A FORMAÇÃO E O COLAPSO DO LAGO SALTON NA CALIFÓRNIA

O Lago Salton, localizado no Deserto de Sonora no Sul do Estado norte-americano da Califórnia, surgiu a partir de erros de engenharia durante a construção do Canal do rio Álamo. Conforme comentamos em postagem anterior, esse Canal foi concluído em 1901 e tinha como principal objetivo a transposição de águas desde o rio Colorado até o Imperial Valley

Em 1905, fortes chuvas assolaram a região e as enchentes destruíram uma parte das margens do Canal – as águas então passaram a correr na direção de uma depressão do terreno, criando a partir de então um grande lago que, em sua cheia máxima, forma um espelho d’água com mais de 970 km². O lago, que é o maior do Sul da Califórnia, recebeu o nome de Lago Salton. 

Localizado em uma região árida e desértica, onde as temperaturas ao longo do dia superam fácil a marca dos 40° C e onde as chuvas são raríssimas, o Lago Salton tinha tudo para evaporar completamente em poucos anos. Só que, graças às intervenções involuntárias dos agricultores da região do Imperial Valley, o lago continuou recebendo volumes significativos de água e se manteve “vivo”. 

O Imperial Valley, considerado uma das regiões agrícolas mais produtivas dos Estados Unidos, se consolidou a partir de 1901, quando as águas do rio Colorado passaram a chegar na região através do Canal do rio Álamo. Desde a passagem das primeiras caravanas de pioneiros que se dirigiam para a Califórnia a partir da segunda metade do século XIX, foi observado que esse trecho do Deserto de Sonora possuía terras férteis – só faltava água. 

A solução para esse problema surgiu nos últimos do século XIX, quando o Governo dos Estados Unidos iniciou a construção do Canal do rio Álamo. Essa obra utilizou o canal de um antigo leito de um rio seco, que num passado remoto canalizava as águas excedentes do rio Colorado durante os períodos de cheia e as conduzia para o Deserto de Sonora. Foram as águas dessas antigas cheias que carrearam os sedimentos férteis que cobrem o Imperial Valley

Com a chegada das águas, centenas de quilômetros de canais de irrigação passaram a ser abertos por todo o Imperial Valley, transformando o escaldante deserto em uma região agrícola extremamente produtiva ao longo de todo o ano. Em 1942, o Governo americano construiu um novo canal – o All-American, aumentando ainda mais a oferta de água para o Imperial Valley. Graças às águas abundantes, os agricultores passaram a se valer da irrigação por inundação – ao longo dos canais são instaladas comportas, que são abertas quando as plantas necessitam de irrigação.  

Essa técnica de irrigação utiliza volumes de água muito maiores do que a necessidade real das plantas. O excedente de água, normalmente, se perde por evaporação. No caso do Imperial Valley, uma parte substancial desse excedente de águas escorria na direção da parte mais baixa do terreno, justamente a depressão onde se formou o Lago Salton. Esse aporte de águas compensava as perdas do Lago por ação da evaporação, mantendo assim o seu nível relativamente estável. 

Essa “parceria” entre os agricultores e o Lago Salton se manteve ao longo de todo o século XX e primeiros anos do século XXI. O Lago acabou se transformando em uma importante área de lazer para a população local. Aves migratórias também descobriram o Lago Salton e transformaram suas margens em uma importante área para descanso e alimentação ao longo de suas jornadas anuais de migração. 

Logo após a sua formação, o Lago Salton apresentava águas levemente salobras. A salinidade das águas foi aumentando gradativamente até que se tornaram mais salgadas que as águas do Oceano Pacífico. Isso ocorre por que os solos e as rochas da superfície da Terra possuem depósitos de sal, que sofrem erosão com as chuvas e os caudais dos rios. Esse sal surgiu há bilhões de anos durante a formação do nosso planeta. 

Com a erosão provocada pelas chuvas e pela drenagem das águas superficiais, esses sais foram sendo dissolvidos e carregados na direção dos Oceanos e, ao longo de sucessivas eras, foram concentrando fabulosas quantidades de sal – algumas estimativas indicam que existe um volume de 5,5 trilhões de toneladas de sal nas águas e no leito dos oceanos. Na região do Lago Salton, as águas transpostas desde o rio Colorado e/ou das plantações do Imperial Valley encontraram solos com depósitos de sal, o que acelerou muito esse processo. 

Além do sal, as águas que passaram a chegar até o Lago Salton carreavam também grandes volumes de resíduos de fertilizantes e pesticidas usados pelos agricultores em suas plantações. Essas substâncias passaram a se misturar com o sal e foram se acumulando na forma de uma grossa crosta mineral decantada no fundo do Lago. A lâmina d’água do Lago Salton manteve essa crosta mineral isolada do meio ambiente por décadas a fio. 

A relativa “estabilidade” desse sistema foi bruscamente alterada a partir de 2010, época em que todo o Sul do Estado da Califórnia e grande parte da Região Sudoeste dos Estados Unidos passavam pela mais grave seca em 1.200 anos. Todos os reservatórios de água que abasteciam grandes cidades californianas como Los Angeles, San Diego e San Bernardino, entre muitas outras, entraram em colapso e, em muitos casos, as prefeituras foram obrigadas a decretar um inédito racionamento de água. 

Sem contar com outras fontes de abastecimento, tanto o Governo do Estado da Califórnia quanto as prefeituras das cidades voltaram os seus olhos para as águas usadas em sistemas de irrigação pelos produtores do Imperial Valley. Esses sistemas consumiam cerca de 83% da cota de águas do rio Colorada a que o Estado da Califórnia tinha direito

Após uma disputada queda de braços com os produtores rurais, as cidades ganharam o direito de receber volumes maiores dessas águas, reduzindo assim a disponibilidade para os agricultores. Essa redução na disponibilidade forçou os agricultores a mudarem seus métodos de trabalho, adotando sistemas de irrigação mais eficientes e com menor desperdício de água nas suas plantações. 

Essa redução do consumo de água nas plantações, por sua vez, levou a uma redução substancial dos volumes percolados na direção do Lago Salton que, com menores aportes de água, passou a ter seu volume gradativamente reduzido devido às perdas não repostas para a evaporação. 

Com o recuo do espelho d’água, a crosta de areia contaminada por agrotóxicos e fertilizantes passou a ficar exposta aos fortes ventos, que passaram a espalhar uma nuvem tóxica pela região. Como resultado, a região do Imperial Valley passou a conviver com uma baixa qualidade do ar ao longo de 200 dias no ano e agora detém o triste recorde norte-americano de casos de asma, com um índice três vezes superior à média dos Estados Unidos. Crianças e pessoas idosas são os mais afetados pelo problema

Esse fato dramático não é novo – problemas semelhantes ocorreram em diversas partes do mundo onde grandes lagos secaram. Dois exemplos: o Lago Poopó, no Altiplano Boliviano, que secou completamente em 2017, e o Mar de Aral, na Ásia Central, que começou a secar ainda na década de 1950 após a construção de uma infinidade de sistemas de irrigação pela antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 

Esse é um problema de difícil solução – para controlar a exposição das areias venenosas aos ventos, é preciso manter o Lago Salton com o maior nível de água possível, o que significa desviar quantidades substanciais de água de outros usos, algo que nem sempre é possível. 

O Imperial Valley é mais um caso de sucesso na transformação de um deserto em região de grande produtividade agrícola. Porém, assim como aconteceu em outros áreas áridas e semiáridas por todo o mundo, os efeitos colaterais foram dramáticos para o meio ambiente. 

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