica. Felizmente, os países da Comunidade Europeia passaram a impor sérias restrições à importação do óleo de dendê da Malásia e da Indonésia a partir de 2018 por causa dos problemas ambientais provocados pela cultura. 

Os incêndios anuais que devoram grandes áreas das florestas da Malásia e da Indonésia já são considerados, há vários anos, como uma verdadeira tragédia ambiental para todo o Sudeste Asiático. As grandes colunas de fumaça liberadas por esses incêndios atingem áreas densamente povoadas dos países vizinhos, de Singapura até as Filipinas, intensificando ainda mais os graves problemas de poluição do ar das cidades. No período das queimadas, as fotos de satélite costumam mostrar uma imensa nuvem escura cobrindo toda uma extensa faixa do Sudeste Asiático. 

Em setembro de 2019, a grossa camada de fumaça que atingiu Singapura forçou o Governo local a decretar “situação de insalubridade” e pedir que os seus 6 milhões de habitantes evitassem praticar atividades ao ar livre. A concentração de poluentes na Cidade/Estado atingiu o nível de 112 partículas de poluentes por metro cúbico de ar, mais de 4,5 vezes acima do limite recomendado pela OMS – Organização Mundial de Saúde

O ano de 2015 foi o recordista em incêndios florestais, principalmente na Indonésia, quando cerca de 2,6 milhões de hectares de florestas e turfeiras arderam sob as chamas. Esses incêndios causaram prejuízos regionais da ordem de US$ 16 bilhões, afetando a saúde de milhões de pessoas na Indonésia e na Malásia, assim como em Singapura e em Brunei. Estudos realizados por especialistas dos Estados Unidos indicam que perto de 100 mil pessoas morreram prematuramente por conta de doenças respiratórias desencadeadas pela fumaça desses incêndios.

A recomposição dos pântanos de turfa é um processo que leva milhares de anos. Além de demorada, essa recomposição depende da preservação das áreas florestais no entorno – as turfeiras são depósitos de material orgânico gerado pelas florestas, principalmente folhas e galhos de árvores, que são arrastados pelas chuvas na direção dos pântanos. Sem as florestas não há turfeiras e sem as turfeiras, parte importante da biodiversidade da floresta desaparece. Nascentes de rios também ficam ameaçadas pela perda das turfeiras, o que no final vai acabar comprometendo todas as formas de vida, inclusive a dos seres humanos da região. 

A grande ironia que se esconde por trás da destruição das turfeiras tropicais é a pressão para a expansão dos campos agrícolas de palma do dendê, um biocombustível que, até bem pouco tempo atrás, era considerado renovável por várias nações do mundo desenvolvido. Ao que tudo indica, toda a destruição causada pelas plantações não estava sendo incluída nos custos ambientais da produção do óleo de dendê. 

Como eu sempre costumo comentar nas minhas postagens, pessoas no mundo inteiro se preocupam em demasia com as queimadas na Floresta Amazônica, sem se interessar com o que está acontecendo com outras importantes florestas do resto do mundo, principalmente as do Sudeste Asiático. No que diz respeito às ameaçadas turfeiras tropicais, a imensa maioria das pessoas sequer ouviu falar nesses importantíssimos biomas. 

Precisamos de menos histeria e de mais ação no combate à destruição das florestas tropicais.

ORANGOTANGOS, RINOCERONTES, TIGRES E OUTRAS ESPÉCIES AMEAÇADAS NA INDONÉSIA E NA MALÁSIA

Tigre-de-Sumatra

A destruição contínua de florestas – tropicais e boreais entre muitas outras, em todo o mundo causa enormes preocupações devido aos seus impactos diretos no clima e na temperatura do planeta. O aquecimento global, que para muita gente não passa de uma fantasia, já causa estragos em diversas partes do mundo e a tendência, infelizmente, é das coisas piorarem ainda mais.

Existe um outro lado da devastação das florestas que nem sempre é mostrado com a devida importância pelos meios de comunicação – a perda de habitats de diversas espécies animais, algumas em eminente risco de extinção. As florestas tropicais (ou equatoriais) da Indonésia e da Malásia são as líderes proporcionais em perda de cobertura florestal no mundo e, consequentemente, são as que apresentam o maior número de espécies animais em risco iminente de extinção.

Conforme comentamos na postagem anterior, as florestas da Indonésia possuem a segunda maior biodiversidade do mundo, só perdendo neste quesito para o Brasil. Já as florestas da Malásia, que apesar de apresentar um território com apenas 1/6 da área da Indonésia, abrigam perto de 20% de todas as espécies animais do mundo. Uma característica marcante dessas florestas é o elevado grau de endemismo de espécies, ou seja, espécies que são exclusivas de um determinado ecossistema.

A origem desse endemismo de espécies se deve ao fato dessas florestas se encontrarem, majoritariamente, em ilhas – a exceção no caso da Malásia é que parte do país fica na Península Malaia, na Ásia. Sempre que populações de animais são separadas em diferentes ilhas, devido por exemplo à elevação do nível dos mares, há uma tendência natural dos animais evoluírem de forma independente, adaptando-se às características particulares do novo meio ambiente.

Um exemplo clássico da biologia são os tentilhões das Ilhas Galápagos, um ponto chave para a formulação da Teoria da Origem das Espécies de Charles Darwin (1809-1882). Durante a lendária expedição do navio HMS Beagle, entre 1831 e 1836, Darwin pode realizar diversos estudos nas Ilhas Galápagos, na costa do Equador. Entre as diversas espécies de animais coletados e catalogados, Darwin encontrou espécies diferentes de aves da família dos tentilhões em cada uma das ilhas do arquipélago.

Estudos posteriores demonstraram que todas essas aves, apesar de apresentarem formatos de bico diferentes, tinham um ancestral comum. E mais – os diferentes formatos dos bicos foi uma adaptação evolucionária ao meio ambiente de cada uma das ilhas. Outro exemplo que podemos citar é o da jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), espécie de cobra encontrada apenas na Ilha Queimada Grande, no litoral de São Paulo, também conhecida como Ilha das Cobras.

Até cerca de 11 mil anos atrás, época em que o mundo passava pela última Idade do Gelo ou Era Glacial, o Oceano Atlântico estava num nível 160 metros abaixo do atual e a área dessa ilha estava ligada ao continente. Com o aquecimento do planeta, o nível do mar começou a subir e uma população de jararacas comuns (Bothrops jararaca) ficou presa na ilha que surgiu – a jararaca-ilhoa evoluiu a partir dessa espécie e se adaptou à vida no novo meio ambiente que surgiu.

A história geológica das ilhas que formam os arquipélagos da Indonésia e da Malásia nos últimos milhões de anos testemunhou inúmeros eventos de elevação e rebaixamento do nível dos mares, movimentação de placas tectônicas, erupções vulcânicas, terremotos e muitos tsunamis. Esses sucessivos eventos uniram e separaram as diferentes massas de terras por diversas vezes. Inúmeras populações de diferentes espécies de animais também foram unidas e separadas inúmeras vezes, o que levou à formação de diferentes espécies e subespécies nas diferentes ilhas.

Uma das espécies animais mais carismáticas das florestas da Indonésia e da Malásia são os orangotangos, palavra que nas diferentes línguas locais significa “homem da floresta”. Existem três espécies: o orangotango-de-Bornéo (Pongo pygmaeus), o orangotango-de-Sumatra (Pongo abelii) e o orangotango-de-Tapanuli (Pongo tapanuliensis), essa última identificada apenas em 2017. O orangotango-de-Bonéo possui três subespécies: Pongo pygmaeus pygmaeus, Pongo pigmaeus morio e Pongo pigmaeus wurmbii.

Os orangotangos surgiram entre 17 e 19 milhões de anos atrás e são os últimos descendentes ainda vivos dos grandes primatas da subfamília dos Ponginae, onde se inclui o Gigantopithecus blacki, um primata que podia atingir uma altura de 3 metros e mais de 500 kg de peso. Ao longo de todo esse tempo, diferentes populações de orangotangos foram sendo separadas em diferentes ilhas e seguiram por diferentes caminhos evolutivos. A destruição das florestas tropicais na Malásia e na Indonésia estão reduzindo dramaticamente as populações de orangotangos e ameaçando de extinção as diferentes espécies e subespécies.

Outra espécie que merece destaque são os tigres-de-Sumatra (Panthera tigris sondaica). Trata-se de uma subespécie de tigre asiático (Panthera tigris), que ficou restrita à ilha de Sumatra, a maior do arquipélago indonésio. No passado, existiram outras duas subespécies, o tigre-de-Java (Panthera tigris sondaica) e o tigre-de-Bali (Panthera tigris balica), respectivamente da Ilha de Java e da Ilha de Bali. Os últimos exemplares do tigre-de-Bali desapareceram na década de 1930 e os tigres-de-Java na década de 1970. As causas da extinção são bastante conhecidas: destruição de habitats e caça predatória.

O rinoceronte-de-Sumatra (Dicerorhinus sumatrensis) é uma das espécies mais ameaçadas do mundo – em maio de 2019 morreu o último macho da espécie na Malásia, restando apenas duas fêmeas. Na Indonésia existe uma pequena população com cerca de 80 animais vivendo em alguns fragmentos florestais isolados. As principais causas do desaparecimento dessa espécie é a caça para a remoção do chifre, considerado um poderoso afrodisíaco em países como a China, e a destruição dos habitats para a implantação de lavouras, especialmente de palma-da-Guiné.

Os casos mais surpreendentes de endemismo na região ocorreram num passado remoto na Ilha de Flores, localizada no extremo Leste da Indonésia. Diversas pesquisas realizadas nessa ilha ao longo das últimas décadas trouxeram à luz diversos fósseis de animais extintos que tinham uma característica em comum – o nanismo. Em ambientes de ilhas, devido à limitação dos recursos naturais, existe uma tendência natural das espécies animais diminuírem de tamanho como forma de adaptação ao meio ambiente. A jararaca-ilhoa, por exemplo, tem apenas metade do comprimento da jararaca comum.

Na Ilha de Flores foram encontrados fósseis de elefantes e rinocerontes, entre outras espécies animais, muito pequenos e bem adaptados ao ecossistema local. Em 2004, surpreendentemente, foi encontrado um fóssil de um esqueleto humano adulto (uma mulher), quase completo, com cerca de 1,3 metro de altura. Escavações posteriores encontraram fragmentos e ossos humanos de dimensões também pequenas. Essa subespécie de humanos foi batizada de Homo floresiensis, que rapidamente ganhou o apelido de Hobbit, numa alusão aos personagens lendários da saga O Senhor dos Anéis.

Os estudos científicos já concluídos até o momento indicam que essa população humana chegou na Ilha de Flores há cerca de 750 mil anos atrás e, que, gradativamente foi diminuindo de tamanho para se adaptar às restrições do ecossistema local. Essa população se extinguiu entre 13 mil e 50 mil anos atrás por razões ainda desconhecidas. Lendas das populações nativas de Flores falam que ainda existem “pequenos caçadores selvagens” vivendo nas profundezas da floresta.

Além das espécies citadas, existem outras centenas de espécies e subespécies de animais que já desapareceram ou que estão com suas populações reduzidas a números extremamente baixos e que correm riscos iminentes de extinção. É preciso que o mundo deixe de se preocupar exclusivamente com a Floresta Amazônica e que passe a olhar com mais atenção para outros sistemas florestais que estão dizimados ano após ano, sem que se preste atenção ao drama vivido por suas populações de animais selvagens.

A DESTRUIÇÃO DAS FLORESTAS TROPICAIS NA INDONÉSIA E NA MALÁSIA

Destruição de florestas na Indonésia

A Floresta Amazônica costuma ocupar, frequentemente, as manchetes dos noticiários de todo o mundo quando o assunto em pauta é a destruição das florestas tropicais. Em 2019, celebridades e políticos oportunistas de todo o mundo chegaram a afirmar que a Amazônia estava sendo “transformada em cinzas” pelas queimadas. O Presidente da França, Emmanuel Macron, chegou inclusive a ameaçar o Brasil com um eventual uso de forças militares para conter o avanço dos desmatamentos na “Nossa Amazônia“. 

Essa verdadeira obsessão das nações desenvolvidas pela preservação da Floresta Amazônica, entretanto, costuma desprezar agressões muito mais graves a outros importantes sistemas florestais pelo mundo afora. A Floresta Boreal, também conhecida como Taiga, é um grande exemplo – ela vem sofrendo intensos desmatamentos, principalmente na Rússia, e ninguém ameaça Vladimir Putin

A Floresta Tropical da Indonésia é a terceira maior do tipo no mundo e, em termos percentuais, é o sistema florestal que mais vem sofrendo com os desmatamentos nos últimos anos. Essa floresta ocupava originalmente 60% da superfície total da Indonésia ou uma área equivalente a 1,14 milhões de km².

De acordo com estudos da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, e do World Resource Institute, os intensos desmatamentos já consumiram perto de 20% das florestas indonésias nas últimas décadas. A vizinha Malásia tem um território 6 vezes menor do que a Indonésia, porém abriga 20% de todas as espécies animais do mundo, o que é uma biodiversidade surpreendente.

Um dos grandes vilões dos desmatamentos na Indonésia, e também na vizinha Malásia, atende pelo nome de azeite de dendê, um produto muito conhecido aqui no Brasil, principalmente pela culinária da Região Nordeste. Um dos principais usos do dendê nas últimas décadas foi como biocombustível, adicionado ao óleo diesel. Os produtores do Sudeste Asiático conseguiram vender para o mundo a ideia que o dendê é um biocombustível renovável, que poderia auxiliar na redução da poluição do ar nas grandes cidades. Muitos países passaram a importar o dendê e adicioná-lo ao diesel numa proporção de 10%

A palma-da-Guiné ou dendezeiro é originária da costa Oeste do continente africano, no trecho entre o Senegal e Angola. De acordo com estudos históricos, o óleo da palma vem sendo utilizado pelas populações há mais de 5 mil anos. No Brasil, a espécie foi introduzida no Período Colonial, quando era intenso o trânsito de navios negreiros e mercantes entre a África e o Brasil. Uma extensa região no Estado da Bahia passou a ser dedicada ao cultivo da palma-da-Guiné. Na década de 1960, foram introduzidas as primeiras mudas da espécie no Pará, Estado que responde atualmente por 70% da produção brasileira.  

O azeite de dendê faz parte da culinária regional de diversos Estados brasileiros, sendo a culinária da Bahia uma das mais representativas – o dendê entra em inúmeras receitas como o acarajé e as moquecas. O azeite de dendê também está presente em uma série de alimentos industrializados onde se incluem margarinas, sorvetes, biscoitos, barras de cereais, chocolates, pães, bolos, doces, entre outros. Produtos químicos derivados do azeite de dendê são encontrados em detergentes, sabonetes, velas, cremes faciais e batons, entre muitos outros.  

A produção e o uso do azeite de dendê sofreram um enorme incremento a partir de 2005, quando entrou em vigor o Protocolo de Kyoto, um conjunto de metas negociadas e assinadas pelos países em 1997 para a redução das emissões dos gases de efeito estufa. Um dos principais compromissos assumidos pelos países signatários foi a redução das emissões de gases poluidores em, pelo menos, 5,2% em relação aos níveis emitidos em 1990. Entre as ações propostas destacam-se a reforma dos setores de energia e transportes, proteção das áreas florestais e a promoção do uso de fontes energéticas renováveis, o que criou um grande mercado para o óleo de palma.  

O óleo de palma responde por cerca de 35% da produção mundial de óleos de origem vegetal. Uma das principais razões dessa forte participação do óleo de palma no mercado é a sua alta produtividade, que se situa entre 3 a 5 toneladas por hectare. Essa produtividade é 10 vezes maior que a obtida com a soja, 4 vezes maior do que a do amendoim e 2 vezes maior que o coco. Os baixos preços das terras agrícolas na Malásia e na Indonésia, os baixos custos para a produção do óleo, a farta disponibilidade de mão de obra e as fracas políticas de conservação das áreas florestais nesses países foram determinantes para o rápido crescimento da cultura da palma-da-Guiné nessa região .

Malásia e Indonésia, que já eram tradicionais países produtores e exportadores do óleo de palma, rapidamente viram as suas áreas de produção serem ampliadas e atualmente respondem por 90% da produção mundial. As primeiras mudas de palma-da-Guiné chegaram na Ilha de Sumatra, na Indonésia, em 1911; em 1917, foi a vez da introdução da espécie na Malásia. Em 1995, a produção mundial de óleo de palma foi de 15,2 milhões de toneladas – em 2020, essa produção deverá chegar a 60 milhões de toneladas. Cerca de metade dos desmatamentos nesses dois países tem como objetivo a ampliação das áreas de produção do dendê.  

Queimadas na Indonésia

A intensa devastação ambiental que foi criada pela expansão descontrolada das lavouras de palma-da-Guiné na Malásia e na Indonésia levou a Comunidade Europeia a criar mecanismos que impeçam ou reduzam a importação de óleo de palma desses países. Em abril de 2019, uma Comissão aprovou medidas para controlar e certificar os tipos de óleo de palma que podem ser utilizados como biocombustível no continente europeu, complementando uma legislação aprovada em 2018.  

Os países da União Europeia estão impondo restrições ao uso do óleo de palma por que sua produção, comprovadamente, causa desmatamentos e agrava o aquecimento global, uma realidade completamente oposta aos objetivos estabelecidos pelo Protocolo de Kyoto. Outra questão seríssima é a ameaça que esses desmatamentos representam para uma infinidade de animais nativos dessas florestas como o tigre-de-Sumatra, o orangotango (vide foto no alto) e o rinoceronte-de-Sumatra, entre muitas outras. 

Desde o início de 2018, os preços do óleo de palma já caíram cerca de 15% e as expectativas a longo prazo não são nada otimistas. Os produtores da Malásia e da Indonésia temem que os países da Europa estejam planejando proibir todas as importações de óleo de palma de seus países a partir de 2021. Esses produtores estão protestando fortemente e exigindo que seus Governos adotem medidas retaliatórias contra os países da Europa. Essa é uma história que ainda vai dar “muito pano para a manga”.

Uma outra fonte de problemas para as florestas locais são as indústrias de papel e celulose, que também se aproveitam da legislação ambiental fraca e de políticos corruptos para derrubar florestas centenárias, plantando em seu lugar monoculturas de pinus e eucalipto. Aqui é importante lembrar que a Indonésia possui a segunda maior biodiversidade do mundo, só ficando atrás do Brasil em número de espécies, e a pequena Malásia não fica longe disso. 

Substituir uma floresta riquíssima por plantações comerciais de pinus e eucalipto é um crime ambiental inominável. 

OS GRAVES PROBLEMAS AMBIENTAIS E SOCIAIS DE JACARTA, A CAPITAL DA INDONÉSIA

Favela em Jacarta

Na última postagem falamos de um problema surreal que está tirando o sono de boa parte da população de Jacarta: bairros da Zona Norte da Cidade estão afundando, uma catástrofe que está afetando cerca de 2 milhões de pessoas. Jacarta é a capital da Indonésia e tem uma população de 10 milhões de habitantes. Sua Região Metropolitana abriga 30 milhões de habitantes. 

Além do afundamento e a invasão dos terrenos pela água do mar (alguns locais já afundaram cerca de 4 metros em relação ao nível do mar), a cidade também enfrenta outros problemas típicos das grandes metrópoles mundiais: poluição do ar, coleta e destinação de resíduos sólidos, abastecimento de água e coleta de esgotos, engarrafamentos, enchentes e todo o resto do “pacote”. 

Conforme comentamos na postagem anterior, a retirada de água do lençol freático para o abastecimento da população é uma das principais razões para o afundamento dos terrenos. Isso acontece porque falta infraestrutura de saneamento básico em toda a Região Metropolitana. Como é comum em países em desenvolvimento, existe uma forte migração de populações das áreas rurais para as áreas urbanas, onde os terrenos mais inadequados para a construção civil são invadidos, surgindo enormes favelas nesses locais.  

Jacarta sofreu um crescimento explosivo nas últimas décadas e não houve tempo para a expansão adequadas das redes de água e de esgotos. Cerca de 2/3 da população da Região Metropolitana depende da água de poços para seu abastecimento. Esgotos são dispersados em córregos, rios ou em fossas, o que coloca em risco as águas do lençol freático, num processo conhecido como contaminação cruzada: o esgoto gerado por uma família contamina a água que será usada no abastecimento da própria família. 

A cidade foi construída em uma região pantanosa, com os terrenos conquistados a partir do aterramento de pântanos e mangues. A cidade é atravessada por um total de 13 rios, que recebem grandes volumes de esgotos e resíduos sólidos. Como Jacarta é uma cidade costeira, o ciclo das marés dificulta a dispersão completa dos esgotos nas águas do mar, o que só aumenta o tamanho do problema. 

Uma outra questão ambiental séria da cidade e de toda a sua Região Metropolitana é a poluição do ar. De acordo com medições feitas por especialistas dos Estados Unidos, o índice médio da poluição por material particulado fino, conhecido como PM2.5, em julho de 2017 foi de 74 partículas por metro cúbito de ar. Em julho de 2019, a mesma medição encontrou 148 partículas por metro quadrado de ar. De acordo com as recomendações da OMS – Organização Mundial de Saúde, esse índice deve ser no máximo de 25 partículas por metro cúbico de ar

De acordo com informações do grupo ambientalista Greenpeace à rede de televisão norte-americana CNN, no dia 14 de julho de 2019, a cidade de Jacarta teve um grande pico de poluição, apresentando os maiores índices da Ásia, superando inclusive cidades fortemente poluídas da Índia e da China. A situação foi tão caótica que um grupo de 31 cidadãos da cidade se uniu num processo judicial contra o Governo da Indonésia por causa dos altos níveis de poluição. Na petição foram citados como réus o Presidente do país, Joko Widodo, e os Ministros da Saúde, da Administração Interna, do Meio Ambiente, além do Prefeito de Jacarta. 

As fontes de poluição do ar em Jacarta são várias. Comecemos falando da gigantesca frota de veículos automotores, principalmente carros e motos, que circula pelas ruas da cidade. A deficiência na infraestrutura dos transportes em massa na capital indonésia e em toda a sua Região Metropolitana, a exemplo do que acontece nas grandes cidades brasileiras, estimula o transporte individual, o que resulta em uma enorme emissão de gases tóxicos e em índices de congestionamento gigantescos. 

Outra fonte importante de poluição são as usinas de geração de energia elétrica, onde há uma grande participação de centrais termelétricas a carvão, a gás e a óleo diesel. A Indonésia possui mais de 17 mil ilhas, uma característica que força o uso de sistemas de geração de energia elétrica decentralizados. O país é um grande produtor de carvão mineral – o 5° maior produtor mundial, o que torna os custos de geração nas poluentes centrais termelétricas a carvão muito baixos. 

A população da Indonésia usa intensivamente a lenha como fonte de energia nas residências para cozinhar – aliás, mais da metade da população do país não tem acesso a redes de energia elétrica ou tem condições financeiras para comprar gás engarrafado. Essas emissões se juntam às frequentes queimadas de matas por todo o arquipélago, uma poluição que atinge a capital do país em algumas épocas do ano. Existe um verdadeiro cerco de poluição do ar em Jacarta. 

Jacarta está localiza a poucos graus ao Sul da Linha do Equador, o que lhe assegura um clima equatorial quente e úmido. Todas a as ilhas do arquipélago da Indonésia são atingidas pelas Chuvas da Monção, um conjunto de forte ventos anuais gerados pelo Oceânico Índico, que formam uma intensa temporada de chuvas em todo Sul e Sudeste da Ásia. As Monções na Indonésia não têm a mesma intensidade torrencial vista no Subcontinente Indiano e Sudeste Asiático. A temporada de chuvas se estende entre os meses de outubro e março, causando inúmeros transtornos devido à falta de infraestrutura para o escoamento das águas pluviais

Perto de metade da população da Indonésia sobrevive com uma renda inferior a US$ 2.00 por dia, situação de pobreza que se escancara nos gravíssimos problemas de habitação no país. Uma parte considerável da população de Jacarta mora em “habitações subnormais”, conforme a definição politicamente correta usada para indicar favelas e cortiços, em áreas próximas de rios e sem qualquer infraestrutura urbana (vide foto), sujeitas a fortes alagamentos na temporada das chuvas. 

De acordo com informações da Save the Children, uma organização não governamental internacional que atua no país, cerca de 40% das crianças menores de cinco anos que vivem nesses aglomerados sofrem de desnutrição e tem atraso no crescimento e desenvolvimento, além de sofrerem com doenças associadas aos problemas de saneamento básico como a diarreia. Os adultos também carecem de uma boa alimentação, com muitos trabalhadores sobrevivendo apenas com a ingestão de uma banana frita pela manhã e de um prato rápido de macarrão no almoço

Além dos conhecidos problemas de uma vida em moradias precárias e com falta de serviços de saneamento básico dos mais elementares, essas favelas e cortiços são grandes bolsões de violência urbana, onde é preciso destacar o crescimento do tráfego de drogas no país, especialmente em Jacarta. Além da criminalidade “convencional”, a Indonésia é um campo fértil para o surgimento de grupos extremistas islâmicos, grupos estes que se valem da extrema violência (terrorismo) para impor suas leituras radicais do Alcorão, o livro sagrado dos ismaelitas. Essa característica coloca a violência social da Indonésia em um patamar diferente do que vemos nas grandes cidades aqui do Brasil. 

Nesse quadro resumido que apresentamos, percebemos que Jacarta possui muitos problemas idênticos aos vividos pelas grandes metrópoles brasileiras, além de outros males bem específicos da Indonésia. Porém, talvez a exceção de Maceió, nenhuma grande cidade brasileira está afundando em igual proporção e sujeita a inundação pelas águas do oceano. Hajam problemas.

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