A INVASAO DAS ÁGUAS DO LAGO VITÓRIA PELA PERCA-DO-NILO

A foto que ilustra esta postagem mostra um orgulhoso pescador segurando o fruto de sua aventura – no caso, o espécime capturado é uma perca-do-Nilo, uma espécie invasora que está ameaçando toda a biodiversidade do Lago Vitória, o maior corpo de água doce da África. As percas podem superar os 250 kg de peso e um comprimento de 2 metros.

O Lago Vitória ocupa uma área total de 68 mil km² entre o Quênia, Uganda e a Tanzânia. A descoberta desse lago remonta a meados do século XIX, quando foram realizadas várias expedições em busca das lendárias nascentes do rio Nilo. Uma dessas expedições foi iniciada em dezembro de 1856, tendo a frente exploradores John Hanning Spike e Richard Francis Burton. Essa expedição buscava localizar o lendário Lago Niassa, citado em antigos mapas e documentos árabes – esses povos antigos consideravam que esse lago era a nascente do rio Nilo.

A expedição conseguiu alcançar o Lago Tanganica em fevereiro de 1858 e, cerca de quatro meses depois, descobriu um grande lago, batizado como Lago Vitória em homenagem à rainha que governou o Reino Unido entre 1837 e 1901. As verdadeiras nascentes do rio Nilo só seriam descobertas dois anos depois por uma outra expedição. Essas descobertas permitiram aos britânicos a reinvindicação dos territórios, que posteriormente formaram a África Oriental Britânica.

Com o início da colonização britânica na região, teve início um intenso processo de derrubada da cobertura florestal para permitir a implantação de grandes lavouras comerciais, especialmente de chá, café, tabaco e algodão. Para facilitar o escoamento da produção agrícola, os britânicos construíram uma ferrovia, concluída em 1902, ligando a cidade litorânea de Mombaça, no Quênia, ao Lago Vitória. 

Para aumentar a produtividade pesqueira, os britânicos introduziram o uso da rede de pesca, muito mais eficiente que as armadilhas tradicionais usadas pelos nativos. Esse incremento da pesca comercial e o crescimento da população levou a uma super exploração dos recursos pesqueiros no Lago Vitória. No início da década de 1950, o ngege, a espécie de peixe mais consumida pelas populações locais, estava extinta, o que prenunciava o forte declínio das populações de peixes no Lago. 

Numa tentativa de reverter a crise pesqueira e garantir a oferta de proteína animal para uma grande população, Autoridades Coloniais sugeriram a introdução da perca-do-Nilo (Lates niloticus) nas águas do Lago Vitória. Essa espécie é, como indicado no próprio nome, nativa do trecho etíope da bacia hidrográfica do rio Nilo. A ideia foi rechaçada de imediato pela comunidade científica, que temia um forte impacto ambiental – a perca é um predador de grande porte e de topo na cadeia alimentar que, sem predadores naturais, poderia rapidamente dizimar as espécies menores nativas do Lago Vitória.

Não se sabe exatamente como e quando, mas é certo que, em algum momento após 1954, a espécie foi introduzida clandestinamente nas águas do Lago Vitória e, cerca de 15 anos depois, a perca-do-Nilo já era encontrada com muita frequência por todo o espelho d`água. Estava dada a largada para um dos maiores desastres ambientais contemporâneos decorrentes da introdução de uma espécie exótica.

Inicialmente, as populações locais foram impactadas positivamente pela exploração desse novo recurso pesqueiro. A carne da perca-do-Nilo era muito mais rica em gordura que a grande maioria dos peixes nativos, sendo, portanto, muito mais valorizada comercialmente. Rapidamente, milhares de pescadores tradicionais do Lago Vitória passaram a se dedicar à pesca comercial da perca.

O processamento mais tradicional de peixes no interior da África é a defumação, onde os peixes são secos lentamente com a fumaça de fogueiras. A defumação de volumes cada vez maiores de percas para exportação levou a um aumento do desmatamento das matas ciliares para o fornecimento de lenha para as fogueiras, o que, consequentemente, levou a um aumento sistemático da erosão e carreamento de resíduos para as águas do Lago Vitória. 

Os ganhos econômicos com a pesca comercial da perca-do-Nilo não tardaram a aparecer: em 1978 foram processadas 1 mil toneladas do peixe no Quênia – em 1993, essa produção saltou para 100 mil toneladas. Na Tanzânia, país onde a atividade pesqueira se tornou a maior fonte de receitas, a pesca da espécie gera 1 milhão de empregos diretos e beneficia indiretamente 5 milhões de pessoas. Todos os dias, 500 toneladas de filé de perca-do-Nilo são enviadas para a União Europeia através do Aeroporto de Mwanza. Em 2015, a produção pesqueira total da Tanzânia atingiu a impressionante marca de 600 mil toneladas – nada mal para a produção de um lago localizado no interior do continente. 

Um relatório publicado em 1987 pela FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, afirmou que a pesca da perca-do-Nilo no Lago Vitória constitui “um desenvolvimento positivo do ponto de vista do bem-estar humano”. Países e populações que vivem ao redor do Lago Vitória tornaram-se dependentes da pesca da perca-do-Nilo. Existe, porém, um lado “negro” nesse desenvolvimento: de acordo com estudos científicos recentes, cerca de 45% das 191 espécies nativas estão ameaçadas ou dadas como extintas

A produção de cifras tão impressionantes de pescado, é claro, tem lá seus custos energéticos. Seguindo o princípio da conservação da matéria, que diz de maneira bem simplificada que “nada se cria, nada se perde – tudo se transforma”, a produção de uma quantidade tão grande de peixes requer, no mínimo, que uma quantidade equivalente de alimentos tenha sido introduzida na equação. Apesar de grande, o Lago Vitória tem recursos naturais finitos, o que estabelece limites para o suporte de vida das populações de peixes. Além de predar todas as espécies de peixes nativos do Lago, as percas-do-Nilo passaram a se valer do canibalismo para suprir parte das suas necessidades calóricas, onde os espécimes maiores passaram a devorar os espécimes menores, um problema que pode levar a espécie ao colapso. 

Um outro problema seríssimo, que tem um enorme potencial para destruir a indústria pesqueira no Lago Vitória, é a grande degradação da qualidade das suas águas. Além dos problemas criados pelo desmatamento e carreamento de grandes volumes de sedimentos para as águas, e também do despejo de grandes volumes de esgotos sem tratamento, o Lago Vitória vem sofrendo com o carreamento cada vez maior de resíduos da mineração. Em toda a África, são inúmeras as províncias minerais e os projetos de mineração tocados por grandes grupos internacionais.  

Contando com governos fracos e não democráticos, além de militares e servidores públicos facilmente corrompíveis, as atividades mineradoras, que por natureza já são fortemente degradantes ao meio ambiente, seguem sem maiores controles na África. A Tanzânia, citando um único exemplo, é o 5° maior produtor mundial de ouro – pessoas e empresas gananciosas não medirão esforços para retirar do solo as maiores quantidades possíveis do metal e o meio ambiente “que se dane”. Com a degradação da qualidade das águas, as espécies de peixes menores e mais fracas não conseguem sobreviver. Sem a disponibilidade desses peixes nativos, que são bem mais baratos que as valorizadas percas, as populações pobres ficam sem acesso a proteína animal. 

Esse é o tamanho do nó criado pela introdução de uma espécie exótica num grande Lago – a perca-do-Nilo levou dezenas de espécies nativas à extinção, as populações ficaram dependentes da pesca da perca e a degradação da qualidade das águas do Lago Vitória por resíduos da mineração pode destruir a indústria pesqueira local. Para piorar, caso as percas-do-Nilo despareçam, restou muito pouco das espécies nativas originais para repovoar as águas moribundas do Lago Vitória. 

As boas intenções por trás da introdução das percas-do-Nilo no Lago Vitória lembram um velho ditado: de boas intenções, o inferno está cheio. Nesse caso, temos mesmo é um grande lago cheio de espécimes invasores…

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