PINUS E EUCALIPTO: DUAS IMPORTANTES ESPÉCIES DE ÁRVORES “INVASORAS”

Nas últimas postagens falamos de várias espécies animais exóticas que foram introduzidas aqui no Brasil e em países vizinhos. Destaco os castores norte-americanos que estão assolando as florestas do Sul da Argentina e do Chile, os javalis-europeus que se disseminaram por extensas áreas da Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil, além do terrível mexilhão-dourado que está ocupando rios, lagos e represas em grande parte da América do Sul.

Espécies invasoras, porém, não são apenas do reino animal – diversas espécies de plantas exóticas foram introduzidas em diferentes partes do mundo e causam enormes problemas para as faunas e floras locais. Isso fica bastante claro quando analisamos as principais culturas agrícolas aqui do Brasil: a exceção da mandioca e de uma ou outra planta “brazuca”, a grande maioria das espécies vegetais cultivadas para fins comerciais são exóticas.

Nas primeiras décadas de nossa história colonial começamos com a cana-de-açúcar (Sudeste e Sul Asiático), depois vieram o café (Etiópia), o algodão (Egito – as espécies nativas tem pouca produtividade), tabaco (Andes), cacau (México – existem espécies nativas, porém de baixa produtividade), coco (Índia), laranja (Oriente Médio), banana (Sudeste Asiático), manga (Sudeste Asiático), batata (Andes), arroz (Extremo Oriente) e o feijão (Andes), entre muitas outras. Em épocas mais recentes foram introduzidas a soja (Extremo Oriente), o pinus (América do Norte) e o eucalipto (Austrália).

Essas plantas exóticas ocuparam mais de 90% da área original da Mata Atlântica, 50% do Cerrado e dos Pampas, grandes extensões da Caatinga – o Pantanal e Amazônia assistem suas bordas sendo atacadas sistematicamente por essas espécies. Uma das indústrias que mais investem em plantações de espécies exóticas é a do papel e da celulose, especialmente a partir do eucalipto, cultura que responde por 85% da matéria prima usada pela indústria. A matéria prima restante é fornecida pelas plantações de pinus, fortemente concentradas na região sul do Brasil.

Árvores conhecidas como folhosas ou hardwood como o eucalipto produzem a chamada celulose de fibra curta; as coníferas ou softwood como o pinus produzem a celulose de fibra longa. Cada tipo de celulose tem características diferentes, adequadas para a produção de tipos diferentes de papel: a fibra curta é ideal para a produção de papéis macios, de alta absorção e opacidade; a celulose de fibra longa produz papéis de maior resistência mecânica.

O pinus, como qualquer outra planta exótica introduzida em um outro ecossistema, sofre um processo de adaptação ou naturalização e, não encontrando predadores naturais como aqueles existentes em seus ambientes originais, começa a ocupar o espaço das espécies nativas e produz mudanças nos ecossistemas. Essas plantas recebem o título nada honroso de “invasoras biológicas” – o pinus é considerado a espécie de planta mais agressiva do mundo. A espécie de origem norte-americana não tem inimigos naturais, predadores ou herbívoros que se alimentem de suas sementes aqui no Brasil. Também não depende de animais ou insetos para sua polinização, cresce em solos pobres e tem alta capacidade de regeneração.

Espécies de árvores como o pinus são grandes dispersoras de sementes, podendo lançar até 3 milhões de sementes por hectare, com um índice de germinação de 90%. As sementes possuem duas abas semelhantes a asas e são facilmente carregadas pelos ventos, invadindo áreas de mata nativa que, vítimas do rápido crescimento das árvores invasoras, acabam sendo sufocadas e mortas em poucos anos. Em Santa Catarina, por exemplo, as áreas de restinga estão sendo invadidas sistematicamente por pinus, que cobre a vegetação – sem a luz solar a vegetação não frutifica e, sem frutas, os animais da fauna silvestre se afastam.

O eucalipto é uma árvore de origem australiana, de grande porte e rápido crescimento. As primeiras mudas da espécie foram introduzidas no interior do Estado de São Paulo em 1868, como uma alternativa para a produção de lenha para queima nas locomotivas a vapor e também de madeira para a produção de dormentes para os trilhos das ferrovias. Com o forte avanço do café pelo interior do Estado a partir de meados do século XIX, as matas paulistas foram fortemente reduzidas e começou a faltar madeira. O eucalipto chegou para, literalmente, “salvar a lavoura”. A cultura do eucalipto ganhou força e forte expansão nas primeiras décadas do século passado.

Assim como o pinus, o eucalipto não tem predadores naturais ou espécies locais que se alimentem das suas folhas – na Austrália, os coalas se alimentam das folhas da árvore. Florestas de eucalipto se formam rapidamente e ocupam grandes espaços nas paisagens. As sementes dessa árvore também são facilmente espalhadas pelos ventos e novas plantas surgem em áreas de matas vizinhas às plantações. No Espírito Santo e no Sul da Bahia, grandes extensões dos antigos domínios da Mata Atlântica foram tomados por plantações comerciais de eucalipto a partir da década de 1960 (vide foto).

A invasão de espécies exóticas ou contaminação biológica é considerada a segunda maior causa de extinção de espécies no mundo. Além das espécies de grande valor comercial, grande parte das plantas exóticas introduzidas são de espécies ornamentais, que acabam se tornando invasoras e interferem nos processos ecológicos das áreas invadidas, comprometendo os mecanismos de reciclagem de nutrientes, decomposição, processos evolutivos e polinização. Essas interferências levam à extinção sistemática das espécies nativas, ao empobrecimento dos ecossistemas e  também à perda da variabilidade genética.

As culturas de pinus e eucaliptos são importantes fornecedoras de matérias prima para a produção de celulose e papel e grandes fontes de receitas para o nosso país – na pauta de exportações de produtos de origem agrícola, a celulose e o papel ocupam o segundo lugar em importância. Porém, é fundamental que hajam cuidados adequados para minimizar os impactos nas florestas e matas nativas, especialmente com a invasão por sementes.

Em muitos países, especialmente do Hemisfério Norte, grande parte da produção de celulose e papel é feita a partir da derrubada de árvores das florestas nativas de coníferas como a taiga. Aqui no Brasil temos a vantagem de utilizar árvores de florestas plantadas e renováveis, o que do ponto de vista ambiental é importante. Porém, é inadmissível que a implantação dessas florestas artificiais leve à invasão de florestas e matas nativas por sementes de espécies exóticas, levando à redução e destruição gradativa destas áreas.

É preciso muita atenção para não perdermos o pouco que restou de muitas de nossas matas nativas para o pinus e o eucalipto.

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