OS JAVALIS INVADEM O BRASIL

Quem é um pouco mais velho deve se lembrar de Asterix, personagem dos livros ilustrados e dos filmes de animação. O herói gaulês era morador da última cidadela da Gália que ainda não havia sido conquistada pelo Império Romano aos tempos de Júlio Cesar. O personagem foi inspirado em um herói gaulês real chamado Vercingentorix. O segredo dos gauleses era uma poção mágica feita por Paranomix, o druída local. Essa poção dava aos gauleses uma força sobre humana, que lhes permitia derrotar as poderosas legiões romanas. Essa poção tinha um efeito temporário.

Um personagem marcante das histórias era Obelix, o melhor amigo de Asterix. Ela era o único dos gauleses que não precisava tomar a poção mágica para conseguir a super força – quando criança, Obelix caiu dentro do caldeirão em que a poção estava sendo preparada e ganhou uma super força que nunca acabava. O gigante Obelix adorava comer javalis assados, que ele caçava nas matas ao redor da cidadela.

Comecei esta postagem relembrando dessas estórias da infância por que foi nelas em que ouvi falar pela primeira vez dos javalis selvagens da França, nome atual da antiga Gália. Depois, fui descobrindo que o animal era encontrado em toda a Europa, partes da Ásia e também na África. As diferentes espécies de javalis existentes são aparentadas com os porcos domésticos.

No continente Americano existem algumas espécies de porcos selvagens nativos que são encontrados do Norte da Argentina e Sul do Brasil até o Sul dos Estados Unidos. Existem 14 subespécies descritas, embora alguns autores só considerem a existência de 3 subespécies. Os javalis foram introduzidos por diversos criadores de todo o continente em momentos diferentes. Esses animais se destinavam a criação em cativeiro.

No Brasil, as principais espécies de porcos selvagens são o cateto (Pecari tajacu) e o queixada (Tayassu pecari). Apesar de lembraram os javalis no aspecto, essas espécies não tem qualquer parentesco. Os catetos pesam em média 20 kg e atingem no máximo 1 metro de comprimento. Esses animais costumam viver em bandos entre 6 e 30 animais. Os queixadas são maiores, podendo alcançar até 1,1 metro de comprimento e um peso de 35 kg, mas tem diferenças importantes no comportamento, principalmento no quesito agressividade.

Catetos e queixadas ocupam o mesmo nicho ecólogico dos javalis. Quando uma região é invadida pelos javalis, os pequenos catetos e queixadas não tem qualquer chance contra os competidores “estrangeiros”, um problema que ameaça a sobrevivência das espécies.

De acordo com informações da Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, os primeiros registros da introdução do javali-europeu (Sus scrofa) na América do Sul se deram entre 1904 e 1906 na Argentina. No período foram trazidos alguns exemplares da espécie para a criação em cativeiro na Província de La Pampa. Os animais dessa espécie costumam ter 1,3 metro de comprimento e um peso da ordem de 80 kg. Os machos possuem presas e pelos longos de cor preta.

Existem também relatos da introdução de animais da espécie no município de Palmeiras, no Estado do Paraná durante a década de 1960. Entre os anos de 1996 e 1997 foram feitas importações de javalis puros do Canadá e da Europa para criadores dos Estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Infelizmente, diversos animais fugiram dessas criações ao longos dos anos e. soltos na natureza, se tornaram uma verdadeira praga ambiental que está causando enormes problemas em grande parte do Brasil e também em países vizinhos.

Existem registros da presenças de grandes varas de javalis soltos na natureza no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Rondônia e Acre. Esses animais são extremamente agressivos, facilmente adaptáveis ao meio ambiente e, na falta de grandes predadores como as onças e as sussuaranas, espécies nativas que infelizmente estão ameaçadas de extinção, os javalis se reproduzem descontroladamente.

Dono de uma apetite voraz, os javalis atacam e devastam plantações, se alimentam de filhotes de pequenos animais e aves, além de ovos. O animal também pode transmitir uma série de doenças para os animais da fauna silvestre. Os javalis “selvagens” também podem cruzar com porcos domésticos, gerando animais miscigenados que podem atingir até 250 kg de peso, o que aumenta muito o problema.

A presença de javalis em uma região pode apresentar uma série de riscos às populações humanas e de animais domésticos. Os animais invasores são hospedeiros de várias doenças que podem ser fatais para bovinos, suínos e ovinos. Existem relatos de ataques de javalis contra seres humanos em todo o mundo, inclusive com um caso confirmado de morte nos Estados Unidos, onde a espécie também é considerada inavasora.

Devido ao aumento da infestação de javalis por todo o país, as autoridades recomendam medidas preventivas como a construção de cercas e de abrigos para os animais domésticos, evitando ao máximo o contato com a espécie invasora. Existe uma grande polêmica aqui no Brasil sobre a liberação da caça dos javalis como uma alternativa para o controle das populações. Essa prática é adotada frequentemente em outros países. A legislação brasileira proíbe a caça de aniamis da fauna silvestre como os catetos e os queixadas. Como os javalis são muito parecidos com as espécies de nossa fauna , um caçador pode imaginar se tratar de um filhote de javali e acabar atirando em um queixada ou num cateto.

Os javalis constam na lista das 100 espécies invasoras mais agressivas e problemáticas do mundo e estão causando inúmeros problemas em países vizinhos como a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, além de Estados Unidos, México, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, entre outros, onde animais fugiram (ou foram soltos propositalmente) de criações.

Que falta nos faz um bando de guerreiros gauleses ávidos por um bom javali assado…

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