A COLONIZAÇÃO DA AMAZÔNIA E A CRIAÇÃO DAS GRANDES FAZENDAS DOS JESUÍTAS


Aldeamentos JesuíticosA colonização da Região Amazônica ganhou forte impulso após a expulsão dos franceses, liderados por Daniel de la Touche e sua França Equinocial, no final do ano de 1615 e da fundação do Forte Presépio, embrião da cidade de Belém do Pará, no ano de 1616. Preocupada em ocupar a Região Norte e prevenir futuras investidas de nações rivais, a Coroa Portuguesa iniciou um forte processo de transferência de colonos de outras regiões do Brasil, oferecendo a esses grandes extensões de terras no Maranhão de no Grão-Pará, que há época representava a soma dos atuais Estados do Pará e do Amazonas. 

Conforme comentamos na postagem anterior, esses processos de colonização eram precedidos de “operações de limpeza”, feitas por tropas coloniais fortemente armadas. Tribos de índios consideradas hostis eram atacadas e massacradas; outras tribos eram “convidadas” a se mudar para regiões distantes, liberando assim os territórios para a colonização. Se esses trabalhos de desindianização não fossem feitos, colonizadores de outras regiões se recusariam a migrar para a Amazônia. 

Os religiosos da Companhia de Jesus, mais conhecidos como Jesuítas, desembarcaram na Amazônia junto com as tropas militares encarregadas da fundação do Forte Presépio em 1616. Desde os primeiros anos da colonização efetiva do Brasil, a partir da década de 1530, os Jesuítas realizavam o trabalho de contato e catequização dos indígenas. Um exemplo desse trabalho foi a fundação da Vila de São Paulo de Piratininga em 1554, que teve os religiosos dessa ordem, os Padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega, à frente dos trabalhos. 

Entre outras importantes lideranças religiosas nessa fase de colonização da Região Amazônica, é destaque o Padre Antônio Vieira, que entre 1653 e 1661 esteve na liderança das missões da Companhia de Jesus no Maranhão e no Grão-Pará. Os trabalhos de colonização da Região Amazônica, onde se incluíam também áreas dos atuais Estados do Piauí e do Ceará, eram administradas diretamente por Lisboa e não tinham qualquer interferência do Governador Geral do Brasil. 

A estratégia usada pelos religiosos para a “conversão” dos indígenas em “vassalos úteis ao Reino e em bons cristãos” envolvia complexas mudanças no seu comportamento social, algo que as experiências realizadas em outras regiões do Brasil comprovaram ser impossíveis sem uma mudança para outros territórios. Os indígenas de tribos consideradas “mais dóceis” eram transferidos para aldeias conhecidas como Reduções Jesuíticas. Essas transferências ficaram conhecidas na história do país como descimentos

Nas aldeias, o trabalho dos religiosos começava com a eliminação do comportamento nômade dos indígenas, tradicionalmente habituados a mudanças frequentes em busca de novas áreas para a caça e a pesca, além de novas terras para a prática da sua agricultura de subsistência. Num segundo momento, os índios passavam a receber treinamento técnico e profissional para a realização de ofícios manuais úteis ao sistema colonial como carpintaria, construção civil, tecelagem, agricultura, entre outras funções. Por fim e não menos importante, o ensino religioso e a transformação dos antigos “selvagens pagãos” em bons cristãos, criando uma estrutura familiar baseada em novos valores éticos e religiosos. 

A “taxa de sucesso” desses trabalhos de conversão dos índios em “colonos civilizados” era extremamente baixa e preocupava líderes religiosos como o Padre Antônio Vieira, um notório defensor dos indígenas. Doenças como a varíola atacavam os indígenas, que sem ter em seus organismos os anticorpos necessários ao combate da doença, morriam a taxas que em alguns casos documentados chegavam a 50%. Muitos indígenas, especialmente os mais velhos, não se adaptavam a essa nova vida e morriam vítimas de doenças decorrentes da depressão. Muitos indígenas mais jovens acabavam fugindo dos aldeamentos para os confins da floresta em busca de uma vida de liberdade

Em uma carta escrita ao Rei de Portugal Dom Afonso VI em 1657, o Padre Antônio Vieira informava: 

“No espaço de 40 anos se mataram e se destruíram por esta costa e sertões mais de dois milhões de índios e mais de 500 povoações como grandes cidades (…). No ano de 1655 se cativaram dois mil índios no Rio das Amazonas.” 

Os trabalhos de transferência dos indígenas “mais dóceis” para os aldeamentos dos religiosos foi crescendo progressivamente e avançando por toda a Região Amazônica. Um censo de 1751 afirma que existiam 63 aldeamentos na Amazônia, onde se abrigavam dezenas de milhares de indígenas. No total, existiam 80 aldeamentos em toda a Colônia, sendo que 66 eram administrados pelos Jesuítas e os demais estavam divididos entre os frades das Mercês, Capuchinhos, Santo Antônio e Franciscanos. O crescimento do número de aldeamentos e de indígenas reduzidos, infelizmente, foi seguido de uma total deturpação dos seus objetivos iniciais. 

Com o passar do tempo, a maior parte das missões religiosas dos Jesuítas acabou transformada em meros centros comerciais, dos quais a Companhia de Jesus (S. A. – grifo meu) auferia o melhor dos lucros e sobre os quais exercia grande domínio e soberania. As grandes fazendas, que foi no que se transformaram as missões, passaram a ser grandes produtoras de gêneros exportáveis de toda a ordem como açúcar, frutas, peixe salgado (várias espécies de peixes amazônicos eram vendidos nos mercados de Portugal como bacalhau salgado, principalmente o pirarucu), tartarugas, madeiras, especiarias e ervas medicinais coletadas na floresta, entre outros.  

Um produto que merece destaque é a gordura de peixe-boi, muito valorizada e utilizada há época na iluminação pública. O óleo extraído de baleias caçadas era muito usado para esse fim, mas o Brasil nunca foi um grande produtor – os baleeiros ingleses se instalaram nas Ilhas Falkland (as famosas Malvinas da Argentina) já no século XVII e abatiam a maioria das baleias no Sul do Oceano Atlântico antes que elas atingissem o litoral brasileiro. A mão-de-obra de artífices indígenas também era largamente utilizada nestas fazendas para a produção de móveis em geral, embarcações, portas e janelas, imagens e peças religiosas, sendo a maior parte dos artigos comercializados pelos missionários e exportados para o resto da Colônia e para Portugal. Em poucos anos, os Jesuítas se transformaram nos maiores exportadores da Região Amazônica, totalmente isentos do pagamento de impostos, em prejuízo aos demais colonizadores fixados nas províncias do Norte.  

Um grande ponto de atrito entre os habitantes locais e os religiosos (entre muitos outros) eram as disputas pela mão-de-obra do índio. O processo de catequese praticado pelos Jesuítas implicava em gigantescos descimentos, que eram os grandes deslocamentos de famílias ou de aldeias inteiras, de suas terras de origem para as aldeias reduzidas. Esses descimentos reduziam a disponibilidade de índios selvagens, os quais poderiam ser capturados e escravizados pelos demais colonos. Os colonos e povoadores eram obrigados a recorrer à mão-de-obra de escravos africanos importados, até cinco vezes mais caros que uma “peça” indígena, o que encarecia demais os seus processos de produção – ficava difícil concorrer com os estabelecimentos Jesuíticos. Outro ponto crescente de tensão eram os pesados impostos que os colonos eram obrigados a pagar ao Fisco da Coroa – os produtos dos religiosos eram isentos desses impostos

Continuaremos falando desse tema na próxima postagem. 

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