A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM, OU AINDA FALANDO DA EXTINÇÃO DE ESPÉCIES 

Contam os índios e os caboclos da Amazônia que dentro da floresta existe uma criatura gigante, que tem o corpo peludo, um olho na testa e a boca no umbigo. Para alguns, a criatura usa uma armadura feita com o casco de uma tartaruga; para outros, sua pele é dura como o couro do jacaré. Essa criatura é conhecida pelo nome de mapinguari. 

Comecei esta postagem citando essa lenda por que, ao que tudo indica, ela está ligada a uma antiga espécie de mamífero extinto: as preguiças-gigantes. Conforme comentamos na postagem anterior, as preguiças-gigantes desapareceram há cerca de 10 mil anos atrás – os primeiros seres humanos chegaram ao território brasileiro há cerca de 15 mil anos.  

Ou seja, os ancestrais dos modernos indígenas conviveram com esses animais durante um longo período de tempo e a lenda do mapinguari pode ser uma lembrança residual das preguiças-gigantes. Dentro da verdadeira catástrofe que é a extinção de uma espécie, não deixa de ser um alento que ao menos uma lembrança no consciente coletivo tenha restado. 

Na imensa maioria dos casos, quando uma espécie entra em extinção isso significa um caminho sem volta – gerações futuras nunca verão um indivíduo dessa espécie, seja ele um animal ou um vegetal. Talvez exista um ou outro exemplar empalhado em um museu, fotografia, filmes ou algum outro tipo de lembrança. 

Recentemente, passamos a ouvir falar da “desextinção” de espécies. Um dos casos mais promissores é o do tigre-da-Tasmânia, citado em uma postagem anterior. Já há vários anos, pesquisadores australianos vem se dedicando ao sequenciamento do DNA e ao desenvolvimento de tecnologias para se criar um embrião viável que possa ser introduzido em um “útero de aluguel”. Dentro de 10 anos é possível que tornemos a ver esses animais correndo livres na natureza. 

Uma outra situação, que de quando em vez nos surpreende, é a redescoberta de uma espécie que todos consideravam extinta. Talvez o caso mais fantástico seja o do celacanto, um peixe pré-histórico que todos os especialistas consideravam extinto há mais de 60 milhões de anos. 

Em dezembro de 1938, um pescador da costa Leste da África do Sul capturou um peixe de mais ou menos 50 kg e com 1,5 metro de comprimento. O homem nunca tinha visto um peixe como aquele e, felizmente, ele decidiu comunicar o ocorrido às autoridades. O animal acabou sendo encaminhado para o Museu East London, onde foi empalhado. Somente vários dias depois é que especialistas se encontraram cara a cara com o animal e se surpreenderam em ver um peixe considerado extinto há dezenas de milhões de anos. Atualmente se conhecem duas espécies de celacanto: Latimeria chalumnae e Latimeria menadoensis 

Um caso bem parecido com o do celacanto é o do taguá, um mamífero sul-americano muito parecido com o javali. Durante muito tempo os únicos registros do taguá eram fósseis. Em 1930, um naturalista argentino descobriu alguns animais em uma área remota do país e descreveu a espécie. Porém, foi somente em 1970 que um zoólogo descobriu que esse animal era o mesmo conhecido até então apenas pelo seu registro fóssil. 

Um outro caso bem interessante é o do petrel-das-Bermudas (Pterodroma cahow), uma ave marinha que foi classificada como extinta por cerca de 330 anos. Quando o navegador genovês Cristóvão Colombo chegou às Américas em 1498, estima-se que existiam mais de meio milhão dessas aves nas ilhas Bermudas. Com a chegada dos colonos e com os desmatamentos, as aves perderam seu habitat e desapareceram. A redescoberta desses animais se deu no início do século XX. 

Quem é fã de filmes de super-heróis com certeza conhece o Pantera Negra, cujo nome e o visual foram baseados em uma animal que não era visto há mais de 100 anos e que muitos especialistas consideravam extinto. Em 2018, pesquisadores do Quênia, no Leste da África, conseguiram provas fotográficas que confirmaram que as panteras negras ainda sobrevivem numa região isolada do país. Curiosamente, é nessa região onde fica a cidade de Wakanda, terra natal do super-herói da ficção. 

Um outro felino que voltou do “mundo dos mortos” sem nunca ter ido para lá é o leopardo-nebuloso (Neofelis nebulosa brachyura), também conhecido como pantera-nebulosa. A espécie é nativa da ilha de Taiwan e não era vista há mais de 30 anos. O desaparecimento da espécie foi causado pela intensa destruição dos seus antigos habitats. Os remanescentes da espécie migraram para uma região montanhosa e bastante isolada do país. 

As redescobertas de espécies consideradas extintas também acontecem aqui no Brasil. Um caso relativamente recente é o da rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis), uma ave que era considerada extinta há 75 anos e que voltou a ser avistada em 2016 (vide foto). A espécie é exclusiva do bioma Cerrado. 

Desde então já foram feitos mais de uma dúzia de avistamentos de aves dessa espécie, especialmente em duas regiões muito próximas no Estado de Minas Gerais. Segundo os pesquisadores, é preciso transformar esses locais em áreas de preservação permanente, garantindo assim a proteção da espécie. 

Um outro caso também ligado ao bioma Cerrado foi o avistamento de uma saíra-de-cabeça-azul (Tangara cyanicollis albotibialis ) em 2021, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. A última vez que um exemplar da espécie foi avistado foi em 1929. Em 1980, dois pesquisadores supostamente avistaram um espécime na mesma região, porém, não conseguiram fazer um registro fotográfico para uma confirmação posterior. 

Qualquer ser vivo, seja ele um animal ou um vegetal, é o resultado de um longo processo evolutivo transcorrido ao longo de muitos milhões de anos. Esse processo foi influenciado pelo meio ambiente, onde entram fatores como fontes de alimentação e/ou de nutrientes, predadores, clima, disponibilidade de água, entre muitos outros. 

Um exemplo extremamente didático dessa evolução é o caso dos tentilhões das Ilhas Galápagos, pássaros que ajudaram o naturalista Charles Darwin na formulação da sua teoria da seleção natural e que foi apresentada na obra A Origem das Espécies, publicada em1859. O bico das diferentes espécies sofreram mudanças por causa da diferente disponibilidade de alimentos nas diferentes ilhas do arquipélago. Darwin conclui que, originalmente, havia uma única espécie de tentilhão e que as mudanças nos bicos se deu através de um longo processo de seleção natural.

Quando uma espécie entra em extinção, uma “janela” da vida se fecha para nunca mais se abrir. Reencontrar uma espécie, que todos consideravam extinta, viva e cheia de saúde é uma alegria inominável. 

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