O POTÁSSIO DA AMAZÔNIA

Conforme comentamos em uma postagem anterior, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia trazia em seu bojo um enorme risco para o fornecimento de parte dos fertilizantes usados pelos agricultores brasileiras. A Rússia é uma grande produtora de fertilizantes e sanções internacionais poderiam impedir as exportações do produto. 

O que era apenas uma especulação acaba de se tornar realidade. Belarus, também conhecida como Bielorrússia, acaba de declarar que está suspendendo suas exportações do produto para o Brasil. O país, que não possui fachada oceânica e é aliado da Rússia, depende de portos na Lituânia para o escoamento de sua produção, um acesso que foi bloqueado devido a sanções econômicas impostas à Rússia. A própria Rússia vai acabar seguindo pelo mesmo caminho. 

Belarus era responsável pelo fornecimento de 20% de fertilizantes a base de potássio disponíveis no mercado brasileiro. Segundo informações divulgadas hoje pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, uma comitiva brasileira deverá visitar o Canadá nos próximos dias e, entre outras conversações, será discutido o aumento das vendas de fertilizantes produzidos naquele país para o Brasil. O órgão já adiantou que os preços do produto deverão subir. 

O mercado mundial de fertilizantes já vinha apresentando problemas sérios há vários meses e a crise criada após a invasão da Ucrânia pela Rússia só serviu para agravar ainda mais a situação. O Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de fertilizantes e as consequências da crise nesse mercado poderão provocar gigantescos prejuízos para a nossa economia. 

A questão, que até o momento ainda está restrita ao campo econômico, rapidamente poderá evoluir e atingir a área ambiental no “calcanhar de Aquiles” do Brasil aos olhos do mundo – a Amazônia. Deixem-me explicar: 

De acordo com informações de 2004, do antigo DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral, órgão que passou a se chamar ANM – Agencia Nacional de Mineração, o Brasil possui reservas confirmadas de potássio da ordem de 1,5 bilhão de toneladas. Cerca de 500 milhões de toneladas desse volume encontram-se no Estado de Sergipe, onde já existem minas para exploração desse elemento químico. O restante das reservas fica na Região Amazônica. Algumas fontes especulam que essas reservas podem superar o volume de 3,2 bilhões de toneladas

O potássio, juntamente com o fósforo e o nitrogênio, forma a tríade dos elementos químicos essenciais para a produção de fertilizantes. O potássio nunca é encontrado em estado puro na natureza, mas sempre combinado com outros minerais como são os casos da silvinita (vide foto), da carnalita, da polihalita e da kainita. 

As reservas conhecidas da Amazônia costumam ser encontradas na forma de minerais como a silvinita, uma rocha sedimentar formada por cloreto de potássio (KCl) e cloreto de sódio (NaCl), o nosso famoso sal de cozinha. Em média, o teor de potássio na silvinita oscila entre 30% e 50%, ou seja, durante o processamento de cada tonelada do minério são gerados entre 300 e 500 kg de sal de cozinha. 

Esses depósitos minerais se formaram durante os Períodos Permiano (345 a 280 milhões de anos) e Devoniano (435 a 395 milhões de anos), a partir da evaporação de águas salinas pouco profundas. Ao longo do tempo geológico, essas camadas minerais foram recobertas por outros depósitos de sedimentos. Na Amazônia, essas reservas minerais se encontram em profundidades entre 650 metros e 1.200 metros. 

O acesso aos depósitos subterrâneos desses minerais é feito através de poços verticais profundos, onde existem enormes problemas técnicos. Para atravessar lençóis subterrâneos e aquíferos, que são bastante comuns na Amazônia, longos trechos das paredes desses poços precisam receber uma grossa camada de concreto, um procedimento que vai evitar a inundação das partes mais baixas da mina. 

Quando a escavação do poço atinge a camada com os minérios desejados, a escavação passa a ser feita na horizontal. Durante esses trabalhos são escavadas grandes galerias, deixando-se colunas para a sustentação do teto. Existem diversas minas em todo o mundo que utilizam essa técnica de escavação e estão disponíveis no mercado toda uma gama de máquinas e equipamentos específicos para essas atividades. 

Diferente de sistemas de mineração a céu aberto, como é o caso da exploração de reservas de minério de ferro, a mineração através de poços profundos requer uma supressão de vegetação muito menor. O maior problema dessa atividade é o beneficiamento dos minerais, em particular os rejeitos da mineração, que no caso do potássio é ninguém menos que o sal de cozinha. 

Um dos métodos mais usados e de custo mais baixo para separar os minerais é a dissolução do potássio em água, um processo que gera enormes quantidades de salmoura. Essa salmoura é encaminhada para tanques de decantação, onde a água evapora com o calor do sol e os minerais se acumulam em diferentes camadas no fundo dos tanques. Imaginem o tamanho dos riscos desse processo para os rios e vegetação da Amazônia – é preciso muita seriedade da parte das empresas mineradoras. 

Além dos problemas técnicos, ambientais e operacionais da mineração, existe um problema de ordem legal. Grande parte das reservas de potássio já mapeadas dentro da Região Amazônica ficam dentro de áreas indígenas. De acordo com a atual legislação brasileira, a exploração desses recursos não é permitida. Ainda não! 

Já existem diversos projetos legislativos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal em Brasília que propõem a alteração na legislação e permissão para a exploração de recursos minerais em terras indígenas. Além do potássio, essa nova legislação passaria a permitir também o garimpo do ouro e a exploração de uma infinidade de outros minerais nessas terras, especialmente na Amazônia. 

Esses projetos vêm se arrastando já há anos sem conseguir avançar. Com o advento do conflito na Ucrânia e com uma eventual crise no mercado mundial de fertilizantes, a situação mudaria completamente e há chances verdadeiras para a aprovação dessa nova legislação. É uma chance de ouro para se fazer um bom trabalho. 

Segundo as informações já divulgadas, esses projetos de mineração teriam de seguir todos os processos de licenciamento ambiental já existentes e consolidados no país, e também dependeriam da aprovação das comunidades indígenas que vivem nas respectivas áreas. Os indígenas receberiam royalties ou pagamentos em função dos volumes minerais produzidos em suas terras. 

Pessoalmente, eu sou plenamente favorável ao desenvolvimento sustentável da Amazônia. Com uma legislação bem feita, sem correrias ou pressões políticas de grupos de interesse, e com uma fiscalização adequada, empresas sérias poderiam trabalhar e produzir tranquilamente, sem causar muitos problemas para a floresta e seus rios. Vejam o caso da exploração do minério de ferro em Carajás, no Estado do Pará, pela Vale do Rio Doce (apesar do seu histórico de acidentes ambientais em Minas Gerais, na Amazônia a empresa trabalha direito). 

Os indígenas também poderiam se dar muito bem com esses projetos. Cito como exemplo a legislação norte-americana que passou a permitir a exploração de jogos de azar em cassinos dentro de reservas indígenas. Dezenas de tribos indígenas ficaram multimilionárias com esse projeto – um exemplo são os índios seminoles do Estado da Flórida. 

É claro que o Presidente da França, Emmanuel Macron, Greta Thunberg e muitos outros famosos e líderes políticos internacionais vão dar pulos de mais de dois metros de altura na sua gritaria em defesa da Floresta Amazônica. Para eles cito o caso da empresa norueguesa Norsk Hydro, que explora bauxita na Amazônia brasileira e que, frequentemente, causa sérios acidentes ambientais. 

Isso ninguém vê… 

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