OS VENTOS SALGADOS DO “ARALKUM”

Aral Kum 2

Nos últimos posts falamos bastante da tragédia ambiental que destruiu o Mar de Aral, o quarto maior lago do mundo, após a implantação de diversos projetos de agricultura irrigada nas antigas Repúblicas Soviéticas da Ásia Central. As águas dos rios Amu Daria e Syr Daria, resultantes do degelo de glaciares na cordilheira do Himalaia e que alimentavam o lago, passaram a ser desviadas em grandes volumes para a irrigação de plantações, especialmente de algodão. O Mar de Aral, que é um lago terminal, entrou em um déficit hídrico crítico perdendo muito mais água pela evaporação do que o volume de água que entrava no sistema a partir dos rios Amu Daria e Syr Daria – o Aral simplesmente secou.

Antes da implantação dos grandes projetos de canais de irrigação nas Repúblicas Socialistas do Cazaquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e Quirguistão, os rios Amu Daria e Syr Daria despejavam anualmente 55 bilhões de metros cúbicos de água no Mar de Aral – essa entrada de água era suficiente para compensar a perda anual por evaporação, mantendo o Aral com um volume estável e com um espelho d’água com 66 mil km². Na década de 1980, quando os projetos de irrigação atingiram uma área de 8 milhões de hectares, o volume de água dos rios que chegava ao Aral caiu para 7 bilhões de metros cúbicos anuais – foi nessa época que o espelho d’água do Mar de Aral caiu para um terço da área original. Nos últimos anos esse volume de água tem oscilado entre 1 e 5 bilhões de metros cúbicos, especialmente no norte do Mar de Aral no delta do rio Syr Daria – o rio Amu Daria despeja muito pouca água no Aral. Sem a reposição da água perdida por evaporação, o Mar de Aral foi secando e o fundo branco do lago foi ficando cada vez mais exposto – a população local começou a chamar esta área de Aralkum: o Deserto de Aral.

Além de areia, o fundo do lago continha uma espessa camada com bilhões de toneladas de sal, acumulado ao longo de milhões de anos, misturado a imensas quantidades de resíduos de fertilizantes e defensivos químicos usados nas plantações irrigadas. Os fortes ventos que varrem o antigo leito do lago estão arrastando e espalhando 75 milhões de toneladas de sal e produtos químicos a cada ano, cobrindo imensas faixas de desertos e estepes com uma camada de pó branco tóxico (vide foto), amplificando ainda mais a tragédia ambiental. A Academia de Ciências do Uzbequistão afirma que, até o ano de 2005, essa camada de pó branco já havia se expandido por mais de 5 milhões de hectares a sul e a leste do Mar de Aral. Extensas áreas do Karakum (Deserto Negro) e do Kyzylkum (Deserto Vermelho) agora estão incrustadas com esse sal tóxico, criando a paisagem de um deserto branco. Esses “ventos salgados” também atingem as áreas de agricultura irrigada e podem destruir as colheitas de algodão logo no começo do período de vegetação. Para se controlar os níveis de sal, o solo precisa ser regado durante um período longo de tempo, processo retira ainda mais água fresca dos rios, reduzindo cada vez os volumes de água que poderiam chegar ao Mar de Aral. Esse círculo vicioso só faz aumentar a desertificação e, consequentemente, as áreas que serão atingidas pelos ventos salgados.

A catástrofe ambiental do Mar de Aral é complexa e vai muito além da perda de água: aumento da salinidade das águas restantes; erosão do solo pelo vento; destruição dos antigos locais de desova, com e extinção de várias espécies de peixes – muitas endêmicas do Aral; imensas tempestades de poeira salgada; destruição da vida animal que habitava as florestas de canas e juncos das margens e deltas; colapso da indústria pesqueira, da navegação e do turismo; desaparecimento de áreas de pastagem e comprometimento dos terrenos férteis; salinização das fontes de água usadas no abastecimento, forçando a migração de imensos contingentes populacionais por falta de trabalho e condições mínimas de sobrevivência nas áreas impactadas, entre outros problemas. Estudos clínicos tem encontrado altíssimos níveis de anemia e um aumento exponencial das doenças respiratórias em moradores que permaneceram na região, forte incidência de alguns tipos de câncer, além de aumento na mortalidade infantil. A redução do espelho d’água também provocou uma alteração no clima regional, que apresenta verões cada vez mais secos e quentes (até 50° C) e invernos mais longos e frios (até -40° C).

A destruição do Mar de Aral foi uma das maiores catástrofes ambientais do século XX e começo do século XXI, que se espera não venha a ser superada por nenhuma outra, e uma amostra do que a falta de planejamento e do crescimento a qualquer custo pode produzir em uma única região. Soluções paliativas das mais diversas são discutidas entre os governos locais sem que se encontre qualquer solução prática para o problema.

Enquanto isso, o Aralkum e seus ventos salgados não param de crescer.

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