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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

O TSUNAMI DE GELO EM KHABAROVSK, NA RÚSSIA, ÀS VÉSPERAS DA CÚPULA DO CLIMA 2021

Entre os dias 22 e 23 de abril, cerca de quarenta líderes mundiais se reuniram em ambiente virtual para discutir alguns dos mais importantes e graves problemas ambientais de nossos dias. Falo aqui da Cúpula do Clima 2021, capitaneada pelo Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden

Havia uma preocupação grande em relação à situação do Brasil que, devido aos desmatamentos e queimadas na região da Floresta Amazônica, corria o risco de ser transformado no “grande vilão” da reunião. Felizmente, o bom senso reinou durante a conferência e as discussões foram bastante produtivas.  

Foram muitas as promessas de reduções das emissões de gases de efeito estufa, de aumento no uso de energias renováveis e na limpeza da matriz energética. Tiradas demagógicas contra o Brasil, felizmente, foram deixadas de lado nesse encontro e os líderes mundiais mostraram uma visão mais pragmática das questões envolvidas.

Um acontecimento interessante e que ocorreu bem às vésperas da Cúpula do Clima foi um grande “tsunami de gelo” que assustou os moradores da cidade de Khabarovsk, no Extremo Leste da Rússia. Grandes blocos de gelo que estavam descendo o rio Amur começaram a se acumular nas proximidades da cidade e, graças as forças da correnteza e dos ventos, começaram a avançar pelas margens, lembrando uma grande onda de um tsunami. 

A massa de gelo destruiu a grade de metal que isola uma passarela de pedestres e, por muito pouco, não atingiu alguns transeuntes que passavam no exato momento. O que chama a atenção é que esse tipo de ocorrência está se tornando cada vez mais frequente e incidentes muito parecido já ocorreram no Alasca, no Canadá e na Groenlândia, entre muitos outros lugares

O rio Amur se forma a partir da junção de vários rios com nascentes na região das Montanhas Altai, que ficam localizadas na fronteira entre a Rússia, a China e o Cazaquistão. O rio segue no sentido Leste por mais de 2.500 km até a sua foz no Mar de Okhotsk, no Estremo Leste da Rússia. Nesse período de início da primavera no Hemisfério Norte, o rio Amur recebe grandes quantidades de neve derretida e fragmentos de gelo. Nos últimos anos, porém, com o aumento gradual da temperatura na região, os volumes de gelo no rio têm aumentado bastante. 

No Alasca, Estado norte-americano que fica dentro do Círculo Polar Ártico, os tsunamis de gelo também estão se tornando perigosamente frequentes. Uma reportagem recente mostrou o caso da região de Barry Arm, um pequeno estreito localizado na Baía de Prince William Sound, no Golfo do Alasca. 

Com o aumento das temperaturas da região nos últimos anos, os moradores tem observado um grande aumento nas massas de gelo que descem dos terrenos mais altos durante o chamado degelo da primavera. Existe uma preocupação real com o deslizamento de milhões de toneladas de gelo e pedras, o que poderia gerar um grande tsunami de gelo e que seguiria na direção das casas de centenas de moradores do lugar. 

A preocupação da população tem um grande fundamento – o maior tsunami já registrado na história ocorreu no Alasca em 1958. Batizado de megatsunami da Baía Lituya, a catástrofe foi gerada por um terremoto de magnitude 7,8 graus na escala Richter. Os deslizamentos de terra movimentaram um volume aproximado de 30 milhões de metros cúbicos de rocha e gelo para a entrada estreita da baía.  

O tsunami gerado criou ondas de até 30 metros de altura (segundo o relato de testemunhas oculares) e causou destruição em locais com altitudes de até 520 metros acima do nível do mar. E como lembra um antigo ditado – “gato escaldado tem medo de água fria”, os moradores locais temem a repetição da tragédia a partir de um tsunami de gelo. 

Conforme mostramos em postagens recentes, geleiras localizadas no alto de grandes cadeias montanhosas como os Andes, na América do Sul, os Montes Ruwendozi, na África, e a Cordilheira do Himalaia, na Ásia, estão ameaçadas pelo aumento das temperaturas globais. Essas geleiras, que também são chamadas de glaciares, formam as nascentes de grandes e importantes rios, que abastecem centenas de milhões de pessoas.  

Além das geleiras das montanhas, o aquecimento global também está provocando o derretimento de imensas massas de gelo em regiões de altas latitudes – um exemplo é a Groenlândia, gigantesca ilha localizada ao largo da América do Norte. Pelo andar da carruagem, conforme eu especulei em uma postagem, o aumento das temperaturas do planeta e o derretimento da calota de gelo poderá transformar a Groenlândia em uma área agrícola dentro de poucas décadas. 

Sinais evidentes do aquecimento global também podem ser vistos na Sibéria, região da Rússia que sempre foi sinônimo de frio extremo. Em junho de 2020, época em que os termômetros da Sibéria costumavam atingir temperaturas máximas de verão ente 10 e 14° C, a cidade de Verkhoyansk registrou inacreditáveis 38° C, temperatura típica do verão do Rio de Janeiro. 

Com o aumento da frequência de ciclos de temperatura tão mais altos que a média em regiões frias, existe um risco real do aumento das ocorrências dos tsunamis de gelo, o que fatalmente poderá desencadear em grandes destruições em cidades localizadas às margens de grandes rios e, muito pior, tais eventos poderão resultar na morte de pessoas. 

Os gases de efeito estufa figuram no topo da lista dos principais responsáveis pelo aumento das temperaturas do planeta. Esses gases, onde destacamos o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), são liberados pela queima de combustíveis fósseis como os derivados de petróleo e o carvão mineral, assim como em outras atividades humanas como indústrias, transportes, agricultura e pecuáriao processo digestivo de uma vaca, por exemplo, pode gerar entre 70 e 120 kg de metano em um ano

Um discurso que vinha sendo alimentado há algum tempo e que felizmente parece ter sido deixado de lado dizia que as queimadas da Amazônia eram as grandes responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa e, consequentemente, eram as principais responsáveis pelo aumento das temperaturas globais. Esse discurso não sobrevive a uma simples análise das emissões dos demais países do globo. 

O país que mais produz gases de efeito estufa é a China, sendo responsável por quase 1/3 das emissões globais. Na sequência vem os Estados Unidos, com 15% das emissões, a Índia com 7%, a União Europeia com 6% e o Brasil, já distante do topo, com 3%, sendo que cerca de 40% das emissões brasileiras tem sua origem na agropecuária. Como é bem fácil perceber, estamos muito longe de sermos os vilões do clima mundial, porém, não estamos isentos de dar a nossa contribuição para melhorar a situação.

Líderes das mais importantes economias do mundo assumiram diversos compromissos públicos no sentido da redução das suas emissões de gases de efeito estufa e do aumento da geração de energia a partir de fontes renováveis. A situação ambiental de nosso planeta é preocupante e vamos torcer para que essas promessas e compromissos assumidos na Cúpula do Clima sejam efetivamente colocados em prática. 

“AS NEVES DO KILIMANJARO”, OU FALANDO DO DESAPARECIMENTO DE GELEIRAS NA ÁFRICA

As primeiras notícias conhecidas sobre montanhas com picos cobertos de neve no escaldante continente africano remontam a Cláudio Ptolomeu – matemático, geógrafo, astrônomo e cartógrafo da antiguidade. Ptolomeu era de origem grega, mas nasceu em Alexandria, no Egito, no ano 90 a.C. A descrição de Ptolomeu, baseada em relatos de viajantes, cita as Montanhas da Lua, uma pequena cordilheira com altas montanhas na região das nascentes do rio Nilo. A existência de montes nevados na África seria considerada uma verdadeira fantasia por muitos e muitos séculos. 

A primeira expedição europeia para a região, conhecida atualmente como os Montes Ruwenzori ou Rwenzori, ocorreu em 1889 e foi comandada por Henry Morton Stanley, um jornalista britânico que ficou famoso em todo o mundo por sua viagem a procura de David Livingstone através da África. A região foi elevada à categoria de Patrimônio Mundial pela Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, e tem a maior parte de sua área distribuída entre o Parque Nacional dos Montes Ruwenzori, em Uganda, e o Parque Nacional de Virunga, na República Democrática do Congo. Uma parte das montanhas fica dentro do território da Tanzânia

A fama mundial da região e de suas montanhas nevadas veio em 1936, quando o já famoso escritor norte-americano Ernest Hemingway publicou o conto “As neves do Kilimanjaro” na Revista Esquire. Em 1952, o conto foi adaptado para o cinema com o mesmo nome e foi estrelado por Gregory PeckSusan Hayward e Ava Gardner. Com o sucesso do livro e do filme, os Montes Ruwenzori e, em particular, o Monte Kilimanjaro foram transformados numa das maiores atrações turísticas da África. 

A grande atração africana, infelizmente, está com os seus dias contados – de acordo com declaração do Secretário-assistente da ONU – Organização das Nações Unidas, Satya Tripathi em 2019, as últimas neves do Monte Kilimanjaro irão derreter até 2030 devido aos efeitos do aquecimento global. As fotos abaixo foram tiradas por um satélite da NASA – Administração de Espaço e Aeronáutica dos Estados Unidos, na sigla em inglês, e mostram o Monte Kilimanjaro em 1994 e em 2001. A diferença no volume de gelo é alarmante!

Quando a expedição liderada por Luisi Amadeu de Saboia atingiu o cume do Monte Kilimanjaro, que tem uma altura de 5.900 metros, pela primeira vez em 1906, existiam nas montanhas da região 43 glaciares ou geleiras, distribuídos em seis picos de montanhas e ocupando uma área total de 7,5 km². Em 2005, o número de glaciares já havia caído pela metade e a massa de gelo estava reduzida a apenas 1,5 km². Estimativas atuais afirmam que mais de 80% dos glaciares da cordilheira já desapareceram

A cordilheira onde se encontram os Montes Ruwenzori tem cerca de 120 km de comprimento e 65 de largura, e surgiu a partir dos choques entre as placas tectônicas da África e da Arábia. Foram essas mesmas forças que formaram o  Rift Valley ou a Grande Fenda da África. As geleiras se formaram há cerca de 12 mil anos atrás, período que foi muito chuvoso na região, e estavam resistindo até os nossos dias. 

As geleiras dos Montes Ruwenzori enfrentam os mesmos problemas de geleiras na Cordilheira do Himalaia, na Cordilheira dos Andes, nos Alpes e em outras montanhas de todo o mundo – o aumento das temperaturas globais. Alguns dos mais importantes rios do mundo são formados a partir da água resultante do degelo desses glaciares no alto de montanhas. O aumento acelerado das temperaturas do planeta ameaça as geleiras, um problema que põe em cheque o abastecimento de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. 

Conforme comentamos na postagem anterior, as temperaturas do nosso planeta estão aumentando devido à uma concentração cada vez maior de gases de efeito estufa na atmosfera. Entre esses gases destacam-se o dióxido de Carbono (CO2) e o Metano (CH4), além do vapor de água. O efeito estufa é um fenômeno natural e essencial para a vida no planeta Terra, porém, quando suas consequências ultrapassam certos limites, ele se transforma em um grande vilão do clima.

A queima de combustíveis fósseis como o carvão mineral e os derivados de petróleo estão entre as maiores fontes dos gases de efeito estufa. Também entram na lista as queimadas, a agricultura, as indústrias, os rebanhos bovinos e ovinos, entre outros. O derretimento de grandes massas de gelo em todo o mundo é o sinal mais evidente das mudanças climáticas em andamento. 

Além do derretimento dessas geleiras, as mudanças climáticas na África ficam muito evidentes quando se observa o avanço do Deserto do Saara rumo ao Sul do Continente e o aumento das chuvas em regiões do Leste Africano. Também merece destaque o aumento da intensidade das secas em Áreas do Sul, do Sudeste e Leste africano, problemas que estão ligados diretamente a mudanças climáticas no Oceano Índico

Na Tanzânia, os caudais de diversos rios com nascentes formadas a partir do derretimento do gelo dos glaciares dos Montes Ruwenzori já foram reduzidos à metade, o que vem criando uma série de problemas para o abastecimento de inúmeras aldeias.  

A fama e as paisagens das geleiras em meio ao clima quente das Savanas (vide foto principal) trazem cerca de 20 mil turistas a cada ano para a região do Monte Kilimanjaro, onde inclusive existe um grande aeroporto internacional. As autoridades da Tanzânia e dos países vizinhos temem a perda dessa importante fonte de receitas em moeda estrangeira. Sem as neves do Kilimanjaro e de outras montanhas, o interesse pela região deverá cair muito – existem inúmeras montanhas cobertas por gelo na Europa, na América do Norte e na Ásia, países de origem da grande maioria dos turistas que visitam essa região da África.

Em 2010, uma geleira localizada no Pico Margherita, um dos cumes gêmeos do Monte Stanley, partiu ao meio. Essa é a terceira montanha mais alta da África e está localizada na divisa entre Uganda e o Congo, fazendo parte da cordilheira dos Montes Ruwenzori. Grandes blocos de gelo se deslocaram e bloquearam uma rota segura que os alpinistas usavam para chegar ao cume. Com a mudança nas condições de segurança, muitos alpinistas deixaram de visitar a formação. O ocorrido, é claro, se deu por causa da diminuição da massa de gelo e ilustra claramente os impactos que o derretimento das geleiras já vem provocando no turismo da região.

Torçamos todos para que a Cúpula do Clima 2021, que começou a ser realizada virtualmente ontem, consiga chegar a resultados práticos no controle e redução das emissões de gases de efeito estufa e que consigamos salvar o pouco que ainda restou das geleiras africanas.

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AQUECIMENTO GLOBAL, CÚPULA DO CLIMA E OS RISCOS PARA AS GELEIRAS DAS GRANDES CADEIAS MONTANHOSAS

Uma notícia que vem ocupando espaços nas manchetes de jornais e de portais de notícias em todo o mundo há várias semanas é a realização da Cúpula do Clima 2021, que será feita de forma virtual a partir do dia 22 de abril. Mais de 40 líderes mundiais participarão do evento e, como muitos de vocês já devem ter observado, o Brasil chega com um enorme “telhado de vidro”. 

De acordo com o discurso que, já há muito tempo é repetido por muitos líderes mundiais, o Brasil é o grande vilão do clima planetário devido aos grandes desmatamentos e queimadas na Amazônia. De acordo com o “texto ensaiado e repetido à exaustão”, as queimadas na Amazônia são as responsáveis pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa, os principais responsáveis pelo aquecimento global, além da destruição do “pulmão do mundo”.  

Os gases de efeito estufa, onde se destacam o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), são liberados pela queima de florestas, como nas alegadas queimadas da Floresta Amazônica, mas também por uma infinidade de outras atividades humanas: indústrias, transportes, queima de combustíveis fósseis como o carvão e os derivados de petróleo, agricultura e pecuária, entre muitas outras. Um exemplo: os processos digestivos de animais domésticos como vacas, bois e carneiros liberam imensas quantidades desses gases (através de arrotos e “pums”)Aliás, cerca de 18% das emissões totais de gases de efeito estufa são geradas por rebanhos bovinos e ovinos de todo o mundo.

Quando pessoas honestas e bem intencionadas fazem os devidos cálculos sobre os volumes e os principais emissores desses gases, conclui-se que o Brasil, o dito “vilão do clima global”, responde apenas por 3% das emissões globais de gases de efeito estufa – menos da metade desse total está ligado à queima de florestas e a agricultura

Os gases de efeito estufa têm um importante papel na regulação da temperatura de nosso planeta. Esses gases formam uma espécie de “escudo” na atmosfera, que absorve parte da radiação infravermelha refletida pela superfície terrestre. Esse mecanismo natural, que impede que a temperatura do planeta apresente grandes oscilações de temperatura entre os dias e as noites, foi fundamental para a consolidação da vida na Terra.

Com o aumento das emissões desses gases por atividades humanas, principalmente a partir da Revolução Industrial iniciada em meados do século XVIII, esse mecanismo começou a ser alterado. O volume de gases de efeito estufa na atmosfera aumentou muito, se refletindo em um aumento das temperaturas no planeta. Um efeito já bastante visível do aquecimento global é o derretimento de grandes quantidades de gelo na Antártida, no Ártico e, especialmente, de geleiras (ou glaciares) no alto de grandes montanhas. 

Um exemplo bem próximo de nós brasileiros está acontecendo na Cordilheira dos Andes, grande cadeia montanhosa que se estende desde a Terra do Fogo, no Sul do Continente, até o Norte da Venezuela e da Colômbia. Geleiras localizadas no alto de montanhas andinas estão perdendo grandes volumes de suas massas de gelo, um problema que afeta a disponibilidade de água nesses países. Grandes e importantes rios da região têm suas nascentes formadas a partir do derretimento do gelo dessas montanhas. 

Um caso de destaque são os riscos criados pelo aquecimento global para as grandes geleiras da Cordilheira do Himalaia, a mais alta cadeia montanhosa do mundo. Alguns dos mais importantes rios da Ásia têm suas nascentes alimentadas pelas águas de degelo desses glaciares. Entre esses rios destacam-se o Indus, o Ganges e o Brahmaputra, os três mais importantes do Subcontinente Indiano. O rio Ganges, citando um exemplo, responde pelo abastecimento de mais de 500 milhões de pessoas na Índia e em Bangladesh

Também entram nessa lista o rio Irauádi, que corta Myanmar no sentido Norte/Sul, e o rio Mekong, o maior e mais importante rio do Sudeste Asiático com mais de 4.350 km de extensão. Dois dos maiores rios da China, o YangTsé (rio Azul) e o Huang-Ho (rio Amarelo) também tem suas nascentes em geleiras nas montanhas Himalaias. Os chineses, inclusive, têm feito grandes obras de engenharia para desviar outros rios, principalmente da região do Tibete, na direção do seu território, uma prática que está incomodando países vizinhos. 

Os dois principais rios da Ásia Central, o Amu Daria e o Syr Daria, também têm suas nascentes alimentadas por geleiras nas Montanhas Himalaias. As águas desses rios vêm sendo utilizadas há várias décadas para irrigação de grandes áreas agrícolas com solos áridos e semiáridos em países como o Quirguistão, Turcomenistão e Tadjiquistão. Conforme comentamos em outras postagens, o uso indiscriminado dessas águas pela irrigação levou o Mar de Aral ao colapso. 

Sem precisar fazer grandes esforços matemáticos, é bem fácil chegar à conclusão que as águas desses e de outros importantes rios com nascentes nas montanhas da Cordilheira do Himalaia atendem as necessidades de abastecimento e de produção agrícola de uma população próxima de 2 bilhões de pessoas na Ásia. A simples menção da possibilidade do derretimento de parte das geleiras dessas montanhas e, consequentemente, a diminuição dos caudais desses rios, tira o sono de muita gente. 

Infelizmente, essa possibilidade é real e já tem até uma data marcada para começar. De acordo com estudos realizados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU – Organização das Nações Unidas, cerca de 1/3 das geleiras das Himalaias, onde se encontram as nascentes dos maiores rios da Ásia, podem começar a desaparecer a partir do ano de 2.035 devido ao aquecimento global e as mudanças climáticas

Para que todos tenham uma rápida ideia dos impactos de uma catástrofe ambiental dessas proporções – se consultarmos a imagem de um mapa (o Google Maps, por exemplo) que mostre o entorno Leste e Noroeste da Cordilheira do Himalaia, vamos encontrar uma extensa região com solos áridos e semiáridos, onde se inclui desde o Rajastão, Estado do Noroeste da Índia, o Paquistão, o Afeganistão, além de partes do Irã e da Ásia Central. Essa região possui mais de 350 milhões de habitantes 

As regiões na cor verde mostradas nesse mapa, onde existem florestas e plantações, estão concentradas nos vales das encostas das montanhas Himalaias e ao longo dos vales de grandes rios como o Indus, no Paquistão, e os rios Amu Daria e Syr Daria, na Ásia Central. A maior parte dos solos ao longo desse grande arco será representada por cores em tons areia, a mais adequada para mostrar a aridez desses solos. 

Sem as águas do degelo dos glaciares das montanhas da Cordilheira do Himalaia, toda a agricultura nessa extensa região, que hoje já enfrenta problemas que vão desde a redução da disponibilidade de recursos hídricos à desertificação de solos, ficará quase que totalmente inviabilizada. 

O aquecimento global e todo um conjunto de mudanças climáticas que já estão sendo observadas em diversas partes do mundo são eventos extremamente graves e urgentes, que exigem a busca de soluções em escala global e não podem ser tratados apenas com a linguagem demagógica que muitos líderes globais vêm adotando. 

Querer jogar toda a culpa desses eventos graves nas costas do Brasil, sob a suposta alegação que a destruição da Floresta Amazônica é a principal causa de tudo isso é, no mínimo, uma grande brincadeira. 

AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO OCEANO ÍNDICO E SEUS IMPACTOS NAS CHUVAS DA MONÇÃO

Na última postagem fizemos uma rápida incursão nos problemas de desertificação e/ou de perda de fertilidade que estão se multiplicando em terras por toda a Índia. Os números do problema, conforme a fonte consultada, falam de uma área total entre ¼ e 1/3 do território do país. Em qualquer lugar do mundo, esses números seriam altamente preocupantes – na Índia, país que tem mais de 1,3 bilhão de bocas para alimentar todos os dias, a situação é simplesmente desesperadora 

Uma das principais causas desse problema é a devastação de áreas florestais – dados oficiais do Governo indiano indicam que 1,5 milhão de hectares de florestas foram destruídas no país somente entre 1980 e 2019; pelo menos 1/3 dessas áreas passaram a abrigar atividades de mineração, outra grande vilã dos problemas de solos. Também falamos da redução da disponibilidade de águas, especialmente para uso na agricultura, e do uso inadequado de solos por essas atividades. 

Além desses problemas locais, a Índia vem sendo ameaçada por duas tragédias de escala global: os riscos de derretimento de geleiras nas Montanhas Himalaias, tema que trataremos na próxima postagem, e também com alterações nas correntes marítimas e em ventos no Oceano Índico criadas pelas mudanças climáticas. Essas mudanças tem provocado alterações nos padrões de chuva em extensas áreas do continente africano e também alterado as Chuvas da Monção que caem sobre o Subcontinente Indiano e Sudeste Asiático. 

Monção são ventos sazonais, geralmente associados a alternâncias entre as estações das chuvas e da seca, e ocorrem em regiões costeiras tropicais e subtropicais de todo o mundo. No Oceano Índico o fenômeno é bastante intenso e é muito comum se usar a expressão Chuvas da Monção para falar do período das chuvas intensas que marcam o ritmo da vida em diversos países.  

Até anos bem recentes, tanto o período quanto o volume dessas chuvas eram razoavelmente regulares e suas águas eram fundamentais para as práticas agrícolas. Essas chuvas estão cada vez mais imprevisíveis, com regiões recebendo volumes muito acima da média e outras sofrendo com a seca. Cerca de 2 bilhões de pessoas vivem em países da região como Índia, Paquistão, Myanmar, Malásia, Indonésia e Filipinas, entre outros, e estão sofrendo com a irregularidade dessas chuvas. 

De todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com as interferências das mudanças climáticas na Antártida. O derretimento de grandes massas de gelo no Polo Sul tem provocado alterações nas correntes marítimas do Oceano Índico que, combinadas com o aumento da tempertura das águas, tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia. 

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos, estas medições têm encontrado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016 (não encontrei os valores mais recentes).  

No Golfo de Bengala, que se estende entre o Leste da Índia, Sul de Bangladesh e Oeste de Myanmar, essas alterações nas correntes marítimas e nos ventos vem provocando um aumento gradativo no nível das águas do Oceano Índico. Em 2017, esse aumento do nível das águas do oceano levou ao desaparecimento de uma pequena ilha com 10 km² que era disputada entre a Índia e Bangladesh. Os indianos chamavam a ilha de New Moore e os bengaleses de Talpati. Foram mais de dez anos de erosão contínua até o completo desaparecimento da ilha. 

O aumento do nível das águas do Golfo de Bengala também vem sendo observado nas terras baixas do Delta do rio Ganges e do rio Meghna, que se forma a partir da junção das águas dos rios Brahmaputra, Surma e de parte do rio Ganges. A língua salina, nome que é dado a uma corrente de água salgada que entra na foz de um rio, tem avançado cada vez mais pelos canais de água doce e provocado a salinização de solos e de águas do lençol freático. A região do Delta do rio Ganges possui alguns dos solos mais férteis do mundo e concentra grande parte da produção de grãos da Índia e a maior parte da produção de Bangladesh

A temporada das Chuvas da Monção é fundamental para a recarga de aquíferos em todo o Subcontinente Indiano. Além dos famosos Ganges e Brahmaputra, rios que tem suas nascentes nas geleiras das Himalaias, a região abriga uma infinidade de grandes e importantes rios como Yamuna, Gandak, Mahi, Sone, Chambal, Tapi, Sutlej, Chenab, Jelum, Mahanadi, Ghaghara, Krishna, Kaveri, Kosi, Sarayu, entre muitos outros. A maioria esmagadora desses rios dependem exclusivamente das águas das Chuvas da Monção para a formação dos seus caudais. 

Com a irregularidade dessas chuvas, muitos desses rios vem alternando grandes temporadas com caudais bem abaixo da média com períodos de enchentes avassaladores, problemas que estão afetando a vida de centenas de milhões de pessoas. Um outro lado da irregularidade dos volumes de águas superficiais é um aumento da pressão sobre as águas subterrâneas. Uma quantidade cada vez maior de poços, muitos de grande profundidade, são abertos todos os anos para a captação de águas profundas, resultando num esgotamento acelerado desses recursos. 

Somando-se a toda uma lista de problemas ambientais, a redução da disponibilidade de água tem como resultado um aumento da aridez de várias regiões da Índia. Essa aridez, vale a pena ressaltar, não afeta apenas as áreas agrícolas, mas também os remanescentes florestais espalhados por todo o país, que também dependem das águas das chuvas para sobreviver. 

Todos nós brasileiros conhecemos o drama criado pela seca na Região do Semiárido Nordestino. Aqueles que nunca sentiram o problema na própria pele, conhecem pelo menos as histórias dramáticas vividas em vários períodos diferentes por essas populações. Multiplique esses dramas e essas histórias algumas dezenas de vezes para entender o que está acontecendo na Índia atualmente. 

O lado mais preocupante dessa situação é que os pesquisadores ainda não têm certeza do quanto esse problema ainda pode se agravar e de quais outras regiões da Ásia, da África e também da Oceania (a faixa Norte da Austrália recebe parte das Chuvas da Monção) poderão ser afetadas pelas mudanças climáticas no Oceano Índico. 

Infelizmente, os problemas na região não param por aqui – as mesmas mudanças climáticas que estão afetando o ciclo das Chuvas da Monção também estão ameaçando as geleiras das Montanhas Himalaias. Além dos rios Ganges e Bhamaputra, essas geleiras formam as nascentes de outros importantes rios da Ásia e do Sudeste Asiático – Indus, Mekong, Amu Daria e Syr DariaYang-tzé, entre outros, agravando ainda mais processos de desertificação de terras em muitas regiões. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

A DESERTIFICAÇÃO AMEAÇA UM QUARTO DO TERRITÓRIO DA ÍNDIA

A Índia abriga a segunda maior população do mundo logo atrás da China. São 1,366 bilhões de habitantes vivendo em um território com pouco mais de 3,2 milhões de km², ou cerca de 37% do território do Brasil. Para deixar o quadro mais dramático – a Índia ocupa um território equivalente a 2% da superfície continental da Terra, mas abriga 17% da população mundial

Pessoas precisam de alimentos, água, roupas, moradias, trabalho e energia, entre outras necessidades básicas. E num país com uma população tão grande como a da Índia, conseguir atender a todas essas necessidades básicas é um desafio simplesmente hercúleo. De acordo com dados oficiais do Governo, somente para atender ao crescimento vegetativo da população, é necessária a criação de 1 milhão de novos empregos a cada mês

Vamos nos ater à especialidade do nosso blog: recursos hídricos. A escassez de água, que é um dos grandes desafios da humanidade nesses nossos tempos, na Índia é um drama diário vivido por grande parte da população. Em 1950, a disponibilidade de água por habitante no país era da ordem de 5.177 litros por ano. Em 2011, essa oferta caiu para 1.820 litros por ano – para o ano de 2050, essa disponibilidade deverá cair ainda mais, chegando ao valor de 1.140 litros por ano para cada habitante.  

Entre as principais razões para essa forte queda na disponibilidade de água estão o grande crescimento populacional, a poluição das fontes de água por esgotos domésticos e industriais, desmatamentos e mudanças climáticas. As famosas “Chuvas da Monção“, uma fortíssima temporada de precipitações que ocorrem em todo o sudeste asiático, está ficando cada vez mais irregular na Índia. 

A agropecuária é, em qualquer lugar do mundo, uma das maiores consumidoras de água entre todas as atividades humanas – em média, perto de 70% dos recursos hídricos disponíveis em uma região acabam sendo usados por atividades agrícolas e pecuárias. A Índia não foge a essa regra e grande parte da água disponível no país é usada para esses fins – o país tem mais de 1,3 bilhão de bocas para alimentar. 

Em uma entrevista em 2014, o então Ministro do Meio Ambiente da Índia, Prakash Javadekar, afirmou que “cerca de um quarto das terras da Índia estão se transformando em deserto e a degradação de áreas agrícolas é um problema grave”. O Ministro também alertou para os graves riscos para a segurança alimentar da população. 

Cerca de 70% da população indiana vive em áreas rurais, trabalhando em atividades ligadas à terra – especialmente agricultura e criação de animais. Essas atividades são as grandes geradoras de emprego e renda para a população. Calcula-se que 30% das áreas agrícolas do país, principalmente em áreas de clima árido e semiárido, sejam atendidas por sistemas de irrigação, que vão desde os tradicionais canais de inundação até os sistemas aspersores centrais com pivô.  

Conforme já apresentamos em postagens anteriores, irrigação e agricultura em regiões áridas e semiáridas podem ser a metade do caminho para processos de desertificação. E a Índia parece não fugir a essa regra. 

Além do uso intensivo e, muitas vezes, inadequado dos solos, a Índia também vem sofrendo muito com a devastação da cobertura vegetal. Antes da chegada dos “colonizadores” europeus, especialmente dos britânicos no século XVII, a maior parte do território da Índia era coberto por uma densa floresta tropical. Se você já assistiu ao filme ou já leu “O Livro da Selva”, de Rudyard Kipling, terá uma boa ideia do que estou falando. Um dos contos do livro fala de Mogli, um menino que foi criado pelos lobos e que vivia numa densa e luxuriante floresta, uma paisagem que cada vez mais faz parte de um passado distante da Índia. 

Com a necessidade de madeiras, minerais, alimentos e de outras matérias primas como algodão para as tecelagens da Inglaterra dos tempos da Revolução Industrial, as florestas indianas foram sendo gradativamente destruídas. Mesmo após a independência da Índia em 1947, essa devastação ambiental continuou. Nós brasileiros conhecemos muito bem o roteiro dessa história – aconteceu e acontece o mesmo aqui em nossas terras com a Mata Atlântica e outros sistemas florestais.  

De acordo com dados oficiais do Ministério do Meio Ambiente, Florestas e Mudanças Climáticas da Índia, cerca de 1,5 milhão de hectares de florestas foram destruídas no país entre 1980 e 2019. Cerca de 500 mil hectares sucumbiram em projetos de mineração; o restante foi destruído para implantação de obras de infraestrutura como hidrelétricas, rodovias e linhas de transmissão. Também são significativos os usos de madeira para geração de energia térmica – lenha para cozinhar e produção de carvão vegetal. 

Também precisamos incluir nessa conta a redução da disponibilidade de água em muitas regiões, o que vem se refletindo no aumento da aridez de extensas áreas. Além dos problemas já citados, existe um outro ainda mais preocupante: os desvios de águas que estão sendo feitos pela China. 

Muitos dos grandes rios do subcontinente indiano, como o rio Ganges e o Brahmaputra, nascem a partir das águas do derretimento das geleiras nas Himalaias. A China, país que enfrenta graves problemas de falta de água no Norte do seu território, vem construindo barragens no Tibete (território que foi ocupado pelos chineses na década de 1950 e transformado em território autônomo da China em 1965) e desviando grandes volumes dessas águas das geleiras para o seu próprio território, o que agrava ainda mais a situação da Índia. 

O somatório de uso inadequado dos solos, redução da disponibilidade de água, destruição de florestas e grandes projetos de mineração, entre outros problemas, tem se refletido num aumento descontrolado dos solos degradados e/ou em processo de desertificação. As estimativas mais recentes afirmam que mais de 100 milhões de hectares, ou perto de 32% das terras do país, apresentam queda de produtividade e/ou sinais graves de degradação

Um estudo feito pela Organização de Pesquisa Espacial da Índia em 2007, já alertava sobre os graves riscos de desertificação na Índia. Segundo esse estudo, 69% das terras do país estão mais secas e, portanto, mais vulneráveis à erosão hídrica e eólica, e também sob risco de salinização. Os Estados indianos mais vulneráveis são Rajasthan, Gujarat, Punjab, Haryana, Karnataka e Andra Pradesh, regiões de grande destaque na produção de grãos como o trigo e a colza, além de algodão. Ao longo dos últimos anos a situação se agravou ainda mais

Um exemplo da situação crítica nesses Estados: até cerca de 50 anos atrás, de acordo com reportagem recente do jornal local Economic Times, os agricultores da região de Gujurat, no Norte da Índia, alcançavam as reservas subterrâneas de água em poços com profundidades entre 10 e 12 metros. Atualmente, muitos dos poços precisam atingir uma profundidade de até 400 metros para que se encontre água em pequenas quantidades. Essa situação, de grave estresse hídrico, se repete em áreas rurais de todo o país e contribui cada vez mais para a degradação e desertificação dos solos. 

Continuaremos na próxima postagem. 

ASSEMBLEIA NACIONAL DA FRANÇA DEBATE A PROIBIÇÃO DOS VOOS DOMÉSTICOS NO PAÍS

Quem é leitor habitual do blog, muito provavelmente, deve estar estranhando o título da postagem de hoje. Nas últimas semanas falamos bastante dos impactos da Covid-19 na produção agrícola em diversos países e depois passamos a falar de outros problemas associados aos solos como a desertificação

Então, saindo do nada, aparece uma postagem falando de voos domésticos na França. Eu explico. 

Em mais um movimento político estranho para um momento tão complicado da humanidade, o Presidente da França, Emmanuel Macron, está capitaneando as forças políticas do país no sentido de aprovar uma nova legislação que restrinja o número de voos domésticos dentro da França. De acordo com o projeto em debate, voos domésticos com duração menor que duas horas e meia, e cujos trajetos possam ser feitos através de trens poderão ser proibidos. O objetivo da nova política é reduzir as emissões de carbono dos aviões. 

Desde o início da pandemia, com as inúmeras restrições que foram criadas para impedir a circulação de pessoas entre os países e, assim, diminuir as chances de propagação da Covid-19, as emissões de carbono produzidas pela aviação comercial foram reduzidas em cerca de 60% no mundo. Somente nos Estados Unidos, um dos maiores mercados da aviação comercial, 8 mil aviões de médio e grande porte estão parados.  

Milhares de funcionários dessas empresas perderam os seus empregos ou fizeram acordos para reduzir drasticamente seus salários. Muito pior – um grande número de empresas está correndo o sério risco de ir à falência devido à queda brutal de suas receitas.  

Mesmo com a maior parte de suas frotas no chão, essas empresas precisam continuar pagando o leasing (sistema de aluguel) das aeronaves, realizar serviços de manutenção para manter os equipamentos com as mínimas condições de operação, pagar pelo “estacionamento” e segurança dos aviões, entre outras despesas fixas. Ou seja – as empresas não estão faturando quase nada, mas precisam continuar gastando, e muito. 

O Presidente Emmanuel Macron, como todos devem se recordar de postagens já publicados aqui, resolveu se tornar uma espécie de paladino da causa ambiental mundial desde de 2019. Naquele ano, em meio às grandes queimadas que estavam assolando grandes extensões do Cerrado e de partes da Amazônia, Macron resolveu elevar a sua voz em defesa da “Nossa Amazônia” – chegou inclusive a defender o uso de armas nucleares contra o Brasil caso o nosso país não tomasse medidas para conter essas queimadas. 

Há poucas semanas atrás, o mesmo Macron passou a defender uma “ridícula” proposta para o aumento substancial da produção de soja dentro do território francês, tornando o seu país autossuficiente em relação à soja brasileira. Segundo o discurso do líder francês, essa medida vai evitar a compra de soja produzida em “terras onde a Floresta Amazônica foi queimada”. Agora, seguindo nessa mesma direção, a França quer assumir mais uma vez o protagonismo na defesa do meio ambiente proibindo os voos regionais. 

Qualquer pessoa de bom senso, grupo do qual eu imagino fazer parte, sabe da importância e da urgência na defesa dos recursos naturais do nosso planeta. As postagens aqui do blog, que são voltadas quase que exclusivamente a temas de educação ambiental, são uma prova dessa preocupação.  

Agora, a forma demagógica como muitos líderes mundiais, celebridades e outros famosos agem, não ajuda a resolver os problemas reais das florestas e de outras áreas ameaçadas. Muito pior – acabam prejudicando muita gente que está trabalhando sério para resolver o problema. Outro grave problema dessa medida polêmica é que “faltou combinar com os russos”, como diria o nosso eterno Garrinha, assim como com os alemães, ingleses, italianos, espanhóis e demais países da Comunidade Europeia. 

A proposta em debate na Assembleia Nacional da França, por mais louvável que sejam as suas intenções no combate aos graves problemas ambientais criados pelas emissões de gases de efeito estufa, vem numa hora totalmente errada. Uma prova da demagogia da proposta – estão sendo previstas uma série de brechas na nova legislação para prejudicar o mínimo possível a Air France, a grande empresa de aviação da França. Ou seja: “o pau que bate em Chico não é o mesmo que bate em Francisco”… 

O movimento ambientalista começou a ganhar força e visibilidade na década de 1960 após o lançamento do livro “Primavera Silenciosa” de Rachel Carson. De lá para cá, aos trancos e barrancos, o movimento foi ganhando força e já há muito tempo deixou de ser apenas uma ideia utópica de hippies. Governos e empresas vêm se engajando cada vez mais na criação de políticas e produtos que garantam uma sustentabilidade ambiental cada vez maior. 

Os carros elétricos e híbridos, citando um exemplo, já são uma realidade. Com o rápido desenvolvimento da tecnologia, os veículos com motores de combustão interna estão a cada dia mais próximos do seu fim. Essa mesma tecnologia está chegando na aviação e já existem aeronaves em operação que usam exclusivamente motores elétricos e ou sistemas híbridos. 

Um exemplo que talvez a maioria não conheça – desde 2019, a Embraer, terceira maior fabricante de aviões do mundo e, bem por acaso, empresa brasileira, está trabalhando no desenvolvimento de um avião com propulsão híbrida – com motores convencionais de combustão interna e elétricos, a pedido da FAB – Força Aérea Brasileira. A imagem que ilustra esta postagem mostra uma concepção artística da nova aeronave. Com capacidade para transportar 30 passageiros ou 3 toneladas de carga, o Stout (Short Take Off Utillity Transport ) terá emissões de carbono entre 30 e 40% menores que aviões similares como o Bandeirante e o Brasília, modelos usados atualmente pela FAB, e poderá já estar voando em 2025. 

Assim como a Embraer, outras empresas aeronáuticas de todo o mundo têm feito o seu “dever de casa” e, muito provavelmente, viagens em aviões elétricos ou com propulsão a hidrogênio com baixíssimas emissões de gases de efeito estufa farão parte de nossas vidas em 15 ou 20 anos. Muito melhor – essa mudança será lenta e gradual como a que vem sendo observada nos automóveis, dando tempo para empresas fabricantes, companhias aéreas, trabalhadores, aeroportos e usuários se adaptem às mudanças. 

Um outro detalhe que chama a atenção nessa história – o Governo da França é um dos maiores acionistas do Consórcio Europeu Airbus, maior fabricante de aviões do mundo na atualidade. A Airbus, aliás, está desenvolvendo um belo projeto de um grande avião comercial com propulsão a hidrogênio, que poderá estar voando a partir de 2035. Ou seja – sem sobressaltos e canetadas, a aviação está evoluindo naturalmente no caminho da sustentabilidade ambiental. Será que é tão difícil assim para esses políticos franceses perceberem que estão dando um tiro no próprio pé apenas por demagogia ? 

Se a preocupação do Governo francês é reduzir a emissão de gases de efeito estufa no país, existe um jeito bem mais fácil e rápido – basta proibir a circulação das centenas de milhares de automóveis com motores a diesel altamente poluentes nas ruas da França. Para completar, criem-se linhas de financiamento de longo prazo e juros baixos para que esses motoristas comprem carros elétricos.  

O problema seria resolvido rapidamente, porém, não haveria o circo e a plateia que medidas populistas costumam criar… 

OS IMPACTOS AMBIENTAIS DA GRANDE MURALHA VERDE DA CHINA

Plantar uma larga faixa com bilhões de árvores ao longo de 4.500 km entre as regiões Noroeste e Nordeste da China, de forma a conter o avanço dos desertos rumo ao Sul do país. Esse é um dos principais objetivos do projeto da Grande Muralha Verde da China, que está em execução desde 1978 e cuja previsão de término é o ano de 2050. 

À primeira vista, a ideia parece ótima e a iniciativa dos governantes chineses é louvável. A desertificação de solos é um dos grandes problemas ambientais de nosso tempo – somente em território chinês, cerca de 1,7 milhão de km² de solos já foram perdidos para processos de desertificação e, de acordo com os especialistas, cerca de 530 mil km² desse total podem ser recuperados com apoio de projetos como a Grande Muralha Verde. 

Lembrando aqui de um velho ditado que diz que “de boas intenções o inferno está cheio”, é impossível levar a cabo um projeto dessa magnitude sem provocar grandes impactos ao meio ambiente. Falo isso sem diminuir em nada as grandes virtudes da iniciativa.  

Um dos principais impactos desse projeto se dá justamente nos recursos hídricos – plantar bilhões de árvores significa disponibilizar muitos bilhões de litros de água para garantir a sobrevivência das plantas. E água é um elemento que falta nas regiões mais ao norte da China. 

A China é o país mais populoso do mundo – 1/5 da população mundial é composta por chineses, o que representa um total de 1,4 bilhão de pessoas. Apesar dessa formidável população, o território chinês possui apenas 7% dos estoques de água doce do planeta. Para efeito de comparação, o Brasil, que tem um território um pouco menor do que a China e uma população 6,6 vezes menor, possui 12% das reservas de água doce do planeta. 

Além da baixa disponibilidade, os recursos hídricos são muito mal distribuídos no território chinês. A faixa Norte da China é tomada por uma série de desertos, como o Deserto de Gobi, e também por grandes regiões de clima semiárido. Essas regiões concentram cerca de 42% da população da China, porém, possuem apenas 14% das reservas de água do país. Há gente demais para pouca água. 

Não é preciso ser um especialista em ecologia ou recursos hídricos para perceber rapidamente que a implantação da Grande Muralha Verde numa região com pouca água criou uma disputa muito desequilibrada do recurso entre pessoas e árvores. Um estudo publicado pela revista Nature Sustainability deixou isso muito claro. 

Conduzido por cientistas da Universidade da Califórnia em Irvine, o estudo combinou dados da missão do satélite GRACE – Gravity Recovery and Climate Experiment, da NASA – Administração Norte-americana de Aeronáutica e Espaco, na sigla em inglês, de relatórios do Governo da China, além de observações ambientais e de resultados de simulações climáticas. Os resultados obtidos mostram que o esgotamento dos recursos hídricos é alarmante. 

Um exemplo: na região do Deserto de Mu Us, no Norte da China, o aumento no consumo de água vem provocando uma redução de 16 milímetros/ano no nível do lençol freático desde o início do plantio das árvores na região. Isso pode parecer pouca coisa, mas corresponde a uma perda de 21 km³ de água, um volume imenso considerando que se trata de um deserto. 

Um outro exemplo, citado na nossa última postagem, é a região de Minqin, no Noroeste do país – estudos realizados pelo Governo chinês indicam que o nível do lençol freático baixou de 12 para 19 metros desde o início do plantio maciço de árvores na região. Esses números mostram claramente que a demanda pela água está muito acima da capacidade de reposição natural dos estoques. 

A espinha dorsal do estudo são as imagens geradas pelo satélite GRACE, que foi lançado ao espaço em 2002. Os dados coletados pelo satélite entre 2003 e 2016 permitiram determinar que o rebaixamento médio do nível do lençol freático nas regiões de reflorestamento foi de 7 milímetros/ano. Comparando esses dados com informações coletadas entre 1982 e 1998, que mostravam que o nível do lençol freático estava subindo, percebe-se claramente o tamanho da tragédia ambiental. 

Uma forma de entendermos esse vigoroso rebaixamento no nível do lençol freático nas regiões onde a floresta está crescendo é analisarmos as espécies de árvores que estão sendo plantadas. Uma das principais espécies usadas é o choupo, um grupo que reúne mais de 40 espécies arbóreas ou arbustivas da família Salicaceae, conhecidas popularmente com álamos. Essas espécies se distribuem pela Ásia, Europa e América do Norte. 

Uma característica dos choupos são suas raízes altamente desenvolvidas, muito semelhantes à de espécies do Cerrado brasileiro. Essas raízes alcançam grandes profundidades em busca de água, permitindo que as árvores consigam sobreviver em ambientes de extrema aridez. Essas raízes permitem, inclusive, o surgimento de novas mudas de árvores, levando a um adensamento da espécie em florestas. 

Além das raízes de centenas de milhões de árvores insaciáveis, os depósitos subterrâneos de água da China também atendem a uma infinidade de sistemas de irrigação de plantações de todos os tipos. Conforme comentamos anteriormente, o país dispõe de áreas agricultáveis bastante modestas diante da necessidade de produção de alimentos para sua gigantesca população. Uma parte expressiva dos solos agrícolas do Norte da China são semiáridos, onde o uso intensivo da irrigação é fundamental para a produção. 

O aumento da disponibilidade de recursos hídricos em algumas regiões da China é uma das grandes prioridades do Governo. Um dos maiores projetos de infraestrutura em andamento no país é a construção de um sistema com 2.500 km de canais, que permitirá a transposição de mais de 40 bilhões de metros cúbicos de água/ano do rio Yangtzé para as regiões do Norte do País. Os investimentos previstos são de US$ 62 bilhões, divididos em três fases e com previsão de conclusão para o ano de 2050. 

Há aqui um ponto polêmico – para aumentar os caudais do rio Yangtzé, o Governo chinês tem feito estudos para a transposição de águas de outras bacias hidrográficas. Entre os rios estudados estão o Mekong, o rio mais importante do Sudeste Asiático, e o rio Brahmaputra, que corre na direção da Índia e de Bangladesh. As nascentes desses rios ficam dentro do trecho chinês da Cordilheira do Himalaia e, para os burocratas de Pequim, não existe nenhum problema em desviar parte dessas águas para atender as demandas do seu país. 

Só que, do outro lado, existem países com populações que superam a marca de centenas de milhões de habitantes, gente que precisa de água para abastecimento de cidades, para a agricultura e geração de energia elétrica. Ou seja – o plantio da Grande Muralha Verde ao longo dos desertos do Noroeste, Norte e Nordeste da China poderá ter repercussões graves em todo o Sudeste Asiático e também no Subcontinente Indiano. 

Essa disputa pela água poderá, inclusive, descambar para um conflito armado entre os países. Nosso mundo está ficando cada vez mais complicado… 

A DESERTIFICAÇÃO E A RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DESERTIFICADAS NO NORTE DA CHINA

Notícias sobre a China ocupam espaços cada vez maiores nos portais de notícias na internet, nos jornais, em revistas e também nos canais de televisão. Essas notícias falam do impressionante crescimento econômico do país nas últimas décadas, da sua expansão militar pela Ásia, da importação crescente de alimentos de países como o Brasil, da absurda poluição e degradação ambiental, da epidemia da Covid-19, que muitos chamam de “vírus chinês”, entre muitas outras informações. 

Os registros sobre o início da civilização chinesa remontam há mais de 8 mil anos atrás e, há pelo menos 4 mil anos, o país é considerado como uma grande potência regional – o Reino do Meio, como é chamado em chinês. O brilho milenar dessa civilização foi bastante ofuscado a partir do século XIX por grandes potências estrangeiras como a Inglaterra, a França, a Rússia e os Estados Unidos, porém, desde meados do século XX, o país não tem poupado esforços para reassumir o seu grande papel em nosso mundo. 

Uma história tão longeva, é claro, teve graves impactos sobre os recursos naturais do país. Por causa da superexploração, a China perdeu grande parte da sua cobertura florestal, principalmente no Norte do país – no final da década de 1970, restava apenas 5% da cobertura vegetal da região Norte da China; na década de 1990, após uma série de programas de reflorestamento, a situação havia melhorado um pouco e a cobertura florestal do Norte do país se aproximou dos 10%. 

O país também se destaca pelos altos níveis de poluição do ar em suas cidades. Relatórios com dados sobre a qualidade do ar em 2018, mostraram que o índice médio de partículas mais finas, conhecidas como PM2.5, nas 338 maiores cidades chinesas ficou em 60 microgramas por metro cúbico de ar. O valor máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial de Saúde, é de 25 microgramas por metro cúbico de ar. Em grandes regiões metropolitanas da China como Pequim, Hebei e Tianjin já foram detectados níveis dessas partículas até 40 vezes acima do nível recomendado pela OMS. 

Quando se fala em recursos hídricos, a situação não é muito melhor – calcula-se que entre 60 e 70% dos rios chineses estejam poluídos, com níveis de degradação que transformam os poluídos rios brasileiros em “regatos das montanhas”. Um relatório oficial do governo chinês, divulgado em 2012, informava que “cerca de 40% dos rios chineses estão seriamente poluídos” e “20% estão tão poluídos que suas águas são tóxicas e impróprias ao contato humano”.   

Desde 2014, felizmente, vem ocorrendo uma verdadeira guinada nos rumos das políticas ambientais da China e o antigo “vale tudo em prol do desenvolvimento” parece ter ficado para trás. O país vem adotando políticas rígidas para a proteção ambiental. Um exemplo dessa mudança pode ser observado no aumento das emissões de Certificações Ambientais ISO 14000 – empresas da China são as líderes mundiais na obtenção dessa certificação. Apesar das ótimas intenções, os passivos ambientais são gigantescos e serão necessárias muitas décadas para colocar “alguma ordem na casa”. 

Uma área altamente problemática na China é a agricultura. O país abriga a maior população do mundo – cerca de 1,4 bilhão de habitantes, e alimentar tantas bocas é um desafio contínuo. Apesar de possuir a terceira maior extensão territorial do mundo, com 9,6 milhões de km², pouco mais de 14% desse território é formado por terras agricultáveis. A maior parte dos solos na China são áridos, semiáridos ou rochosos. Apesar da produção agrícola chinesa ser maior que a dos Estados Unidos, ela ainda é insuficiente para atender a demanda da população. 

Além da pouca disponibilidade de áreas agrícolas, parte importante dos solos ocupados pela agricultura sofre com a degradação. De acordo com informações da agência de notícias oficial do país, a Xinhua, de 2014, mais de 40% das terras agricultáveis da China estavam em processo de degradação. Entre os problemas podemos citar a poluição, a erosão de solos e a desertificação

A maior parte das regiões Noroeste, Norte e Nordeste da China são ocupadas por grandes desertos, como é o caso do Deserto de Gobi. Esse deserto se divide entre a China e a Mongólia, ocupando uma área com 1,3 milhão de km². Também merecem destaques o Deserto de Taklamakan, com cerca de 270 mil km², o Deserto de Baidan Jaran, com 50 mil km², e o Deserto de Mu Us, com 32 mil km². Além desses, existem alguns desertos menores como Lop, Dsootoyn Elisen, Hami e Tengger

O Deserto de Gobi, citando apenas um exemplo, está em expansão e avança cerca de 3.600 km² rumo ao Sul a cada ano. As grandes tempestades de areia que ocorrem nessa região de deserto lançam sedimentos a distâncias de até 2.000 km ao Sul, atingindo importantes áreas agrícolas

Parte desse problema teve sua origem em grandes desmatamentos feitos numa extensa faixa entre Noroeste e o Nordeste da China. Além da derrubada de florestas para o aproveitamento da madeira ao longo da grande história da China, é preciso destacar épocas mais recentes, quando houve um verdadeiro ataque frontal a esses recursos florestais. Falo aqui dos tempos do Grande Salto Adiante, um conjunto de políticas iniciadas em 1958, que tinham como objetivo transformar a China em um país desenvolvido em tempo recordo. 

Essas políticas resultaram em verdadeiros fracassos e, entre outras graves consequências, criaram a chamada Grande Fome de Mao, que levou a um número de mortos por inanição entre 15 e 55 milhões entre 1959 e 1961 (lembro aqui que as estatísticas oficiais na China são um problema – o “sistema” esconde dados negativos). Existem imagens registradas há época que mostram verdadeiros “exércitos” de trabalhadores derrubando e carregando troncos de árvores nessas regiões. 

Ciente da gravidade do avanço do Deserto de Gobi e dos problemas criados pela desertificação em extensas faixas de terras nas regiões Noroeste, Norte e Nordeste, o Governo Central da China lançou ainda em 1978, o Programa da Grande Muralha Verde (三 北 防護林 em chinês tradicional), que tinha como objetivo o aumento da cobertura florestal dessas regiões, passando de 5% para 15%. Esse programa deverá estar concluído em 2050, quando se terá plantado uma faixa de floresta com 4.500 km de extensão. Em 2009, a área plantada já cobria cerca de 500 mil km², formando a maior floresta artificial do mundo.  

Apesar dos aparentes ótimos resultados, o projeto apresenta uma série de problemas. Em 2008, por exemplo, as fortes tempestades de inverno destruíram 1/10 das árvores plantadas naquele ano. Já em 2009, foram plantados 53 mil hectares de floresta e cerca de ¼ das plantas morreram. Outro grave problema é o aumento do consumo das águas do subsolo pelas árvores em crescimento. Um exemplo é a região de Minqin, no Noroeste do país – estudos feitos em 2016, indicavam que o nível do lençol freático havia baixado de 12 para 19 metros

Outro problema apontado por especialistas estrangeiros é o plantio de espécies de rápido crescimento como os choupos (gênero Popolus) e que resultam na formação de florestas com baixa biodiversidade e suscetíveis ao ataque de pragas e fungos. No ano 2000, cerca de 1 bilhão de choupos plantados foram atacados por uma doença e morreram, uma perda que deverá resultar em um atraso de 20 anos no projeto

Os especialistas chineses afirmam que existem cerca de 1,7 milhão de km² de terrenos com solos desertificados em toda a China e cerca de 530 mil km² desses solos podem ser recuperados. Apesar das críticas, esses especialistas acreditam que o grande “quebra vento” que está sendo criado com o plantio da Grande Muralha Verde ajudará na contenção das areias dos desertos e na recuperação desses solos. Além disso, o Governo Central da China não admite críticas aos seus projetos – ou se segue com o plantio das árvores ou se segue com o plantio das árvores: simples assim e sem opções! 

Como diz um velho ditado: só quem viver, verá! 

A AGRICULTURA IRRIGADA DESTRUIU O MAR DE ARAL NA ÁSIA CENTRAL

Na última postagem fizemos um breve resumo da trágica história do Mar de Aral. Localizado numa grande depressão entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, na Ásia Central, o espelho d’água desse lago ocupava uma área total de 68 mil km², o que equivale a três vezes e meia a área do Estado de Sergipe. Com a retirada de grandes volumes de águas dos seus principais rios formadores para uso em projetos de agricultura irrigada, o lago praticamente secou. 

O Mar de Aral era a parte final da grande bacia hidrográfica endorreica formada pelos rios Amu Daria e Syr Daria. Nesse tipo de bacia hidrográfica, as águas não correm na direção dos oceanos, mas sim na direção de uma depressão no terreno, onde forma um lago ou uma planície alagável – a água se perde por evaporação.  

Como exemplos de bacias hidrográficas endorreicas podemos citar o Mar Morto, ponto terminal do rio Jordão, no Oriente Médio; o Lago Chade, na África Subsaariana; o Lago Titicaca, entre o Peru e a Bolívia, e também o Delta do rio Okavango, na África Austral. 

Os rios Amu Daria e Syr Daria são formados a partir de nascentes com origem no degelo de glaciares no alto da Cordilheira do Himalaia. O rio Syr Daria se forma a partir de duas nascentes no Quirguistão e uma no leste do Uzbequistão, percorrendo um total de 2.212 km até o Mar de Aral. O rio Amu Daria nasce nas Montanhas Pamir, na fronteira entre o Tadjiquistão, a China e o Paquistão, percorrendo cerca de 2.400 km até desaguar no Mar de Aral. 

Esses dois rios de águas permanentes são os maiores e mais importantes da Ásia Central. Desde tempos imemoriais, suas águas, juntamente com as águas do Mar de Aral, vêm sendo usadas pelas populações nômades e das cidades para dessedentação de rebanhos de animais, para o abastecimento de populações e para uso na agricultura. 

A história da Ásia Central e dos seus rios mudaria completamente com a formação da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, após a Revolução de 1917. Desde meados do século XIX, a região já se encontrava dentro da área de influência política e econômica da Rússia, uma situação que se ampliou após a formação do grande bloco de repúblicas socialistas. 

Dentro da estrutura organizacional criada pelo Governo Central da URSS, cada região do bloco recebia um determinado grupo de atribuições econômicas. À Ásia Central coube o papel de produção de commodities agrícolas como trigo, cevada, milho e algodão. Os planejadores do Governo Central decidiram que a grande disponibilidade de água nos rios Amu Daria e Syr Daria viabilizaria o uso intensivo de sistemas de irrigação agrícola. 

Sem maiores estudos sobre os impactos ambientais e sem maiores questionamentos ao poder central da URSS, os Governos das Repúblicas Satélites da Ásia Central obedeceram cegamente às determinações de Moscou. Inicialmente, as grandes plantações se concentravam ao longo das margens dos rios. Grandes sistemas de adutoras e tubulações captavam a água e bombeavam até campos a poucos quilômetros da margem dos rios. 

Visando aumentar o total de terras irrigadas, os planejadores iniciaram diversos programas para a construção de grandes canais de irrigação. O primeiro desses projetos foi o Grande Canal de Ferghana, no Uzbequistão. Esse canal tem 270 km de extensão e foi construído em apenas 45 dias ao longo de 1939. Cerca de 160 mil trabalhadores uzbeques e tadjiques trabalharam na obra, “mostrando ao mundo a força dos povos da União Soviética

Ao longo dos anos seguintes, outros grandes canais de irrigação foram construídos por toda a Ásia Central. No final da década de 1940 foram concluídos canais em Kizil-Orda no Cazaquistão e na região de Taskent no Uzbequistão. Na década de 1950, foram construídos o Kara Kum, um canal com 800 km de extensão entre o rio Amu Daria e Ashkhadab, o sistema de irrigação de Mirzachol Sahra, o canal Chu no Quirguistão e o Reservatório de Bahr-i Tajik no Tadjiquistão. 

Com o uso intensivo de água em sistemas de irrigação, a produção agrícola das repúblicas da Ásia Central aumentou exponencialmente, um feito comemorado a extremos na propaganda oficial da União Soviética. Os altos custos ambientais desse triunfo agrícola, entretanto, jamais foram citados pelos dirigentes do Partido Comunista. 

O volume total de água do Mar de Aral era calculado em 1.100 km³ antes do início do uso da água dos rios Amu Daria e Syr Daria em grandes projetos de irrigação. Cerca de 10% desse volume de água se perdia anualmente por evaporação e era reposto pelos aportes de água desses dois rios. Com o início dos grandes projetos de agricultura, cerca de 20 km³ de água passaram a ser retirados a cada ano dos rios, um volume que foi crescendo ao longo das décadas seguintes. 

No início da década de 1960, a maior parte da água dos rios Amu Daria e Syr Daria já era desviada para uso em sistemas de irrigação por toda a Ásia Central. Entre os anos de 1961 e 1970 passou a ser observada uma redução anual de 20 cm no nível do Mar de Aral, uma redução que cresceu 350% até 1990. A partir de 1987, toda a faixa central do lago passou a ser tomada por grandes bancos de areia e o espelho d’água se dividiu em duas áreas distintas, uma ao Norte e outra ao Sul. 

Entre os anos de 1960 e 2000, o desconhecido Uzbequistão, país sem qualquer tradição na produção de grandes volumes de produtos agrícolas, passou a ocupar o 3º lugar entre os maiores produtores de algodão do mundo. As vizinhas Repúblicas do Cazaquistão, Tadjiquistão, Uzbequistão e Quirguistão também passaram a se destacar na produção agrícola, especialmente a de algodão. Por trás de todo esse sucesso se encontravam os ineficientes sistemas de irrigação agrícola da URSS. 

A redução do volume de água do Mar de Aral foi seguida pelo colapso da indústria pesqueira local, que chegou a responder por 1/6 de todos os pescados consumidos pelas populações da URSS. Além da redução dos volumes, as águas do Aral passaram a apresentar níveis de salinidade até cinco vezes acima do normal, condições inadequadas para a sobrevivência de peixes de água doce. A redução do espelho d’água também levou à destruição de bosques e florestas que circundavam todo o Mar de Aral. 

Duas regiões que perderam a maior parte de sua cobertura vegetal foram os deltas dos rios Amu Daria e Syr Daria. Um animal que abundava nessas matas era o rato-almiscarado (Ondatra zibethicus), um mamífero de origem norte-americana que foi introduzido na Ásia no início do século XX. A caça desse animal rendia uma produção de cerca de 500 mil peles por ano, uma “indústria” que foi completamente destruída junto com o Mar de Aral. Também se extinguiram inúmeras outras espécies de mamíferos, aves e répteis que viviam nas matas e águas dessa região. 

A maior parte da área que antes era ocupada pelo Mar de Aral agora forma um grande deserto de areias salgadas, conhecido entre os locais como Aral Kum. Além dos elevados níveis de sal, essas areias concentram grandes quantidades de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas que foram usados nas plantações ao longo de várias décadas. Essas areias tóxicas são espalhadas pelos fortes ventos, provocando inúmeras problemos respiratórios nas populações remanescentes das poucas cidades que resistiram na região, problema semelhante ao que ocorre na região do Lago Salton, no Sul da Califórnia. 

O único trecho remanescente do lago é conhecido como Mar do Norte de Aral e corresponde a apenas 10% da área original. Esse pequeno corpo d’água sobreviveu graças aos esforços do Governo do Cazaquistão, que construiu uma barragem com cerca de 13 km nas proximidades do delta do rio Syr Daria, permitindo o acúmulo dos reduzidos caudais que chegam ao Aral. 

Resumindo – a agricultura irrigada em alta escala da antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, destruiu o Mar de Aral e provocou uma das maiores tragédias ambientais de nossos tempos! 

AS AREIAS E AS ÁGUAS DOS DESERTOS DA ÁSIA CENTRAL

A Ásia Central é, por definição geográfica, a região que se estende do Mar Cáspio até o Centro-Oeste da China, no sentido Oeste-Leste, e entre o Norte do Irã e do Afeganistão até o Sul da Sibéria, no sentido Sul-Norte. Considerando apenas as Repúblicas da Ásia Central – Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão, a região possui mais de 4 milhões de km². 

As paisagens da Ásia Central reúnem montanhas, estepes e, especialmente, grandes desertos como o Kara Kum, ou deserto das “areias negras”, que ocupa uma área com quase 500 mil km². Desde os tempos imemoriais, essa região de clima inóspito e solos difíceis vem sendo habitada por uma infinidade de povos nômades, principalmente de origem mongol e altaica, grupo que inclui os turcos. Aliás, dizem que é possível “ir de Istanbul, na Turquia, até Pequim, na China, falando somente o turco.” 

A lendária Rota da Seda, que permitia o comércio entre o Oriente Médio e o Extremo Oriente, tinha um dos seus principais caminhos cruzando a Ásia Central. Naqueles tempos, o Mar de Aral era um grande oásis com muita vegetação e água, que servia de posto de parada e descanso para as grandes caravanas de mercadores. Um dos principais produtos que circulavam por essa rota eram as magníficas sedas fabricadas na China, produto que acabou associando o seu nome ao caminho. O algodão é outro produto com tradição milenar na região (vide foto)

O Mar de Aral era um grande lago de águas salobras que se formou numa grande depressão entre o Cazaquistão e Uzbequistão. As águas que alimentavam esse lago vinham dos rios Amu Daria e Syr Daria, rios com nascentes nas Montanhas Himalaias. Nas línguas locais, Aral significa “ilhas” – existiam mais de 1.100 ilhas no espelho d’água com cerca de 68 mil km². As margens do Mar de Aral abrigavam diferentes grupos étnicos como tadjiques, uzbeques e cazaques, que sobreviviam como agricultores, pescadores, pastores, mercadores e artesãos numa região rica em água, plantas e vida animal.  

A Ásia Central teve, ao longo de sua história, dois momentos de grande relevância: no passado, a região formou parte do Império Mongol (1206-1368), o segundo maior de todos os tempos em terras contiguas. O grande líder desse Império foi Gengis Khan. Em tempos mais recentes, a região passou a ganhar relevância a partir de meados do século XIX, quando o Império Russo passou a expandir suas fronteiras e áreas de influência rumo ao Sul. Esse domínio foi consolidado com a Revolução Russa de 1917, quando as Repúblicas da Ásia Central passaram a fazer parte da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 

Desde os primeiros anos da sua chegada na Ásia Central, os russos perceberam o grande potencial econômico do Mar de Aral. Navios militares e pesqueiros da Rússia foram transportados desmontados em caravanas de camelos e montados nas águas do Aral. Após a conquista, foi iniciada uma nova etapa da sua história – o Mar de Aral foi transformado numa fonte de pescados para toda a Rússia, chegando a fornecer, em meados do século XX, 1/6 do volume total dos peixes consumidos pelos soviéticos – destaque aqui para o esturjão-kaluga (Huso dauricus) e seu caviar

O ar puro, o clima quente e úmido, além das paisagens pitorescas ao redor das praias de águas salobras, criou um verdadeiro contraponto ao inóspito clima russo, transformando a região num dos maiores destinos turísticos de verão dos eslavos. Nas últimas décadas do século XIX e princípio do século XX, a região foi o destino de verão da elite burguesa da Rússia Imperial. Após a Revolução Russa, o Aral se transformou num refúgio para o proletariado comunista. 

As estradas de ferro, construídas originalmente para escoar os pescados da região, passaram a transportar um número cada vez maior de pessoas, dinamizando ainda mais a economia regional. Hotéis, acampamentos de verão e colônias de férias, marinas, restaurantes e lojas surgiram ao lado dos grandes complexos industriais de processamento de pescados. A população cresceu acompanhando o progresso regional – passou de 8 para 50 milhões de habitantes entre os anos de 1900 e 1960. 

O “paraíso de verão” dos povos soviéticos, entretanto, tomaria rumos totalmente diferentes após a decisão do Governo Central da URSS de transformar toda a Ásia Central no celeiro do grande bloco comunista. Os planejadores de Moscou elaboraram os mais diferentes planos para o aproveitamento das águas dos rios Amu Daria e Syr Daria para irrigação de campos agrícolas, onde seriam produzidas grandes quantidades de grãos como trigo, cevada, milho e arroz, além do importante algodão para a indústria têxtil. 

A partir da década de 1920, a área de agricultura irrigada na República do Turcomenistão foi extensivamente ampliada a fim de atender a uma proclamação de Vladimir Lenin (1870-1924), solicitando o aumento da produção do algodão. Na década de 1930, já sob o comando de Joseph Stálin (1878-1953), o Ministério da Água iniciou a implantação de gigantescos projetos de construção de canais de irrigação no Uzbequistão, Cazaquistão e Turcomenistão, com o objetivo de transformar suas estepes nos celeiros da União Soviética, alcançando a autossuficiência na produção de grãos e algodão.  

O primeiro grande canal de irrigação foi concluído em 1939 no Vale de Ferghana no Uzbequistão; no final da década de 1940 foram concluídos canais em Kizil-Orda no Cazaquistão e na região de Taskent no Uzbequistão. Na década de 1950, foram construídos o Kara Kum, um canal com 800 km de extensão entre o rio Amu Daria e Ashkhadab, o sistema de irrigação de Mirzachol Sahra, o canal Chu no Quirguistão e o Reservatório de Bahr-i Tajik no Tadjiquistão.  

A partir do final da década de 1950, Moscou decidiu que toda a região irrigada da Ásia Central passaria a se ocupar exclusivamente com a monocultura do algodão. Essa nova resolução inspirou uma frase que passaria a ser usada na propaganda oficial soviética – “quando o branco da neve cobre Moscou, o ouro branco do algodão cobre as Repúblicas Soviéticas da Ásia Central”. 

Às custas de grandes volumes de água, os planejadores do Governo Central em Moscou conseguiram transformar os desertos da Ásia Central em grandes áreas de produção agrícola. Em alguns lugares, onde as areias inertes dos desertos não permitiam o crescimento de praticamente nenhuma planta, eram apenas os sedimentos e os sais minerais dissolvidos nas águas que permitiam o desenvolvimento das culturas. 

As grandes intervenções na dinâmica das águas dos grandes rios, entretanto, tiveram impactos ambientais desastrosos no Mar de Aral. O grande lago era o ponto terminal da grande bacia hidrográfica endorreica (ou seja, sem saída para o mar) formada pelos rios Amu Daria e Syr Daria. O Mar de Aral perdia todos os anos cerca de 10% do seu volume de águas para a evaporação. Essas perdas eram repostas continuamente pelos aportes de água dos rios Amu Daria e Syr Daria

Com o desvio da maior parte das águas da bacia hidrográfica para os sistemas de irrigação, o Mar de Aral começou a secar rapidamente. O lago só não secou completamente porque o Governo do Cazaquistão, com financiamento do Banco Mundial, construiu uma barragem com 13 km de extensão na década de 1980, e conseguiu manter um pequeno trecho lago com água. Esse trecho, mais conhecido como Mar do Norte de Aral, corresponde atualmente a apenas 10% da área original do corpo d’água

Na próxima postagem vamos mostrar como a ótima ideia de transformar os desertos da Ásia Central em uma grande região de produção agrícola foi fatal para o Mar de Aral e para os milhões de habitantes da região.