Avatar de Desconhecido

Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM, OU AINDA FALANDO DA EXTINÇÃO DE ESPÉCIES 

Contam os índios e os caboclos da Amazônia que dentro da floresta existe uma criatura gigante, que tem o corpo peludo, um olho na testa e a boca no umbigo. Para alguns, a criatura usa uma armadura feita com o casco de uma tartaruga; para outros, sua pele é dura como o couro do jacaré. Essa criatura é conhecida pelo nome de mapinguari. 

Comecei esta postagem citando essa lenda por que, ao que tudo indica, ela está ligada a uma antiga espécie de mamífero extinto: as preguiças-gigantes. Conforme comentamos na postagem anterior, as preguiças-gigantes desapareceram há cerca de 10 mil anos atrás – os primeiros seres humanos chegaram ao território brasileiro há cerca de 15 mil anos.  

Ou seja, os ancestrais dos modernos indígenas conviveram com esses animais durante um longo período de tempo e a lenda do mapinguari pode ser uma lembrança residual das preguiças-gigantes. Dentro da verdadeira catástrofe que é a extinção de uma espécie, não deixa de ser um alento que ao menos uma lembrança no consciente coletivo tenha restado. 

Na imensa maioria dos casos, quando uma espécie entra em extinção isso significa um caminho sem volta – gerações futuras nunca verão um indivíduo dessa espécie, seja ele um animal ou um vegetal. Talvez exista um ou outro exemplar empalhado em um museu, fotografia, filmes ou algum outro tipo de lembrança. 

Recentemente, passamos a ouvir falar da “desextinção” de espécies. Um dos casos mais promissores é o do tigre-da-Tasmânia, citado em uma postagem anterior. Já há vários anos, pesquisadores australianos vem se dedicando ao sequenciamento do DNA e ao desenvolvimento de tecnologias para se criar um embrião viável que possa ser introduzido em um “útero de aluguel”. Dentro de 10 anos é possível que tornemos a ver esses animais correndo livres na natureza. 

Uma outra situação, que de quando em vez nos surpreende, é a redescoberta de uma espécie que todos consideravam extinta. Talvez o caso mais fantástico seja o do celacanto, um peixe pré-histórico que todos os especialistas consideravam extinto há mais de 60 milhões de anos. 

Em dezembro de 1938, um pescador da costa Leste da África do Sul capturou um peixe de mais ou menos 50 kg e com 1,5 metro de comprimento. O homem nunca tinha visto um peixe como aquele e, felizmente, ele decidiu comunicar o ocorrido às autoridades. O animal acabou sendo encaminhado para o Museu East London, onde foi empalhado. Somente vários dias depois é que especialistas se encontraram cara a cara com o animal e se surpreenderam em ver um peixe considerado extinto há dezenas de milhões de anos. Atualmente se conhecem duas espécies de celacanto: Latimeria chalumnae e Latimeria menadoensis 

Um caso bem parecido com o do celacanto é o do taguá, um mamífero sul-americano muito parecido com o javali. Durante muito tempo os únicos registros do taguá eram fósseis. Em 1930, um naturalista argentino descobriu alguns animais em uma área remota do país e descreveu a espécie. Porém, foi somente em 1970 que um zoólogo descobriu que esse animal era o mesmo conhecido até então apenas pelo seu registro fóssil. 

Um outro caso bem interessante é o do petrel-das-Bermudas (Pterodroma cahow), uma ave marinha que foi classificada como extinta por cerca de 330 anos. Quando o navegador genovês Cristóvão Colombo chegou às Américas em 1498, estima-se que existiam mais de meio milhão dessas aves nas ilhas Bermudas. Com a chegada dos colonos e com os desmatamentos, as aves perderam seu habitat e desapareceram. A redescoberta desses animais se deu no início do século XX. 

Quem é fã de filmes de super-heróis com certeza conhece o Pantera Negra, cujo nome e o visual foram baseados em uma animal que não era visto há mais de 100 anos e que muitos especialistas consideravam extinto. Em 2018, pesquisadores do Quênia, no Leste da África, conseguiram provas fotográficas que confirmaram que as panteras negras ainda sobrevivem numa região isolada do país. Curiosamente, é nessa região onde fica a cidade de Wakanda, terra natal do super-herói da ficção. 

Um outro felino que voltou do “mundo dos mortos” sem nunca ter ido para lá é o leopardo-nebuloso (Neofelis nebulosa brachyura), também conhecido como pantera-nebulosa. A espécie é nativa da ilha de Taiwan e não era vista há mais de 30 anos. O desaparecimento da espécie foi causado pela intensa destruição dos seus antigos habitats. Os remanescentes da espécie migraram para uma região montanhosa e bastante isolada do país. 

As redescobertas de espécies consideradas extintas também acontecem aqui no Brasil. Um caso relativamente recente é o da rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis), uma ave que era considerada extinta há 75 anos e que voltou a ser avistada em 2016 (vide foto). A espécie é exclusiva do bioma Cerrado. 

Desde então já foram feitos mais de uma dúzia de avistamentos de aves dessa espécie, especialmente em duas regiões muito próximas no Estado de Minas Gerais. Segundo os pesquisadores, é preciso transformar esses locais em áreas de preservação permanente, garantindo assim a proteção da espécie. 

Um outro caso também ligado ao bioma Cerrado foi o avistamento de uma saíra-de-cabeça-azul (Tangara cyanicollis albotibialis ) em 2021, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. A última vez que um exemplar da espécie foi avistado foi em 1929. Em 1980, dois pesquisadores supostamente avistaram um espécime na mesma região, porém, não conseguiram fazer um registro fotográfico para uma confirmação posterior. 

Qualquer ser vivo, seja ele um animal ou um vegetal, é o resultado de um longo processo evolutivo transcorrido ao longo de muitos milhões de anos. Esse processo foi influenciado pelo meio ambiente, onde entram fatores como fontes de alimentação e/ou de nutrientes, predadores, clima, disponibilidade de água, entre muitos outros. 

Um exemplo extremamente didático dessa evolução é o caso dos tentilhões das Ilhas Galápagos, pássaros que ajudaram o naturalista Charles Darwin na formulação da sua teoria da seleção natural e que foi apresentada na obra A Origem das Espécies, publicada em1859. O bico das diferentes espécies sofreram mudanças por causa da diferente disponibilidade de alimentos nas diferentes ilhas do arquipélago. Darwin conclui que, originalmente, havia uma única espécie de tentilhão e que as mudanças nos bicos se deu através de um longo processo de seleção natural.

Quando uma espécie entra em extinção, uma “janela” da vida se fecha para nunca mais se abrir. Reencontrar uma espécie, que todos consideravam extinta, viva e cheia de saúde é uma alegria inominável. 

AS “GIRAFAS” DA AMAZÔNIA 

Em uma postagem publicada aqui no blog em 21 de agosto de 2019, falamos da “chuva-negra” que caiu na cidade de São Paulo três dias antes. Essa surpreendente chuva com águas cor de chá mate foi o resultado de grandes nuvens de fumaça criadas pelas queimadas que naquele momento destruíam grandes áreas da Amazônia e que foram arrastadas para a Região Sudeste por fortes correntes de vento. 

Essa notícia correu o mundo e políticos, famosos e artistas começaram a falar das “grandes queimadas que estavam transformando a Amazônia em cinzas“. Emmanuel Macron, Presidente da França, publicou em seu blog fotos de antigas queimadas (inclusive de um fotógrafo já morto). O jogador de futebol Cristiano Ronaldo foi mais infeliz – usou fotos de uma grande queimada nos Pampas Sulinos. Muitas outras celebridades internacionais também deram as suas “contribuições” na ocasião. 

O clima de destruição da Floresta Amazônica também inspirou muitos artistas, blogueiros e influencers brazucas a externarem os seus protestos. Uma blogueira postou uma foto com uma grande pintura corporal onde mostrava o impacto das chamas na Amazônia sobre os animais silvestres (vide foto). Entre as muitas espécies de animais retratados apareciam um coelho e uma girafa, animais que não fazem parte da fauna brasileira. Apesar das boas intenções da jovem, as “girafas da Amazônia” viraram motivos de chacota por todos os lados. 

Como falamos da extinção de animais da fauna brasileira em nossa última postagem e sem querer chatear muita gente, o território brasileiro – incluindo-se a região onde se encontra hoje a Floresta Amazônica, foi habitada num passado remoto por uma animal de pescoço comprido que ocupava exatamente o mesmo nicho ecológico das girafas africanas.  

Estou falando da Macrauchenia, um animal estranho com um corpo muito parecido com o de um cavalo ou de uma lhama, patas com três dedos e uma cabeça comprida com uma pequena tromba. Algumas das espécies podiam atingir uma altura de até 3 metros e um peso que podia superar a casa de 1 tonelada. Essa “girafa” sul-americana desapareceu, junto com outros grandes animais, há cerca de 10 mil anos. 

A Macrauchenia se junta a uma enorme lista de mamíferos de grande porte que habitaram e reinaram por toda a América do Sul por dezenas de milhões de anos. Por razões ainda não totalmente esclarecidas, esses animais entraram subitamente em extinção, nos deixando apenas um importante registro fóssil. 

Apesar das incertezas sobre o fim desses animais, sabemos como sua história de vida começou – falamos aqui da fragmentação do antigo supercontinente de Gondwana. Até cerca de 160 milhões de anos, a América do Sul, Antártida, África, Ilha de Madagascar, Índia, Austrália, Nova Zelândia e algumas ilhas menores formavam um único bloco continental. 

Com o movimento das Placas Tectônicas (pesquise sobre a Deriva dos Continentes), essa grande massa de terras contínuas começou a se fragmentar e os “pedaços” começaram a se movimentar em diferentes direções, formando a atual configuração de nossos dias. 

Por aproximadamente 70 milhões de anos, ao longo de grande parte da Era Cenozoica, a América do Sul esteve completamente separada de outras massas terras e formou uma grande ilha. Durante esse longo intervalo de tempo, a região assistiu à evolução isolada de toda uma série de mamíferos de grande porte endêmicos que passaram a ser conhecidos como Megafauna Sul-americana

Além das já citadas “girafas”, essa fauna tinha outros animais enormes como as preguiças-gigantes ou terrícolas, com algumas espécies que podiam atingir mais de 6 metros de comprimento e um peso de 4 toneladas. Para efeito de comparação, o maior mamífero sul-americano da atualidade, a anta (Tapirus terrestris), alcança um peso máximo de 320 kg. 

Outro tipo impressionante eram os Gliptodontes, animais muito parecidos com os tatus, porém, de tamanho equivalente a um carro popular. O animal tinha o corpo coberto por uma carapaça óssea e fortes patas, chegando a 3 metros de comprimento, 1,5 metro de altura e peso na casa de 1 tonelada. 

Um outro grupo de porte semelhante eram os Toxodontes, animais que tinham uma aparência semelhante à dos atuais rinocerontes, chegando a uma altura de 2 metros. Viviam próximos de cursos d`água e, muito provavelmente, tinham hábitos semiaquáticos. 

Também merecem destaque nessa breve lista os proboscídeos, grupo de animais aparentados com os atuais elefantes. Uma dessas espécies sul-americanas era o Notiomastodon platensis que tinha um comprimento de cerca de 5 metros e uma altura de 2,5 metros, pesando aproximadamente 4 toneladas. 

Segundo o registro fóssil, esses animais provavelmente viviam em grandes bandos formados por fêmeas, filhotes e animais jovens. Sua dieta era composta por gramíneas, arbustos e frutas. Essas são características muito parecidas com as das três espécies de elefantes modernos. 

As extensas pastagens do território brasileiro e de países vizinhos também abrigavam grandes rebanho de cavalos primitivos, animais que só voltariam a viver na América do Sul após a conquista e colonização pelas nações Ibéricas a partir do século XV. Existem inúmeras outras espécies de animais da megafauna pré-histórica – pesquise.

E o que levou toda essa grande variedade de espécies animais a uma súbita extinção? 

Entre 2 e 4,2 milhões de anos atrás, ou ainda há 23 milhões de anos (ainda não há consenso entre os especialistas sobre uma data exata), se formou o Istmo do Panamá ou Istmo Centro-americano, uma ponte de terra que uniu a grande ilha da América do Sul à grande massa de terras formada pelas Américas do Norte e Central, criando um corredor para a migração da vida natural – espécies animais e vegetais que se desenvolveram isoladamente nas duas áreas passaram a migrar nos dois sentidos. 

Entre as diversas espécies de animais que migraram para a América do Sul, encontramos alguns predadores poderosos como o Smilodon. Uma dessas espécies, o Smilodon populator, era um felino de grande porte que possuía uma altura de 1,2 metro, cerca de 2,1 metros de comprimento e um peso de 400 kg. Uma característica marcante dos Smilodons eram os seus grandes dentes caninos, que podiam atingir um comprimento de até 28 cm num formato curvo. Esses animais são conhecidos popularmente como tigres-de-dentes-de-sabre. 

Os Smilodons devem ter sido animais solitários que vagavam pelas extensas planícies em busca de presas de grande porte como as preguiças-gigantes e os mastodontes, alterando completamente o antigo equilíbrio ambiental. Antes da chegada dos Smilodons, esses grandes animais não tinham predadores naturais à altura.

Mudanças climáticas e suas consequentes alterações na vegetação também podem ter contribuído para a extinção de muitas dessas espécies animais. Um exemplo – durante muito tempo a Amazônia foi coberta por uma vegetação muito parecida com o Cerrado. Por fim, há cerca de 15 mil anos atrás, um outro grande predador chegou na América do Sul e pode ter sido o responsável final pela extinção da antiga megafauna – os seres humanos. Os últimos exemplares da megafauna desapareceram há cerca de10 mil anos atrás. 

Como se vê, a extinção de espécies animais (e também vegetais) costuma ter causas múltiplas, inclusive com a contribuição dos seres humanos. 

ANIMAIS EXTINTOS DA FAUNA BRASILEIRA 

O processo de “desextinção” do tigre-da-Tasmânia, que está sendo desenvolvido por pesquisadores da Escola de Biociências da Universidade de Melbourne e sobre o qual falamos na última postagem, poderá resultar em uma série de tecnologias que poderão ser usadas para o resgate de outras espécies já extintas e, principalmente, para a salvação de espécies seriamente ameaçadas de extinção. 

Existem milhares de espécies ameaçadas em todo o mundo. Aqui no Brasil, de acordo com informações do ICMBIO – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, existem 1.173 táxons ou grupos de animais ameaçados oficialmente. São 110 mamíferos, 234 aves, 41 anfíbios, 353 peixes ósseos (310 de água doce e 43 marinhos), além de 299 invertebrados

Na classificação do ICMBIO 448 espécies são consideradas Vulneráveis (VU), 406 Em Perigo (EN) e 318 Criticamente em Perigo (CR). A parte mais triste é que várias espécies já foram consideradas oficialmente extintas. Segue um breve resumo com algumas dessas espécies: 

Maçarico-esquimó (Numenius borealis) 

Ave migratória que era abundante até meados do século XIX. O declínio populacional teve início por causa da caça intensiva nos Estados Unidos, além da destruição das Pradarias norte-americanas e dos Pampas da América do Sul. Os últimos registros da espécie na América do Norte datam do período entre 1987 e 1992. No Brasil, onde a espécie é considerada Regionalmente Extinta, não foi feito nenhum avistamento desde 1930. 

Essas aves faziam migrações anuais entre o Canadá e a Argentina, realizando várias paradas para descanso e alimentação dentro do território brasileiro, especialmente em áreas de estuários, alagados e brejos. É possível que ainda existam exemplares vivos da espécie em outros países ao longo da rota de migração ancestral. 

Rato-de-Noronha (Noronhomys vespuccii

Essa espécie era endêmica da Ilha de Fernando de Noronha e pode ter sido o primeiro mamífero do país a ser extinto ainda no século XVI. A provável causa da extinção dessa espécie foi a introdução involuntária de ratos das espécies Mus musculus, mais conhecidos como camundongos, Rattus rattus e Rattus norvegicus, conhecidos popularmente como ratazanas e gabirus.  

Esses ratos invasores embarcaram como clandestinos nas naus dos primeiros colonizadores portugueses e, ao desembarcarem na ilha, iniciaram um processo de competição pelos recursos naturais. A espécie só se tornou conhecida a partir do estudo de restos fósseis encontrados na ilha. 

Caburé-de-Pernambuco (Glaucidium mooreorum) 

Essa pequena coruja (vide foto) era encontrada em área úmidas do litoral de Pernambuco. O último avistamento documentado da espécie se deu em 1980 e houve um registro sonoro em 1990. A intensa degradação da Mata Atlântica é a principal causa da extinção da espécie. 

Limpa-folha-do-nordeste (Philydor novaesi) 

Outra espécie de ave do trecho nordestino da Mata Atlântica que desapareceu por causa da destruição do seu habitat. Era encontrada entre os estados de Alagoas e de Pernambuco. Seu último avistamento data de 2013. 

Gritador-do-nordeste (Cichlocolaptes mazarbarnetti

Essa espécie de ave era encontrada na mesma região em que vivia o limpa-folhas-do-nordeste e desapareceu pelas mesmas razões. Nenhum exemplar da espécie voltou a ser avistado desde 2007. 

Arara-azul-pequena (Anodorhynchus glaucus) 

Essa espécie era encontrada numa faixa entre o Leste do Paraguai, o Norte da Argentina, o Oeste do Uruguai e o Sul do Brasil. Já em meados do século XIX passou a ser considera rara na natureza e o último avistamento aqui no Brasil se deu em 1912. Além da intensa destruição das áreas florestais dessa região por causa das atividades agropecuárias, a espécie era intensamente caçada para venda como animal de estimação. 

Peito-vermelho-grande (Sturnella defilippi) 

Essa ave era encontrada no Sul do Brasil e também na Argentina e Uruguai. O último avistamento da espécie no Brasil se deu há mais de cem anos. A destruição de matas e campos para a criação de áreas agrícolas e pastos para a pecuária é considerada a principal causa da extinção local da espécie. 

Tubarão-dente-de-agulha (Carcharhinus isodon

Essa é uma espécie costeira de médio porte que era encontrada ao longo da costa do Oceano Atlântico desde os Estados Unidos até o Sul do Brasil. Nenhum exemplar da espécie foi avistado no país há mais de 40 anos. A pesca de arrasto é apontada como a principal causa da extinção. 

Além dessas espécies consideradas oficialmente extintas no país, é provável que muitas outras que desapareceram de nosso território ao longo de nossa colonização antes de serem catalogadas pela ciência. 

O caso mais emblemático é o da Mata Atlântica, especialmente no seu trecho nordestino, que foi, literalmente, dizimado ao longo dos três primeiros séculos de nossa colonização. Conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, essa faixa da floresta que ia do Sul da Bahia ao Rio Grande do Norte foi derrubada sistemática e implacavelmente para a formação de grandes campos de cana-de-açúcar. 

Outros trechos da Mata Atlântica sucumbiram depois diante do avanço dos cafezais na Região Sudeste, da mineração em Minas Gerais, onde as árvores eram derrubadas e transformadas no carvão que alimentava os fornos das metalúrgicas e siderúrgicas, da exploração madeireira na Região Sul, entre outras causas. Quantas foram as espécies que habitavam essas matas e que desapareceram para sempre sem que saibamos? 

Além de todos os cuidados com a conservação dos remanescentes florestais onde muitas espécies ainda conseguem sobreviver, é preciso criar mecanismos para a ampliação das áreas protegidas e de criação de corredores de biodiversidade para a interligação de fragmentos florestais isolados

Dentro desses esforços de conservação de espécies, a simples perspectiva da criação de tecnologias que permitam a “desextinção” de uma espécie num futuro mesmo que distante sempre serão bem-vindas. 

A “DESEXTINÇÃO” DO TIGRE-DA-TASMÂNIA

Os filmes de ficção científica estão cheios de exemplos de animais extintos que voltam a vida depois de intensa manipulação genética de restos do seu DNA. Um exemplo fácil de lembrar é o da franquia cinematográfica Jurassic Park, onde cientistas conseguem extrair resíduos de sangue de um mosquito que ficou preso em âmbar, uma resina vegetal fossilizada. Pouco antes de morrer, esse mosquito havia picado um dinossauro. 

Os “cientistas” da ficção desenvolveram uma tecnologia que permitia a reconstrução de segmentos do DNA do animal extinto usando genes de anfíbios. O resultado de todos esforços foi o retorno à vida de toda uma série de répteis pré-históricos como velociraptores, triceraptores, pterodontes, além do temível Tiranossauro Rex. A ideia dos criadores do projeto era de criar um parque para visitação dos dinossauros em uma ilha, o que acabou não dando muito certo. 

No mundo real existem vários projetos científicos onde se busca trazer de volta a vida algumas espécies animais extintas em períodos bem mais recentes. Um exemplo é o mamute lanoso siberiano – diversos espécimes congelados vêm sendo encontrados presos em blocos de gelo na Sibéria há várias décadas. Os cientistas esperam extrair e manipular o DNA do animal extinto e inserir no óvulo de um elefante, um parente relativamente próximo dos mamutes. 

O que pareceu relativamente simples de se fazer nos filmes de ficção científica é infinitamente mais complexo na vida real. Extrair DNA em boas condições, mesmo a partir do corpo bem preservado de um animal congelado, e conseguir combiná-lo com o material genético de animal vivo requer uma série de tecnologias que ainda vão necessitar de muitos anos de estudo e de pesados investimentos. 

Além desses “pequenos problemas” técnico-científicos, existem grandes questões éticas a serem consideradas. No caso dos mamutes, sua extinção foi provocada por bruscas mudanças ambientais em seus habitats de origem natural. A espécie seguiu por um caminho evolutivo ao longo de milhões de anos e, repentinamente, entrou num “beco sem saída” evolucionário. Faz sentido trazer de volta a vida esse animal? 

Por outro lado existem dezenas de milhares de espécies contemporâneas que sofrem todo o tipo de ameaças, sendo que muitas delas estão a caminho da extinção. Para a maioria dos pesquisadores faz muito mais sentido usar os recursos disponíveis para tentar salvar essas espécies, deixando espécies já extintas para algum outro momento histórico.

Existem alguns casos, entretanto, onde espécies animais foram levadas a extinção devido a impactos criados pelos seres humanos e até poderia fazer sentido empenhar grandes esforços científicos para o seu renascimento. Podemos citar o caso das moas da Nova Zelândia, espécies de aves gigantes que foram levadas à extinção menos de dois séculos depois da chegada dos seres humanos a essas ilhas no final do século XIII. 

Um desses projetos, que caminha a largos passos, é o do tigre-da-Tasmânia (Thylacinus cynocephalus), também chamado de lobo-da-Tasmânia e tilacino. O último avistamento de um exemplar da espécie na natureza se deu em 1932 – o último animal mantido em cativeiro morreu em 1936 no Zoológico de Hobart, capital da Tasmânia. 

Pesquisadores da Escola de Biociências da Universidade de Melbourne, no Sul da Austrália, vem se dedicando há vários anos no trabalho de “desextinção” da espécie. Recentemente, o grupo de pesquisa recebeu um aporte de US$ 5 milhões de uma fundação filantrópica, recurso que poderá acelerar os trabalhos. 

O primeiro passo foi o sequenciamento completo do genoma do tigre-da-Tasmânia, concluído em 2017. Os cientistas retiraram amostras de tecido de filhotes desses animais que foram conservados em formol. O próximo passo será a construção de um laboratório de ponta, onde os trabalhos seguirão em três frentes: a compreensão completa do genoma da espécie, o desenvolvimento de técnicas para uso de células-tronco de marsupiais e, por fim, a criação de um embrião pronto para transferência para um útero hospedeiro. Entre as espécies cogitadas para gestar os animais estão o diabo-da-Tasmânia e o canguru. 

Os pesquisadores acreditam que todo o processo poderá estar completo dentro de dez anos. Além da possibilidade de trazer de volta a vida uma espécie desaparecida há mais de 80 anos, todos os conhecimentos acumulados poderão ser usados em processos de regeneração de outras espécies de marsupiais em risco iminente de extinção. 

Os marsupiais fazem parte de uma infra classe de mamíferos que se distinguem dos demais por sua fisiologia e anatomia reprodutiva. As gêmeas não possuem uma placenta completa – os filhotes nascem precocemente e terminam o seu desenvolvimento dentro de um marsúpio, uma espécie de bolsa provida com glândulas mamárias. Exemplos de marsupiais são os cangurus, os gambás e as cuícas. 

Apesar de sua aparência lembrar muito um lobo (o nome tigre foi dado por causa das listas no pelo do animal), o tigre-da-Tasmânia é um desses marsupiais. Sua aparência foi o resultado do seu processo evolutivo, algo que é conhecido em biologia como evolução convergente, ou seja, quando duas espécies sem relações e sem um ancestral em comum, apresentam uma característica semelhante. 

Um exemplo atual que ilustra esse processo são as fossas (Cryptoprocta ferox) da Ilha de Madagascar. Trata-se de um mamífero carnívoro com aspecto que lembra muito um felino, porém, as relações de parentesco estão mais próximas das fuinhas, uma espécie de furão. 

Num passado remoto, os tigres-da-Tasmânia ocupavam todo o território da Austrália. A saga da espécie começou a mudar há cerca de 65 mil anos, época em que os primeiros grupos humanos começaram a chegar ao grande continente insular. Esses humanos vinham acompanhado de cães domésticos, que depois se transformaram em animais selvagens – os dingos. 

Os dingos (Canis lupus dingo ou Canis dingo) gradualmente foram expandindo o seu território e passaram a ocupar o mesmo nicho ecológico dos tigres-da-Tasmânia. Há cerca de 3 mil, os animais desapareceram da Austrália e passaram a ficar restritos ao território da Tasmânia, uma grande ilha localizada no Sudeste australiano. 

Desde o início do processo de colonização da Tasmânia no século XIX, os “tigres” passaram a serem vistos como uma séria ameaça aos rebanhos de ovelha, algo que nunca foi comprovado. Os animais foram caçados impiedosamente até a sua extinção completa na natureza no início da década de 1930. Se tudo correr bem, quem sabe veremos novamente os tigres-da-Tasmânia correndo livremente pelas matas e campos da ilha dentro de poucos anos. 

Essa espécie de “acerto de contas” dos australianos com seu passado poderá ser benéfica para outras espécies ameaçadas, especialmente dos marsupiais. Pelo passado geológico da América do Sul, que durante milhões de anos formou um único continente junto com a África, Antártida, Índia, Ilha de Madagascar, Austrália, Nova Zelândia, entre outras ilhas – o famoso continente de Gondwana, existem diversas espécies de marsupiais aqui no Brasil. 

São gambás e cuícas entre outras 60 espécies nativas. Muitos desses animais estão ameaçados pelos desmatamentos e avanços das frentes agrícolas. Quem sabe, toda essa tecnologia genética que está sendo desenvolvida para “desextinção” do tigre-da-Tasmânia possa vir a ser usada para salvar nossas espécies da extinção. 

O GRANDE POTENCIAL PARA O DESENVOLVIMENTO DA PSICULTURA NA AMAZÔNIA

A piscicultura vem crescendo fortemente aqui em nosso país já há alguns anos. Falamos disto em nossa última postagem, onde enfatizamos bastante os esforços para o desenvolvimento dessas atividades nos reservatórios das grandes usinas hidrelétricas. 

Como é do conhecimento de todos, o Brasil é um dos campões mundiais em geração de energia elétrica renovável, com grande destaque para a geração hidráulica. Apesar dos grandes problemas ambientais e sociais que a formação de uma barragem de uma usina hidrelétrica cria – cito como exemplo Tucuruí e Sobradinho. Resolvida a maior parte dessas questões (é possível compensar muita coisa, mas alguns problemas criados serão irremediáveis) a geração nessas usinas é sustentável. 

A partir do momento que se dispõe de um grande espelho d`água, o desenvolvimento de projetos de piscicultura passa a fazer todo o sentido. É claro que, conforme comentamos anteriormente, existem inúmeras questões ambientais sérias que precisam ser consideradas. Aqui se incluem desde a grande concentração de resíduos da criação (fezes, restos de ração, etc) até os riscos de fuga de espécimes exóticas das “gaiolas” para a calha dos rios.  

No texto da postagem ressaltamos que 6 dos reservatórios de usinas hidrelétricas que estão sendo considerados para projetos de piscicultura ficam na Região Amazônica, onde as restrições e os cuidados ambientais precisam ser redobrados. Pela importância desse tema, vamos falar um pouco mais sobre isso. 

Os mais de mil rios que formam a gigantesca Bacia Amazônica concentram, segundo algumas estimativas, perto de 20% de toda a água doce do planeta e, é claro, abrigam uma fabulosa fauna aquática – mais de 2.100 espécies de peixes amazônicos já foram catalogadas pelos pesquisadores e há a certeza que ainda existem muitas espécies mais a serem descobertas.  

Esse ambiente de matas e águas da Floresta Amazônica apresenta todas as condições para a criação de peixes de alto valor comercial em cativeiro e em grandes quantidades. O pirarucu é uma das espécies que já vêm sendo criadas em cativeiro e com muito sucesso. É também um dos peixes da região de maior apelo culinário pelas populações locais. 

O pirarucu (Arapaima gigas) é o maior peixe de escamas do Brasil e um dos maiores do mundo. Pirarucus adultos podem chegar a um comprimento de até 3,5 metros e a um peso de 250 kg. Porém, devido à super exploração da pesca da espécie, animais desse porte são cada vez mais raros nos rios da Bacia Amazônica.  

O pirarucu é chamado popularmente de “bacalhau da Amazônia”. A origem dessa denominação tem suas raízes nos tempos do Brasil Colônia, quando as fazendas dos sacerdotes Jesuítas da Amazônia preparavam e salgavam os pirarucus pescados pelos indígenas a seu serviço, que acabavam sendo exportados para Portugal e lá eram vendidos como se fosse um autêntico bacalhau português.  

Os religiosos aplicavam esse mesmo engodo com ervas nativas e temperos da Floresta Amazônica e de outros biomas brasileiros – as “drogas do sertão”, que eram processadas e vendidas na Europa como “legítimas especiarias do oriente”. O próprio pau-brasil (Paubrasilia echinata, chamada antigamente de Caesalpina echinata), que foi explorado até praticamente o seu esgotamento na Mata Atlântica, é um “genérico” da espécie nativa do Sul e Sudeste da Ásia, o pau-brasil-da-Índia (Caesalpina sappam). 

Quando ainda está nas fases de alevino ou é jovem, o pirarucu se alimenta basicamente de plâncton, plantas e animais microscópicos nas comunidades bentônicas do leito dos rios ou que vivem livres nas águas. Conforme os animais vão crescendo, a dieta passa a incluir pequenos peixes. 

O pirarucu é onívoro e come qualquer coisa que apareça na sua frente: peixes, crustáceos, vermes, insetos, anfíbios, cobras, filhotes de tartaruga, entre outras presas. O peixe também é um grande apreciador de frutas e castanhas que eventualmente apareçam boiando nas águas. 

Na época das chuvas – o famoso “inverno amazônico”, quando os grandes rios transbordam e avançam quilômetros floresta adentro, os pirarucus migram para as áreas de mata alagada em busca de alimentos. Nesses locais os peixes dão verdadeiros saltos acrobáticos para pegar frutas e castanhas que estejam acima das águas.  

Aliás, esse é um ponto bastante interessante da ecologia dos rios da Bacia Amazônica e que a maioria dos “grandes defensores da floresta” desconhecem – as dificuldades de pesca durante as cheias dos rios da região. Assim como fazem os pirarucus, as outras espécies de peixes também migram temporariamente da calha dos rios para as áreas alagadas em busca de outras fontes de alimento. 

Para as populações ribeirinhas, o período das cheias é uma época de dificuldades e de escassez. Os peixes, alimento básico, se torna raro. A água potável dos pequenos igarapés próximos das casas (a água dos grandes rios da Amazônia possui grande carga de sedimentos e não é potável) fica indisponível e é preciso fazer longas jornadas de canoa para buscar água fresca em nascentes. Por fim, as pequenas hortas e roçados de subsistência ficam embaixo d`água. 

Além dos pirarucus, existe toda uma infinidade de espécies de peixes de alto valor comercial que são encontradas facilmente nos mercados da Região Amazônica e que, com toda a certeza, poderiam agradar o paladar de consumidores de todo o Brasil e do mundo. Muitas dessas espécies já são criadas em cativeiro. Vejam alguns poucos exemplos:  

Matrinxã (Brycon cephalus): Pode atingir até 80 cm de comprimento e um peso de 5 kg. Existem estudos para o seu uso como uma alternativa às sardinhas. É parente muito próximo das espécies piraputanga, pirapitinga, piracanjuba e piabanha; 

Tambaqui (Colossoma macropomum): Peixe com uma carne saborosa e muito apreciado na culinária amazônica, que pode atingir até 40 kg de peso;   

Tucunaré (Cichla sp): Uma espécie que se reproduz facilmente em cativeiro e que atinge um peso entre 4 e 6 kg;   

Curimbatá ou curimatã (Prochilodus sp): É outra espécie que possui uma carne muito saborosa e que se adapta facilmente à produção em cativeiro. Encontrado também em outras bacias hidrográficas do Brasil;  

Piraíba, piratinga ou pirananbu (Brachyplatystoma filamentosum): Espécie que pode atingir até 2,5 metros de comprimento e peso de até 300 kg. Os espécimes mais jovens são chamados popularmente de “filhotes”. Na foto que ilustra essa postagem eu apareço ao lado de um desses “filhotes” numa visita ao Mercado Ver-o-Peso em Belém do Pará em 2010; 

Pirarara (Phractocephalus hemioliopterus): Espécie que pode atingir até 1,5 metro de comprimento e 60 kg de peso. Como os pirarucus, essa espécie é onívora e come qualquer coisa que cruzar o seu caminho.  

A piscicultura comercial em grande escala pode ser mais uma excelente alternativa econômica para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Além de garantir o suprimento contínuo de peixes para as populações, é uma produção que, devidamente gerenciada e fiscalizada, pode ser altamente sustentável, gerando emprego e renda para as populações com preservação ambiental. 

Porém, é fundamental que as espécies criadas em tanques comercias sejam da ictiofauna nativa da Amazônia. Os poucos exemplos citados no texto já mostram o enorme potencial das espécies nativas. Nada de ficar falando de espécies como carpas asiáticas, percas-do-Nilo e tilápias, peixes que poderiam criar enormes problemas ambientais se introduzidos nesse grande ecossistema. 

O CRESCIMENTO DA AQUICULTURA NO BRASIL

Na postagem anterior falamos do uso de insetos de algumas espécies como fonte de proteína para alimentação humana. Essa é uma ideia que causa asco em muita gente, mas que poderá significar o barateamento desses alimentos para populações pobres de todo o mundo. 

De acordo com os especialistas algumas espécies de insetos podem fornecer quantidades adequadas de proteínas e vitaminas a um custo bem inferior que as tradicionais carnes utilizadas na alimentação humana como a de bovinos, suínos e aves. Além disso, o impacto ambiental dessa produção seria bem menor. 

Aqui no Brasil (felizmente), ainda temos muitas opções antes que seja necessário chegar a esse ponto. Além da grande disponibilidade de áreas agricultáveis para a produção de grãos destinados a fabricação de rações para a engorda de animais criados em cativeiro, ainda dispomos de boas pastagens para a criação extensivas de bovinos. Ou seja, ainda estamos bem longe dos hambúrgueres de farinha de grilo que citamos na postagem anterior. 

Uma das proteínas animais cuja produção vem ganhando relevância cada vez maior aqui em nosso país é a dos peixes. De acordo com dados divulgados recentemente pela PeixeBR – Associação Brasileira da Piscicultura, e referentes ao período 2020/2021, a produção nacional cresceu 5,93%. Foram 802.930 toneladas, com destaque para as tilápias. 

Segundo dados da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, a produção brasileira foi de 257 mil toneladas em 2005, o que demonstra um crescimento superior a 200% em cerca de 15 anos. E o melhor – o país tem condições de aumentar ainda mais essa produção em muito pouco tempo. 

Desde 2020, o Governo Federal vem desburocratizando as concessões de licenças para a criação de peixes em cativeiros nos reservatórios de grandes usinas hidrelétricas do país. Essa lista inclui 73 reservatórios, onde cerca de 60 poderiam ser usados para a criação de espécies exóticas como as tilápias. Outros 13 reservatórios – sendo 6 na Amazônia, seriam restritos a criação de espécies nativas. 

Um outro projeto que segue em discussão é o uso do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu para piscicultura em cativeiro. Essa proposta depende da autorização do Congresso do Paraguai, país que tem a soberania sobre metade das águas do reservatório. De acordo com projeções já divulgadas, o uso do Lago de Itaipu sozinho tem potencial para aumentar a produção nacional de peixes em 40%. 

Apesar dos bons e animadores números, essa é uma questão que requer uma série de cuidados ambientais, a começar pelos riscos de fuga de peixes exóticos para águas de rios brasileiros. Conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, a introdução de espécies animais em vegetais em novos ambientes cria uma série de problemas. 

O caso mais recente, que apresentamos há poucos dias atrás, é o dos estorninhos, uma ave de origem euroasiática que começou a invadir o Brasil através do Rio Grande do Sul. Esses pássaros passaram a ser importados e vendidos como animais de estimação na Argentina na década de 1980. Muitos espécimes fugiram dos seus cativeiros e/ou foram soltos, passando a colonizar novos territórios rapidamente. 

Um caso mais dramático e bem mais convergente com o atual é o das carpas asiáticas que invadiram as bacias hidrográficas dos rios Mississipi, Missouri e Ohio, nos Estados Unidos. Essa espécie, largamente utilizada em criações comerciais, foi introduzida no país por piscicultores do Sul americano na década de 1970, e, em uma das inúmeras enchentes do rio Mississipi, os peixes escaparam e passaram a colonizar o leiro do rio. 

Sem encontrar predadores naturais, dispondo de grandes estoques de alimentos e possuindo uma alta taxa de natalidade – cada fêmea da espécie possui em seu ventre cerca de 1 milhão de ovas, as carpas encontraram um meio ambiente ideal e suas populações passaram a aumentar descontroladamente. Segundo as autoridades norte-americanas, a espécie passou a avançar 80 km a cada ano dentro das bacias hidrográficas, ameaçando as espécies locais. 

Já existem inúmeros casos de espécies exóticas de peixes que foram introduzidas em rios aqui do Brasil e precisamos ficar em alerta para que outras introduções, mais dramáticas, venham a ocorrer. Imaginem a possibilidade de algum piscicultor resolver criar percas-do-Nilo em águas de um desses reservatórios. 

A perca-do-Nilo é um predador de topo na cadeia alimentar, que pode superar os 250 kg de peso e atingir um comprimento de até 2 metros. Como o nome indica, o peixe é originário da bacia hidrográfica do rio Nilo. Em meados da década de 1950, sabe-se lá como, a espécie foi introduzida no Lago Vitória com o objetivo de aumentar a produção pesqueira, o que acabou se transformando em um verdadeiro desastre ambiental. Veja detalhes nesse link

A ideia de aumentarmos e produção de pescados aqui no Brasil e, assim, permitirmos um acesso cada vez maior de populações mais pobres a uma proteína de ótima qualidade e baixo custo é tentadora. Porém, todos os cuidados ambientais devem ser considerados. 

Nossos rios já sofrem com problemas criados pela poluição, pelos desmatamentos, pela mineração (legal e ilegal), entre muitos outros. Estimularmos a produção de peixes em cativeiro sem maiores cuidados ambientais poderá aumentar, e muito, os problemas já existentes. 

Convém que redobremos a nossa atenção a fim de acompanharmos os processos de implantação desse tipo de empreendimento em reservatórios brasileiros. Vai que algum maluco resolva criar piranhas ou algum outro tipo de “peixe brabo” num desses lagos… 

QUE TAL UM HAMBÚRGUER FEITO COM FARINHA DE GRILO E LARVAS PARA O LANCHE DA TARDE? 

O mundo poderá enfrentar, dentro de poucos meses, uma forte escassez de alimentos. Essa crise vem se agravando há mais de dois anos e poderá ser acelerada com a crise militar entre a Ucrânia e a Rússia. 

O primeiro componente dessa crise surgiu com a pandemia da Covid-19. Diversos países adotaram políticas de restrição à livre circulação de pessoas, o que teve como consequência uma falta de mão de obra em campos agrícolas de diversos países – especialmente na Europa. 

A recente invasão da Ucrânia por tropas russas está criando uma série de novos problemas – os dois países envolvidos no conflito são grandes produtores de grãos como o trigo e o milho, produtos que farão falta no mercado internacional. Rússia e Ucrânia respondem por mais de 25% das exportações mundiais de trigo, 14% das de milho e 58% das exportações globais de óleo de girassol, entre outras culturas

Outra consequência do conflito é uma interrupção brusca no fornecimento de fertilizantes – o Brasil, citando um exemplo, é grande dependente de fertilizantes produzidos na Rússia e em sua aliada Belarus. Nas últimas décadas, o Brasil se transformou em um grande produtor e exportador de grãos como a soja e o milho. Nos solos pobres do Cerrado brasileiro, maior celeiro do país, o uso de fertilizantes e fundamental.

Além disso, nosso país também é um grande produtor e exportador de carne bovina, suína e de aves. Um detalhe importante – parte importante das rações servidas a esses animais depende da produção de grãos pela nossa agricultura. Se faltam fertilizantes no campo, a produção de grãos cai e vai faltar ração para a engorda dos animais – é uma redução da produção de alimentos em cascata. 

Também entram nessa complicada equação uma série de problemas climáticos que vem assolando várias partes do mundo e que reduziram os volumes de produção de muitas culturas. Aqui no Brasil várias regiões produtoras enfrentaram um longo período de seca, o que reduziu a produção da soja e do milho. Outro complicador surgiu em algumas regiões que passaram por fortes chuvas justamente na hora da colheita

Completando a lista de problemas, a China, o país mais populoso do mundo, vem aumentando sistematicamente as suas importações de alimentos, o que acaba elevando os preços. De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, o preço dos alimentos em 2021, atingiu o maior patamar desde 1975

Dentro deste cenário de escassez de alimentos, uma antiga ideia poderá voltar a ganhar força – a popularização do consumo de proteínas alimentares feitas a partir de insetos. Essa é uma ideia repugnante para muita gente apesar de um número cada vez maior de especialistas afirmaram que, além de excelente fonte de proteínas, o consumo de insetos é benéfico ao meio ambiente. 

Em muitas regiões do mundo o consumo de insetos é visto com naturalidade. Nos mercados populares da China não é nada difícil encontrar petiscos como espetinhos de grilo e gafanhotos, além de outros pratos onde algum tipo de inseto faz parte dos ingredientes. Sem precisar ir tão longe – aqui no Vale do Paraíba, no Leste do Estado de São Paulo, muita gente se esbalda com a farofa de içá, uma iguaria que tem como ingrediente o abdome de formigas saúvas ou tanajuras. 

Existe um ramo da ciência conhecido como entomofagia que se dedica ao estudo de insetos que podem ser usados na alimentação humana. Segundo os levantamentos mais recentes existem cerca de 1.500 espécies de insetos comestíveis, que são consumidos por quase 3 mil grupos étnicos em mais de 120 países. Os grupos de insetos comestíveis mais populares são o dos coleópteros (besouros), com cerca de 443 espécies, seguido pelos himenópteros (vespas, abelhas e formigas), com 307 espécies, e pelos ortópteros (gafanhotos e grilos), com 235 espécies. 

De acordo com diversos estudos realizados por especialistas, esses insetos fornecem quantidades satisfatórias de proteínas e lipídeos, além de serem ricos em sais minerais e vitaminas. Na opinião desses cientistas, é essencial mudar os hábitos das populações e as ideias a respeito do consumo de insetos na alimentação diária. Além de excelente fonte de nutrientes, a criação em escala comercial de insetos gera impactos ambientais muito menores do que as tradicionais criações de animais que conhecemos.

Seguindo essa “onda”, surgem cada vez mais estudos que reforçam os benefícios dos insetos como fonte alimentar. A Agencia Nacional de Ciência da Austrália nos dá um bom exemplo: a instituição fez uma interessante comparação entre fontes de proteína. Para se conseguir 1 kg de proteína comestível são necessários 2 kg de farinha de larva da farinha amarela (Tenebrio molitor) ou a larva da farinha menor (Alphitobius diaperinus). Uma produção equivalente de carne bovina vai necessitar de 10 vezes mais espaço e vai causar uma emissão 18 vezes maior de gases de efeito estufa. 

As vantagens da criação de insetos em larga escala para alimentação humana ainda trariam algumas vantagens mais. Os resíduos da produção como os esqueletos dos insetos, conhecidos como exívias, e os dejetos, podem ser usados como fertilizantes. Esses resíduos são ricos em nitrogênio e em nutrientes essenciais para o crescimento das plantas. 

Muitos restaurantes sofisticados tem aderido a essa ideia e se especializando em pratos com insetos como ingredientes. Um desses casos é o do restaurante Grub Kitchen do País de Gales, no Reino Unido. Os destemidos encontrarão um cardápio com diversos pratos com massa de farinha de grilos torrados, bolinhos de cebola com espinafre e joaninhas, além de sobremesas como biscoitos de chocolate de grilo com manteiga de amendoim. 

No sofisticado restaurante do chef Laurent Veyet, em Paris, você poderá degustar uma salada de camarão com larvas da farinha, insetos crocantes em uma cama de vegetais ou ainda gafanhotos cobertos com chocolate. E, com toda a certeza, a conta será bem mais alta do aquele bom e velho filé mignon com fritas servidos nos botecos. 

Alternativas menos radicais preveem o enriquecimento de farinhas feitas a partir do trigo, do milho e da mandioca com farinha feita a partir de insetos como os grilos domésticos (Acheta domesticus), mosca soldado (Hermetia illucens) ou mosca doméstica (Musca domestica). Esses ingredientes forneceriam boas quantidades de proteínas e vitaminas, o que ajudaria a combater casos de desnutrição. 

Por melhores que sejam as intenções desses pesquisadores e por mais benefícios que a adoção de insetos na alimentação humana em larga escala possa proporcionar, muita gente vai resistir a essa ideia até as últimas consequências. Para se comprovar isso, basta ver a reação de uma pessoa ao encontrar uma mosca na sua sopa ou de uma lagarta na sua salada. 

Por outro lado, precisamos considerar os casos de populações que já sofrem com a falta crônica de comida. Será que alguma dessas pessoas resistiria a um bom hambúrguer feito com proteína de insetos como o que aparece na foto que ilustra essa postagem? 

Ver também: UNIÃO EUROPEIA LIBERA A COMERCIALIZAÇÃO DE FARINHA DE GRILO E OUTRAS PROTEÍNAS A BASE DE INSETOS

VEJA NOSSO CANAL NO YOUTUBE – CLIQUE AQUI

ESTORNINHOS ESTÃO INVADINDO O BRASIL

Ao longo dos últimos dias estamos assistindo com indignação e perplexidade a invasão de um país por tropas militares de uma grande potência nuclear. Dia após dia, vemos imagens de bombardeios, de prédios em chamas, de longas filas de equipamentos militares em deslocamento e também de civis fugindo em desespero dos centros de conflito. 

Aqui em nosso território, bem longe dessa área em guerra, também vem se desenrolando uma invasão bem mais discreta e silenciosa. Pequenas criaturas vindas da Argentina e do Uruguai estão entrando gradativamente no Sul do Brasil. Esses invasores são bem menos preocupantes, porém, eles têm um grande potencial para causar uns bons problemas para nós brasileiros. 

Falo aqui de estorninhos (Sturmus vulgaris), um pássaro originário da Eurásia e que se transformou em uma espécie invasora em diferentes partes do mundo. Desde 2014, pequenos bandos de estorninhos vêm sendo observados no Sul do Rio Grande do Sul com uma frequência cada vez maior. Desde o final de 2021, o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, passou a considerar essas aves como uma espécie invasora. 

Uma característica marcante dos estorninhos são os grandes bandos que formam durante o voo, executando manobras compactas e sincronizadas que guardam similaridade com grandes cardumes de peixes. Essas evoluções ocorrem com maior frequência no período da reprodução das aves. São esses enormes bandos que transformam essa pequena ave – de menos de 25 cm de envergadura e 100 gramas de peso, em um grande transtorno para os agricultores.

Assim como ocorre com aves carismáticas de nossa fauna como o sabiá e o uirapuru, os estorninhos aparecem em histórias folclóricas e na literatura de muitos países da Europa e da Ásia. Nas obras teatrais de Willian Shakespeare, citando um exemplo, os estorninhos são citados cerca de 60 vezes. Em uma passagem da peça Henrique IV, o personagem Hotspur pensa em ensinar um estorninho a falar um nome. 

Essa simpatia de Shakespeare pelo pássaro levou a uma situação inusitada: em março de 1890, um farmacêutico apaixonado por teatro – Eugene Shieffelin, soltou mais de 100 estorninhos no Central Park de Nova York. Esse ato impensado mudaria para sempre a ecologia dos Estados Unidos e de toda a América do Norte. 

Por motivos diferentes, essas aves foram introduzidas em vários outros países como a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Estorninhos tem a fama de serem grandes devoradores de insetos, uma característica bastante útil para agricultores que tem suas plantações atacadas por pragas. Buscando introduzir um predador natural, agricultores importaram centenas desses pássaros e os soltaram em suas propriedades. A ideia infeliz trouxe mais problemas que benefícios – os estorninhos se transformaram em mais uma praga agrícola.

Aqui precisamos recordar da introdução dos pardais na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX, pelo então Prefeito Francisco Franco de Pereira Passos. A cidade vivia naquele momento uma terrível epidemia de febre amarela, doença transmitido por várias espécies de mosquitos – entre eles o famoso Aedes aegypti. Alguém disse ao Prefeito que os pardais europeus (Passer domesticus) eram grandes devoradores de insetos. 

Em 1903, a Prefeitura do Rio de Janeiro importou 200 pardais de Portugal – os animais foram soltos com pompa e protocolo no Campo de Santana pouco tempo depois. As aves não resolveram o problema da epidemia de febre amarela, mas se transformaram em uma importante espécie invasora em todo o Brasil. 

Ao que tudo indica, os estorninhos foram introduzidos América do Sul via Argentina na década de 1980. Alguns comerciantes passaram a importar e vender essas aves em petshops como animais de estimação exóticos. Como sempre acaba acontecendo, algumas aves fugiram de seus cativeiros e/ou foram colocadas em liberdade pelos seus donos, colonizando rapidamente toda a região de Buenos Aires. 

De fácil adaptação a novos ambientes, bandos de estorninhos passaram a ocupar gradativamente extensas regiões do Centro da Argentina e também o Uruguai. O avistamento cada vez mais frequente de bandos dessas aves no Extremo Sul do Brasil é um sinal claro de um avanço da espécie cada vez mais ao Norte, entrando cada vez mais em nosso território. 

Assim como os pardais, os estorninhos são aves robustas e rústicas acostumadas a enfrentar os rigorosos invernos da Europa e da Ásia. Numa competição natural com pássaros nativos aqui do Brasil que ocupam o mesmo nicho ecológico como cambacicas, corruíras, sabiás e sanhaços, os estorninhos terão uma nítida vantagem em termos de força física. Há um risco real de perdas em nossa diversidade de espécies de aves. 

Além da grande robustez física, essas aves são onívoras, ou seja, comem qualquer coisa que estiver a sua disposição – insetos, vermes, sementes, frutos, pequenos animais e grãos. Aliás, os estorninhos são famosos por atacar plantações de grãos como trigo, milho e arroz em bandos com milhares de aves, formações que guardam grandes similaridades com nuvens de gafanhotos. 

Em muitos países pelo mundo, onde já existe uma convivência milenar com os estorninhos, agricultores se valem de aves de rapina como falcões e gaviões treinados especialmente para afastar as aves invasoras de suas plantações. Grandes perdas nas colheitas, inevitavelmente, ainda assim acontecem. 

Qualquer espécie animal ou vegetal é o resultado de um longo processo evolutivo dentro de um determinado tipo de ambiente natural. Essas espécies desenvolvem inúmeras relações ao longo dessa evolução. Plantas fazem “parcerias” com insetos e outros animais que vão ajudá-las em seu processo reprodutivo e na dispersão de frutos e sementes. Animais se especializam no consumo de alguns tipos de alimentos; outros se transformam em presas de outras espécies. 

Um dos pontos mais interessantes desses ecossistemas é o equilíbrio criado no tamanho das populações – sempre que uma determinada espécie atinge o limite dos recursos naturais disponíveis, sua população para de crescer. Quando uma determinada espécie animal ou vegetal é retirada do seu meio natural e é introduzida em um outro ecossistema, desequilíbrios acontecem. 

Em inúmeras postagens publicadas aqui no blog falamos de diversos desses casos de espécies invasoras: dos castores , salmões e trutas que foram introduzidos em regiões da Patagônia argentina e chilena, dos javalis que fugiram de fazendas na Argentina e que invadiram países vizinhos como o Paraguai, o Uruguai e o Brasil. Dos sapos-cururu da Austrália e do lagostim-vermelho-da-Luisiana na Península Ibérica, entre muitos outros. 

Além de espécies animais, existem inúmeros exemplos de plantas como a Palma-da-Guiné, o pinus e o eucalipto, a Ambrosia artemisiifolia. Em todos esses casos, espécies das respectivas faunas e floras locais foram durante afetadas. 

Ao que tudo indica, precisaremos incluir os estorninhos a já extensa lista de espécies invasoras existentes aqui no Brasil. Só o tempo nos dirá o tamanho dos estragos de mais essa grande invasão… 

O CONFLITO NA UCRÂNIA ATINGIU EM CHEIO AS EXPORTAÇÕES DE AMENDOIM DO BRASIL 

Acompanhando os noticiários vemos que a Rússia prossegue ferozmente com seu plano de ocupação da Ucrânia. Grandes comboios militares estão cercando grandes cidades como Kiev, numa clara demonstração de força. Do outro lado, os ucranianos resistem bravamente e contam com a solidariedade internacional. O desfecho do conflito ainda continua imprevisível. 

Na última postagem falamos dos problemas que o Brasil poderá enfrentar nos próximos meses devido à falta de fertilizantes. Rússia e Belarus, também conhecida como Bielorrússia, estão impedidos de realizar exportações desses produtos devido às sanções comerciais já impostas pela comunidade internacional. Os estoques brasileiros de fertilizantes serão suficientes para atender a demanda por seis meses. 

Conforme os dias vão passando, os impactos dessa crise vão começando a ficar mais claros. Acabei de assistir um boletim informativo sobre aviação, onde a principal matéria do dia falava justamente dos impactos do conflito na indústria aeronáutica. A maior parte da estrutura das aeronaves é construída com materiais leves como alumínio e compósitos como a fibra de carbono. 

Entretanto, as partes que suportam os maiores esforços nos aviões e as temperaturas mais altas nos motores precisam ser feitas de materiais altamente resistentes como o titânio. Adivinhem só – 90% do titânio usado na indústria aeronáutica mundial vem da Rússia. Muitas fábricas vão parar logo, logo por falta de peças essenciais. 

E falando em problemas, acabamos de ficar conhecendo o primeiro setor do nosso agronegócio que foi fortemente impactado pelo conflito – as exportações brasileiras de amendoim. Metade das exportações brasileiras de amendoim tem como destino a Rússia e a Ucrânia, um comércio que gerou um faturamento de US$ 344 milhões em vendas em 2021

O Brasil ocupa a quinta posição entre os maiores exportadores mundiais de amendoim, ficando atrás da Índia, Estados Unidos, Argentina e China. As exportações – principalmente para a Rússia, começaram a ganhar impulso em 2019, quando a produção da Argentina começou a cair. Nossos exportadores foram rápidos e conquistaram uma boa fatia do mercado no país.

A produção brasileira é da ordem de 700 mil toneladas/ano, sendo que o Estado de São Paulo concentra 93% dessa produção. O produto é muito consumido in natura ou preparado como aperitivo, além de entrar em receitas de doces e de chocolates. Parte é usada na produção de óleo comestível. 

De acordo com informações da Câmara Setorial do Amendoim do Governo do Estado de São Paulo, as cargas com o produto que estavam em processo de embarque nos Portos de Santos e Paranaguá e que seguiriam para a Ucrânia e a para a Rússia foram retidas devido ao cancelamento das viagens por parte das empresas de transporte. 

As empresas proprietárias dos navios cargueiros foram orientadas a suspender temporariamente as viagens devido ao agravamento do conflito – os militares da Ucrânia informaram que os portos do país estão fechados. No caso das cargas para a Rússia os entraves são as diversas sanções comerciais que foram impostas ao país pela comunidade internacional. 

A cotação internacional do amendoim vinha passando por um bom momento. Em 2020, cada saca era vendida por cerca de R$ 85,00 – em 2021, o produto aumentou para pouco mais de R$ 96,00. Com o aumento da oferta do produto nos últimos meses, os preços recuaram para valores entre R$ 65,00 e R$ 70,00. Redução nos preços nunca deixa nenhum vendedor feliz, mas o importante é a continuidade das vendas. 

O que produtores e exportadores não esperavam era um bloqueio brusco das vendas. Segundo informações dos exportadores, tanto a Ucrânia como a Rússia fazem compras frequentes do produto durante todo o ano e as empresas mantém um ritmo de produção constante. Agora, dezenas de produtores e exportadores estão com centenas de contêineres carregados em seus pátios sem saber o que fazer. 

Muitos exportadores tem problemas ainda maiores – eles não têm certeza se conseguirão receber por produtos já embarcados. Empresas e bancos da Rússia estão com seus recursos em moedas internacionais bloqueados. O país também foi suspenso do Sistema Swift, um mecanismo internacional para o pagamento entre bancos de diferentes países. 

Sempre que existe um excesso de oferta de um produto ou serviço num determinado mercado, os preços caem – essa é a famosa “lei da oferta e da procura”. Se não conseguirem exportar esse amendoim, haverá uma enxurrada do produto aqui no mercado brasileiro. 

Num primeiro momento, todos vamos nos esbaldar comendo pé-de-moleque, paçoquinha e barras de chocolate com amendoim a preços mais baixos. Porém, os produtores vão ficar desestimulados (muitos terão grandes prejuízos, inclusive) e haverá queda na produção da próxima safra, o que vai elevar, e muito, os preços mais à frente. 

O amendoim é uma planta leguminosa que produz sementes de alto teor calórico, gorduras de boa qualidade e alto teor de proteínas. A semeadura das plantas ocorre entre os meses de setembro e outubro, com a colheita sendo feita entre março e abril. 

O amendoim se desenvolve embaixo da terra onde, em uma associação com bactérias, fixa nitrogênio atmosférico no solo, uma característica que melhora a fertilidade. Justamente por essas características é que a planta costuma ser cultivada no sistema de rotação com outras culturas.  

Num momento em que há falta de fertilizantes nitrogenados no mercado mundial, faria todo o sentido plantar mais amendoim e, assim, preparar os solos para outras culturas agrícolas. Agora, sem ter mercado para vender esses amendoins, a coisa vai ficar complicada. 

O conflito na Ucrânia ainda não completou dez dias e já estamos vendo o tamanho do buraco em que o mundo inteiro foi colocado. Mais do que nunca, precisamos torcer para que os Governos (de todo o mundo) se esforcem no sentido de achar uma solução negociável para essa crise entre os dois países. 

Além do imenso e cruel sacrifício imposto a todo o povo ucraniano, a insanidade desse conflito está mexendo com toda a economia mundial – da fabricação de salgadinhos de amendoim a produção dos mais modernos aviões… 

O POTÁSSIO DA AMAZÔNIA

Conforme comentamos em uma postagem anterior, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia trazia em seu bojo um enorme risco para o fornecimento de parte dos fertilizantes usados pelos agricultores brasileiras. A Rússia é uma grande produtora de fertilizantes e sanções internacionais poderiam impedir as exportações do produto. 

O que era apenas uma especulação acaba de se tornar realidade. Belarus, também conhecida como Bielorrússia, acaba de declarar que está suspendendo suas exportações do produto para o Brasil. O país, que não possui fachada oceânica e é aliado da Rússia, depende de portos na Lituânia para o escoamento de sua produção, um acesso que foi bloqueado devido a sanções econômicas impostas à Rússia. A própria Rússia vai acabar seguindo pelo mesmo caminho. 

Belarus era responsável pelo fornecimento de 20% de fertilizantes a base de potássio disponíveis no mercado brasileiro. Segundo informações divulgadas hoje pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, uma comitiva brasileira deverá visitar o Canadá nos próximos dias e, entre outras conversações, será discutido o aumento das vendas de fertilizantes produzidos naquele país para o Brasil. O órgão já adiantou que os preços do produto deverão subir. 

O mercado mundial de fertilizantes já vinha apresentando problemas sérios há vários meses e a crise criada após a invasão da Ucrânia pela Rússia só serviu para agravar ainda mais a situação. O Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de fertilizantes e as consequências da crise nesse mercado poderão provocar gigantescos prejuízos para a nossa economia. 

A questão, que até o momento ainda está restrita ao campo econômico, rapidamente poderá evoluir e atingir a área ambiental no “calcanhar de Aquiles” do Brasil aos olhos do mundo – a Amazônia. Deixem-me explicar: 

De acordo com informações de 2004, do antigo DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral, órgão que passou a se chamar ANM – Agencia Nacional de Mineração, o Brasil possui reservas confirmadas de potássio da ordem de 1,5 bilhão de toneladas. Cerca de 500 milhões de toneladas desse volume encontram-se no Estado de Sergipe, onde já existem minas para exploração desse elemento químico. O restante das reservas fica na Região Amazônica. Algumas fontes especulam que essas reservas podem superar o volume de 3,2 bilhões de toneladas

O potássio, juntamente com o fósforo e o nitrogênio, forma a tríade dos elementos químicos essenciais para a produção de fertilizantes. O potássio nunca é encontrado em estado puro na natureza, mas sempre combinado com outros minerais como são os casos da silvinita (vide foto), da carnalita, da polihalita e da kainita. 

As reservas conhecidas da Amazônia costumam ser encontradas na forma de minerais como a silvinita, uma rocha sedimentar formada por cloreto de potássio (KCl) e cloreto de sódio (NaCl), o nosso famoso sal de cozinha. Em média, o teor de potássio na silvinita oscila entre 30% e 50%, ou seja, durante o processamento de cada tonelada do minério são gerados entre 300 e 500 kg de sal de cozinha. 

Esses depósitos minerais se formaram durante os Períodos Permiano (345 a 280 milhões de anos) e Devoniano (435 a 395 milhões de anos), a partir da evaporação de águas salinas pouco profundas. Ao longo do tempo geológico, essas camadas minerais foram recobertas por outros depósitos de sedimentos. Na Amazônia, essas reservas minerais se encontram em profundidades entre 650 metros e 1.200 metros. 

O acesso aos depósitos subterrâneos desses minerais é feito através de poços verticais profundos, onde existem enormes problemas técnicos. Para atravessar lençóis subterrâneos e aquíferos, que são bastante comuns na Amazônia, longos trechos das paredes desses poços precisam receber uma grossa camada de concreto, um procedimento que vai evitar a inundação das partes mais baixas da mina. 

Quando a escavação do poço atinge a camada com os minérios desejados, a escavação passa a ser feita na horizontal. Durante esses trabalhos são escavadas grandes galerias, deixando-se colunas para a sustentação do teto. Existem diversas minas em todo o mundo que utilizam essa técnica de escavação e estão disponíveis no mercado toda uma gama de máquinas e equipamentos específicos para essas atividades. 

Diferente de sistemas de mineração a céu aberto, como é o caso da exploração de reservas de minério de ferro, a mineração através de poços profundos requer uma supressão de vegetação muito menor. O maior problema dessa atividade é o beneficiamento dos minerais, em particular os rejeitos da mineração, que no caso do potássio é ninguém menos que o sal de cozinha. 

Um dos métodos mais usados e de custo mais baixo para separar os minerais é a dissolução do potássio em água, um processo que gera enormes quantidades de salmoura. Essa salmoura é encaminhada para tanques de decantação, onde a água evapora com o calor do sol e os minerais se acumulam em diferentes camadas no fundo dos tanques. Imaginem o tamanho dos riscos desse processo para os rios e vegetação da Amazônia – é preciso muita seriedade da parte das empresas mineradoras. 

Além dos problemas técnicos, ambientais e operacionais da mineração, existe um problema de ordem legal. Grande parte das reservas de potássio já mapeadas dentro da Região Amazônica ficam dentro de áreas indígenas. De acordo com a atual legislação brasileira, a exploração desses recursos não é permitida. Ainda não! 

Já existem diversos projetos legislativos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal em Brasília que propõem a alteração na legislação e permissão para a exploração de recursos minerais em terras indígenas. Além do potássio, essa nova legislação passaria a permitir também o garimpo do ouro e a exploração de uma infinidade de outros minerais nessas terras, especialmente na Amazônia. 

Esses projetos vêm se arrastando já há anos sem conseguir avançar. Com o advento do conflito na Ucrânia e com uma eventual crise no mercado mundial de fertilizantes, a situação mudaria completamente e há chances verdadeiras para a aprovação dessa nova legislação. É uma chance de ouro para se fazer um bom trabalho. 

Segundo as informações já divulgadas, esses projetos de mineração teriam de seguir todos os processos de licenciamento ambiental já existentes e consolidados no país, e também dependeriam da aprovação das comunidades indígenas que vivem nas respectivas áreas. Os indígenas receberiam royalties ou pagamentos em função dos volumes minerais produzidos em suas terras. 

Pessoalmente, eu sou plenamente favorável ao desenvolvimento sustentável da Amazônia. Com uma legislação bem feita, sem correrias ou pressões políticas de grupos de interesse, e com uma fiscalização adequada, empresas sérias poderiam trabalhar e produzir tranquilamente, sem causar muitos problemas para a floresta e seus rios. Vejam o caso da exploração do minério de ferro em Carajás, no Estado do Pará, pela Vale do Rio Doce (apesar do seu histórico de acidentes ambientais em Minas Gerais, na Amazônia a empresa trabalha direito). 

Os indígenas também poderiam se dar muito bem com esses projetos. Cito como exemplo a legislação norte-americana que passou a permitir a exploração de jogos de azar em cassinos dentro de reservas indígenas. Dezenas de tribos indígenas ficaram multimilionárias com esse projeto – um exemplo são os índios seminoles do Estado da Flórida. 

É claro que o Presidente da França, Emmanuel Macron, Greta Thunberg e muitos outros famosos e líderes políticos internacionais vão dar pulos de mais de dois metros de altura na sua gritaria em defesa da Floresta Amazônica. Para eles cito o caso da empresa norueguesa Norsk Hydro, que explora bauxita na Amazônia brasileira e que, frequentemente, causa sérios acidentes ambientais. 

Isso ninguém vê…