OS GRANDES IMPACTOS DA AGRICULTURA DE ISRAEL NO MAR MORTO

Nas duas postagens anteriores fizemos um breve resumo da história da fundação do moderno Estado de Israel e dos impressionantes avanços técnicos que o pequeno país conseguiu em sua agricultura. Com pouco mais de 20 mil km² de território e com mais de 2/3 de suas terras formadas por solos semiárido e desérticos, Israel se transformou numa impressionante potência agrícola. 

Um dos feitos mais extraordinários dos israelenses foi o de fazer, literalmente “o deserto florescer”. O Deserto do Neguev, no Sul do país, ocupa mais da metade do território de Israel e conta com índices pluviométricos anuais entre 30 e 50 mm, valores 15 vezes menores que aqueles encontrados no Semiárido Nordestino. Mesmo assim, o Neguev é um grande celeiro agrícola, onde se usa intensivamente sistemas de irrigação por micro gotejamento. 

A moderna tecnologia em sistemas de irrigação, o uso altamente racional dos escassos recursos hídricos disponíveis e os grandes esforços para o desenvolvimento de cultivares adaptados ao clima e aos solos do país são as chaves do sucesso de Israel na agricultura. Esse sucesso, é claro, não veio de graça, e, entre outros inúmeros problemas, o alto consumo de água pelas atividades agrícolas e pecuárias está provocando a redução gradual do Mar Morto

O Mar Morto é um grande lago com águas extremamente salgadas que se formou numa grande depressão localizada a 430 metros abaixo do nível do mar na fronteira entre Israel e a Jordânia. O lago é alimentado exclusivamente pelas águas do Jordão, o principal rio de Israel. Formando uma grande bacia hidrográfica endorreica, ou seja, sem saída para o mar, o Mar Morto perde suas águas por evaporação.  

As águas do Mar Morto têm uma característica única – elas possuem dez vezes a quantidade de sal encontrada nos oceanos. Por essa razão essas águas não são utilizadas para consumo humano ou irrigação agrícola. O lago é, já há muitas décadas, uma das grandes atrações turísticas de Israel (vide foto). Entretanto, o uso intensivo das águas do rio Jordão para fins agrícolas está reduzindo gradativamente o Mar Morto

Em 1930, quando foi feita a primeira medição criteriosa do Mar Morto, a superfície do espelho d’água era de 1.050 km² – em 2014, a superfície total estava reduzida a 650 km² e o seu nível está se reduzindo em até 1 metro a cada ano. A razão para isso é simples: após a independência de Israel em 1948 e com o grande aumento da população do país, a retirada de água do rio Jordão para fins agrícolas chegou a consumir até 98% dos caudais do rio.  

Conforme o nível do lago foi baixando, o antigo fundo coberto por uma grossa camada de sal foi exposto. Conforme essa camada de sal foi se dissolvendo, começaram a surgir grandes crateras no leito rochoso. As atuais margens do Mar Morto estão tomadas por grandes crateras, algumas com até 100 metros de diâmetro e 50 metros de profundidade. Calcula-se que existam cerca de 6.500 dessas crateras nas áreas de entorno do Mar Morto. 

As águas densas e extremamente salgadas do Mar Morto ganharam fama de medicinais e toda a região de entorno do lago foi ocupada por elegantes resorts e hotéis, que recebiam dezenas de milhares de turistas a cada ano. Com o recuo cada vez mais intenso das águas, muitas dessas instalações agora estão a vários quilômetros das margens do lago – muito negócios acabaram falindo. E sem a reposição dos grandes volumes de água perdidos para a forte evaporação, a tendência será de uma redução cada vez maior do espelho d’água do Mar Morto. 

O Mar Morto é uma das principais atrações turísticas de Israel, um setor que gera importantes receitas para o país. Empresários dos setores de turismo e hospedagem vem fazendo uma pressão cada vez maior sobre o Governo israelense para que se encontre uma solução para o problema. A Suprema Corte de Israel, inclusive, já tomou decisão contra o Governo, recomendando que se encontre uma solução para o problema. 

A situação crítica do Mar Morto é muito semelhante à de outros grandes “mares” internos sem saída para o mar como o Mar de Aral, na Ásia Central, e o Lago Chade, na África Subsaariana. Grandes projetos de agricultura irrigada foram implantados nas suas proximidades, passando a consumir uma parte importante da água de seus rios formadores. Sem conseguir as perdas de água para a evaporação, esses lagos começaram a ter seus espelhos d’água em uma redução constante. 

Uma alternativa que vem sendo estudada há vários anos em conjunto com o Governo da Jordânia, que compartilha a bacia e os problemas do Mar Morto com Israel, e com acompanhamento da Autoridade Nacional Palestina, é a construção de um canal entre o Mar Vermelho e o Mar Morto, permitindo o fluxo de água do mar por força da gravidade (lembrando que o Mar Morto está abaixo do nível do mar) para compensar o volume de águas do Rio Jordão que deixa de desaguar no lago.  

O projeto inclui a construção de uma usina hidroelétrica para o aproveitamento da força da água. A ideia, que parece muito boa, encontra forte resistência entre grupos de ecologistas, que temem a introdução de espécies marinhas no ambiente fechado do Mar Morto, e também de empresas que exploram minerais na região do Mar Morto. Com o recuo das margens do lago e a exposição do seu fundo coberto de minerais facilitou, e muito, o trabalho dessas empresas. 

Uma outra solução, que ganhou uma enorme visibilidade nas últimas semanas, é a retomada de um projeto, ainda da década de 1960, para a construção de um canal de navegação marítima entre o Golfo de Aquaba, também conhecido como Golfo de Eliat, e o Mar Mediterrâneo. Esse canal seria uma alternativa ao Canal de Suez do Egito e poderia enviar parte de suas águas para “abastecer” o Mar Morto. 

Há poucos dias atrás, um gigantesco navio cargueiro – o Ever Given, encalhou no Canal de Suez, bloqueando totalmente a passagem de embarcações por cerca de 5 dias. De acordo com as notícias divulgadas, cada dia de bloqueio no Canal de Suez representou um prejuízo de quase US$ 10 bilhões ao comércio mundial. Criar uma via de navegação alternativa ao Canal de Suez através do território de Israel voltou a ser considerada uma ótima ideia e poderá ser a tábua de salvação do Mar Morto. 

A questão do Mar Morto, que na realidade é uma espécie de efeito colateral do sucesso da agricultura em Israel, mostra como as questões ambientais são complexas e precisam ser pensadas e discutidas com extrema cautela. A recuperação de grandes extensões de terrenos semiáridos e desérticos do país, o que aparentemente seria altamente positivo para o meio ambiente, desencadeou uma crise nos já escassos recursos hídricos da região. 

O rigor dos diferentes órgãos na análise dos impactos ambientais de grandes obras de infraestrutura como usinas hidrelétricas, rodovias, projetos de mineração e ferrovias, entre muitos outros, o que muita gente crítica por acharem rigorosos demais, tem sua razão de ser. Por melhores que sejam as boas intenções desses projetos, como no exemplo da agricultura de Israel, sempre há riscos de esconderem importantes impactos ambientais. 

A história nos ensinou que depois da Caixa de Pandora ser aberta, não dá mais para voltar a prender os males que ela guardava… 

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