ERA UMA VEZ UM MAR DE MINAS

Uma inédita tempestade de areia assustou os moradores de cidades do Norte e Noroeste do Estado de São Paulo e também do Triangulo Mineiro – esse foi o tema de nossa última postagem. A raiz do problema é a forte seca que assola essa região e também uma extensa área do Brasil Central. 

Uma situação que permite entender claramente o que está acontecendo pode ser vista na Represa de Furnas. De acordo com informações do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 26 de setembro, o nível do reservatório atingiu a marca de 14,27% de sua capacidade máxima. Em agosto de 2020, o nível se encontrava em 49,27%. O momento é de grande preocupação.

A história de Furnas remonta ao início da década de 1950, quando a CEMIG – Centrais Elétricas de Minas Gerais, iniciou estudos para o aproveitamento energético do rio Grande. Esses estudos indicavam um potencial para a construção de até 14 usinas hidrelétricas, onde se alcançaria uma potência total instalada de 7,5 mil MW. Esses projetos ganhariam um forte impulso após a decisão da construção de Brasília e a necessidade de aumentar a geração de energia elétrica para alimentar a nova capital federal. 

A barragem de Furnas viria a ser concluída em 1961, inundando uma área total de 1.440 km² e se transformando no maior corpo d’água de Minas Gerais. Esse grande reservatório atingiu terras de 34 município e provocou o deslocamento de cerca de 35 mil pessoas, além de atingir grandes extensões de solos férteis. Esses impactos geraram uma forte convulsão social, além de exigir o pagamento de grandes indenizações. 

Com o início do enchimento do lago de Furnas, muitas famílias que resistiam em abandonar suas casas e propriedades acabaram forçadas a se mudar. Não é difícil encontrar fotos antigas de famílias em telhados de casas completamente cercadas pelas águas. Em várias situações, tropas do Exército precisaram ser usadas para remover famílias a força. Entre as áreas afetadas destacam-se a cidade de Guapé e a vila de São José da Barra, que foram totalmente encobertas pelas águas do lago.  

O primeiro grupo gerador da hidrelétrica de Furnas entrou em operação em 1963. A inauguração oficial da usina ocorreu em maio de 1965, já no Governo Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo de Governos Militares, que dirigiu o país entre 1964 e 1985. Nessa época, a Usina Hidrelétrica de Furnas já operava com 6 grupos geradores. No início da década de 1970, foram instalados os dois últimos grupos geradores dos 8 previstos no projeto, levando a potência total para 1.216 MW. 

Lentamente, o indesejado lago passou a “conquistar” os corações das populações e Furnas foi se transformando no “Mar de Minas”, uma das mais disputadas atrações turísticas do Estado, apresentando águas tranquilas para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago, que se estendem por um perímetro com cerca de 3 mil km, apresentam inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras. Furnas é, na fala popular do povo mineiro, “tudo de bão“.  

Após a formação do grande lago de Furnas, as terras de suas margens sofreram uma grande valorização – muita gente dessa região interiorana passou a sonhar com a construção de uma bela casa ou de uma pousada com vistas para o reservatório e também com o lazer em atividades esportivas nos clubes náuticos que surgiram por toda a orla do reservatório.  

Diversos municípios localizados às margens do lago assistiram a uma verdadeira revolução no seu perfil socioeconômico e passaram a lucrar substancialmente com a renda gerada pelo turismo, especialmente nos segmentos de hotelaria e hospedagem, alimentação, comércio, prestação de serviços em áreas ligadas ao turismo, entre outras. Em muitos lugares, o reservatório criou condições para o desenvolvimento de projetos de piscicultura. 

Infelizmente, a grande devastação da cobertura florestal, tanto em áreas do Cerrado quanto da Mata Atlântica (as nascentes do rio Grande ficam dentro desse bioma), passaram a cobrar o seu preço – os caudais dos rios e riachos formadores de Furnas passaram a minguar sistematicamente. 

Analisando um gráfico do ONS que apresenta os volumes de água armazenada em Furnas ao longo dos últimos 20 anos, podemos observar nitidamente que os volumes máximos atingidos estão se reduzindo gradativamente ao longo do tempo. Em agosto de 2004, citando um exemplo, o nível máximo atingiu a marca de 92,4%. Nos últimos 5 anos, o nível máximo que as águas do reservatório atingiram nesse mesmo mês foi 49,27%. 

Segundo informações da Eletrobrás, a Usina Hidrelétrica de Furnas continua produzindo energia elétrica, porém, a produção média está na casa de 500 MW, um volume equivalente a apenas 41% da capacidade total instalada. A dúvida que fica – com a redução contínua do nível do reservatório, até quando será possível manter a produção de energia elétrica? 

A seca que se abate sobre o rio Grande e Furnas também está afetando as turbinas geradoras de outras 12 usinas hidrelétricas. Todas essas usinas respondem por ¼ de toda a capacidade geradora do Subsistema Elétrico Sudeste/Centro-Oeste. Isso nos dá uma boa ideia do tamanho do problema criado pela seca e dos impactos que poderão ser desencadeados em toda a economia do país. 

Fica fácil de notar que a tempestade de areia que tomou conta da região foi apenas a ponta de um grande iceberg – essa história terá muitos e muitos capítulos mais… 

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