JACARTA: A METRÓPOLE QUE ESTÁ AFUNDANDO

Jacarta

Vamos propor a seguinte situação hipotética – reportagens de redes de televisão e de portais de notícias informando que a Zona Norte da cidade de São Paulo está começando a afundar e que, dentro de 30 anos, mais de 90% da região ficará embaixo d’água. Imagine a situação de pânico que tomaria conta dos vários milhões de paulistanos que moram nessa região da cidade. 

É exatamente isso que está acontecendo com a Zona Norte da cidade de Jakarta, capital da Indonésia. A cidade possui cerca de 10 milhões de habitantes e é um pouco menor que a cidade de São Paulo. A Região Metropolitana de Jacarta, porém, é bem maior que a de São Paulo e abriga cerca de 30 milhões de habitantes. North Jakarta, a região mais afetada pelo fenômeno, tem cerca de 2 milhões de habitantes e alguns dos seus bairros já afundaram cerca de 4 metros em relação ao nível do mar desde 1970

A Indonésia é um daqueles países surpreendentes sobre o qual você, muito provavelmente, sabe muito pouco. O país é formado por mais de 17 mil ilhas, que compõem o maior arquipélago do mundo. Ocupa uma área de quase 2 milhões de km² e possui uma população de 260 milhões de habitantes. Cerca de 87% da população da Indonésia segue o islamismo, o que a torna a maior nação muçulmana do mundo. 

Até o início do século XVI, Kalapa, antigo nome de Jacarta, era uma pequena cidade com um porto na costa Noroeste da Ilha de Java. A história do lugarejo começou a mudar em 1513, quando uma pequena frota de caravelas portuguesas aportou na região durante uma expedição que buscava as lendárias “ilhas das especiarias”. Como todos devem se lembrar das aulas de história nos tempos do ensino fundamental, os portugueses se lançaram ao mar desde meados do século XV buscando um caminho para as Índias, onde pretendiam adquirir as valiosas especiarias do Oriente para revender. 

As especiarias mais conhecidas e mais valorizadas na época das grandes navegações eram a canela, o gengibre verde e seco, as pimentas, o cravo, a noz-moscada e seu óleo, o almíscar, a algabia e o istorac, produtos usados como temperos, essências e remédios. Também eram de grande interesse dos navegadores o benjoin, a cássia, a mástica, o incenso, a mirra, a madeira de sândalo, a cânfora, a madeira de aloé, a cana-da-índia, a laca, a múmia (remédio), o anil ou índigo (usado como corante para roupas), a tuzia e o ópio, entre muitas outras.

Esses produtos eram comprados tadicionalmente na Índia por mercadores da Ásia e transportados por sucessivas caravanas de camelos até chegar ao Oriente Médio, sendo depois revendidos na Europa por preços centenas de vezes mais altos. Existe um detalhe curioso aqui: muitas especiarias “genéricas” eram encontradas nas matas do Brasil, as chamadas drogas do sertão, e vendidas na Europa como “legítimas especiarias do Oriente”. As principais produtoras e exportadoras desses “genéricos” eram as fazendas dos padres Jesuítas da Companhia de Jesus (S.A. – grifo meu).

A localização estratégica de Kalapa, bem no centro das ilhas onde eram produzidas todas essas especiarias, transformou o lugar num importante porto e centro de comercialização de produtos para os mercadores europeus que navegavam por aquelas águas. Em 1527, a já importante cidade de Kalapa foi invadida por um reino vizinho e teve o seu nome mudado para Jayakarta, origem do atual nome de Jacarta. 

Apesar da localização privilegiada, as terras onde a cidade de Jacarta estava localizada eram muito pantanosas e atravessadas por cerca de 13 rios. A cidade cresceu e se consolidou como metrópole ao longo dos séculos aterrando áreas de mangue e avançando sobre terrenos instáveis. É justamente essa origem dos atuais afundamentos da cidade. De acordo com informações da ONU – Organização das Nações Unidas, existem algumas áreas da cidade que estão afundando a uma razão de 25 cm por ano, o que é desesperador para as populações

Uma das principais causas da instabilidade dos solos de Jacarta é a retirada de águas do subsolo através de poços para o abastecimento da população. De acordo com cálculos das autoridades locais, perto de dois terços da população da Região Metropolitana utiliza águas do subsolo. Isso resulta num processo que é chamado em geologia de subsidência, o que faz com que o solo perca a sua resistência e comece a afundar. Existem outras cidades do mundo que enfrentam um problema parecido, porém com uma velocidade muito menor em relação ao que está acontecendo em algumas partes de Jacarta. 

Uma das alternativas estudadas pelo Governo da Indonésia é a construção de uma nova capital em um terreno mais elevado e seguro no lado indonésio da Ilha de Bornéu, onde também se encontram territórios da Malásia e do Sultanato de Brunei. O audacioso projeto está orçado em US$ 34 bilhões e tem um prazo de 10 anos para ser concluído. A implementação do projeto ainda depende da aprovação do Parlamento da Indonésia

De acordo com declarações do Presidente da Indonésia,  Joko Widodo, a escolha do local da nova Capital da nação levou em conta a sua localização no centro geográfico do país, próximo de outras áreas urbanas e num terreno alto e protegido de furacões e tsunamis. Aqui é preciso lembrar que as mudanças climáticas globais que já estão ocorrendo em várias partes do mundo estão elevando gradativamente o nível dos oceanos, um problema verdadeiramente catastrófico para a Indonésia, um grande país insular. 

A Ilha de Bornéu é a terceira maior do arquipélago indonésio e a que possui a maior parte de sua vegetação original preservada. A Indonésia, conforme já comentamos em postagem anterior, sofre imensamente com a derrubada de florestas nativas para a exploração madeirereira e, principalmente, para criação de novos campos agrícolas, em especial as plantações da palma do dendê. Existem diversas espécies animais locais altamente ameaçadas como o tigre-de-Sumatra e o carismático orangotango. Grupos ambientalistas temem que uma eventual mudança da capital para a Ilha de Bornéu resulte na destruição de importantes remanescentes da exuberante floresta tropical. 

Jacarta e toda a sua Região Metropolitana também padecem dos demais males das grandes cidades do mundo – poluição, pobreza, congestionamentos, falta de infraestrutura urbana, enchentes nos meses de verão, entre outros males. O Governo do país afirma que a nova Capital será pensada e construída visando resolver a maioria desses problemas, onde seriam incluídas também alternativas “verdes” como o uso de energia solar e eólica. Porém, como todos sabemos, existe um enorme abismo entre as promessas feitas por políticos e a vida real. 

A eventual transferência da Capital resultaria na migração de uma parcela substancial da população para a nova cidade e também de parte importante do setor financeiro do país. Isso ajudaria a aliviar a pressão sobre a cidade de Jacarta e comunidades vizinhas, permitindo assim que se revolvam os principais problemas da população. O grande problema é a verdadeira corrida contra o tempo e os efeitos nefastos do avanço do mar contra as áreas que já afundaram. 

A elevação gradativa do nível dos oceanos é um fenômeno que já está provocando estragos em cidades costeiras ou próximas da costa em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil. Notícias de mudanças de cidades para locais com terrenos mais altos tenderão a se tornar relativamente frequentes nos próximos anos. Essas mudanças, porém, terão altos custos financeiros e ambientais. Países pobres que também estão expostos a este mesmo problema terão menores condições para realizar essas mudanças e, é claro, sofrerão muito muito mais com os efeitos das mudanças climáticas. 

Desigualdade até nessas horas. Triste! 

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