OS GRAVES PROBLEMAS AMBIENTAIS E SOCIAIS DE JACARTA, A CAPITAL DA INDONÉSIA

Favela em Jacarta

Na última postagem falamos de um problema surreal que está tirando o sono de boa parte da população de Jacarta: bairros da Zona Norte da Cidade estão afundando, uma catástrofe que está afetando cerca de 2 milhões de pessoas. Jacarta é a capital da Indonésia e tem uma população de 10 milhões de habitantes. Sua Região Metropolitana abriga 30 milhões de habitantes. 

Além do afundamento e a invasão dos terrenos pela água do mar (alguns locais já afundaram cerca de 4 metros em relação ao nível do mar), a cidade também enfrenta outros problemas típicos das grandes metrópoles mundiais: poluição do ar, coleta e destinação de resíduos sólidos, abastecimento de água e coleta de esgotos, engarrafamentos, enchentes e todo o resto do “pacote”. 

Conforme comentamos na postagem anterior, a retirada de água do lençol freático para o abastecimento da população é uma das principais razões para o afundamento dos terrenos. Isso acontece porque falta infraestrutura de saneamento básico em toda a Região Metropolitana. Como é comum em países em desenvolvimento, existe uma forte migração de populações das áreas rurais para as áreas urbanas, onde os terrenos mais inadequados para a construção civil são invadidos, surgindo enormes favelas nesses locais.  

Jacarta sofreu um crescimento explosivo nas últimas décadas e não houve tempo para a expansão adequadas das redes de água e de esgotos. Cerca de 2/3 da população da Região Metropolitana depende da água de poços para seu abastecimento. Esgotos são dispersados em córregos, rios ou em fossas, o que coloca em risco as águas do lençol freático, num processo conhecido como contaminação cruzada: o esgoto gerado por uma família contamina a água que será usada no abastecimento da própria família. 

A cidade foi construída em uma região pantanosa, com os terrenos conquistados a partir do aterramento de pântanos e mangues. A cidade é atravessada por um total de 13 rios, que recebem grandes volumes de esgotos e resíduos sólidos. Como Jacarta é uma cidade costeira, o ciclo das marés dificulta a dispersão completa dos esgotos nas águas do mar, o que só aumenta o tamanho do problema. 

Uma outra questão ambiental séria da cidade e de toda a sua Região Metropolitana é a poluição do ar. De acordo com medições feitas por especialistas dos Estados Unidos, o índice médio da poluição por material particulado fino, conhecido como PM2.5, em julho de 2017 foi de 74 partículas por metro cúbito de ar. Em julho de 2019, a mesma medição encontrou 148 partículas por metro quadrado de ar. De acordo com as recomendações da OMS – Organização Mundial de Saúde, esse índice deve ser no máximo de 25 partículas por metro cúbico de ar

De acordo com informações do grupo ambientalista Greenpeace à rede de televisão norte-americana CNN, no dia 14 de julho de 2019, a cidade de Jacarta teve um grande pico de poluição, apresentando os maiores índices da Ásia, superando inclusive cidades fortemente poluídas da Índia e da China. A situação foi tão caótica que um grupo de 31 cidadãos da cidade se uniu num processo judicial contra o Governo da Indonésia por causa dos altos níveis de poluição. Na petição foram citados como réus o Presidente do país, Joko Widodo, e os Ministros da Saúde, da Administração Interna, do Meio Ambiente, além do Prefeito de Jacarta. 

As fontes de poluição do ar em Jacarta são várias. Comecemos falando da gigantesca frota de veículos automotores, principalmente carros e motos, que circula pelas ruas da cidade. A deficiência na infraestrutura dos transportes em massa na capital indonésia e em toda a sua Região Metropolitana, a exemplo do que acontece nas grandes cidades brasileiras, estimula o transporte individual, o que resulta em uma enorme emissão de gases tóxicos e em índices de congestionamento gigantescos. 

Outra fonte importante de poluição são as usinas de geração de energia elétrica, onde há uma grande participação de centrais termelétricas a carvão, a gás e a óleo diesel. A Indonésia possui mais de 17 mil ilhas, uma característica que força o uso de sistemas de geração de energia elétrica decentralizados. O país é um grande produtor de carvão mineral – o 5° maior produtor mundial, o que torna os custos de geração nas poluentes centrais termelétricas a carvão muito baixos. 

A população da Indonésia usa intensivamente a lenha como fonte de energia nas residências para cozinhar – aliás, mais da metade da população do país não tem acesso a redes de energia elétrica ou tem condições financeiras para comprar gás engarrafado. Essas emissões se juntam às frequentes queimadas de matas por todo o arquipélago, uma poluição que atinge a capital do país em algumas épocas do ano. Existe um verdadeiro cerco de poluição do ar em Jacarta. 

Jacarta está localiza a poucos graus ao Sul da Linha do Equador, o que lhe assegura um clima equatorial quente e úmido. Todas a as ilhas do arquipélago da Indonésia são atingidas pelas Chuvas da Monção, um conjunto de forte ventos anuais gerados pelo Oceânico Índico, que formam uma intensa temporada de chuvas em todo Sul e Sudeste da Ásia. As Monções na Indonésia não têm a mesma intensidade torrencial vista no Subcontinente Indiano e Sudeste Asiático. A temporada de chuvas se estende entre os meses de outubro e março, causando inúmeros transtornos devido à falta de infraestrutura para o escoamento das águas pluviais

Perto de metade da população da Indonésia sobrevive com uma renda inferior a US$ 2.00 por dia, situação de pobreza que se escancara nos gravíssimos problemas de habitação no país. Uma parte considerável da população de Jacarta mora em “habitações subnormais”, conforme a definição politicamente correta usada para indicar favelas e cortiços, em áreas próximas de rios e sem qualquer infraestrutura urbana (vide foto), sujeitas a fortes alagamentos na temporada das chuvas. 

De acordo com informações da Save the Children, uma organização não governamental internacional que atua no país, cerca de 40% das crianças menores de cinco anos que vivem nesses aglomerados sofrem de desnutrição e tem atraso no crescimento e desenvolvimento, além de sofrerem com doenças associadas aos problemas de saneamento básico como a diarreia. Os adultos também carecem de uma boa alimentação, com muitos trabalhadores sobrevivendo apenas com a ingestão de uma banana frita pela manhã e de um prato rápido de macarrão no almoço

Além dos conhecidos problemas de uma vida em moradias precárias e com falta de serviços de saneamento básico dos mais elementares, essas favelas e cortiços são grandes bolsões de violência urbana, onde é preciso destacar o crescimento do tráfego de drogas no país, especialmente em Jacarta. Além da criminalidade “convencional”, a Indonésia é um campo fértil para o surgimento de grupos extremistas islâmicos, grupos estes que se valem da extrema violência (terrorismo) para impor suas leituras radicais do Alcorão, o livro sagrado dos ismaelitas. Essa característica coloca a violência social da Indonésia em um patamar diferente do que vemos nas grandes cidades aqui do Brasil. 

Nesse quadro resumido que apresentamos, percebemos que Jacarta possui muitos problemas idênticos aos vividos pelas grandes metrópoles brasileiras, além de outros males bem específicos da Indonésia. Porém, talvez a exceção de Maceió, nenhuma grande cidade brasileira está afundando em igual proporção e sujeita a inundação pelas águas do oceano. Hajam problemas.

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