QUE TAL UM HAMBÚRGUER FEITO COM FARINHA DE GRILO E LARVAS PARA O LANCHE DA TARDE? 

O mundo poderá enfrentar, dentro de poucos meses, uma forte escassez de alimentos. Essa crise vem se agravando há mais de dois anos e poderá ser acelerada com a crise militar entre a Ucrânia e a Rússia. 

O primeiro componente dessa crise surgiu com a pandemia da Covid-19. Diversos países adotaram políticas de restrição à livre circulação de pessoas, o que teve como consequência uma falta de mão de obra em campos agrícolas de diversos países – especialmente na Europa. 

A recente invasão da Ucrânia por tropas russas está criando uma série de novos problemas – os dois países envolvidos no conflito são grandes produtores de grãos como o trigo e o milho, produtos que farão falta no mercado internacional. Rússia e Ucrânia respondem por 25% das exportações mundiais de trigo, 14% das de milho e 58% das exportações globais de óleo de girassol, entre outras culturas

Outra consequência do conflito é uma interrupção brusca no fornecimento de fertilizantes – o Brasil, citando um exemplo, é grande dependente de fertilizantes produzidos na Rússia e em sua aliada Belarus. Nas últimas décadas, o Brasil se transformou em um grande produtor e exportador de grãos como a soja e o milho. Nos solos pobres do Cerrado brasileiro, maior celeiro do país, o uso de fertilizantes e fundamental.

Além disso, nosso país também é um grande produtor e exportador de carne bovina, suína e de aves. Um detalhe importante – parte importante das rações servidas a esses animais depende da produção de grãos pela nossa agricultura. Se faltam fertilizantes no campo, a produção de grãos cai e vai faltar ração para a engorda dos animais – é uma redução da produção de alimentos em cascata. 

Também entram nessa complicada equação uma série de problemas climáticos que vem assolando várias partes do mundo e que reduziram os volumes de produção de muitas culturas. Aqui no Brasil várias regiões produtoras enfrentaram um longo período de seca, o que reduziu a produção da soja e do milho. Outro complicador surgiu em algumas regiões que passaram por fortes chuvas justamente na hora da colheita

Completando a lista de problemas, a China, o país mais populoso do mundo, vem aumentando sistematicamente as suas importações de alimentos, o que acaba elevando os preços. De acordo com dados da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, o preço dos alimentos em 2021, atingiu o maior patamar desde 1975

Dentro deste cenário de escassez de alimentos, uma antiga ideia poderá voltar a ganhar força – a popularização do consumo de proteínas alimentares feitas a partir de insetos. Essa é uma ideia repugnante para muita gente apesar de um número cada vez maior de especialistas afirmaram que, além de excelente fonte de proteínas, o consumo de insetos é benéfico ao meio ambiente. 

Em muitas regiões do mundo o consumo de insetos é visto com naturalidade. Nos mercados populares da China não é nada difícil encontrar petiscos como espetinhos de grilo e gafanhotos, além de outros pratos onde algum tipo de inseto faz parte dos ingredientes. Sem precisar ir tão longe – aqui no Vale do Paraíba, no Leste do Estado de São Paulo, muita gente se esbalda com a farofa de içá, uma iguaria que tem como ingrediente o abdome de formigas saúvas ou tanajuras. 

Existe um ramo da ciência conhecido como entomofagia que se dedica ao estudo de insetos que podem ser usados na alimentação humana. Segundo os levantamentos mais recentes existem cerca de 1.500 espécies de insetos comestíveis, que são consumidos por quase 3 mil grupos étnicos em mais de 120 países. Os grupos de insetos comestíveis mais populares são o dos coleópteros (besouros), com cerca de 443 espécies, seguido pelos himenópteros (vespas, abelhas e formigas), com 307 espécies, e pelos ortópteros (gafanhotos e grilos), com 235 espécies. 

De acordo com diversos estudos realizados por especialistas, esses insetos fornecem quantidades satisfatórias de proteínas e lipídeos, além de serem ricos em sais minerais e vitaminas. Na opinião desses cientistas, é essencial mudar os hábitos das populações e as ideias a respeito do consumo de insetos na alimentação diária. Além de excelente fonte de nutrientes, a criação em escala comercial de insetos gera impactos ambientais muito menores do que as tradicionais criações de animais que conhecemos.

Seguindo essa “onda”, surgem cada vez mais estudos que reforçam os benefícios dos insetos como fonte alimentar. A Agencia Nacional de Ciência da Austrália nos dá um bom exemplo: a instituição fez uma interessante comparação entre fontes de proteína. Para se conseguir 1 kg de proteína comestível são necessários 2 kg de farinha de larva da farinha amarela (Tenebrio molitor) ou a larva da farinha menor (Alphitobius diaperinus). Uma produção equivalente de carne bovina vai necessitar de 10 vezes mais espaço e vai causar uma emissão 18 vezes maior de gases de efeito estufa. 

As vantagens da criação de insetos em larga escala para alimentação humana ainda trariam algumas vantagens mais. Os resíduos da produção como os esqueletos dos insetos, conhecidos como exívias, e os dejetos, podem ser usados como fertilizantes. Esses resíduos são ricos em nitrogênio e em nutrientes essenciais para o crescimento das plantas. 

Muitos restaurantes sofisticados tem aderido a essa ideia e se especializando em pratos com insetos como ingredientes. Um desses casos é o do restaurante Grub Kitchen do País de Gales, no Reino Unido. Os destemidos encontrarão um cardápio com diversos pratos com massa de farinha de grilos torrados, bolinhos de cebola com espinafre e joaninhas, além de sobremesas como biscoitos de chocolate de grilo com manteiga de amendoim. 

No sofisticado restaurante do chef Laurent Veyet, em Paris, você poderá degustar uma salada de camarão com larvas da farinha, insetos crocantes em uma cama de vegetais ou ainda gafanhotos cobertos com chocolate. E, com toda a certeza, a conta será bem mais alta do aquele bom e velho filé mignon com fritas servidos nos botecos. 

Alternativas menos radicais preveem o enriquecimento de farinhas feitas a partir do trigo, do milho e da mandioca com farinha feita a partir de insetos como os grilos domésticos (Acheta domesticus), mosca soldado (Hermetia illucens) ou mosca doméstica (Musca domestica). Esses ingredientes forneceriam boas quantidades de proteínas e vitaminas, o que ajudaria a combater casos de desnutrição. 

Por melhores que sejam as intenções desses pesquisadores e por mais benefícios que a adoção de insetos na alimentação humana em larga escala possa proporcionar, muita gente vai resistir a essa ideia até as últimas consequências. Para se comprovar isso, basta ver a reação de uma pessoa ao encontrar uma mosca na sua sopa ou de uma lagarta na sua salada. 

Por outro lado, precisamos considerar os casos de populações que já sofrem com a falta crônica de comida. Será que alguma dessas pessoas resistiria a um bom hambúrguer feito com proteína de insetos como o que aparece na foto que ilustra essa postagem? 

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