
Todos aprendemos ainda nos primeiros anos do ensino fundamental que a descoberta do Brasil se deu em 22 de abril de 1500. Depois de uns poucos dias em terra, a esquadra portuguesa comandada por Pedo Álvares Cabral retomou sua viagem para a Índia. Uma das naus retornou para Portugal, levando a famosa carta escrita por Pero Vaz de Caminha a El-Rei. Nessa carta, Caminha relatou as suas primeiras impressões sobre a exuberância dos solos, das matas, das águas e das gentes dessa nova terra, em um novo mundo.
A exceção de algumas expedições exploratórias oficias que fizeram um mapeamento da costa nos anos seguintes, Portugal não demonstrou maiores interesses pelo país, se limitando a conceder a alguns empreendedores particulares o direito de exploração de recursos como o pau-brasil, uma madeira que produzia uma tinta valiosa há época. Sem uma presença física maior dos “donos” na terra (Portugal mantinha navios de patrulha em operações ao longo da costa), mercadores, exploradores e contrabandistas de diversas nações faziam a festa nas costas brasileiras.
Um exemplo dessa falta de cuidado com a terra pode ser visto no caso da nau francesa La Pèlerine, que atracou na ilha de Itamaracá, atual Estado de Pernambuco, em março de 1532. Além dos marinheiros, essa nau trazia um destacamento com 120 soldados, que rapidamente tomaram uma pequena feitoria com portugueses. Os franceses construíram uma fortificação provisória, dotada inclusive de canhões. Uma guarnição com 30 homens, sob o comando do capitão De la Motte, ficou estabelecida nessa fortificação. O objetivo dos franceses era garantir uma possessão na terra que lhes permitisse explorar os fabulosos recursos da mata, que depois seria chamada de Mata Atlântica.
Pouco tempo depois, a nau La Pèlirene retornou para a França levando uma carga que incluía “três mil toras de pau-brasil, três mil peles de onça, muita cera e até seiscentos papagaios falantes”. Para azar dos franceses, a nau acabou interceptada por uma esquadra portuguesa enquanto cruzava o Estreito de Gibraltar. Esse episódio assustou a Coroa de Portugal, que rapidamente implementou a política das Capitanias Hereditárias e ainda em 1532 teve início a colonização efetiva do Brasil.
Eu comecei a postagem relembrando esses fatos históricos por que a fabulosa Mata Atlântica fascinou os europeus à “primeira vista” e suas riquezas despertaram a cobiça de muita gente. Citando como exemplo o pau-brasil, que de tão valioso pode ter inspirado o nome que foi dado a nova terra, foram derrubadas mais de 70 milhões de árvores entre o início do século XVI e meados do século XIX.
Para se ter uma ideia dos volumes de pau-brasil retirados da Mata Atlântica e “exportados” para a Europa, podemos analisar as grandes montanhas de blocos de rocha que foram abandonados na costa brasileira. Esses blocos eram embarcados em Portugal nas naus vazias que se dirigiam para a nossa costa e atuavam como estabilizadores da flutuação.
Chegando aos pontos de embarque, os blocos de lastro eram descartados e o peso da carga de pau-brasil assumiria essa função. O Forte dos Reis Magos, em Natal – Rio Grande do Norte, foi totalmente construído com blocos de lastro descartados pelos navios cargueiros. A exploração do pau-brasil foi o marco inicial de um contínuo processo de degradação ambiental que dura até os nossos dias.
À chegada dos primeiros exploradores europeus, a Mata Atlântica era uma floresta contínua que ocupava toda a faixa litorânea de nossa costa desde o Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte. Em alguns trechos, a floresta entrava pelo interior do território e chegava a regiões do Norte da Argentina e Oeste do Paraguai. De acordo com as estimativas, a Mata Atlântica ocupava originalmente uma área com cerca de 1,3 milhão de km², o que corresponde a aproximadamente 15% do território brasileiro.
Diferente das paisagens polinésias que vemos atualmente, o primeiro trecho da Mata Atlântica visitado pelos europeus na Região Nordeste apresentava uma floresta densa, com uma largura que variava entre 60 e 80 km e se espremia entre o Agreste, no interior, e as águas do Oceano Atlântico. Os imensos coqueirais que hoje encontramos em todo o trecho nordestino do litoral brasileiro são uma consequência da destruição praticamente total da Mata Atlântica na região. O coco, só para lembrar, é originário das regiões do Indo-Pacífico e foi trazido ao Brasil por navios mercantes vindos da Índia.
De acordo com o livro História das Expedições Científicas no Brasil, de C. de Mello-Leitão, nosso país era considerado até fins do século XVI como um “desprezível quinhão das gloriosas conquistas portuguesas, terra que dava mais trabalhos e canseiras que vantagens”. O desprezo pelo Brasil era tamanho na ocasião que altas autoridades do clero nessa época chegaram a recomendar a venda da terra para a rainha Catarina de Médici (1519-1589), da França.
Mesmo após a divisão do território nas famosas Capitânias Hereditárias, quase nenhum esforço científico foi feito para estudar a flora e a fauna da Mata Atlântica. Os Donatários das Capitanias não receberam qualquer obrigação legal de realizar quaisquer explorações científicas em seus quinhões de terra. Toda a exploração se limitava a linha da costa e a alguns rios de maior tamanho. Os Donatários estavam preocupados apenas em manter as costas livres de piratas e contrabandistas, além de “cuidar da ferocidade dos indígenas”.
As primeiras observações mais próximas do que podemos chamar de “científicas” coube aos padres Jesuítas. Em suas campanhas de penetração pelos sertões em busca de catequizar e educar os indígenas, esses padres passaram a fazer observações textuais sobre “as regiões e suas riquezas, seus frutos, sua fauna, seus habitantes, rios navegáveis e os caminhos”. Essas anotações eram bastante genéricas e baseadas em grande parte nas opiniões dos religiosos e quase nada em qualquer metodologia científica.
Preocupados com a abertura de grandes campos agrícolas para o plantio da cana e produção do açúcar, o produto mais valioso há época, os grandes Donatários iniciaram um processo de destruição contínua do trecho nordestino da Mata Atlântica, que se estenderia por cerca de três séculos. Muitas espécies animais e vegetais desapareceram nesse período, antes que qualquer anotação ou observação fosse feita.
Além do chamado Ciclo da cana de açúcar, as áreas de domínio da Mata Atlântica assistiriam ao avanço da mineração na região das Geraes, ao ciclo do café a partir do início do século XIX, ao nascimento e crescimento de inúmeras cidades e também o avanço da agricultura e da pecuária. Até meados do século XX, a maior parte da população brasileira vivia em áreas de Mata Atlântica. Como resultado de tudo isso, a Mata Atlântica é atualmente o bioma mais ameaçado do Brasil, restando menos de 10% da sua cobertura original.
Dentro de nossa área principal de interesse aqui no blog – os recursos hídricos, essa destruição massiva da Mata Atlântica trouxe inúmeras consequências negativas para importantes rios, especialmente nos antigos domínios do bioma no litoral da Região Nordeste. O grande rio São Francisco, sobre o qual tratamos em postagens recentes, perdeu importantes volumes dos seus caudais vindos de rios com nascentes na Zona da Mata, em Minas Gerais, e também no trecho do Baixo do Velho Chico.
Ao longo das próximas postagens, vamos traçar um quadro geral da história da ocupação das áreas antes ocupadas pelos diferentes biomas que formavam a Mata Atlântica e analisar os principais impactos ambientais que surgiram e ainda surgem por toda uma grande área do Brasil.

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