O GRANDE POTENCIAL PARA O DESENVOLVIMENTO DA PSICULTURA NA AMAZÔNIA

A piscicultura vem crescendo fortemente aqui em nosso país já há alguns anos. Falamos disto em nossa última postagem, onde enfatizamos bastante os esforços para o desenvolvimento dessas atividades nos reservatórios das grandes usinas hidrelétricas. 

Como é do conhecimento de todos, o Brasil é um dos campões mundiais em geração de energia elétrica renovável, com grande destaque para a geração hidráulica. Apesar dos grandes problemas ambientais e sociais que a formação de uma barragem de uma usina hidrelétrica cria – cito como exemplo Tucuruí e Sobradinho. Resolvida a maior parte dessas questões (é possível compensar muita coisa, mas alguns problemas criados serão irremediáveis) a geração nessas usinas é sustentável. 

A partir do momento que se dispõe de um grande espelho d`água, o desenvolvimento de projetos de piscicultura passa a fazer todo o sentido. É claro que, conforme comentamos anteriormente, existem inúmeras questões ambientais sérias que precisam ser consideradas. Aqui se incluem desde a grande concentração de resíduos da criação (fezes, restos de ração, etc) até os riscos de fuga de espécimes exóticas das “gaiolas” para a calha dos rios.  

No texto da postagem ressaltamos que 6 dos reservatórios de usinas hidrelétricas que estão sendo considerados para projetos de piscicultura ficam na Região Amazônica, onde as restrições e os cuidados ambientais precisam ser redobrados. Pela importância desse tema, vamos falar um pouco mais sobre isso. 

Os mais de mil rios que formam a gigantesca Bacia Amazônica concentram, segundo algumas estimativas, perto de 20% de toda a água doce do planeta e, é claro, abrigam uma fabulosa fauna aquática – mais de 2.100 espécies de peixes amazônicos já foram catalogadas pelos pesquisadores e há a certeza que ainda existem muitas espécies mais a serem descobertas.  

Esse ambiente de matas e águas da Floresta Amazônica apresenta todas as condições para a criação de peixes de alto valor comercial em cativeiro e em grandes quantidades. O pirarucu é uma das espécies que já vêm sendo criadas em cativeiro e com muito sucesso. É também um dos peixes da região de maior apelo culinário pelas populações locais. 

O pirarucu (Arapaima gigas) é o maior peixe de escamas do Brasil e um dos maiores do mundo. Pirarucus adultos podem chegar a um comprimento de até 3,5 metros e a um peso de 250 kg. Porém, devido à super exploração da pesca da espécie, animais desse porte são cada vez mais raros nos rios da Bacia Amazônica.  

O pirarucu é chamado popularmente de “bacalhau da Amazônia”. A origem dessa denominação tem suas raízes nos tempos do Brasil Colônia, quando as fazendas dos sacerdotes Jesuítas da Amazônia preparavam e salgavam os pirarucus pescados pelos indígenas a seu serviço, que acabavam sendo exportados para Portugal e lá eram vendidos como se fosse um autêntico bacalhau português.  

Os religiosos aplicavam esse mesmo engodo com ervas nativas e temperos da Floresta Amazônica e de outros biomas brasileiros – as “drogas do sertão”, que eram processadas e vendidas na Europa como “legítimas especiarias do oriente”. O próprio pau-brasil (Paubrasilia echinata, chamada antigamente de Caesalpina echinata), que foi explorado até praticamente o seu esgotamento na Mata Atlântica, é um “genérico” da espécie nativa do Sul e Sudeste da Ásia, o pau-brasil-da-Índia (Caesalpina sappam). 

Quando ainda está nas fases de alevino ou é jovem, o pirarucu se alimenta basicamente de plâncton, plantas e animais microscópicos nas comunidades bentônicas do leito dos rios ou que vivem livres nas águas. Conforme os animais vão crescendo, a dieta passa a incluir pequenos peixes. 

O pirarucu é onívoro e come qualquer coisa que apareça na sua frente: peixes, crustáceos, vermes, insetos, anfíbios, cobras, filhotes de tartaruga, entre outras presas. O peixe também é um grande apreciador de frutas e castanhas que eventualmente apareçam boiando nas águas. 

Na época das chuvas – o famoso “inverno amazônico”, quando os grandes rios transbordam e avançam quilômetros floresta adentro, os pirarucus migram para as áreas de mata alagada em busca de alimentos. Nesses locais os peixes dão verdadeiros saltos acrobáticos para pegar frutas e castanhas que estejam acima das águas.  

Aliás, esse é um ponto bastante interessante da ecologia dos rios da Bacia Amazônica e que a maioria dos “grandes defensores da floresta” desconhecem – as dificuldades de pesca durante as cheias dos rios da região. Assim como fazem os pirarucus, as outras espécies de peixes também migram temporariamente da calha dos rios para as áreas alagadas em busca de outras fontes de alimento. 

Para as populações ribeirinhas, o período das cheias é uma época de dificuldades e de escassez. Os peixes, alimento básico, se torna raro. A água potável dos pequenos igarapés próximos das casas (a água dos grandes rios da Amazônia possui grande carga de sedimentos e não é potável) fica indisponível e é preciso fazer longas jornadas de canoa para buscar água fresca em nascentes. Por fim, as pequenas hortas e roçados de subsistência ficam embaixo d`água. 

Além dos pirarucus, existe toda uma infinidade de espécies de peixes de alto valor comercial que são encontradas facilmente nos mercados da Região Amazônica e que, com toda a certeza, poderiam agradar o paladar de consumidores de todo o Brasil e do mundo. Muitas dessas espécies já são criadas em cativeiro. Vejam alguns poucos exemplos:  

Matrinxã (Brycon cephalus): Pode atingir até 80 cm de comprimento e um peso de 5 kg. Existem estudos para o seu uso como uma alternativa às sardinhas. É parente muito próximo das espécies piraputanga, pirapitinga, piracanjuba e piabanha; 

Tambaqui (Colossoma macropomum): Peixe com uma carne saborosa e muito apreciado na culinária amazônica, que pode atingir até 40 kg de peso;   

Tucunaré (Cichla sp): Uma espécie que se reproduz facilmente em cativeiro e que atinge um peso entre 4 e 6 kg;   

Curimbatá ou curimatã (Prochilodus sp): É outra espécie que possui uma carne muito saborosa e que se adapta facilmente à produção em cativeiro. Encontrado também em outras bacias hidrográficas do Brasil;  

Piraíba, piratinga ou pirananbu (Brachyplatystoma filamentosum): Espécie que pode atingir até 2,5 metros de comprimento e peso de até 300 kg. Os espécimes mais jovens são chamados popularmente de “filhotes”. Na foto que ilustra essa postagem eu apareço ao lado de um desses “filhotes” numa visita ao Mercado Ver-o-Peso em Belém do Pará em 2010; 

Pirarara (Phractocephalus hemioliopterus): Espécie que pode atingir até 1,5 metro de comprimento e 60 kg de peso. Como os pirarucus, essa espécie é onívora e come qualquer coisa que cruzar o seu caminho.  

A piscicultura comercial em grande escala pode ser mais uma excelente alternativa econômica para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Além de garantir o suprimento contínuo de peixes para as populações, é uma produção que, devidamente gerenciada e fiscalizada, pode ser altamente sustentável, gerando emprego e renda para as populações com preservação ambiental. 

Porém, é fundamental que as espécies criadas em tanques comercias sejam da ictiofauna nativa da Amazônia. Os poucos exemplos citados no texto já mostram o enorme potencial das espécies nativas. Nada de ficar falando de espécies como carpas asiáticas, percas-do-Nilo e tilápias, peixes que poderiam criar enormes problemas ambientais se introduzidos nesse grande ecossistema. 

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