O DRAMÁTICO ENCOLHIMENTO DO LAGO CHADE

Lago Chade

Se você leu a sequência de posts onde falamos da tragédia do Mar de Aral e da redução gradativa do nível do Mar Morto, já percebeu que os lagos terminais são sistemas extremamente sensíveis e que respondem com grande velocidade aos processos de redução dos volumes de água dos seus tributários. Vamos analisar um outro exemplo preocupante: o lago Chade.

O lago Chade ou Tchad já foi um dos maiores do mundo – no início da década de 1960 seu espelho d’água ocupava uma superfície de 25 mil km², o que corresponde a quatro vezes o tamanho original do Mar Morto ou pouco menos da metade da superfície do já foi o Mar de Aral. Uma população de 30 milhões de pessoas vive ao redor de suas margens, distribuídas nos quatro países que o cercam: Chade, Camarões, Níger e Nigéria. Durante milênios, o lago Chade vem sendo o grande manancial de águas permanente numa região de transição entre as savanas e o grande deserto do Saara, condição que vem mudando dramaticamente nas últimas décadas.

De acordo com estudos realizados pelo PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o Lago Chade perdeu 95% do seu espelho d’água entre 1963 e 1998, com sérios riscos de desaparecer por completo dentro de uns poucos anos. A superfície atual do Lago apresenta um espelho d’água com pouco mais de 1.000 km². Observe os números do dramático processo de encolhimento do Lago Chade:

Entre junho de 1966 e janeiro de 1973, a superfície do espelho d’água passou de 22.772 km² para 15.400 km²;

– Em 1982, a superfície total do Lago estava reduzida a 2.276 km²;

– Em fevereiro de 1994, as imagens captadas pelo satélite Meteosat mostravam que a superfície do Lago estava reduzida a 1.756 km²;

– Em 2007, a superfície do Lago Chade se resumia à menos da vigésima parte da superfície encontrada em 1963 – 1.350 km².

Estudos geológicos indicam que o Lago Chade vem sofrendo um processo contínuo de encolhimento devido a processos naturais de mudanças climáticas no Norte da África em andamento há vários milênios – há dois mil anos atrás, o Lago Chade era do tamanho da Alemanha (357 mil km²). Porém, o quadro atual de redução acelerada de sua superfície, não pode ser explicado apenas por processos naturais – é preciso incluir na equação a superexploração dos recursos hídricos para abastecimento da população, dessedentação de animais e formação de pastagens, além do uso de grandes volumes de água em sistemas de irrigação agrícola altamente ineficientes. O resultado da combinação de tudo isso – a perspectiva de uma crise humanitária sem precedentes na região dentro de poucos anos.

Estudos climáticos mostram que, a partir de 1950, houve uma sutil mudança no cinturão de chuvas tropicais da faixa subsaariana, que se deslocou mais para o Sul, reduzindo o volume de água despejado no Lago Chade – quase que simultaneamente, passou a se verificar um aumento da retirada de água para uso em irrigação agrícola. A captação de água para os sistemas de irrigação se manteve estável até o final da década de 1980. Entre 1984 e 1994, com a implantação de grandes projetos de irrigação nas áreas de entorno, a retirada de água quadruplicou e o volume passou a equivaler a todo o volume despejado no lago pelos rios Chari e Lagone, seus grandes tributários. Essa equação é bem conhecida: a retirada de grandes volumes de água, para uso em agricultura e em pastagens, somada as perdas por evaporação sendo menores do que o volume de água que entra no sistema é igual a um lago em encolhimento contínuo – exatamente o que está acontecendo no Lago Chade.

Os Governos do Chade, de Camarões, do Níger e da Nigéria esboçaram vários planos para a construção de um canal para a transposição de águas da bacia hidrográfica do Rio Congo, a maior da África, em socorro ao Lago Chade. A falta de recursos financeiros e a total falta de capacidade de articulação política entre as nações impediram qualquer avanço. Como se não bastasse todos os problemas derivados desta situação caótica, as áreas de entorno do Lago Chade foram transformadas em território do grupo radical islâmico Boko Haram, que luta para impor, na base do terror, um califado religioso nos moldes de sua leitura radical dos ensinamentos do Alcorão. Entre a falta de água e a brutalidade da guerra religiosa, as populações padecem.

Com dificuldades cada vez maiores para a prática da agricultura, sem água e pastagens para a criação de animais e com recursos pesqueiros cada vez mais escassos, as perspectivas futuras de 30 milhões de pessoas são incertas e a sobrevivência do Lago Chade improvável.

PS: 200° publicação

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