OS SAPOS-CURURU INVADEM A AUSTRÁLIA

Sapo-cururu

O sapo-cururu (Rhinella marina), conhecido em muitas regiões como sapo-boi, sapo-jururu ou simplesmente cururu, é uma espécie de sapo encontrada em extensas áreas das Américas Central e do Sul, sendo muito comum em muitos lugares do Brasil. É uma espécie robusta, que se adapta aos mais diferentes climas, ecossistemas e recursos alimentares. Em média, os sapos-cururu têm um tamanho entre 10 e 15 cm, mas já foram encontrados exemplares com 38 cm de comprimento. É uma espécie icônica, que está presente no folclore de muitas regiões brasileiras. Vejam como exemplo essa poesia escrita por Manuel Bandeira, um poeta que gostava muito de sapos: 

Sapo-cururu 
Da beira do rio. 
Oh que sapo gordo! 
Oh que sapo feio! 
 
Sapo-cururu 
Da beira do rio. 
Quando o sapo coaxa, 
Povoléu tem frio. 
 
Que sapo mais danado, 
Ó maninha, ó maninha! 
Sapo-cururu é o bicho 
Pra comer de sobreposse. 
Sapo-cururu 
Da barriga inchada. 
Vôte! Brinca com ele… 
Sapo-cururu é senador da República. 

Entre os segredos do sucesso da distribuição ambiental dos sapos-cururu estão a alta fertilidade das fêmeas, que produzem grandes quantidades de ovos, e as grandes glândulas de veneno que o animal possui sob a mandíbula, o que o torna uma presa altamente tóxica para a maioria dos predadores. Jacarés-do-papo-amarelo e algumas espécies de cobras e aves estão entre os poucos predadores que conseguem tolerar o veneno dos sapos dessa espécie. 

A fama de robustez e de alta capacidade de adaptação a novos ecossistemas levaram à introdução dos sapos-cururus em algumas ilhas oceânicas pelo mundo afora, especialmente para o combate de pragas em plantações de cana-de-açúcar. A espécie é chamada em espanhol de sapo de caña e em inglês de cane toad, nomes que podem ser traduzidos nos dois casos como “sapo-da-cana” e que demonstram a aplicação da espécie nessa função. Porém, como não é muito difícil de se imaginar, os impactos ambientais criados pela introdução dessa espécie invasora em novos ambientes, onde não existem predadores naturais, e que resultaram em grandes desastres ecológicos. 

Um dos casos mais impressionantes de invasão de ecossistemas pelos sapos-cururu é a Austrália, onde esses animais são considerados uma verdadeira praga. Cálculos feitos por entidades ambientais do país calculam que já existem mais de 200 milhões de sapos-cururu na Austrália e a espécie não para de invadir ecossistemas em todas as regiões australianas. De acordo com estudos feitos através do monitoramento de sapos que receberam pequenos radiotransmissores, esses animais conseguem percorrer até 2 km por dia em suas migrações pelo interior do país. 

Os problemas não param por aí. Estudando a rápida propagação da espécie por todo o Continente Australiano, os cientistas descobriram que os sapos-cururu passaram por adaptações físicas e aumentaram a sua velocidade de propagação em cinco vezes ao longo dos últimos 60 anos. Estudos anatômicos comparativos com espécimes preservados em museus demonstraram que as patas traseiras dos sapos-cururu tiveram um aumento de 25% em seu comprimento, aumentando proporcionalmente a força muscular e a velocidade dos animais – os sapos se transformaram em “pequenos cangurus” e passaram a usar essa vantagem “evolutiva” na sua conquista do Outback australiano. 

Os sapos-cururu foram introduzidos na Austrália em 1933, com a missão de combater uma praga de besouros-da-cana (Dermolepida albohirtum) que infestava os canaviais de algumas regiões do país. Um lote de cento e dois animais foi trazido das Ilhas do Havaí, onde a espécie havia sido introduzida décadas antes para realizar o controle biológico de insetos que atacavam os canaviais locais. Como o território havaiano é muito pequeno, os impactos ambientais que a espécie invasora provocava não eram tão evidentes e os “serviços” de controle biológico pareciam ser bastante satisfatórios. Naquele momento, fazia sentido introduzir a espécie nos canaviais da Austrália. 

Infelizmente, os sapos-cururus não foram felizes em sua missão na Austrália. Diferentemente dos insetos rasteiros que infestavam os canaviais das Ilhas do Havaí, os besouros-da-cana da Austrália ficavam alojados nos caules das plantas acima do solo, numa altura que os sapos não conseguiam atingir com seus pulos. Sem conseguir se alimentar desses besouros, os sapos-cururu passaram a buscar outros alimentos e assim passaram a se dispersar pelas matas costeiras do país e a criar problemas para inúmeras espécies nativas. Os predadores dos sapos nativos da Austrália, onde se incluem cobras, lagartos, aves de rapina e marsupiais, passaram a se intoxicar com o veneno dos sapos-cururu e a morrer em grandes quantidades, alterando completamente o equilíbrio ecológico de várias regiões. 

Dentro de nossa área de interesse, que são os recursos hídricos, os sapos-cururu passaram a representar uma grande ameaça aos crocodilos-de-água-doce-da-Austrália (Crocodylus johnstoni), também chamados de crocodilo de Johnston e crocodilo-anão. Esses crocodilos habitam as áreas alagadas e os manguezais do Norte da Austrália e têm menos da metade do comprimento de seus temidos primos que vivem nas águas salgadas da região e que podem atingir até 6 metros de comprimento. Esses crocodilos se alimentam de peixes, aves e anfíbios, o que os expõe frequentemente ao contato com o sapos-cururu e ao envenenamento

Estudos científicos realizados em quatro localidades do Norte australiano indicaram que houve uma redução média de 45% nas populações dos crocodilos de Johnston após a introdução dos sapos-cururu no país. Num dos locais pesquisados, a Lagoa Longreach, foi observada uma redução de pouco mais de 15% nas populações dos répteis. Em outro local estudado, no encontro dos rios Victoria Wickham, a redução da população dos crocodilos atingiu a impressionante marca de 77%.  

Conforme já comentamos em outras postagens, onde falamos das ameaças a espécies brasileiras, jacarés e crocodilos são grandes predadores de peixes, répteis, mamíferos, anfíbios e aves, ajudando a controlar as populações de várias espécies e garantindo, assim, o equilíbrio ecológico. Na falta desses predadores, outras espécies têm suas populações aumentadas sem controle, criando assim uma infinidade de problemas ambientais. Citando um exemplo aqui do Brasil, a caça indiscriminada de jacarés-do-Pantanal nas décadas de 1970 e 1980 levou a um crescimento descontrolado das piranhas nos rios e lagos da região. 

Após diversas tentativas frustradas para o controle das populações de sapos-cururu, as autoridades ambientais da Austrália estão partindo para uma solução radical – centros científicos do país estão trabalhando no desenvolvimento de sapos machos, geneticamente modificados para serem estéreis. Criados em cativeiro até atingirem a fase adulta, esses sapos serão introduzidos em ambientes infestados com sapos-cururu, onde lutarão com os outros machos na disputa pelas fêmeas, porém sem conseguir sucesso na reprodução. Em tese, esse mecanismo resultará numa redução progressiva das populações de sapos invasores. 

Entre as várias questões que surgem, duas se destacam: qual será a eventual taxa de sucesso dessa solução no controle dos sapos-cururu e se haverá tempo hábil para salvar os crocodilos de Johnston da extinção? 

Como diz um velho ditado – quem viver, verá.

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